
A interpretação é o coração da prática analítica. Ela produz ondas na clínica e na cidade; é por onde, desde Freud, fazemos barulho. Neste XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, cabe-nos a tarefa de precisar seus alcances, transformações, impasses e limites.
Vivemos uma época em que a palavra se encontra simultaneamente inflacionada e regulada. Fala-se sem cessar; ao mesmo tempo, multiplicam-se as tentativas de governar o dizer, eliminar o equívoco e domesticar o mal-entendido. Nesse contexto, a psicanálise sustenta uma posição singular: para ela, a linguagem não é apenas informação ou comunicação, mas laço e ressonância. É por isso que a interpretação “faz escutar, e aí é barulhenta”[1].
Nas formas de laço entre corpo e palavra, sempre há pontos de crise — algo que escapa ao discurso, opaco e intraduzível. A maneira de tratar essa crise varia em cada época, o que merece nossa atenção já que foi na ligação entre palavra e gozo que Lacan localizou um lugar para a interpretação[2].
Nos movimentos de Lacan, queremos acompanhar as sutilezas de leitura que vão se acrescentando e subtraindo à interpretação, mas também o que se mantém e atravessa todo seu ensino. Temos a oportunidade de refazer perguntas aparentemente simples em um tema tão abrangentemente complexo: o que se interpreta? O que visa uma interpretação? O que esperamos dela e como verificamos seus efeitos? Por que interpretar? O que faz uma interpretação analítica hoje?
Destacamos alguns fios de leitura fundamentais para esse trabalho coletivo de construção deste encontro da Escola Brasileira de Psicanálise.
Efeito de verdade
Uma das maneiras mais frequentes de entender a interpretação psicanalítica se apoia em uma concepção do inconsciente como verdade. As formações fulgurantes do inconsciente revelam uma verdade que contraria o saber estabelecido manifestando-se como “tropeço, desfalecimento, rachadura” cujo valor de surpresa “sempre está prestes a escapar de novo, instaurando a dimensão da perda”.[3] Nesse âmbito, que podemos chamar de inconsciente intérprete, o próprio lapso ou o sonho interpretam e têm, eles mesmos, uma função de corte que cabe ao analista fazer ouvir. Essa função de corte é a que frequentemente se associa à interpretação lacaniana. O material inconsciente “rompe o discurso para parir a fala”[4], mas também leva à ressonância da fala para “fazer ouvir o que ela [a fala] não diz”[5].
“Fazer surgir um significante irredutível”
No Seminário 11, Lacan passa a trabalhar com mais ênfase a interpretação para além da significação. Ela provoca subversão “por fazer surgir um significante irredutível”, ela é essencial para que o sujeito “veja (…) a qual significante – não-senso, irredutível, traumático – ele está, como sujeito, assujeitado”[6]. Com a introdução do objeto a, os diversos momentos interpretativos de uma análise passam a recortar, no lugar do sujeito, um núcleo de gozo — ponto cego, fora do sentido, que retorna sempre no mesmo lugar. A interpretação incide repetidamente sobre esse “umbigo” do sujeito, não para esclarecê-lo, mas para modificar a relação com ele, permitindo-lhe apropriar-se do gozo desse ponto cego, causa do desejo.
“É em lalíngua que a interpretação opera”[7]
O último ensino de Lacan acentua um deslocamento que privilegia a apreensão do singular do gozo no arranjo de marcas que vibram no encontro entre língua e corpo, como desenvolve Jacques-Alain Miller. Isso não elimina o inconsciente intérprete e nos leva, então, a outro ponto de investigação: como Lacan concebe, em seu último ensino, a interpretação? Tal interesse se justifica por uma mudança na compreensão do campo da fala e da linguagem: passa-se da fala estruturada a partir do Outro, ou dirigida a ele, ao monólogo; da estrutura da linguagem ao aparelho de gozo, do Outro ao corpo.
A linguagem, o Outro, deixa de ser concebida como uma estrutura dada que se inscreve no corpo. Uma língua passa a ser entendida, como “nada além da integral dos equívocos que sua história deixou persistirem nela”[8]. O inconsciente passa a ser definido como uma elucubração de saber sobre essa matéria da linguagem que Lacan nomeia lalíngua. Abre-se, então, um espaço para novas questões: como cada sujeito aprende e usa a língua? Como essa bricolagem lúdica e gozosa se aparelha?[9] Que usos se pode fazer daquilo que não escorre pelo fluxo da linguagem e que deixa marcas — os cristais de lalíngua com os quais se brinca e também se sofre?[10] Se é em lalíngua que a interpretação opera, como manejamos os sonhos, os lapsos, os sintomas?
Corte: escrita e leitura
Com lalíngua, o dizer do analista é corte que participa de uma nova escrita do gozo operando pelo equívoco[11]. Uma topologia poética ganha lugar para incidir na economia do gozo. Nessa perspectiva, Lacan propôs o analista como “sujeito suposto saber ler de outro modo”[12] e a interpretação como um forçamento “por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que não o sentido”[13], para que os sons emitidos possam ser escritos diferentemente do que se pretendia. Quais são as coordenadas desse forçamento e de outros modos de leitura?
A partir da teoria do sinthoma, Lacan enfatiza o trabalho analítico de apreensão do singular do gozo em um arranjo de marcas – fantasmático ou não – que vibram no cruzamento entre a lalíngua materna e o gozo do corpo. Passa-se, assim, do efeito interpretativo da “palavra que fere”, apoiado na escrita como impressão, à produção de uma escrita que é simultaneamente leitura, conforme sustenta Jacques-Alain Miller[14]. A interpretação seria, então, o que remete ao eco do dizer no corpo?[15] Como saber quando uma interpretação impactou o corpo?
A escrita deixa de ser apenas apoio para localizar os efeitos traumáticos da língua do Outro no corpo e torna-se orientação para a montagem de uma leitura da lalíngua do corpo. A interpretação, fundada nessa nova concepção da escrita como amarração e nó, aproxima-se da produção de ressonância a partir do que vibra no arranjo e na montagem sinthomática de cada sujeito. Por isso, será sempre barulhenta e, por isso, advertidos pela experiência do inconsciente, buscaremos seguir a pista dos Barulhos da língua, onde se aninham, para cada um, as ressonâncias de sua lalíngua.
Esses são os marcadores do ensino de Lacan que propomos para pensarmos o lugar da interpretação na prática clínica hoje. Estão cheios de barulhos, de paradoxos, de vai-e-vens que se atravessam, releem, perfuram, contradizem. Nossa proposta é que possamos nos deter em cada um desses momentos que encontrarmos pelo caminho, seguir os fios de leitura, fazer deles questões de trabalho para nos encontrarmos em novembro em Florianópolis.
Fios de leitura:
1) O forçamento poético (a fala, a enunciação e a escrita)
2) O que ressoa na interpretação? (pulsão, corpo e significante)
3) Lalíngua, língua e discurso: qual a matéria da interpretação?
4) Interpretação corte e interpretação montagem (Sinthoma e interpretação)
5) Romper o discurso para soletrar o indizível
6) A equivocação como política da interpretação (sentido, chiste, significante novo)
Comissão de Orientação Epistêmica
Flávia Cêra
Henri Kaufmanner
Louise Lhullier


