FIO 1 – O FORÇAMENTO POÉTICO (AFETO, A ENUNCIAÇÃO E A ESCRITA)
SIGMUND FREUD
FREUD, Sigmund. A interpretação dos Sonhos (O Sonho da Injeção de Irma) (1900 [1895]). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 4 e 5.
Trimetilamina. Vi a fórmula química dessa substância em meu sonho, o que testemunha um grande esforço por parte de minha memória. Além disso, a fórmula estava impressa em negrito, como se tivesse havido um desejo de dar ênfase a alguma parte do contexto como algo de importância muito especial. Para que era, então, que minha atenção deveria ser assim dirigida pela trimetilamina? Para uma conversa com um outro amigo, que há muitos anos se familiarizara com todos os meus escritos, durante a fase em que eram gerados, tal como eu me familiarizara com os dele. Na época, ele me havia confiado algumas ideias sobre a questão da química dos processos sexuais e mencionara, entre outras coisas, acreditar que um dos produtos do metabolismo sexual era a trimetilamina. Assim, essa substância me levava à sexualidade, fator ao qual eu atribuía máxima importância na origem dos distúrbios nervosos cuja cura era o meu objetivo. (Freud, 1972, p. 125).
(…)
É verdade, em geral, que as palavras são frequentemente tratadas, nos sonhos, como se fossem coisas, e por essa razão tendem a se combinar exatamente do mesmo modo que as representações de coisas. Os sonhos desse tipo oferecem os mais divertidos e curiosos neologismos. (Freud, 1972, p. 315).
FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria (1905 [1901]). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 7.
Aprendi a ver nessas relações amorosas inconscientes entre pai e filha ou entre mãe e filho, conhecidas por suas consequências anormais, uma revivificação de germes dos sentimentos infantis. Expus em outros lugares em que tenra idade a atração sexual se faz sentir entre pais e filhos, e mostrei que a lenda de Édipo provavelmente deve ser considerada como a elaboração poética do que há de típico nessas relações. (Freud, 1972, p. 53-54).
Devo agora considerar uma outra complicação a que certamente não daria espaço, fosse eu um escritor empenhado na criação de um espaço anímico desse tipo para um conto, e não um médico empenhado em sua dissecação. O elemento que apontarei agora só serve para turvar e confundir a beleza e a poética do conflito que pudemos supor em Dora; ele é justificadamente sacrificado pela censura do escritor, que sem dúvida simplifica e abstrai quando faz as vezes de psicólogo. (Freud, 1972, p. 57).
FREUD, Sigmund. Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 10.
Devo confessar que posso apenas fornecer um relato muito incompleto de toda a situação. Aquilo que a punição com ratos nele incitou, mais do que qualquer outra coisa, foi o seu erotismo anal, que desempenhara importante papel em sua infância e se mantivera ativo, por muitos anos, por via de uma constante irritação sentida por vermes. Desse modo, os ratos passaram a adquirir o significado de ‘dinheiro’. O paciente deu uma indicação dessa conexão reagindo à palavra ‘Ratten‘ [‘ratos’] com a associação ‘Raten‘ [‘prestações’]. Em seus delírios obsessivos ele inventou uma espécie de dinheiro regular como moeda-rato. Por exemplo, ao responder a uma pergunta, disse-lhe o valor de meu honorário por uma hora de tratamento; ele disse para si próprio (segundo eu soube, seis meses mais tarde): ‘Tantos florins, tantos ratos’. Paulatinamente traduziu para a sua língua o complexo inteiro de juros monetários centrados em torno do legado que lhe daria o pai; isso quer dizer que todas as suas idéias correlacionadas com aquele assunto se reportavam, por intermédio da ponte verbal ‘Raten-Ratten‘, à sua vida obsessiva e caíam sob o domínio de seu inconsciente. Ademais, o pedido que lhe fizera o capitão, para reembolsar as despesas relativas ao pacote, serviu para fortalecer a significação monetária de ratos, mediante outra ponte verbal, ‘Spielratte‘, que reconduziu à dívida contraída por seu pai no jogo. (Freud, 1972, p. 214-216).
