FIO 4 – INTERPRETAÇÃO CORTE E INTERPRETAÇÃO MONTAGEM (SINTHOMA E INTERPRETAÇÃO)
JACQUES LACAN
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“É que ao tocar, por pouco que seja, na relação do homem com o significante, no caso, na conversão dos procedimentos da exegese, altera-se o curso de sua história, modificando as amarras do seu ser”. (Lacan, 1998, p. 531).
LACAN, Jacques. Lituraterra. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
“Assim se me apareceu invencivelmente — e essa circunstância não é de se jogar fora — por entre as nuvens, o escoamento da água, único traço a aparecer, por operar ali, ainda mais do que indicando o relevo nessa latitude, naquilo que da Sibéria é planície, planície desolada de qualquer vegetação, a não ser por reflexos, que empurram para a sombra aquilo que não reduz. O escoamento é o remate do traço primário e daquilo que o apaga. Eu o disse: é pela conjunção deles que ele se faz sujeito, mas por aí se marcaram dois tempos. É preciso, pois, que se distinga nisso a rasura. Rasura de traço algum que seja anterior, é isso que do litoral faz terra. Litura pura é o literal. Produzi-la é reproduzir essa metade ímpar com que o sujeito subsiste. Essa é a façanha da caligrafia. (…) Entre centro e ausência, entre saber e gozo, há litoral que só vira literal quando essa virada vocês podem tomá-la, a mesma, a todo instante. É somente a partir daí que podemos tomar pelo agente que a sustenta”. (Lacan, 2003, p. 21).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência 1960-1961. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1992.
“A interpretação já existe nesse momento, na medida em que se manifestou um dos recursos necessários à realização da rememoração no sujeito. Percebe-se que existe outra coisa além da tendência à rememoração. Não se sabe bem ainda o quê. Seja como for, dá no mesmo. E essa transferência é admitida imediatamente como manejável pela interpretação e, portanto, se quiserem, permeável à ação da fala”. (Lacan, 1992, p. 152)
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Pois ela [a interpretação] não se fundamenta em nenhuma assunção dos arquétipos divinos, mas no fato de o inconsciente ter a estrutura radical da linguagem, que um material funciona nela segundo leis, que são as descobertas pelo estudo das línguas positivas, das línguas que são ou foram efetivamente faladas”. (Lacan, 1998, p. 600).
LACAN, Jacques. O aturdito. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
“(…) Não sou eu que te faço dizê-lo. Não é esse o mínimo da intervenção interpretativa? Mas o que importa não é seu sentido, na formulação que a lalíngua de que aqui me sirvo permite dar-lhe, e sim que a amorfologia de uma linguagem descortina o equívoco entre ‘Você o disse’ e ‘Tomo’ – o tanto menos sob minha responsabilidade quanto, coisa semelhante não fui eu quem o fez dizer por ninguém (…)”. (Lacan, 2003, p. 494).
LACAN, Jacques. Rumo a um significante novo. Traduzido por Samyra Assad. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.22, p. 6-15, ago. 1998.
Lição de 19 de abril de 1977:
“Se vocês são psicanalistas, verão que o forçamento é por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que não o sentido. O sentido ressoa com o auxílio do significante. Mas o que ressoa não vai longe, é antes flexível. O sentido, tampona. Mas, o auxílio do que chamamos de escrita poética, vocês podem ter a dimensão daquilo que poderia ser a interpretação analítica”. (Lacan, 1998, p. 10).
Lição de 17 de maio de 1977:
“Um significante novo, que não tivesse nenhuma espécie de sentido, seria talvez o que nos levaria àquilo que, com meus passos trôpegos, chamo o real. Por que não se tentaria formular um significante que, contrariamente ao uso que se faz dele atualmente, teria um efeito.” (Lacan, 1998, p. 14).
LACAN, Jacques. Seminário 25: O Momento de Concluir. (1977/1978) Inédito.
