Henri Kaufmanner

Em seu texto “Vous avez dit Bizzare?”[1] Miller destaca a dimensão bizarra da interpretação. Para ele, todos os fenômenos apontados por Freud  e que resultaram na criação da psicanálise são bizarros. Fundamentalmente diz Miller, o inconsciente se manifesta de maneira bizarra.

Costumamos procurar o analista a partir de fenômenos ou incapacidades bizarras. Entretanto, diz Miller, mais até que seus pacientes, os analistas são bizarros. Não há como não reconhecer isso. Por exemplo, somos radicalmente contra qualquer regulamentação da profissão de analista. Afinal isso nos arrancaria de nossa bizarrice, pois o analista a princípio não existe, sendo um efeito de seu ato. Ou ainda, o fato de que em nossa Escola, os seus membros fazem questão de pagar mais de que os não membros em nossas atividades. Pagamos por nosso desejo de Escola.

Acompanhando Miller, percebemos que todo o percurso de Lacan em seu ensino se orienta por essa bizarrice da psicanálise, e no que diz respeito à interpretação, podemos dizer que esta se revela na busca por cernir o que há de mais singular, a diferença absoluta. É essa joia bizarra que ao longo de nossos trabalhos  para o Encontro Brasileiro devemos lapidar.

Desde seus primórdios, com a interpretação pela via do sentido, inaugurada por Freud, passando pelas pontuação e pelo corte, chegando a poética e as ressonâncias do efeito da lalingua sobre o corpo, o que esta em questão é não perder a virulência da prática analítica, sua subversão, não deixando que a mesma caia no senso comum. Não é surpresa constatar  que aquilo que anteriormente era considerado bizarro, hoje em dia, muitas vezes, já perdeu sua dimensão disruptiva e é acolhido tranquilamente como algo comum de nosso tempo. Na chamada era de Ouro da psicanálise, por sua novidade, a intervenções plenas de sentido de Freud provocavam efeitos absolutamente inesperados e revelavam o bizarro do inconsciente.

Em nosso tempo, nesse mundo em que todos falam e todos  reforçam a importância da escuta, o saber é muitas vezes reduzido a um enxame de informação. Nesse mundo das mais diversas tribos, diante da moral identitária, preservar o espaço do bizarro se faz tarefa primordial. Quando partilhávamos a paróquia do Outro, um chiste por sua surpresa, seu efeito suplementar e bem humorado, muitas vezes acabava por descortinar a vacilação do Outro, seu mais além, acrescentando sentido e paradoxalmente, revelando sua inconsistência. Não por acaso Freud apontava o humor como tratamento a incidência do SuperEu.  Hoje em dia com a pluralização das paróquias, embora não tenhamos abandonado o chiste, muitas vezes só nos resta o equívoco e suas ressonâncias sobre o corpo com aquilo que pode fazer valer o furo, diante do retorno do Outro do fanatismo e da moral.

Nosso começo se deu pelo sujeito do inconsciente fruto da articulação significante, um conceito que opera na relação com o Outro da linguagem, onde o ser é sua articulação como falta-a-ser. Somos levados a deduzir que essa falta-a-ser também é fruto dessa articulação, e, de forma mais precisa, em sua relação com o Outro, o ser se reduz a um efeito de sentido. Se seguimos nessa linha de pensamento verificamos que essa redução acaba estabelecer uma primazia do Édipo. Tal primazia já revelava seus problemas quando a clínica se deparava com a falta do sentido, como nas psicoses e nas novas formas de sintoma.

Com o avanço do ensino de Lacan pudemos entender que, o sujeito, aquele que se representa de um significante a outro, portanto, um sujeito que advém na produção de saber dessa articulação, é fruto de uma elucubração de saber, o nome pelo qual Lacan passou a nomear a linguagem. E, segundo o que ainda nos diz Lacan no seminário XX, essa elucubração, o inconsciente estruturado como linguagem, é fruto da psicanálise. Se o inconsciente estruturado como linguagem é efeito da psicanálise, o sujeito somente pode ser percebido como efeito da psicanálise e não numa anterioridade a essa. Bizarro! Podemos até alcançar o que teria levado Lacan a chamar o efeito da psicanálise sobre lalangue de “linguisteria”. Afinal, o que se busca na análise é o discurso histérico, a “linguisteria” é o que se consegue com a ação da máquina psicanalítica sobre o parlêtre. A maquina psicanalítica, seu discurso portanto, opera a partir dos semblantes, estes mesmo efeitos desse discurso.

Já a noção de parlêtre” recoloca o corpo tomado a partir do impacto de lalangue e seu valor de ressonância, e busca tocar o real. A psicanálise não se reduz ao sujeito lógico do significante, embora este não deixe de a partir de seus furos ressoar a sonoridade do impacto de lalangue sobre o corpo. Se o sujeito em sua falta-a-ser continua nos interessando, interessa-nos sobremaneira a sua presença de ser, como se vira com esse corpo que goza de si mesmo.

