Flávia Cêra

Bom dia a todos, quero dizer que é uma enorme satisfação estar aqui neste sábado com colegas tão queridos e com todos que nos acompanham, para lançar o XXVI EBCF. E especialmente, por estar neste lugar que movimenta e faz pulsar a cidade em variadas vozes, sons, sentidos, pelo qual tenho um amor e respeito imensos que é a Universidade Federal de Santa Catarina. É um belo lugar para darmos nosso pontapé inicial.

A psicanálise é um dos instrumentos mais cortantes para desestabilizar a monocultura da língua. Seus manejos, interpretações, cortes, emendas, montagens, forçamentos poéticos vão construindo a possibilidade de ouvir, ler, escrever outras línguas, línguas menores, que contém elementos de uma vibrante capacidade de subverter uma estrutura. Em uma análise, nos encontramos com as línguas que falamos, e com as línguas em que fomos falados. Inventamos inúmeras formas de dizer o que há ali de inominável, indizível, ininterpretável. Nos encontramos com  a integral dos equívocos que persistem, com os cristais de lalíngua que não escorrem pela peneira da linguagem. Como falamos é feito da “contribuição milionária de todos os erros” de cada um para cada língua, de cada língua em cada corpo.

Isso também faz um Encontro que, pensei certa vez, funciona como um acelerador de partículas. O tempo e o espaço se modificam pelo choque, pelo atrito, que criam a surpresa do desconhecido. A forma de conhecê-lo é, paradoxalmente, a língua. Talvez porque seja mediado, irremediavelmente, por ela e, eventualmente, possamos dizer que todo encontro é o encontro com uma língua que deixa e produz marcas, traços, histórias e que nos confronta com seus cacos. Mas não há ponto zero da língua a que se retorna. Para todo fim, para qualquer meio e para todo começo é preciso aprender, conhecer e inventar com a língua que temos. Longe das tecnologias de comunicação e da linguagem, os usos da língua em uma análise guarda seus mistérios nos ruídos, murmúrios, barulhos – trazendo consigo a possibilidade de uma nova escrita. E me parece que tudo isso está posto desde o começo da concepção de um encontro, mas especialmente, de um Encontro do Campo Freudiano.

Existe uma coisa que sempre me fascinou no Campo Freudiano que é a capacidade de fazer esses Encontros acontecerem. Nós também temos os nossos aceleradores de partículas. Isso tem uma certa magia: o encaixe dos tempos, dos andamentos das coisas que, mesmo quando desanda, consegue bricolagens inéditas, rebolados inacreditáveis aparecem e, de repente, estamos juntos. É como se fosse possível alcançar a mágica do tempo de Clarice e dividi-lo “em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível” isso mostra sua beleza e ao mesmo tempo a magnitude do trabalho exigido. Esse fazer é uma das tantas traduções que encontrei para o que atende pelo nome de Orientação Lacaniana: o que fazemos juntos.

Nossa sorte é ter muitas feiticeiras e feiticeiros, bruxos e bruxas, e toda sorte de alquimistas que trabalham muito e fazem as coisas ganharem força, forma e vida. As coordenações e equipes espetaculares de cada comissão estão no site e a elas agradeço muito muito porque o trabalho já começou! Vocês vão ver também que nosso site, bem como nosso material de divulgação, é feito com a linda e sonora obra de Kamilla Nunes, a quem quero agradecer também. Escrita é o nome da série de desenhos, assim no singular. Mas que é composta por vários desenhos, os múltiplos, como a Kamilla mesmo nos contou. Desde que eu vi essa série, pensei que era a cara do Encontro. E aí está, entre o singular e o múltiplo, o lugar da Escrita.

Agora vou falar um pouco da estruturação que temos pensado na Comissão de Orientação para o Encontro: teremos sete cartéis de leitura dos casos. Eles serão compostos por colegas de todas as seções da EBP. A ideia é que os casos sejam a base de todo Encontro, não apenas das Mesas Simultâneas. Outra ideia é que as mesas simultâneas estejam mais envolvidas e misturadas, enlaçadas na programação geral e não aconteçam apenas em um dia. É para trazermos seus barulhos mais para perto. Para as salas que receberão as mesas, também pensamos um formato em que possamos destacar e acompanhar alguns fios conceituais, clínicos e políticos que nos ajudem a precisar os efeitos, modos e incidências da interpretação. Então, atenção!, já temos um prazo para o envio de trabalhos que é dia 23/08. Vamos seguir esse calendário para dar tempo dos cartéis trabalharem e construirmos a programação a partir do que os casos ensinam. As informações para o envio de trabalhos já estão no site.

Lá vocês também poderão ler o argumento que escrevemos para orientar e encontrar alguns fios de leitura que convidamos todos a trabalhar. Temos quatro entradas no argumento geral: efeito de verdade, fazer surgir um significante irredutível, é em lalíngua que a interpretação opera e, finalmente, corte: escrita e leitura. Propomos também seis fios de leitura que colocam questões, problemas, aporias para pensarmos como e do que é feita a interpretação analítica hoje e, especialmente, a partir da orientação de Jacques-Alain Miller sobre o último ensino de Lacan quando ele afirma que há “um chamado a outro modo de interpretação”. Partimos, então, sabendo que a interpretação não pretende um esclarecimento, apesar de muitas vezes alcançar algo nesse sentido. Ela se aproxima dos pontos opacos, dos umbigos que não se pode dominar. A escrita, a leitura, o dizer do analista – que Lacan vai tomar como formas da interpretação – são parte fundamentais dessa operação, seja na aventura das entrelinhas ou nas leituras ao pé da letra para que uma língua não se feche sobre si mesma, porque não existe a última e verdadeira palavra, mas um saber-fazer com o gozo. A interpretação é por onde acontece esse trabalho, é ela que pode produzir uma letra que, por ser ilegível, pode suspender e questionar os impossíveis estruturais da história de uma vida ou de um povo, e que, aberta aos atravessamento das alteridades, suas equivocidades, pode soar outra coisa que o sentido, mais perto do que faz a vida pulsar.

Então, o convite é para que nos encontremos antes mesmo do Encontro, em cartéis, em ateliês de leituras, em escritas e conversas para, em novembro, tratarmos todos juntos da interpretação que é o coração da psicanálise! E, claro, preparem-se para vir para Florianópolis. Esperamos vocês todos aqui!

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