

FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 4: A interpretação dos sonhos: primeira parte. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
“Tive a sensação de que a interpretação dessa parte do sonho não foi suficientemente desenvolvida para possibilitar o entendimento de todo o seu sentido oculto. Se tivesse prosseguido em minha comparação com as três mulheres, ela me teria levado muito longe. Existe pelo menos um ponto em todo sonho ao qual ele é insondável – um umbigo, por assim dizer, que é seu ponto de contato com o desconhecido” (p. 145).
FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud – Volume 5: A interpretação dos sonhos: segunda parte e sobre os sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
“Mesmo no sonho mais minuciosamente interpretado, é frequente haver um trecho que tem de ser deixado na obscuridade; é que, durante o trabalho de interpretação, apercebemo-nos de que há nesse ponto um emaranhado de pensamentos oníricos que não se deixa desenredar e que, além disso, nada acrescenta a nosso conhecimento do conteúdo do sonho. Esse é o umbigo do sonho, o ponto onde ele mergulha no desconhecido. Os pensamentos oníricos a que somos levados pela interpretação não podem, pela natureza das coisas, ter um fim definido; estão fadados a ramificar-se em todas as direções dentro da intrincada rede de nosso mundo do pensamento. É de algum ponto em que essa trama é particularmente fechada que brota o desejo do sonho, tal como um cogumelo de seu micélio” (p. 552).
FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 11: Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
“Esse material associativo que o doente rejeita como insignificante, quando em vez de estar sob a influência do médico está sob a da resistência, representa para o psicanalista o minério de onde com simples artifício de interpretação há de extrair o metal precioso” (p. 45-46).
FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 12: O caso de Schreber – artigos sobre técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
“Dou-me perfeitamente conta de que um psicanalista necessita de certa quantidade de tato e reserva sempre que, no decurso de seu trabalho, vai além dos casos típicos de interpretação, e de que seus ouvintes ou leitores só o seguirão na medida em que a familiaridade deles com a técnica analítica lhes permita. Tem ele toda razão, portanto, de guardar-se contra o risco de que uma exagerada exibição de perspicácia de sua parte possa se fazer acompanhar de uma diminuição na certeza e fidedignidade dos seus resultados” (p. 46-47).
FREUD, Sigmund. O manejo da interpretação de sonhos na psicanálise (1911). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 12: O caso de Schreber – artigos sobre técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
“Advirto, portanto, que a interpretação de sonhos não deve ser perseguida no tratamento analítico como arte pela arte, mas que seu manejo deve submeter-se àquelas regras técnicas que orientam a direção do tratamento como um todo” (p. 104).
FREUD, Sigmund. (1914). Recordar, repetir e elaborar (1914). In:__. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 12: O caso de Schreber – artigos sobre técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
“Contenta-se em estudar tudo o que se ache presente, de momento, na superfície da mente do paciente, e emprega a arte da interpretação principalmente para identificar as resistências que lá aparecem, e torná-las conscientes ao paciente” (p. 193)
FREUD, Sigmund. Construções em análise (1937). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 23: Moisés e o Monoteísmo – Esboço de Psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
“Ora, de uma vez que é realmente verdade que um ‘não’ de nossos pacientes não é, via de regra, suficiente para nos fazer abandonar uma interpretação como incorreta, uma revelação como essa sobre a natureza de nossa técnica foi muito bem acolhida pelos opositores da análise” (p. 271).
“Se nas descrições da técnica analítica se fala tão pouco sobre ‘construções’, isso se deve ao fato de que, em troca, se fala nas ‘interpretações’ e em seus efeitos. Mas acho que ‘construção’ é de longe a descrição mais apropriada. ‘Interpretação’ aplica-se a algo que se faz a algum elemento isolado do material, tal como uma associação ou uma parapraxia” (p. 275).

LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Ouvir não me força a compreender. O que ouço não deixa de ser um discurso, mesmo que tão pouco discursivo quanto uma interjeição. Pois uma interjeição é da ordem da linguagem, e não do grito expressivo. É uma parte do discurso que não cede a nenhuma outra no que tange aos efeitos de sintaxe numa língua determinada” (p. 623).
LACAN, Jacques. A terceira. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.62, p. 11-36, dez. 2011. (Originalmente publicado em francês na Revue de la Cause freudienne, n. 79).
“É na medida em que, na interpretação, é unicamente sobre o significante que incide a intervenção analítica, que algo do campo do sintoma pode recuar.
É no simbólico, na medida em que é lalíngua que o suporta, que o saber inscrito de lalíngua, que, falando propriamente, constitui o inconsciente, se elabora, ganha do sintoma.
Isto não impede que o círculo marcado com o S não corresponda a algo desse saber que jamais será reduzido. Isto é, a saber, a Urverdrängung de Freud, ou seja, o que do inconsciente jamais será interpretado” (p. 31).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007.
“Com efeito, é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe” (p. 18).

MILLER, J.-A. A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.15, p. 96-99, abr. 1996.
“Trata-se de reconduzir o sujeito aos significantes propriamente elementares, com os quais delirou em sua neurose.