Esse estatuto de corpo, despojado do saber que se articula, resulta numa nova concepção da idéia de debilidade mental:

… o homem não se safa de modo algum desse negócio de saber, isso lhe é… isso lhe é imposto. Isso lhe é imposto pelo que chamei de efeitos de significantes. E ele não fica aí a vontade. Ele não sabe ‘fazer com’ (‘faire avec’) o saber….. é o que se chama a debilidade mental, da qual devo dizer que eu não sou exceção”…. “esse material é o que nos habita. Com este material ele não sabe como se virar (‘il ne sait y faire’)”[2].

A partir do momento em que o que esta em jogo não é apenas o sujeito, mas o corpo afetado por lalangue, o saber que esta em pauta não é mais o saber elucubrado, da articulação significante, mas um saber fazer com a afetação que esse significante produz sobre o corpo. Nessa mesma lição, Lacan acrescenta que o parlêtre, fala sempre só e sempre uma única coisa, a menos que possa dialogar com um analista. Essa fala solitária e repetitiva, se daria em função do S(A /). Para ele, se o sujeito dialoga com o Outro, há um ponto nesse Outro em que não existe resposta, e que nesse ponto latimos.

Se é pelo encontro de S(A/), ali onde o Outro não responde, que latimos, que falamos sempre a mesma coisa, o monólogo pode se interromper se algo da ordem de um eu (moi) se produzir, e, assinala Lacan, não há nada que diga que esse eu não venha propriamente dito delirar.[3] A experiência psicótica, permite-nos vislumbrar, como que o delírio pode se apresentar como alternativa à debilidade (por sua vez o autismo nos convoca a novas invenções). Se é exatamente onde o Outro não existe que se pode interromper o monólogo pela invenção de um moi, de maneira paradoxal, dialética mesmo, mais aberto à invenção, mais próximo da solução delirante, o psicótico se encontra.

Como então acolher o que é do campo da debilidade de cada um. Aquilo que afeta o corpo, e que do corpo apenas faz signo, sinal de presença enquanto corpo. Cabe então ao psicanalista lidar com loucos ou débeis. Na vertente do débil a análise pode restaurar a dimensão do equívoco no significante, produzindo assim uma vacilação na cadeia repetitiva de sentido produzido ali onde o sujeito não sabe. É dessa maneira que a psicanálise se aproxima da poesia, na medida em que abre mão do sentido em busca de uma nova significação, particular a cada um. Dessa forma abre-se a perspectiva de encontrar uma nova significação para o sintoma, algo que permita ao sujeito se identificar, “tratando” a disjunção entre o ser e o corpo.

Termino com um exemplo de Lacan. Foi ele mesmo que nos ensinou que uma audiência, como a presente em seus seminários, produz interpretação. Na lição  de 8 de março de 1977[4] dois acontecimentos acabam por exigir dele um comentário. Inicialmente, ele troca o nome de Pasteur pelo de Freud e logo se corrige. E num segundo momento ele erra ao escrever o matema do discurso do analista, sendo logo corrigido por Miller.

Lacan discorda de que no segundo acontecimento teria acontecido um lapso. Para ele, o que aconteceu foi um erro grosseiro. Reduzir seu erro ao lapso seria reduzi-lo ao inconsciente freudiano e isso exigiria um sentido. Para Lacan, o inconsciente produtor de sentido nos adormece, funciona por sugestão, sendo portanto, hipnótico. Todo discurso afinal é hipnótico e o esforço de Lacan em seu último ensino é provocar o despertar desse adormecimento. Lacan prefere apontar para o real.

Por outro lado ele reconhece que trocar o nome de Pasteur pelo de Freud seria um lapso. Ele ocorreu enquanto Lacan discorria sobre a geração espontânea. As pesquisas de Pasteur acabaram com essa crença de crescimento espontâneo de micro-organismos. Lacan lamenta o tamanho do sucesso de Pasteur em suas pesquisas. A geração espontânea era uma muralha contra a existência de Deus. Como consequência, haveria uma série de perguntas que vão desde as origens da vida na terra ate o que faz do homem um falasser que permanecem não sabidas. Porém adormecidos que fomos pela crença em Deus, nos esquecemos desse desconhecimento. O esforço de Lacan em nos afastar da crença do inconsciente enquanto saber dirige-nos ao real, e é essa orientação que nos preserva enquanto bizarrice e nos coloca a trabalho.


[1] Miller,J-A. Vous avez dit bizarre? In.: Quarto Revue de psicanálise n.78 février 2003
[2] Lacan, J. Seminário 24, L’unbevue….Lição de 11/01/1977 (Inédito)
[3] Lacan, J. idem
[4] Lacan, J. op.cit. 08/03/1977

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