

FREUD, S. (1900) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 4: A interpretação dos sonhos (primeira parte). Rio de Janeiro: Imago,1969.
“Num outro sonho consegui êxito semelhante em rechaçar uma ameaça de interrupção de meu sono, vinda desta feita de um estímulo sensorial. Nesse caso, todavia, foi apenas por acaso que pude descobrir o elo entre o sonho e seu estímulo acidental, e assim compreender o sonho. Numa manhã em pleno verão, enquanto estava hospedado numa cidade montanhosa de veraneio no Tirol, acordei sabendo ter sonhado que o Papa havia morrido. Não consegui interpretar esse sonho – um sonho não-visual – e só me lembrei, como parte de sua base, de ter lido um jornal, pouco tempo antes, que Sua Santidade estava sofrendo de uma ligeira indisposição. Durante a manhã, contudo, minha mulher me perguntou se eu ouvira o barulho terrível feito pelo repicar dos sinos naquela manhã. Eu nem sequer o percebera, mas então compreendi meu sonho. Ele fora uma reação, por parte de minha necessidade de dormir, ao barulho com que os pios tiroleses haviam tentado acordar-me. Eu me vingara deles extraindo a inferência que formou o conteúdo do sonho, e então continuará a dormir sem dar maior atenção ao barulho” (p. 260).
“E um caso como o relatado por Garnier (1872, 1, 476), de como o Primeiro Cônsul incorporou o barulho da explosão de uma bomba num sonho de batalha antes de despertar dele [em [1]] revela com clareza bastante especial a natureza do único motivo que leva a atividade mental a se ocupar de sensações durante o sono. Um jovem advogado, recém-saído de seu primeiro processo importante de falência, adormecendo certa tarde, comportou-se exatamente da mesma forma que o grande Napoleão. Teve um sonho com um certo G. Reich, de Husyatin [uma cidade de Galícia], que conhecera durante um caso de falência; o nome “Husyatin” continuou a se impor a sua atenção até que ele acordou e viu que sua mulher (que sofria de um catarro brônquico) estava tendo um violento acesso de tosse [em alemão, “husten”]“ (p. 261).
FREUD, S. Análise de uma fobia em um menino de cinco anos (1909). In:______. Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – Volume 10: duas histórias clínicas (o pequeno Hans e o homem dos ratos). Rio de Janeiro, Imago. 1970.
“Ocorreu quando o menino viu cair um cavalo grande e pesado; e pelo menos uma das interpretações dessa impressão parece ser aquela à qual seu pai deu ênfase, ou seja, que Hans naquele momento percebeu um desejo de que seu pai caísse daquele mesmo modo… e morresse. A expressão de seriedade que assumiu ao contar o episódio referia-se, sem dúvida, a esse significado inconsciente. Será que existiria ainda outro significado oculto atrás disso tudo? Além disso, qual pode ter sido a significação de o cavalo fazer um grande barulho com as pernas?” (p. 53)
“Mais tarde, perguntei: “Você já viu alguma vez um cavalo fazendo ‘lumf’?” ‘Hans: “Vi muitas vezes.” ‘Eu: “Faz muito barulho quando o cavalo faz ‘lumf’?” ‘Hans: “Faz.” ‘Eu: “O que é que o barulho lhe lembra?” ‘Hans: “Como quando o ‘lumf’ cai no urinol.” ’O cavalo do ônibus que cai e faz um barulhão com suas patas é, sem dúvida, um ‘lumf’, caindo e fazendo barulho. Seu medo da defecação e seu medo de carroças muito carregadas é equivalente ao medo do estômago muito cheio” (p. 64-65).
“Poderia ter sido possível, talvez, fazer uso do medo de Hans de `fazer um barulho com as pernas’ para preencher umas poucas lacunas mais na nossa adjudicação sobre a evidência. Hans, é verdade, declarou que isso lhe lembrava ele dando pontapés com suas pernas quando era obrigado a parar de brincar para fazer lumf; de modo que esse elemento da neurose torna-se ligado ao problema de saber se sua mãe gostava de ter filhos ou era obrigada a tê-los. Contudo, tenho a impressão de que esta não é toda a explicação do fazer um barulho com as pernas’. O pai de Hans foi incapaz de confirmar minha suspeita de que havia alguma lembrança agitando-se na mente da criança, lembrança de ter observado uma cena de relação sexual entre seus pais no quarto destes.” (p. 121-122).

LACAN, J. A Terceira | Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2022.
“[…] colocar a voz sob a rubrica dos quatro objetos por mim chamados de a, quer dizer, tornar a esvaziá-la da substância que poderia haver no ruído que ela faz […]” (p. 12)

MILLER, J.-A. Comentários sobre a Terceira. In: LACAN, Jacques; MILLER, Jacques-Alain. A Terceira | Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2022.
“O que faz aqui o gato com o seu ronrom? Ele vem ilustrar a relação do homem com sua fala. Existe na fala algo que é anterior à distinção entre significante e significado. O ronrom é um som, um ruído. Não é exatamente um significante, não é um fonema. O ronrom faz vibrar todo o corpo do animal, ele é seu gozo. Bem, segundo Lacan, o mesmo se dá com o homem que fala: a língua não é primeiramente feita para dizer, mas para gozar. Lalíngua, que Lacan escreve em uma única palavra, ou antes de uma sacada, é o nosso ronrom” (p. 66).
