

(tomou-se aqui também os significantes: traço, transcrição e registro).
FREUD, Sigmund. Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos, Volume I (1886-1899). Rio de Janeiro: Imago, 1977.
Carta 52 (1896),
“(…) o material presente em forma de traços de memória estaria sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo, segundo novas circunstâncias – a uma retranscrição” (p. 317).
“(…)Wz (inconsciência) é o primeiro registro das percepções; é praticamente incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações de simultaneidade” (p. 318).
“(…)Vb, pré-consciência, é a terceira transcrição, ligada às representações verbais e correspondendo ao nosso ego reconhecido como tal” (p. 318).
“(…)gostaria de acentuar o fato de que os sucessivos registros representam a realização psíquica de épocas sucessivas da vida. Na fronteira entre essas épocas deve ocorrer uma tradução do material psíquico. Explico as peculiaridades das psiconeuroses com a suposição de que essa tradução não se fez no caso de uma determinada parte do material, o que provoca determinadas consequências (…) cada transcrição subsequente inibe a anterior e lhe retira o processo de excitação. Se falta uma transcrição subsequente, a excitação é manejada segundo as leis psicológicas vigentes no período anterior e consequente as vias abertas a essa época. Assim, persiste um anacronismo: numa determinada região ainda vigoram determinados fueros, estamos em presença de sobrevivências.” (p. 319).
FREUD, Sigmund. Obras completas – Volume 4: a interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
“(…) das percepções que nos chegam permanece um traço em nosso aparelho psíquico, que podemos chamar de traços mnêmicos. Denominamos memória a função ligada a esse traço mnêmico” (p. 588).
“Se levarmos a sério a intenção de vincular os processos psíquicos a sistemas, o traço mnêmico só poderá consistir em alterações duradouras nos elementos dos sistemas” (p. 588).
“Suporemos que um sistema mais à frente no aparelho recebe os estímulos perceptivos, mas nada conserva deles, ou seja, não possui memória, e que por trás dele há um segundo sistema que transforma a excitação momentânea do primeiro em traços duradouros” (p. 588).
FREUD, S. Nota sobre o bloco mágico (1925). In:______. Obras completas – Volume 16: O eu e o id, “autobiografia” e outros textos {1923-1925}. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
“Primeiro, posso escolher uma superfície que preserve intacta por tempo indefinido a nota que lhe é confiada, ou seja, uma folha de papel em que escrevo com tinta. Obtenho, assim, um traço mnemônico duradouro. A desvantagem desse procedimento é que a capacidade da superfície receptora logo se exaure. A folha fica inteiramente escrita, já não tem espaço para novas anotações, e sou obrigado a servir-se de outra ainda em branco” (p. 268).
“Quando escrevo com giz numa lousa, tenho uma superfície que mantém a capacidade receptora por tempo ilimitado e cujas anotações posso apagar no momento em que deixam me interessar, sem ter de jogar fora a superfície mesma em que escrevi. A desvantagem, nesse caso, é que não posso ter um traço duradouro” (p. 269).
“Nós possuiríamos um sistema Pct-Cs, que acolhe as percepções, mas não conserva traço duradouro delas, podendo se comportar como uma folha em branco diante de cada nova percepção (…) depois acrescentei a observação de que o inexplicável fenômeno da consciência surgiria no sistema perceptivo no lugar dos traços duradouros. Há algum tempo, é oferecido no comércio, com o nome Bloco Mágico, um pequeno dispositivo que promete fazer mais do que a lousa e a folha de papel” (p. 269).
“um estilete pontiagudo arranha a superfície, e os sulcos assim deixados vêm a constituir a ‘escrita’ (…) querendo-se apagar o que foi escrito, basta levantar brevemente a dupla folha de cobertura” (p. 271).