FREUD, Sigmund. A ansiedade. Conferências Introdutórias (1917). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 16.
“As primeiras fobias ligadas à situação, nas crianças, são as do escuro e da solidão. A primeira muitas vezes se prolonga por toda a vida; comum a ambas é a ausência daquela que cuida e ama, isto é, a mãe. Certa feita, ouvi uma criança, angustiada com a escuridão, gritar para o quarto ao lado: “Tia, fale comigo, estou com medo.” “Mas de que adianta falar, se você não pode me ver?” E a criança respondeu: “Quando alguém fala, fica mais claro.” (Freud, 1976, p. 474).
FREUD, Sigmund. “História de uma neurose infantil” (1917 [1914]). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 17.
‘Tive um sonho’, disse ele, ‘em que um homem arrancava as asas de uma Espe.’ ‘Espe?’, perguntei, ‘o que quer você dizer com isto?’ ‘O senhor sabe; aquele inseto com listras amarelas no corpo, que dá uma picada. Isto deve ser uma alusão a Grusha, a pera de listras amarelas.’ Agora eu podia corrigi-lo: ‘Você quer dizer uma Wespe [vespa].’ ‘Chama-se Wespe? Na verdade eu achava que o nome era Espe.’ (Como tantas outras pessoas, ele usava as suas dificuldades com a língua estrangeira como uma forma de encobrir os atos sintomáticos.) ‘Mas Espe, então, sou eu mesmo: S.P.’ (eram as suas iniciais). A Espe era, é claro, uma Wespe mutilada. (Freud, 1976, p. 118-119).
FREUD, Sigmund. Prefácio a Ritual: Estudos Psicanalíticos, de Reik (1919). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 17.
“É impossível escapar à conclusão de que esses pacientes estão fazendo, de forma associal, tentativas para resolver seus conflitos e apaziguar suas necessidades prementes, tentativas que, quando levadas a cabo de uma maneira que é aceitável pela maioria, são conhecidas como poesia, religião e filosofia.” (Freud, 1976, p. 325).
FREUD, Sigmund. O Estranho (1919). In:______. Edição Standard Brasileira das Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 17.
“O que mais nos interessa nesse longo excerto é descobrir que entre os seus diferentes matizes de significado a palavra ‘heimlich’ exibe um que é idêntico ao seu oposto, ‘unheimlich‘. Assim, o que é heimlich vem a ser unheimlich. (Cf. a citação de Gutzkow: ‘Nós os chamamos ‘unheimlich”; vocês o chamam “heimlich”.’) Em geral, somos lembrados de que a palavra ‘heimlich’ não deixa de ser ambígua, mas pertence a dois conjuntos de ideias que, sem serem contraditórias, ainda assim são muito diferentes: por um lado significa o que é familiar e agradável e, por outro, o que está oculto e se mantém fora da vista. ‘Unheimlich’ é habitualmente usado, conforme aprendemos, apenas como o contrário do primeiro significado de ‘heimlich‘, e não do segundo. Sanders nada nos diz acerca de uma possível conexão genética entre esses dois significados de‘heimlich’. Por outro lado, percebemos que Schelling diz algo que dá um novo esclarecimento ao conceito do Unheimlich, para o qual certamente não estávamos preparados. Segundo Schelling, unheimlich é tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz.” (Freud, 1976, p. 282).
(…)
“Todas essas considerações preparam-nos para a descoberta de que o que quer que nos lembre esta íntima ‘compulsão à repetição’ é percebido como estranho.” (Freud, 1976, p. 298).