O significante unário, enquanto tal insensato, quer dizer que o fenômeno elementar é primordial. O avesso da interpretação consiste em cercear o significante como fenômeno elementar do sujeito e como anterior à sua articulação enquanto formação do inconsciente, que lhe dá sentido de delírio.”
[…]
O que ainda chamamos “interpretação”, muito embora a prática analítica seja sobretudo pós-interpretativa, certamente revela, mas o quê? – apenas uma opacidade irredutível na relação do sujeito com alíngua. […] reconduzindo o sujeito para a opacidade de seu gozo” (p. 98).
“minha proposta […] é que a interpretação propriamente analítica – mantemos o nome – funciona pelo avesso do inconsciente” (p. 99).
MILLER, J.-A. A Palavra que fere [2009]. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.56, 2009.
“A interpretação não é uma técnica, é, digamos, uma ética” (p. 67).
“A interpretação psicanalítica, a arte da interpretação, isto não se ensina. Não existe matema da interpretação” (p. 67).
“O psicanalista lê, mas não nos astros, não nas linhas da mão, nem nas borras de café, nem em bolas de cristal; ele lê no que se diz. Ler no que se diz, ler o que se diz, supõe uma transmutação da fala, na medida em que a fala, como tal, é precisamente isto onde não se lê o que ela diz, conforme o exprime Lacan. A interpretação supõe a transmutação da fala em escrita” (p. 68).
“Por exemplo, é impossível jogar com a homofonia sem se referir à ortografia, ao bom modo de escrever. A homofonia só é possível se o que se pronuncia da mesma forma, escreve-se de modo diferente” (p. 68).
“Para cada um, sua prática da interpretação é estritamente correlativa à noção que se formou a partir do inconsciente. Inconsciente e interpretação caminham lado a lado. Quando vocês dizem como interpretam, ao mesmo tempo dizem que noção do inconsciente vocês têm. Sua prática interpretativa mostra exatamente em que ponto da elucidação do inconsciente vocês estão” (p. 68).
[diferença entre a interpretação freudiana e a lacaniana]: “A interpretação freudiana é essencialmente uma tradução. […] Dócil à histérica, como diz Lacan, Freud chegou a ler por meio dela os sonhos, os lapsos, os chistes como alguém decifra uma mensagem cifrada” (p. 69).
“Há toda uma parte da doutrina da interpretação em Lacan que consiste em formalizar a decifração dessas mensagens cifradas, sob o registro do discurso do Outro. E a interpretação seria então uma via de retorno da mensagem sob uma forma invertida” (p. 69).
“Mas a interpretação lacaniana, entretanto, se diferencia disso pela seguinte razão: Freud interrompe sua interpretação no momento em que descobre o sentido sexual dessa mensagem inconsciente cifrada. A meu ver, o que constitui propriamente a interpretação lacaniana é que ela vai além do sentido sexual; ela aponta para adiante, na direção da inexistência da relação sexual. O que vejo de diferente entre a interpretação freudiana e a lacaniana, é que a primeira se satisfaz com o sentido sexual, com a sexuelle Bedeutung, e a segunda aponta, indica a não-relação sexual” (p. 69).
“A interpretação não é uma questão, não é um ‘talvez’, é a afirmação de um ‘há’; e na extremidade, de um ‘não há’. Trata-se menos de mostrar alguma coisa do que de uma ausência, que é de estrutura: o impossível de dizer” (p. 69).
MILLER, J.-A. Insignia (1987). In:______. Introducción a la clínica lacaniana: Conferencias en España. Barcelona: Gredos, 2018.
“Podemos dizer então que não há uma exclusão entre fala e escrita. Pelo contrário, do lado do analista, a interpretação é sempre referência ao escrito dentro da fala. Com o que jogamos na interpretação se não o equívoco? O equívoco implica a escrita. Só há equívoco pelo fato de que o mesmo som pode se escrever de maneiras diferentes. Dentro da fala mesma há uma referência à escrita; precisamente, quando esta operação se dá é quando aparece o sentido gozado” (p. 115).
MILLER, J.-A. Interpretar a criança. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.72, p. 13-19, mar. 2016.
“Na clínica das crianças há efetivamente o sujeito que não respeita o código, não passa pelo código. Nesse momento somos confrontados com seus gritos, suas jaculações. O problema que encontramos aqui é de captura. Como capturar algo do sujeito nesse “código”? O analista se encontra na posição de validar o código do Outro, validar as regras e, digamos que aí, “interpretar a criança” é da ordem da captura” (p. 17).
“Interpretar a criança’, é ‘extrair o sujeito’. Isso deve ser diferenciado da captura da necessidade” (p. 17).
MILLER, J.-A. La interpretación del psicoanálisis. La responsabilidad del analista. Interpretar en términos de resistencia. Interpretación con el pase. In:______. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015.
