Leonardo Scofield

Boa dia a todos.

Quero começar agradecendo, de maneira muito especial, ao Conselho e à Diretoria da Escola Brasileira de Psicanálise pela confiança depositada na Seção Sul para sediar o próximo Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.

Agradeço nominalmente à presidente da Escola, Maria José Gontijo, e ao diretor-geral, Luiz Felipe Monteiro, por essa aposta — que nós recebemos com entusiasmo, mas também com a responsabilidade que ela implica.

É uma alegria poder dizer que esse encontro acontecerá aqui, nesta ilha. A ilha de Santa Catarina.

Talvez valha a pena fazer uma pequena digressão, porque as cidades, assim como os sujeitos, também têm sua história com os nomes.

Florianópolis nem sempre se chamou assim. Durante muito tempo foi conhecida como Nossa Senhora do Desterro. Um nome curioso.

“Desterro” é uma palavra forte. Remete ao exílio, à expulsão, àquele que é lançado para fora de seu lugar.

Uma cidade com um nome que já carrega em si uma certa experiência de desterritorialidade.

E talvez isso não seja tão estranho para nós.

Porque, de certo modo, a psicanálise sempre teve alguma afinidade com o desterro.

Freud retirou o sujeito do centro de si mesmo.

E Jacques Lacan, ao recolocar a psicanálise no campo da linguagem para além da semântica, também nos desterrou — digamos assim — da ideia de que somos senhores daquilo que dizemos.

Não somos nós que falamos a língua. É a língua que fala em nós.

É justamente nessa direção que se orienta o tema do próximo encontro: “Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita”.

Esse tema nos convida a percorrer alguns momentos decisivos do ensino de Lacan.

Podemos lembrar, por exemplo, daquele Lacan de Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise³, onde a palavra aparece como eixo da experiência analítica.

Mas podemos também avançar até o Lacan de seu último ensino, em textos como Lituraterra⁴ e O aturdito⁵, onde a língua aparece como matéria sonora, como escrita, como aquilo que deixa sulcos e marcas no corpo — justamente ao não se reduzir a um sentido unívoco.

Ali, a língua faz barulho. Ela tropeça. Ela ressoa. Ela se escreve de maneiras contingentes.

É justamente nesse ponto — entre fala e escrita, entre som e traço — que a interpretação analítica encontra novas possibilidades.

Recolocamos a trabalho o tema da interpretação, trinta anos depois do que Jacques‑Alain Miller chamou de “a interpretação pelo avesso”⁶.

Seguindo a orientação lacaniana, aprendemos a importância de escutar aquilo que está ali como escrita. Aprendemos a ler o sintoma como uma forma singular de escrita do gozo.

Talvez possamos dizer — retomando o espírito do antigo nome desta cidade — que, se há um desterro na experiência analítica, ele não é exatamente um exílio.

É antes uma marca de extraterritorialidade da língua.

Uma extraterritorialidade que permite uma passagem: da palavra para a letra, do sentido para o equívoco, da fala para a escrita, da escuta para a leitura, da língua organizada para os seus barulhos.

É justamente essa perspectiva que queremos explorar juntos no próximo Encontro.

Portanto, fica aqui o convite: “Si quésh, quésh; si não quésh, dish.”

Que cada um possa se deixar afetar por esses barulhos da língua.


Referências
LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. Lituraterra. In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. O aturdito. In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
MILLER, Jacques‑Alain. A interpretação pelo avesso. In: Opção Lacaniana Revista Brasileira Internacional de Psicanalise, nº 15.

[1] Texto apresentado no lançamento do 26º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.

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