FIO 2 – O QUE RESSOA NA INTERPRETAÇÃO? (PULSÃO, CORPO E SIGNIFICANTE)

JACQUES LACAN

LACAN, Jacques. Conferência em Genebra sobre o sintoma. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.23, p. 6-16, dez. 1998.

“[…] Freud se deu conta de que o enunciado de um ato falho só adquire valor pelas explicações de um sujeito. Como interpretar um ato falho? […]”. (Lacan, 1998, p. 9).

 

LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007.

“É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe”. (Lacan, 2007, p. 18).

 

LACAN, Jacques. A terceira. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.62, p. 11-36, dez. 2011. (Originalmente publicado em francês na Revue de la Cause freudienne, n. 79).

“Mas não existe letra sem lalíngua. É este inclusive o problema – como pode lalíngua precipitar-se na letra? Nunca se fez algo realmente sério sobre a escrita, entretanto isto valeria a pena, pois aí está realmente uma articulação”. (Lacan, 2011, p. 25).

 

LACAN, Jacques. O seminário, o livro 20: mais, ainda. 1ª. ed. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985.

“A escrita, então, é um traço onde se lê um efeito de linguagem. É o que se passa quando vocês garatujam alguma coisa”. (Lacan, 1985, p. 129).

 

LACAN, Jacques. O seminário, livro 24: L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre (1976-1977) inédito.

 “(…) se vocês são psicanalistas, vocês verão que é o forçamento por onde um psicanalista pode fazer ressoar outra coisa, outra coisa que o sentido, porque o sentido é o que ressoa com a ajuda do significante, mas o que ressoa, não vai longe, é mais uma coisa frouxa, o sentido tampona…, Mas com a ajuda daquilo que se chama “escrita poética” vocês podem ter a dimensão do que poderia ser, do que poderia ser a interpretação analítica. É absolutamente certo que a escrita não é aquilo por meio do qual a poesia, a ressonância do corpo, se exprime”. (Lição de 19 de abril de 1977). (Lacan, 1977, inédito)

 

JACQUES ALAIN-MILLER

MILLER, Jacques-Alain. O escrito na fala. Opção Lacaniana Online, São Paulo: Eólia, ano III, n.8, p. 0-0, jul. 2012.

“Quando Lacan evoca no começo as ressonâncias da fala, enfatiza a função poética da linguagem, os efeitos que ultrapassam a comunicação como informação de uma referência, a comunicação como informação unívoca. Ao mesmo tempo, no entanto, o efeito poético da ressonância encontra-se sob o domínio da comunicação. É ainda um modo de comunicação, para evocar e não para informar, ou seja, justamente como comunicação indireta”. (Miller, 2012, p. 18).

 

“A ressonância é uma propriedade da fala que consiste em fazer escutar o que ela não diz. É uma propriedade metonímica da fala. A poética é o metonímico. A interpretação não diz, faz escutar, e aí é barulhenta. Ela é barulhenta indiretamente quanto mais for silenciosa. É nesse ponto que Lacan anuncia o dizer de viés, ou meio dizer desenvolvido na sequência como o próprio modo de dizer da interpretação”. (Miller, 2012, p. 18).

 

MILLER, Jacques-Alain. A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.15, p. 96-99, abr. 1996.

“Não partindo do a priori que o inconsciente interpreta, termina-se fazendo do inconsciente uma linguagem-objeto e da interpretação uma metalinguagem. A interpretação, no entanto, não é estratificada em relação ao inconsciente; inscreve-se no mesmo registro; é constitutiva deste registro; quando é a vez do analista, este faz como o inconsciente; […]. Fazer ressoar, fazer alusão, subentender, silenciar, fazer oráculo, citar, fazer enigma, meio-dizer, revelar – quem faz isso? Quem o faz melhor? Quem maneja esta retórica desde nascença, enquanto você se esforça por aprender rudimentos dela? Quem? – a não ser o próprio inconsciente.

Toda a teoria da interpretação jamais teve outro objetivo – ensiná-lo a falar como o inconsciente”. (Miller, 1996, p. 96).

 

“O significante tal qual, como cifra, separado dos efeitos de significação, faz apelo à interpretação. O significante sozinho é sempre um enigma, eis porque sempre em falta de interpretação. A interpretação precisa do envolvimento de outro significante, emergindo daí um sentido novo”. (Miller, 1996, p. 98).

 

MILLER, Jacques-Alain. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan – Lição 3 – Linguagem e Pulsão. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2005.

“Pode- -se dizer que esse é o ato da interpretação, caso haja um, que consiste em fazer ato. E, desse modo, propiciar ao sujeito a oportunidade de escutar os fonemas que produziu, desmentir, ou, eventualmente, tomar distância do sentido daquilo que disse. De qualquer forma, isso abre, na fala, um espaço novo para o som e para o sentido”. (Miller, 2005, p. 40).