“Na psicanálise do sujeito, a interpretação joga em relação com a verdade, mas ao longo da análise, não é mais o caso. Como Lacan diz, não é porque o sentido de sua interpretação tenha efeitos que os analistas estão no verdadeiro. A interpretação se julga pelo acontecimento de gozo que no decorrer do tempo é capaz de engendrar. A psicanálise joga em relação com aquilo que produz gozo.” (p. 216).
MILLER, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.70, p. 13-22, jun. 2015.
“Mas, mesmo assim – vou reforçar o traço -, é uma superestrutura mítica com a qual conseguimos durante um tempo, de fato, suprimir os sintomas interpretando-os no âmbito dessa superestrutura. Mas ao fazê-lo, isto é, ao prolongar o que eu chamava de metonímica do gozo, também inflamos o sintoma ao nutri-lo de sentido. É aí que se inscreve o meu “Ler um sintoma”.
Ler um sintoma vai na direção oposta, isto é, consiste em privar o sintoma de sentido. É inclusive por isso que no aparelho de interpretar de Freud – que o próprio Lacan havia formalizado, havia clarificado, isto é, o ternário edipiano – Lacan substituiu por um ternário que não faz sentido, o do Real, do Simbólico e do Imaginário. Mas ao deslocar a interpretação do enquadre edipiano para o enquadre borromeano, é o próprio funcionamento da interpretação que muda e passa da escuta do sentido à leitura do fora de sentido” (p. 20).
MILLER, J.-A. O ser e o um: os cursos psicanalíticos de J.-A. Miller. Rio de Janeiro: EBP-Rio, 2011-2012. Documento inédito. Lições de 23 de março de 2011, 04 de maio de 2011 e 25 de maio de 2011.
“Com efeito, na escuta, como se diz, o que se apresenta primeiro são significações. São elas que os capturam, que os penetram, que os impregnam e, na prática, já é muito o fato de conseguir separar-se suficientemente delas para isolar seus significantes e, eventualmente, interpretar, nesse nível, não a partir da significação, mas sim, por exemplo, da simples homofonia, não a partir do sentido, mas do som. Ocasionalmente, essa interpretação pode se reduzir a fazer ressoar um som, sem nada mais. Para isso, e para ficar convencido de sua eficácia, é preciso uma disciplina que se adquire e, às vezes, que se controle. É preciso, por vezes, que alguém lembre àquele que escuta para não se deixar adular pela rutilância das significações” (Aula de 23 de março de 2011).
“Mais do que gargarejar com sua escuta, ocupemo-nos com sua leitura. A interpretação é uma leitura. A interpretação só incide com a condição de ser uma leitura. Razão pela qual Lacan pôde dizer, quanto ao sujeito do inconsciente, que o supomos saber ler” (Aula de 23 de março de 2011).
“Há uma escuta no nível da dialética, ela se junta e acompanha as variações da ontologia do discurso do paciente, daquilo que toma sentido para ele. Depois, esse sentido desbota, enfraquece, desvanece. De um modo geral, essa ontologia se dirige para o des-ser com os efeitos que se seguem e que são, a um só tempo, efeitos de depressão por só se haver desejado vento, mas também de entusiasmo por se ter liberado do que pesava sobre sua vida libidinal. Claro, o analista pode, então, precipitar essa interpretação por meio de intervenções que a favoreçam e que são sempre interpretações de des-ser. Mas há uma segunda escuta, a da iteração, que se dirige para a existência. Entre essas duas escutas o analista circula por haver ali duas dimensões só rejuntadas por um hiato” (Aula de 04 de maio de 2011).
“Assim, é na solidão do Um sozinho que o último ensino de Lacan tem seu ponto de partida: o Um sozinho que fala sozinho. Na análise, há dois, restituímos-lhe o dois, mas simplesmente porque ali acrescentamos a interpretação, acrescentamos a esse Um sozinho o tempo necessário, o S2 que lhe permitirá fazer sentido, precisamente para fazer a experiência daquilo que isso não resolve. Nós o inscrevemos em um saber, damos-lhe sentido, porém, para que chegue ao dester (désavoir) e ao des-senso (dé-sens). | Há no sintoma um, Um opaco, um gozo que, como tal, não é da ordem do sentido e, para isolá-lo, é preciso passar pelos desvios prometidos pela dialética e pela semântica. Pode ocorrer que a psicanálise satisfaça pelo sentido liberado por ela. É uma forma de trapaça” (Aula de 04 de maio de 2011).
MILLER, J.-A. Não há clínica sem ética. In:______. Matemas I. Rio de Janeiro: Zahar, 1996. p. 107-115.
“Com certeza, desenvolve-se mais facilmente o fazer valer a interpretação enquanto ela joga com o ‘cristal da língua’ […]” (p. 112).
MILLER, J.-A. Modalidades del rechazo (1991). In:______. Introducción a la clínica lacaniana: Conferencias en España. Barcelona: Gredos, 2018, pp. 272-285.
“a interpretação reconduz a fala à escrita: escutar, por parte do analista, é escutar o escrito no dito” (p. 275).
“a interpretação consiste em conduzir o dizer que não – núcleo da neurose – a dizer que sim, que isso está escrito” (p. 275).
