Louise Lhullier
Bom dia!
Começo por agradecer pela confiança expressa no convite formulado pela Diretoria da EBP, para coordenar o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano com a querida Flávia Cêra.
Agradeço também pela insistência de Henri Kaufmanner e Marcus André Vieira para que participássemos da Comissão de Orientação Epistêmica, não nos deixando absorver pelas inúmeras decisões, operações, tarefas necessárias à materialização do XXVI Encontro.
Muitos colegas já se juntaram a nós, trabalhando animadamente para que possamos construir nosso Encontro. A eles e aos que estarão conosco a partir de hoje, compartilhando trabalho, alegrias, preocupações, há que agradecer pela parceria.
O Argumento do Encontro, já disponível no site, foi construído pelos quatro da Comissão de Orientação Epistêmica, não sem a participação importante de nosso êxtimo, Oscar Ventura, e dos oportunos “pitacos” de Luiz Felipe Monteiro, diretor da EBP e Presidente do XXVI Encontro Brasileiro. Nossas falas de hoje acrescentam algo da elaboração de cada um e cada uma sob a inspiração dessa produção coletiva. Esperamos e apostamos que ele venha a inspirar muitos outros e outras.
“Vivemos uma época saturada de sentido, em que a palavra se encontra simultaneamente inflacionada e regulada”.[1]
Constatamos hoje um grande alvoroço. Equívocos. Boatos. Mentiras. Uma falação generalizada.
A escala é inédita. Já não se trata apenas de conversas que se entrelaçam no encontro dos corpos — nas casas, nas ruas, nos espaços públicos. Hoje, em poucos minutos, uma postagem pode alcançar milhões de visualizações.
Nunca se falou tanto. Nunca se interpretou tanto. Falar implica produzir sentido. Produzir sentido implica interpretar. Há um excesso de interpretação.
Ao longo de sua história, a psicanálise teve de afirmar repetidas vezes sua diferença em relação a outros saberes. Somos novamente convocados a isso.
Uma pergunta se impõe: como sustentar o coração da prática analítica – a interpretação -em sua especificidade?
E outra, ainda: como fazer escutar o seu barulho em meio ao cotidiano ruidoso que hoje satura a experiência da palavra?
A palavra interpretação atravessa muitos campos. Cada um define o que é interpretar. Cada um define também o estatuto da verdade que sustenta sua prática.
Tomemos um deles: a hermenêutica.
A hermenêutica parte de um pressuposto: há uma verdade a ser revelada. Interpretar é decifrar. A pergunta que a orienta é conhecida: o que isso quer dizer?
Quando algo parece obscuro, fragmentado, equívoco, trata-se de esclarecer, reconstruir, integrar. O ruído aparece aí como obstáculo — algo a ultrapassar para que o sentido se revele. A interpretação hermenêutica faz, portanto, proliferar o sentido.
Em muitos momentos da obra freudiana, a interpretação aparece como decifração: sonhos, lapsos e sintomas são tomados como formações que podem ser lidas, traduzidas, reconstruídas. Há aí algo de uma hermenêutica freudiana.
Mas, com Lacan, a questão se desloca. Depois de Lacan, não há mais lugar para a hermenêutica na psicanálise[2]. A interpretação analítica segue outra via.
Jacques-Alain Miller tem desenvolvido essa via inaugurada por Lacan tanto em seus cursos regulares[3], como em outros momentos de sua transmissão. Ele afirmou, por exemplo, em sua apresentação no First Paris/Chicago Psychoanalytic Workshop (1986): “Lacan disse muito claramente que a psicanálise não é uma hermenêutica”[4]. A psicanálise não deve ser confundida com uma ciência do sentido.
Com Lacan e Miller aprendemos que a língua não é apenas instrumento de comunicação. Ela é também matéria de gozo. Isso muda tudo.
Aquilo que, para a hermenêutica, aparece como barulho, ruído — tropeços, lapsos, repetições, equívocos — constitui, para a psicanálise, ponto de incidência clínica. Não é algo a eliminar. É algo a escutar, a ler, a escrever.
Por isso, a pergunta da psicanálise não é “o que isso quer dizer?” A pergunta da psicanálise recai sobre o gozo implicado no dizer.
Enquanto a interpretação hermenêutica restaura a continuidade do sentido, a interpretação analítica visa introduzir um corte justamente ali onde o sentido se oferece em excesso.
A interpretação analítica vai operar no ponto em que a língua faz barulho. Ali onde ela toca o corpo.
Foi a partir dessa perspectiva que, na mesa de abertura das atividades da Seção Sul, ontem à noite, abordamos o objeto voz. Tomamos como uma das referências o livro de Heloísa Caldas, Da voz à escrita[5].
Nesse livro, Heloísa formula sinteticamente algo muito orientador: “o fazer analítico sobre a voz deve romper o mito da compreensão e evitar o gozo da falação”[6].
Romper o mito da compreensão. Evitar o gozo da falação. Aí se condensa aquilo que podemos talvez considerar uma regra geral da interpretação ao longo do ensino de Lacan: A interpretação analítica não acrescenta sentido. Ela corta.
Se acrescentamos sentido, permanecemos na hermenêutica. Quando operamos um corte, entramos no campo próprio da interpretação analítica.
É nesse ponto que a fórmula “da voz à escrita” ganha todo o seu alcance.
Não se trata da passagem do som ao significado. Não se trata de compreender melhor, de explorar o dito ou de fazer uso da letra alfabética para fazer falar o inconsciente.
Trata-se de outra coisa. Trata-se da tentativa de tocar algo do real — algo da voz que independe do sentido e até mesmo do som. Algo que ressoa no corpo, produzindo efeitos. Algo que pode ser cifrado pela letra em sua função algébrica, quando se trata de escrever relações estruturais.
É aí que a interpretação analítica encontra sua especificidade. A verdade na qual ela se funda é a do gozo: há gozo! Uma verdade que só se pode semi-dizer, na verdade mentirosa dos semblantes que lhe servem de anteparo.
É justamente aí que se abre o trabalho ao qual este Encontro nos convoca. Diante da falação generalizada que marca nossa época, a psicanálise não se propõe a gritar mais alto. Ela se propõe a ler, nos barulhos da língua, aquilo que insiste para além do sentido.
O XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano quer ser um lugar para esse trabalho. Um lugar onde a clínica de nosso tempo possa ser interrogada.
Um lugar onde possamos colocar à prova — caso por caso — o que a interpretação analítica ainda pode.
Por isso, este lançamento é um convite a partilhar aquilo que cada um e cada uma encontra em sua prática: os impasses, os paradoxos, os achados, os restos que resistem ao sentido; para que possamos continuar a fazer existir um lugar onde os barulhos da língua encontrem novas formas de se escrever: a Escola de Lacan.
Florianópolis, 7 de março de 2026.