 

MILLER, Jacques-Alain. Sobre o conceito lacaniano de passagem ao ato. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.89, p. 17-23, dez. 2024.

“Na experi–/m limiar significante for ultrapassado”. (Miller, 2024, p. 21).

 

MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas dos escritos e outros escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2011.

“Portanto, é preciso tempo para que lhe venha o sentido da língua do Outro. É o que significa o aforismo de Lacan, segundo o qual a interpretação visa à causa de desejo. Significa que a interpretação visa o gozo, ou, mais precisamente, ao mais gozar, que é o princípio e a mola do sentido. Na interpretação não se trata somente de substituir um sentido por outro, num quiprocó. Trata-se de diferenciar esse quiprocó para, por algum viés, mirar, fazer ressoar, vibrar o gozo que mantém fechado, se me permitem, o não quero saber nada disso do sujeito, de maneira a fazê-lo ceder um pouquinho do gozo deste seu não quero saber nada disso”. (Miller, 2011, p. 52).

 

 “É o que significa o aforismo de Lacan, segundo o qual a interpretação visa à causa de desejo. (…) O aforismo de Lacan surpreende porque se pensa que a interpretação visa ao significante, visa a fala. Esse aforismo, porém, assinala que a interpretação visa aquém dela”. (Miller, 2011, p. 52-53).

 

MILLER, Jacques-Alain. La sesión analítica, entre repetición y sorpresa. In:______.  Los usos del lapso. Buenos Aires: Paidós, 2010.

“Uma interpretação analítica que produza efeitos é impensável. Ela atravessa essa dupla barra de um modo que permanece inacessível. É verdadeiramente o inverso do automatismo de repetição: aqui os automatismos desfalecem. Oponho, então, dois registros: repetição e interpretação.” (Miller, 2010, p. 208).

 

“Existe, então, um enodamento particular entre a repetição e a surpresa na sessão analítica. A repetição é condição sine qua non para que essa experiência tenha lugar, mas essa coerção se impõe para que não se sabe o quê se manifeste de improviso. Estão, então, presentes aí, nesse encontro, as duas faces do acontecimento: o acontecimento previsto e o imprevisto; ambos supõem a espera”. (Miller, 2010, p. 210).

 

“A espera está sempre ligada a uma estrutura; depende sempre de uma escrita — levemos a formulação até esse ponto —, de um significante que tem valor de escrita, isto é, valor de perpetuar-se para além das circunstâncias que conduziram à sua enunciação”. (Miller, 2010, p. 210).

 

MILLER, Jacques-Alain. Iluminaciones profanas. In:______. El objeto a en la experiencia analítica: Lecturas De otro. Olivos: Grama, 2022.

“Opus o sintoma ao sinthoma e fiz repercutir essa oposição sobre a verdade e o gozo, na medida em que o sinthoma se presta a quase tudo, exceto a um deciframento da verdade. Encontrei essa dicotomia no uso que fazemos dos termos freudo-lacanianos ao opor desejo e pulsão. Também aí a operação de deciframento faz sentido em relação ao desejo, mas não quando se trata de apreender ou saber algo da pulsão. Podemos acrescentar aqui, valendo-nos da oposição que Lacan apresentou no Seminário 11, um par do qual não falei no domingo: a tyché e o automaton.” (Miller, 2022, p. 16).

 

MILLER, Jacques-Alain. O real é sem lei. Texto traduzido por Elisa Monteiro. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.65, p. 9-23, abr. 2013. (Texto revisado em relação à publicação anterior na Opção Lacaniana, n.34).

“O simbólico no ensino de Lacan, vai da supremacia ao rebaixamento (…) Esse rebaixamento, no progresso do ensino clássico, realizava-se em benefício do significante. Certamente, havia nele um lugar para o fora-de-sentido comportando um rebaixamento do sentido, mas era em benefício do significante, do saber como articulação fora-do-sentido dos significantes, em benefício dos matemas, da escritura. […]. Se acompanharmos atentamente essa inclinação, aonde ela nos conduz?

Isso conduz se apreendemos bem esse declive ao que sou obrigado a nomear – para que ali vocês se situem mesmo que isso não seja dito nos termos por Lacan- como uma teoria da dupla escritura.” (Miller, 2013, p. 15-16).

 

“[…] Ali [no nó] há escritura, mas desarticulada da voz e da fala portadora de sentido. Por isso Lacan pode dizer que o nó, que ele toma como paradigma, muda o sentido da escritura, pois é uma escritura que vem de alhures que do significante, que não é da ordem da precipitação do significante, e que instala uma autonomia da escritura em relação ao simbólico.

Há uma escritura que é aplicada à fala, que permanece relacionada ao sentido, e depois há uma escritura pura, desarticulada do sentido, e que por isso é capaz de valer para o real. É no âmbito dessa escritura pura, dessa escritura outra, que Lacan situa seu nó.