“Se, após escrever no Bloco Mágico, separamos cuidadosamente a película de celuloide do papel encerado, enxergamos nitidamente as palavras na superfície deste também, e podemos nos perguntar se é mesmo necessário o celuloide na folha de cobertura (…) o celuloide é um protetor contra estímulos; a camada propriamente receptora de estímulos é o papel (…) afirmei que nosso aparelho psíquico perceptual consiste em duas camadas, uma proteção externa contra estímulos, destinada a diminuir a magnitude das excitações que chegam, e a superfície receptora de estímulos por trás dela, o sistema Pcp-Cs. A analogia não teria muito valor se não pudesse ser levada adiante. Se levantamos da tabuinha de cera a folha e cobertura inteira (…) a escrita desaparece e não volta a aparecer, como foi dito. A superfície do Bloco Mágico se acha vazia e novamente pronta para receber anotações. Mas facilmente se constata que o traço duradouro do que foi escrito permanece na tabuinha de cera e pode ser lido como uma iluminação adequada. O Bloco Mágico (…) resolve o problema de juntar as duas operações ao distribui-las por dois componentes – sistemas – separados, mas interrelacionados. (…) A camada que recebe os estímulos – o sistema Pcp-Cs – não forma traços duradouros, as bases da lembrança produzem-se em outros sistemas, adjacentes a ela” (p. 271-272).
“Não me parece ousado demais comparar a folha de cobertura feita de celuloide e o papel encerado com o sistema Pcp-Cs e sua proteção contra estímulos, a tabuinha de cera com o inconsciente por trás deles, e o aparecimento e o desaparecimento da escrita com o cintilar e esvanecer da consciência na percepção” (p. 273).
FREUD, Sigmund. Construções na análise (1937). In:______. Fundamentos da Clínica Psicanalítica. Tradução: Claudia Dornbusch. Belo Horizonte: Autentica, 2017.
“O analista produz um pedaço de construção, comunica-o ao paciente, para que faça efeito sobre ele; depois ele constrói mais um pedaço a partir do novo material que chega como um afluente e trabalha do mesmo jeito, e nessa alternância vai até o fim. Se nas apresentações do trabalho analítico se ouve falar tão pouco em ‘construções’, isso se deve ao fato de que, em vez disso, fala-se em interpretações e seus efeitos” (p. 369-370).

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. 2a ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985.
“A escrita não é de modo algum do mesmo registro, da mesma cepa, se vocês me permitem esta expressão, que o significante” (p. 41).
“Se há alguma coisa que possa nos introduzir à dimensão da escrita como tal, é nos apercebermos de que o significado não tem nada a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do que se ouve de significante. O significado não é aquilo que se ouve. O que se ouve é significante. O significado é efeito do significante. […] Tomemos as coisas no nível de um escrito que é, ele próprio, efeito do discurso, de discurso científico, seja, a escrita do S, feita para conotar o lugar do significante, e do com que se conota o lugar do significado. […]” (p. 47).
“Há uma coisa que é ainda mais certa — acrescentar a barra à notação S e s já é algo de supérfluo, se não fútil, na medida em que o que ela faz valer já está marcado pela distância da escrita. A barra, como tudo o que é da escrita, só tem suporte nisto — o escrito, não é algo para ser compreendido. […] A barra é precisamente o ponto onde, em qualquer uso da língua, se dá a oportunidade de que se produza o escrito. […]” (p. 48).
“Tudo que é escrito parte do fato de que será para sempre impossível escrever como tal a relação sexual. É daí que há um certo efeito do discurso que se chama a escrita” (p. 49).
“[…] Nosso recurso é, na alíngua, o que a fratura. Se bem que nada pareça melhor constituir o horizonte do discurso analítico do que esse emprego que se faz da letra em matemática. A letra revela no discurso o que, não por acaso, não sem necessidade, é chamado de gramática. A gramática é aquilo que, da linguagem, só se revela por escrito.
Para além da linguagem, este efeito que se produz por se suportar somente na escrita, está com certeza o ideal da matemática” (p. 61).
“[…] É no ponto mesmo de onde brotam os paradoxos de tudo que chega a se formular como efeito da escrita que o ser se apresenta, se apresenta sempre, por para-esser” (p. 62).
“Se me fosse permitido dar-lhe uma imagem, eu a tomaria facilmente daquilo que, na natureza, mais parece aproximar-se dessa redução as dimensões de superfície que a escrita exige (…) esse trabalho de texto que sai do ventre da aranha, sua teia. Função verdadeiramente milagrosa, ao se ver, da superfície mesma surgindo de um ponto opaco desse ser estranho, desenhar-se o traço desses escritos, onde perceber os limites, os pontos de impasse, os becos sem saída, que mostram o real acedendo ao simbólico” (p. 125-126).
