Marcus André Vieira
A língua faz barulho? Não são nossas línguas que, ao colocar a língua inerte em movimento, rumorejam? Além disso, em que os barulhos da língua, caso existam, poderiam contribuir para a interpretação psicanalítica?
A interpretação, seja como tradução, como corte, enigma, citação, pontuação, ressignificação, até mesmo construção, entre outros, atua com base em planos distintos – nas diversas dimensões nas quais a linguagem nos constitui, produz e localiza a vida em nossas falas e corpos.
Quero abordar, o modo como a interpretação analítica pode ser situada a partir do conjunto de seminários de Lacan que J. A. Miller definiu como seu último ensino e que destaca a relação entre interpretação e lalíngua.
Para ingressar nesse plano, de conceitos ainda em construção, a pergunta sobre os barulhos da língua é uma boa porta de entrada. Barulhos da língua e não na língua. Com este “da língua” não estamos falando dos barulhos da realidade, que a língua transcreve e sonoriza, não é aquilo que fala o gozo, mas sim que é gozo de falar.
A língua surge como alfabestização, por isso, por transcrever a fala em fonemas, ela dá seu jeito, se vira. Ela não precisa sempre apresentar as coisas em seus lugares redondinhas, sempre poderá transcrever o fora de sentido. Por mais que seja aberrante, paradoxal o que se vive, a língua sempre consegue trazê-lo para dentro dela.
No entanto, nem mesmo Plunct, plact, zum, nem papum, nem laiálaiá que serão barulhos da língua. O barulho da língua seria mais o gozo da língua em nós e não nosso gozo transposto na linguagem, na língua. Em algum lugar entre a língua e o corpo está lalíngua.
Ao transcrever sons em fonemas, porém, a língua nos faz perder em gozo o que ganhamos em comunicação. Lalíngua, por outro lado, guarda esse gozo fora dos sons reconhecíveis. Como escutar, então, este barulho que habita a língua, seu rumorejar como queria Barthes? A língua terá que ser forçada, pois terá, como diz Guimarães Rosa, que entregar “o leite que a vaca não prometeu”, sonorizando algo desse gozo que sua própria existência silencia. Não é o que faz a poesia? Nesse plano, estamos falando de alguma coisa como o barulho do cabelo em crescimento, como diz Arnaldo Antunes. Ou do tom de azul daquela casinha, um tom de azul quase inexistente de azul que não há, azul que é pura memória de algum lugar, ar, ar…
Miller propõe que essa dimensão do dizer que se apreende no paradoxo, na poesia, mas que não há como traduzir, seja o solo litoral do último ensino, não mais o aspecto discursivo da experiência linguageira, mas seu aspecto mais material, mais rumoroso, lalingueiro.
Poder escutar esse barulho passa a ser, também, um dos nossos modos de intervenção, de interpretação. Não será o corte que traz o vão entre as palavras, a interlinha onde mora o sujeito, que vem para ressignificar, reconfigurar nossos textos de vida. Nem será apontar para o ponto cego da experiência, o umbigo do relato, para recortar ali o real como objeto da repetição, a, gozo estranho em forma disforme de alien.
É grande a ambição, essa de sermos capazes de escutar e de intervir em um espaço sem forma, entre o corpo e a linguagem. Mas é uma dimensão de trabalho necessária com que teremos de aprender a lidar. Não porque queremos ser poetas, ou por algum tipo de progresso técnico, e mais como resposta a uma verdadeira regressão, em muitos aspectos, da vida coletiva.