…
“No caso clínico de um neurótico obsessivo, descrevi como o paciente ficou certa vez num estabelecimento para tratamento hidropático e muito se beneficiou disso. Teve o bom senso, no entanto, de atribuir a sua melhora não às propriedades terapêuticas da água, mas à situação do seu quarto, que ficava exatamente ao lado do de uma enfermeira muito obsequiosa. Assim, na sua segunda visita ao estabelecimento, pediu o mesmo quarto, mas disseram-lhe que já estava ocupado por um senhor de idade, ao que ele deu vazão ao seu aborrecimento com as palavras: ‘Quero que ele caia morto por causa disso.’ Duas semanas depois o velho realmente teve um derrame. O meu paciente considerou o fato uma experiência ‘estranha’. A impressão de estranheza teria sido ainda mais forte se menos tempo houvesse passado entre as duas palavras e o infeliz evento, ou se tivesse sido capaz de apresentar inumeráveis coincidências semelhantes.” (Freud, 1976, p. 298).
JACQUES LACAN
LACAN, Jacques. Rumo a um significante novo. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.22, p. 6-15, ago. 1998. (Originalmente publicado em: Ornicar? Revue du Champ freudien, n. 17/18, p. 7-23).
“A poesia se funda precisamente nessa ambiguidade da qual eu falo e que qualifico de duplo sentido. Ela parece indicar a relação do significante ao significado, e podemos dizer, de uma certa maneira: que ela é imaginariamente simbólica”. (Lacan, 1998, p. 6).
“Se de fato a língua – é daí que Saussure toma partida – é o fruto de uma maturação, de um desenvolvimento, que se cristaliza no uso, a poesia depende de uma violência feita a esse uso, do qual temos as provas – se evoquei Dante na última vez, e a poesia amorosa, é exatamente para marcar essa violência. A filosofia faz de tudo para apagá-la, e por isso ela é o campo de ensaio da escroqueria. A partir disso é que também não se pode dizer que a poesia não jogue à sua maneira, inocentemente, o que conotei nesse instante, de imaginariamente simbólico. Isso se chama verdade”. (Lacan, 1998, p.6-7).
“O próprio da poesia, quando ela manca, é de ter somente uma significação, de ser puro nó de uma palavra com uma outra palavra. Não resta menos disso que a vontade de sentido consista em eliminar o duplo sentido […], quer dizer, fazer com que se tenha somente um sentido, […] Como o poeta pode realizar este forçamento, de fazer com que um sentido esteja ausente? Substituindo-o, esse sentido ausente, pela significação. A significação não é o que qualquer um crê. É uma palavra vazia”. (Lacan, 1998, p. 8).
“Se vocês são psicanalistas, verão que o forçamento é por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que não o sentido. O sentido ressoa com o auxílio do significante. Mas o que ressoa não vai longe, é antes flexível. O sentido, tampona. Mas, com o auxílio do que chamamos escrita poética, vocês podem ter a dimensão daquilo que poderia ser a interpretação analítica”. (Lacan, 1998, p. 10).
“[…]A metáfora, a metonímia, não têm capacidade para interpretar, a não ser quando elas são capazes de exercer a função de outra coisa com a qual se unem estritamente o som e o sentido. É à medida que uma interpretação justa desmancha um sintoma que a verdade se especifica em ser poética. […]”. (Lacan, 1998, p.11).
“A astúcia do homem é de preencher tudo isso, já lhes disse, com a poesia, que é efeito de sentido, mas também efeito de buraco. Somente a poesia, já lhes disse, que permite a interpretação. É isso que eu não alcanço mais, com minha técnica, ao que ela toca. Não sou assaz poeta. Eu não sou poeta assaz”. (Lacan, 1998, p.14, nota do tradutor).1
1N. T.: Em relação às duas últimas frases, há um jogo de palavras no original em francês: “Je ne suis pas assez poète. Je ne suis pas “poáte assez”.
LACAN, Jacques. Radiofonia. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003. p. 400-447.
“[…] o que eu disse sobre a barra saussuriana, que não pode representar nenhuma intuição de proporção, nem se traduzir como barra de fração, senão por um abuso delirante, mas sim, como o que é para Saussure, constituir uma borda real, isto é, a saltar do significante que flutua para o significado que flui. […] Sem dúvida, daí por diante esse significante só falta na cadeia de maneira exatamente metafórica, quando se trata do que chamamos poesia, posto que ela decorre de um fazer. Assim como é feita, ela pode ser desfeita. Com o que percebemos que o efeito de sentido produzido construiu-se no sentido do não-sentido [nonsense]: […]”. (Lacan, 2003, p. 414-415).
