VII Encontro da Rede Toxicomania y Alcoolismo – TyA Brasil.
Quando a droga se torna uma solução: desafios da interpretação
ARGUMENTO
Alessia Fontenelle, Cassandra Dias, Mauro Agosti, Maria Célia Kato e Maria Wilma Faria – Comitê Gestor VII Encontro TyA Brasil.
O analista opera pela interpretação. Mais do que acolher o sofrimento e a queixa, uma análise visa produzir efeitos ao tentar localizar e cingir o modo de gozo em questão. Esse é o diferencial da psicanálise em relação à terapêuticas que buscam uma pedagogia do gozo, seu controle e reeducação. “Nada de escuta sem interpretação”, nos assinala Jacques Alain Miller. [1]
Cabe, portanto, ao analista a difícil tarefa de como apontar – muitas vezes, na repetição – a satisfação incluída na queixa daquilo que traz sofrimento.
Sabemos que não é fácil abrir mão do mais de gozar incluído no sintoma, ainda mais quando se trata de formulações sintomáticas nomeadas por “novos sintomas”, a exemplo das toxicomanias, quando não se pode contar – via de regra – com a abertura ao inconsciente e com o amor ao saber.
O corpo como primeira interpretação da ferocidade do gozo, se apresenta, muitas vezes, trazendo o sujeito até uma instituição ou a um analista. Mas nem sempre a ruína é razão suficiente para promover uma retificação dessa posição. A opacidade do gozo autoerótico e sua fixação instalam um circuito iterativo onde as manobras no tratamento tornam-se mais estreitas.
“É preciso que haja um limite ao monólogo autista do gozo. (…) A interpretação analítica faz limite.”[2]
É em busca desse limite que a ação analítica se orienta: visando uma “solução de desejo”[3] ao provocar a produção de ficções no lugar da pura fixão de gozo.
Pois se o gozo não pode ser negativizado, “(…) pode certamente ser deslocado, pode ser distribuído, metonimizado de outra maneira (…)”.[4]
Portanto, a função do analista no contemporâneo não seria apenas a de não validar a fabricação em massa dos objetos de gozo mas, sobretudo, a de poder deter-se no “x” do gozo sinthomático de cada sujeito procurando afetar a relação com esse gozo, tornando-o menos destrutivo e automático para o sujeito.
“Tomar o excesso ao pé da letra” [5] implica encontrar o caminho da interpretação para que o gozo escape ao autoerotismo do corpo e encontre um enlaçamento possível no campo do Outro.
Nesse sentido, interrogamos: como interpretar na clínica das toxicomanias?
O VII Encontro da Rede Toxicomania e Alcoolismo do Brasil propõe recolocar essa questão em debate, tomando a interpretação como operador fundamental da direção do tratamento. À luz do último ensino de Lacan, a psicanálise é levada a interrogar as condições em que uma interpretação pode incidir sobre o gozo sem alimentar a produção de sentido. A interpretação que pode ser eficaz nesse campo é aquela que opera sobre o real da repetição sintomática, para reduzi-la através da palavra.
Pois, quando a droga ocupa o lugar de uma solução diante do real, qual seria a incidência da interpretação no sentido de fazer surgir algum lampejo do inconsciente transferencial a partir do inconsciente real, ligando o gozo ao Outro?
Em torno dessas perguntas o Encontro faz o convite para a discussão da experiência clínica contemporânea através da produção dos Núcleos de Toxicomania que compõem a rede TyA Brasil e que endereçam ao VII Encontro a elaboração de suas linhas de investigação clínica.
Convidamos a todos aqueles que desejam aproximar-se dessa pesquisa tão instigante para estar conosco em Florianópolis, no dia 26 de novembro, de modo presencial ou virtual, para acompanhar e participar do trabalho dessa comunidade.

