Luiz Felipe Monteiro
Se passaram dois anos desde o último Encontro Brasileiro, em 2024: os corpos aprisionados pelos discursos e seus restos. Ali pudemos recolher os efeitos dos corpos quando atravessamos pelos distintos discursos. Naquele encontro o corpo falante foi posto no centro para com ele se interrogar como o discurso do mestre contemporâneo incide, alcança e faz sintoma. Investigou-se de que modo tais corpos são aprisionados, ou seja, como eles são constituídos e respondem aos significantes mestres da época.
Porém todo discurso também implica o que deles vacilam, modos de gozar que escapam à sua injunção. O último encontro também nos lembrou que há os restos não capturados, não capturáveis e eles insistem. Podemos dizer que foi com eles que chegamos até aqui hoje. Com os restos, brechas e frestas que chegamos ao 26ª Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: Barulhos da língua — a interpretação entre a fala e a escrita.
Vejam: Há uma pequena declinação: dos corpos e os discursos para a língua e seus barulhos. Mas percebam que ainda é sobre um corpo vivo e falante, dessa vez com a luz sobre os atravessamentos pelo discurso, o propriamente analítico.
Há o discurso analítico e há o discurso sobre psicanálise. Não se confundem é isso é sempre importante lembrar.
Dizer “psicanálise” não é garantia de haver a lâmina cortante da causa analítica e nisso, sabemos, não há garantias a priori, além daquelas que cada um possa dar prova, vez a vez, singularmente.
Em 2025 vocês acompanharam como o termo “psicanálise” foi alvo de uma disputa de poder e do capital. Impedir o seu uso como chancela para cursos universitários foi uma vitória, mas também um sintoma de que facilmente uma dizer sobre psicanálise pode estar a serviço de outros discursos, mestre, universitário e capital facilmente se unem para a sua injunção. Sabemos vide o que se passa na saúde mental da França, não é somente um caso no Brasil.
É nesse contexto que a escolha pelo tema da interpretação, feita por esta diretoria e acolhida pelos colegas da Escola Brasileira de Psicanálise, visa dar consequência ao que nos concerne enquanto discurso analítico.
Não se trata de definir nem o discurso analítico, tampouco a interpretação, mas nos colocarmos a trabalhar para que as condições de sua emergência possam ser verificadas, discutidas, interrogadas, postas a serviço da formação analítica tal como pode se sustentar por cada um em meio a um trabalho que também é de Escola.
Trazer à tona a interpretação pode ter efeitos naquilo mesmo que nos concerne como Escola, Escola Brasileira de Psicanálise. Jacques Alain Miller em sua Teoria de Turim, uma teoria sobre a Escola Sujeito, diz que “A vida de uma Escola deve se interpretar. É interpretável. Interpretável analiticamente.”[1]
Segundo Miller, trata-se de “remeter cada um dos membros da comunidade à sua solidão, à solidão de sua relação ao Ideal[2]”, isto é, à causa analítica. Interpretar a vida da Escola não é interpretar de modo a colmar um sentido coletivo, não é fazer sugestão. Mas o inverso, é remeter, cada um, em seu modo de gozar, em sua solidão, ao que através de uma Escola se veicula, ou não se veicula, seus trânsitos poderíamos arriscar dizer. Trata-se de subjetivar a Escola, o que em seu dizer “implica que cada um meça o salto entre a causa particular de seu desejo e a causa freudiana.”[3]
“Este sujeito está determinado pelos significantes dos quais é efeito, pois isto é o que define um sujeito, mais nada. É por isto que o ato de colocar os significantes que determinam a Escola é um ato de responsabilidade absoluta, pois é um ato de interpretação, que opera sobre o sujeito pelo viés da palavra.”[4]
Gostaria de lembrar nesse preciso ponto: a Escola chama-se brasileira de psicanálise, o encontro chama-se brasileiro — do campo freudiano. Menos do que o sentido que porta esse significante, interessa interrogar que espécie de real ele veicula, que contingência ele permite, que consequência nos corpos, nas cores, nos gostos, nos cheiros ele pode ter para os circuitos que nos envolvem no cotidiano de a prática e na vida de uma escola. Qual o seu trânsito?
Insisto: não se trata de retórica sobre o significante “brasileiro”, mas tirar consequências deste significante, interrogando como o caroço de real que ele porta incide em um a um, em sua solidão subjetiva, nessa Escola.
O convite ao Encontro Brasileiro do Campo Freudiano é também um convite a que cada um, a seu modo, se sirva destes significantes que nos reúnem.
Um Encontro que se diga do Campo Freudiano e que se diga brasileiro. Tirar as consequências do singular que esse significante pode ter para cada um, pode vir a ter um efeito interpretativo para uma escola que se pensa como escola-sujeito, uma escola portanto, viva.
Vocês que nos acompanham em todo o Brasil já participam de certa forma dessa experiência que acaba de começar. Essa experiência contará com as atividades preparatórias que virão e se completa com os corpos presentes de vocês nessa cidade tão encantadora que é Florianópolis.
Meu obrigado a todos que nos acompanham — presentes nas sessões da Escola Brasileira de Psicanálise e também nas suas telas, que nos permitem conectar — vastamente. Agradeço igualmente aos colegas envolvidos na produção, na construção e no desenvolvimento deste encontro. E já me adianto e também deixo meu obrigado a cada um que enviar o seu trabalho para a comissão de orientação. De alguma maneira este envio não é somente índice da transferência de trabalho, mas também uma forma de se servir destes significantes que aqui nos reúnem hoje.
Com essas palavras, fico por aqui. E com muito entusiasmo, convido cada um que está nos acompanhando a seguir nesses Barulhos da Língua!