Não sentimos que o espaço de lalíngua está sendo forçado a encolher ou desaparecer? Ele é o vão entre fala e corpo, de onde surge, por exemplo, a surpresa pela torção de nossas certezas, quando a língua, mãe de tudo o que dissemos e sentimos, é forçada a produzir o inaudito? É uma experiência no extremo oposto do que vive alguém que precisa se cortar para abrir uma fenda no espaço sólido da angústia; ou quando o insulto atinge alguém no seu ser, independentemente da significação do que ouve. E sabemos como o neofascismo atual é capaz de operar com esse tipo de brutalidade, que nos atinge por fechar o espaço de estranheza que nos impede do mais básico, duvidar, refletir, repensar. Vemos fenômenos de mesma ordem em nomeações mais prosaicas, quando vemos tantos vivendo como se comessem proteína, não mais carne, peixes, ovos.
Esses e tantos outros fatos discursivos explodem em nossos dias revelando como se oblitera o espaço da linguagem em que ela é balbucio, em que ela encanta, ri e que guarda os poderes do espanto e do milagre.
Para circunscrever essa dimensão, Lacan recorre à metáfora da peneira: imaginem a língua materna como uma chuva, suja, carregada de lama – a água do gozo do Outro – por um lado e, por outro, o corpo da criança, como uma peneira. Lalíngua corresponderia aos detritos da chuva/linguagem que ficam presos na peneira.[1] A metáfora nos interessa por afastar a noção de uma língua adquirida por impressão – da ideia de que o Outro nos “marcou” com seus desejos e palavras. Nessa versão da linguagem, como ferro do significante sobre o corpo do vivente, nunca deixaremos de tomar a criança como vitimada, traumatizada. Com a peneira, podemos, porém, tomar o Outro como aquilo que banha e, no que banha, deixa restos com os quais viveremos não mais vítimas, mas artesões de nossos modos de ver e sentir o mundo.
A interpretação, de ponta a ponta no ensino de Lacan, visa produzir uma leitura para o ilegível, dar lugar ao real como fora do sentido. Este “fora” ganha muitas apresentações: furo, vazio, sujeito, alien, resto, objeto e, agora, chuvarada, torrente que deixa detritos, pedaços sonoros corporais prévios aos fonemas.
Interpretar nessa dimensão poderia ser fazer vibrar a singularidade de alguns desses detritos, não apenas um deles, uma vez que sendo múltiplos não há como supor, ali, o núcleo singular do gozo. Lalíngua supõe uma abordagem do real em uma multiplicidade que requer montagem para se apresentar na língua de cada um, como parecem trazer os nomes de gozo dos testemunhos de passe.
Na busca de materializar lalíngua na experiência concreta, refiro-me a J. C. Milner que, seguindo Miller, propõe uma maneira bem simples e intuitiva.[2] Ele sugere que só a língua materna é habitada por lalíngua, porque ela é única a que chegamos a partir de nossos balbucios. Todas as outras serão apreendidas a partir dela. Por isso, para nós, o português tem algo a mais que nenhuma outra língua tem. Dito de outro modo, lalíngua é isso que se perde quando falamos outra língua.
Remeto vocês à novela A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov. O protagonista – assim como o autor – viveu na Rússia até seus quarenta anos e depois migrou para a Inglaterra. Nabokov resume esta virada que bem podia ser a fórmula do migrante de modo mais geral:
Pobre Knight, sua vida se dividiu em duas partes. Na primeira, era um sujeito sem graça acabando com o inglês e na segunda, era um sujeito acabado falando um inglês sem graça.[3]
Para concluir, lembro que nosso Encontro convida cada um de vocês a dizer como interpreta na sua prática, da maneira que for e no plano que for – o de lalíngua é apenas um deles.
Façamos a aposta que o imenso baú que abriremos, de distintas interpretações do que o Outro escreveu em nós, terá algumas chaves para abordar o derretimento generalizado dos laços que promove o neoliberalismo de hoje, assim como para o reacionarismo paranoico dos fascismos vigentes, a que esta nova forma do velho capitalismo nos tem levado.
Nossas interpretações poderiam permitir aos sujeitos que nos procuram extrair de si mesmos o ilegível que abra caminhos? Não sabemos ainda, mas saberemos melhor em nosso Encontro.