[…]

É aí que posso deslizar novamente para vocês o famoso “real sem lei”, que não é apenas um real fora do sentido, mas também um real fora do saber. Estamos, evidentemente, instruídos para distinguir o sentido e o saber. Fomos formados para isolar o saber como podendo prescindir dos efeitos de sentido que ele pode suscitar, e no situamos em relação a este saber como fora do sentido. Exceto que, acreditando estar fora do sentido, mantemos tudo do sentido, uma vez que ficamos com o significante, e ficamos com o essencial, isto é, as ligações internas ao significante, a sintaxe.

[…]

A perspectiva de Lacan mostra que a sintaxe é também um avatar do sentido. É ainda uma montagem. É, evidentemente, ir bastante longe no reino do Um. É com o Um que temos uma chance de escapar ao sentido, pois precisamente não fazemos ligações”. (Miller, 2013, p. 16-17)

 

MILLER, Jacques-Alain. A Palavra que fere. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.56/57, p. 67-70, 2009.

“O que distingue propriamente a interpretação lacaniana? Ela é lacaniana na medida em que mostra o impossível de dizer, ela o torna sensível”. (Miller, 2009, p. 67).

 

“A interpretação freudiana é tradução em termos sexuais. A interpretação lacaniana não é tradução, mas revelação, ela ergue o véu sobre o que é impossível de dizer, ela lê o-que-não-se-pode-dizer, para além do recalque”. (Miller, 2009, p. 70).

 

MILLER, Jacques-Alain. O ser e o um: os cursos psicanalíticos de J.-A. Miller. EBP-Rio, 2011-2012. Inédito.

“O real do sinthoma que Lacan nos propõe atingir nessa frase, digamos ser a pura percussão do corpo pelo significante, pela fala. Aliás, nessa ocasião, Lacan define as pulsões como o eco no corpo, há um dizer. O tema da ressonância é familiar a Lacan, uma vez que, desde seu primeiro texto “Função e campo da fala e da linguagem…” ele o introduz, tal como no título da terceira e última parte, nos Escritos, à página 289 (ed. fr.), “As ressonâncias da interpretação”. A noção de ressonância ali está, de saída. No começo do ensino de Lacan, ela é tomada numa poética da linguagem, ao passo que aqui, trata-se de um uso lógico. Para encontrar a percussão inicial é preciso um uso lógico capaz de secar o sentido, cortar a respiração. Lacan o evoca a propósito de Joyce, quando diz que este corta a respiração do real, corta a respiração do sonho da literatura com seu Finnegans wake, escrito numa língua pessoal que joga com todas as assonâncias. Lacan diz que, nessa ocasião, Joyce trouxe à tona o sentido do sintoma literário”. (Lição 25 de maio de 2011, p.127). (Miller, 2012, inédito).

 

MILLER, Jacques-Alain. Vida de Lacan. Curso de 2009-2010. Inédito.

“é a interpretação que deve fazer passar da indeterminação à certeza, o que faz da interpretação, com efeito, uma decisão que isola o que Lacan já chama o nó do ininterpretável”. “No fundo, o nó do ininterpretável é um nó de gozo”. (Lição de 9 de junho de 2010). (Miller, 2010, inédito).

 

MILLER, Jacques-Alain. A formação do analista. Traduzido por Elisa Monteiro. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.37, p. 5-34, set. 2003.

“a interpretação analítica permanece fundamentalmente incapaz de encontrar seu aitias logismos. Ela não pode encontrar o raciocínio que vai explicá-la a vocês. A interpretação é destinada a permanecer uma orthedoxa, uma opinião verdadeira, justa, reta, adaptada, que convém, mas que permanece não fundamentada, sobre a qual será possível admitir que ela é verificada pelo que dela decorre a longo termo, pela elaboração que ela permite”. (Miller, 2003, p. 9).

 

MILLER, Jacques-Alain. La interpretación del psicoanálisis. In:______. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015.

Poderia então ocorrer que o acontecimento de gozo não tivesse a ver com o deciframento, e seria melhor situado no nível do corte […]”. (Miller, 2015, p. 216).

 

Neste caso, segundo o que nos revela a experiência mais genuína, a contingência, aquela que qualifica o amor, também seria a forma do psicanalista em sua interpretação”. (Miller, 2015, p. 217).

 

MILLER, Jacques – Alain [et al]. Aposta no Passe: seguido de 15 testemunhos de Analistas da Escola, membros da Escola Brasileira de Psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018.

“(…) a função do esp de um laps, função em que o lapso, formação do inconsciente, já não tem qualquer possibilidade de sentido ou interpretação. Pode-se falar então de saída do inconsciente transferencial”. (Miller, 2018, p. 74).

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