O sino da interpretação
Romildo do Rêgo Barros
Porque donde no hay significante no podemos estar seguros de que haya goce. De modo que hay que suponer que el significante no tiene simplemente efectos de significado, sino de goce. ¿Qué serían asimilables a qué? Podemos verlo con las campanas, cuando se produce una fisura. Cada vez que toquen el carillón, seguirán escuchando la fisura de la campana. Pues bien, el goce es la fisura de la campana. Si la interpretación se mide con el goce, entonces no se la solicita por sus efectos de sentido, sino de goce.
Miller, J.-A. Sutilezas analíticas. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 267
Freud utiliza a própria resistência do sujeito para fazer ressoar outra coisa. Ele não se perde nos meandros do gozo, mas tenta fazer vibrar as ressonâncias da fala. É a isso que Lacan chama sua técnica renovada da interpretação.
Miller, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 26.
Pode-se usar o termo resistência em muitos setores do saber e das práticas. Por exemplo, em engenharia, a resistência dos materiais é uma coisa importante.
O principal erro, me parece, nosso, de psicanalistas, é pensar que a resistência é um erro. Como se sujeito estivesse errado em resistir.
É o primeiro passo para não se entender nada do que ocorre.
Lacan propõe uma inversão decisiva. Ele diz que a resistência está do lado do analista. Mesmo nesse caso, podemos também cometer um erro em pensar que a resistência – que está sempre do lado do analista -, seja um erro, agora do analista.
É um defeito de raciocínio. Mais ou menos paralelo a pensar que a resistência do sujeito é um pecado, um defeito.
Então, se não é um pecado ou um defeito, o que será?
Podemos partir da ideia dos engenheiros e pensar que a resistência é um ponto preciso da fala. Existe sempre na fala, e até no discurso, um ponto que se manifesta como resistência.
Não há fala sem resistência. Então, creio que aí sim, se torna interessante pensar a resistência do lado do analista, porque é com relação ao ponto onde a resistência se manifesta no discurso analisante que cabe ao analista intervir. Alguma coisa que aparece na história, na fala do sujeito, e que chama à intervenção por parte do analista. Então aparece a resistência como alguma coisa que mostra. Nisso, embora não seja a mesma coisa, fica claro um certo paralelo com a noção lacaniana do acting out. A resistência seria a falta de reação do analista com relação a esse ponto, chamemos de um ponto de gozo, que pode levar a acting out, em que o sujeito atua este ponto de gozo.
No caso da resistência, estamos em um plano mais estrutural. Não há fala sem resistência. E cada vez que se manifesta resistência, é esse o lugar do analista como real, como interlocutor desse gozo.
Este ponto de real encarna um ponto de esgotamento do sentido.
Cabe então outro comentário. Há outro, digamos, defeito psicanalítico que é o de pensar que a intervenção do analista deve se articular ao momento em que o sentido começa a fraquejar. Ele viria, então, dar um reforço ao sentido.
Ao contrário, a função do analista é de apontar. Apontar aquilo que acontece como consequência no discurso quando o sentido fraqueja. É, digamos, uma função ligada ao real, ao gozo, ao esgotamento não só do sentido, como do desejo.
É que só existiria, se não fosse assim, só existiria interpretação como mais uma frase proposta pelo analista à frase que já foi dita pelo seu paciente, ou seja, seria uma análise sem fim.
Nesta passagem, Miller está propondo outro tipo de intervenção, em vez de apontar para o gozo, o ponto do gozo, ou o objeto condensador de gozo, tal como O São João de Leonardo da Vinci que Lacan indica, seria o caso, em algumas situações, de fazer vibrar.
Vale lembrar o que Freud faz quando vê seu analisante o vendo como Capitão Cruel, agente da tortura dos ratos. Freud não intervém pelo sentido, mesmo que ele possa dizer “Eu não tenho nenhuma vocação para tortura”, no sentido de “Eu não sou o Capitão Cruel”. Sabemos que ele parte para uma aparente doutrinação. Dá umas aulas de psicanálise. E Freud foi bastante criticado por isso.
Mas o que destaca Miller é que ele atua o capitão cruel quando dá aula. É diferente de dizer que é um engano. O que Miller está dizendo é que Freud está antecipando a Interpretação Lacaniana. Qual é a Interpretação Lacaniana?
Não é responder de lado, mas a partir do lugar em que está posto na transferência. Só que em vez de dizer que a transferência é um erro, você age do lugar do gozo. No lugar do gozo, você destitui a sequência fraseológica por fazer vibrar sua relação com o gozo. Aí desloca o Capitão Cruel. Não acredito que fosse a intenção de Freud, mas é uma interpretação excelente. Então, isso equivale a dizer que Freud dá corpo à ideia de que a resistência está sempre do lado do analista.
Miller compara a intervenção do analista ao badalo de um sino. Sino, no plano das ressonâncias, como manobra interpretativa, é só para fazer vibrar a fala. Não é para trazer os fiéis, que a missa vai começar. É para favorecer a experiência do gozo em ruptura com o sentido.
É uma metáfora fazer vibrar, mas eu acho que ele quer dizer com isso que você não pode fazer e pensar que é um corte, para rachar o simbólico, que já está estruturalmente.
Entendo que a ressonância exige um primeiro momento, que é o puro choque que no sino se dá pelo encontro do badalo com o corpo do sino. A ressonância é o que vai vir em consequência dessa aplicação de força na parede do sino com a vibração. A vibração vai existir até que a força do badalo desapareça, chegue a zero, aí termina.
O badalo é o encontro com esse ponto de gozo. O badalo é a presença do analista dando corpo a este ponto. Talvez isso tenha a ver com o acontecimento de corpo, como outra maneira de falar desse ponto do real da resistência.
Então, o que interessa é que as ressonâncias produzam uma mudança, uma certa mudança de posição da fantasia, ou outra possibilidade, que é quando já gastou tanto a fantasia que esse badalo, as ressonâncias, é o que você pode fazer.