LACAN, Jacques. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
“Que hierarquia poderia confirmar-lhe ser analista, apor-lhe esse carimbo? O que me dizia um Cht é que eu o era, nato. Repudio esse certificado: não sou um poeta, mas um poema. E que se escreve, apesar de ter jeito de ser sujeito” (Lacan, 2003, p. 568).
LACAN, Jacques. Conferência em Genebra sobre o sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.23, p. 6-16, dez. 1998.
“É sempre com a ajuda de palavras que o homem pensa. E é no encontro dessas palavras com o seu corpo que alguma coisa se esboça”. (Lacan, 1998, p. 9).
“[…] O fato de que uma criança diga talvez, ainda não, antes mesmo de ser capaz de construir verdadeiramente uma frase, prova que há algo nela, uma peneira que se atravessa, por onde a água da linguagem chega a deixar algo na passagem, alguns detritos com os quais ela vai brincar, com os quais, necessariamente, ela terá que lidar. […]”. (Lacan, 1998, p. 11).
LACAN, Jacques. Variante do tratamento-padrão. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Pois a própria locução em que a língua recolhe sua intenção mais ingênua – a de entender o que ele “quer dizer” -já deixa claro que ele não o diz”. (Lacan, 1998, p. 333).
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Mas basta escutar a poesia, o que sem dúvida aconteceu com F. Saussure, para que nela se faça ouvir uma polifonia e para que todo discurso revele alinhar-se nas diversas pautas de uma partitura”. (Lacan, 1998, p. 506-507).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985.
“A escrita não é de modo algum do mesmo registro, da mesma cepa, se vocês me permitem esta expressão, que o significante”. (Lacan, 1985, p. 41)
“[…] Nosso recurso é, na alíngua, o que a fratura. Se bem que nada pareça melhor constituir o horizonte do discurso analítico do que esse emprego que se faz da letra em matemática. A letra revela no discurso o que, não por acaso, não sem necessidade, é chamado de gramática. A gramática é aquilo que, da linguagem, só se revela por escrito. Para além da linguagem, este efeito que se produz por se suportar somente na escrita, está com certeza o ideal da matemática”. (Lacan, 1985, p. 61).
“A nuvem da linguagem-exprimi-me metaforicamente- faz escrita”. (Lacan, 1985, p. 163).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007.
“(…) as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer. Esse dizer, para que ressoe, para que consoe, (…), é preciso que o corpo lhe seja sensível”. (Lacan, 2007, p. 18).
“Uma escrita é, portanto, um fazer que dá suporte ao pensamento”. (Lacan, 2007, p. 140).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre (1976-1977) inédito.
“Que vocês sejam inspirados eventualmente por alguma coisa da ordem da poesia para intervir, é bem em que, eu diria, é bem em direção a quê vocês devem se voltar, porque a linguística é de qualquer forma, eu diria, uma ciência muito mal orientada. Se, se a linguística se soergue, é na medida em que Roman Jakobson aborda francamente as questões de poética. A metáfora e a metonímia não têm peso para a interpretação senão enquanto capazes de exercer a função de outra coisa. E essa outra coisa da qual ela faz função é bem aquilo pelo que se unem estreitamente o som e o sentido; é na medida em que uma interpretação justa extingue um sintoma que a verdade se especifica sendo poética (Lição de 19 de abril de 1977)”. (Lacan, 1977, inédito).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 25: Momento de concluir (1977-1978) inédito.
“Trabalho no impossível de dizer. Dizer é diferente de falar. O analisante fala, ele faz poesia. Ele faz poesia quando consegue, o que é pouco frequente – mas ele é “arte” (il est “art”). Eu corto porque não quero dizer “é tarde” (“il est tard”). (Lição de 20 de dezembro de 1977). (Lacan, 1978, inédito).
“A matemática faz referência ao escrito, ao escrito como tal, e o pensamento matemático é o fato de que possamos representar um escrito.