“O não pára de não se escrever, em contraposição, é o impossível, tal como o defino pelo que ele não pode, em nenhum caso, escrever-ser, e é por aí que designo o que é da relação sexual- a relação sexual não pára de não se escrever” (p. 127).
“A nuvem da linguagem- exprimi-me metaforicamente- faz escrita” (p. 163).
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: O Sinthoma, 1975-1976. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007.
“Considero que ter enunciado, sob a forma de uma escrita, o real em questão tem o valor do que chamamos geralmente de um trauma” (p. 127).
“Uma escrita é, portanto, um fazer que dá suporte ao pensamento” (p. 140).
“Não é de hoje que me interesso por essa questão da escrita, e a promovi pela primeira vez ao falar do traço unário, que, em Freud, é einziger Zug” (p. 141).

MILLER, J.-A. O escrito na fala. Opção Lacaniana Online, São Paulo: Eólia, ano 3, n.8, jul. 2012. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_8/O_escrito_na_fala.pdf.
“Evoco tudo isso para docemente remetê-los à divertida atmosfera da inanição sonora. Por mais diversão que seja, é muito sério. A própria defasagem entre escutar e dizer, entre escrever e ler organiza para nós o lugar da interpretação analítica” (p. 3).
“No final do primeiro seminário a ser publicado, Lacan nos leva de forma marcante, fundamentada, num pequeno texto em que define o escrito para não ser lido, e o não, sem equívoco no termo, é uma negação.
O escrito como tal, no sentido de Lacan, não é para ser lido.
Que história é essa? Qual é o uso retorcido? E o que justifica a separação da escritura e da leitura? Considero isso apenas como índice, a definição do escrito deve ter sofrido uma torção especial para que se consiga colocá-lo ao mesmo tempo fora do que se diz e se lê. Trata-se aí de um estatuto estranho ao escrito, um estatuto extremo, radical, a ser apreciado como tal, senão, a meu ver, não se sustentaria uma doutrina da interpretação referida a esta zona do ensino de Lacan” (p. 7).
“Lacan via no sistema fonemático de lalíngua àquilo que, na fala, prefigura, antecipa a impressão, a tipografia” (p. 8).
“Lacan recorreu especialmente à letra para ilustrar o simbólico. Marcou assim a presença da escritura no sonho, no qual a estrutura de linguagem aparece como equivalente, com estatuto de escritura, mas é também a mesma inspiração que preside a construção do α, β, γ com minúsculas que não são para decifrar” (p. 10).
“Lacan será levado em Mais ainda a dar como único traço distinguível do significante, como predicado para todos os significantes, justamente, a besteira. O significante é besta, porque o significado, todas as significações estando alhures, fica aí sem ter muito o que dizer dele mesmo
Eis o que define para Lacan a significância e propõe como tradução, na época, para Traumdeutung, A significância do sonho. Aí, há leitura. Ao mesmo tempo atualiza o estatuto de escritura do sonho falando em operação analítica de leitura” (p. 10).
MILLER, J.-A. Peças avulsas. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n. 45, p. 9-27, nov. 2005.
“O mito contado por Lacan a respeito de Joyce é que há ali, como se estivesse demonstrado, a relação pura de cada um com a alíngua, que a alíngua toca em cada um como essa câmera de eco e que essa contingência é, para todos, um traumatismo” (p. 12).
“O que quer dizer traumatismo? Que a desarmonia é original, que o som de alíngua nunca é harmônico, harmonizado a ninguém, que na desarmonia não se pode aplicar um curativo (“être panser”), ela não pode ser reparada, curada. A alíngua faz, do ser que a habita e que a falará, um doente, um portador de um handicap, e tudo o que lhe é permitido fazer é fazer disso uma obra. Esse seria o exemplo de Joyce: do traumatismo e de suas consequências sofridas devido alíngua, fazer uma obra” (p. 12).