Qual é o laço (lien), que não o lugar (lieu), da representação do escrito? Temos a ideia de que o Real não cessa de se escrever. É seguramente pelo escrito que se produz o forçamento (forcage). Isso se escreve, igualmente o Real, pois é necessário dizê-lo: de que forma o Real apareceria se não se escrevesse?
É seguramente por isso que o Real está ali. Está ali pela minha forma de escrevê-lo. A escrita é um artifício. O Real não aparece a não ser por um artifício, um artifício ligado ao fato de que há a fala, inclusive o dizer. E o dizer (le dire) concerne ao que se chama de verdade. É seguramente pelo que ‘digo’ que, a verdade, não se pode dizê-la (la dire).” (Lição de 10 de janeiro de 1978). (Lacan, 1978, inédito).
LACAN, Jacques. Lituraterra. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
“Escrita. Ela não é impressão. (…) Quando tiro partido da carta 52 a Fliess, é por ler nela o que Freud podia enunciar sobre o termo que forjou, Wahrnehmungszeichen, como sendo o mais próximo do significante (…). Que Freud a escreva com duas letras prova tão pouco quanto eu que a letra é primária. Tentarei indicar, portanto, o ponto crucial do que me parece produzir a letra como consequência: a linguagem, precisamente pelo que digo: que esta é habitada por quem fala.” (Lacan, 2003, p. 19).
“O que se evoca de gozo ao se romper um semblante é isso que no real se apresenta como ravinamento das águas. É pelo mesmo efeito que a escrita (écriture), no real, é o ravinamento do significado, aquilo que choveu do semblante como aquilo que constitui o significante. A escrita não decalca este último, mas, em seus efeitos de língua, o que dele se forja por quem a fala. Ela só remonta isso se disso receber um nome, como sucede com os efeitos entre as coisas que a bateria significante denomina por havê-lo enumerado. Mais tarde, viram-se do avião, sustentando-se em isóbaras, ainda que descendo obliquamente num aterro. Outros traços normais naqueles com que a vertente suprema do relevo era marcada por cursos d’água.” (Lacan, 2003, p. 22).
JACQUES ALAIN-MILLER
MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas dos escritos e outros escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2011.
“Portanto, é preciso tempo para que lhe venha o sentido da língua do Outro. É o que significa o aforismo de Lacan, segundo o qual a interpretação visa à causa de desejo. Significa que a interpretação visa o gozo, ou, mais precisamente, ao mais gozar, que é o princípio e a mola do sentido. Na interpretação não se trata somente de substituir um sentido por outro, num quiprocó. Trata-se de diferenciar esse quiprocó para, por algum viés, mirar, fazer ressoar, vibrar o gozo que mantém fechado, se me permitem, o não quero saber nada disso do sujeito, de maneira a fazê-lo ceder um pouquinho do gozo deste seu não quero saber nada disso”. (Miller, 2011, p. 52).
“A orientação para o singular não quer dizer não deciframento do inconsciente. Ela quer dizer que essa exploração encontra necessariamente um obstáculo, que essa decifração se interrompe no fora de sentido do gozo e que, ao lado do inconsciente, onde isso fala – é fala a cada um porque o inconsciente é sempre sentido comum -, há o singular do sintoma, onde isso não fala a ninguém. Razão pela qual Lacan o qualifica de acontecimento de corpo”. (Miller, 2011, p. 97).
MILLER, Jacques – Alain. O osso de uma análise: mais o inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2015.
“Então, a conversão da perspectiva que é necessária enfrentarmos é que o essencial não é que o significante tenha efeito de mortificação sobre o corpo, é que o significante tem uma incidência de gozo sobre o corpo”. (Miller, 2015, p. 85).
MILLER, Jacques – Alain [et al]. Aposta no Passe: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola, membros da Escola Brasileira de Psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018.
“Ficção, o que isso quer dizer? Que se trata de uma fabricação, que isso não pertence à ordem da natureza, à physis dos gregos, e sim à ordem da poesis, da produção, do fazer” (Miller, 2018, p. 97).