Lição de 20 de Dezembro de 1977:
“O analista, ele, sulca (tranche). O que ele diz é corte, ou seja, participa da escrita precisamente nisto que para ele equivoca a respeito da ortografia. Escreve de forma diversa, de modo que, graças à ortografia, a um modo diferente de escrever, sonha outra coisa do que aquilo que é dito, daquilo que é dito com intenção de dizer, ou seja, conscientemente, ainda quando a consciência vai muito longe. É por isso que digo que, nem no que o analisante diz, nem no que o analista diz há outra coisa além de escrita. Essa consciência não vai tão longe, não se sabe o que se diz quando se fala”. (Lacan, 1977, inédito).
LACAN, Jacques. El Seminario, livro 24 L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Revista Lacaniana de Psicoanálisis, Buenos Aires: EOL, ano XVI, n. 29, abr. 2021.
Lição de 16 de novembro de 1976:
“Conhecer o próprio sintoma significa saber fazer com, saber desemaranhá-lo, manipulá-lo. O que o homem sabe fazer com sua imagem corresponde a isto, sob certa perspectiva, e permite imaginar a forma como nos arranjamos com o sintoma”. p. 11.
JACQUES-ALAIN MILLER
MILLER, Jacques-Alain. A Palavra que fere. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.56/57, p. 67-70, 2009.
“A interpretação não é uma questão, não é um ‘talvez’, é a afirmação de um ‘há’; e na extremidade, de um ‘não há’. Trata-se menos de mostrar alguma coisa do que de uma ausência, que é de estrutura: o impossível de dizer”. (Miller, 2009, p. 69).
MILLER, Jacques-Alain. O real é sem lei. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.65, p. 9-23, abr. 2013. (Texto revisado em relação à publicação anterior na Opção Lacaniana, n.34).
“[…] Ali [no nó] há escritura, mas desarticulada da voz e da fala portadora de sentido. Por isso Lacan pode dizer que o nó, que ele toma como paradigma, muda o sentido da escritura, pois é uma escritura que vem de alhures que do significante, que não é da ordem da precipitação do significante, e que instala uma autonomia da escritura em relação ao simbólico.
Há uma escritura que é aplicada à fala, que permanece relacionada ao sentido, e depois há uma escritura pura, desarticulada do sentido, e que por isso é capaz de valer para o real. É no âmbito dessa escritura pura, dessa escritura outra, que Lacan situa seu nó.
[…]
É aí que posso deslizar novamente para vocês o famoso “real sem lei”, que não é apenas um real fora do sentido, mas também um real fora do saber. Estamos, evidentemente, instruídos para distinguir o sentido e o saber. Fomos formados para isolar o saber como podendo prescindir dos efeitos de sentido que ele pode suscitar, e no situamos em relação a este saber como fora do sentido. Exceto que, acreditando estar fora do sentido, mantemos tudo do sentido, uma vez que ficamos com o significante, e ficamos com o essencial, isto é, as ligações internas ao significante, a sintaxe.
[…]
A perspectiva de Lacan mostra que a sintaxe é também um avatar do sentido. É ainda uma montagem. É, evidentemente, ir bastante longe no reino do Um. É com o Um que temos uma chance de escapar ao sentido, pois precisamente não fazemos ligações”. (Miller, 2013, p. 16-17).
MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.42, p. 7-18, fev. 2005.
“A poética da interpretação não é para ser bela, não é kitch. Ela é um materialismo da interpretação. Ontem ou anteontem, alguém em supervisão me contava sobre o tratamento de uma paciente, há nove anos, e sobre o efeito inédito obtido dizendo-lhe simplesmente: “basta!”, em um tom cuja virulência contrastava com a voz suave usualmente mantida por ela. É preciso pôr o corpo para elevar a interpretação à potência do sintoma. – corpo, voz, interpretação – achei interessante ele incluir não o que se diz, mas a voz, o corpo, como aquilo que pode elevar a interpretação”. (Miller, 2005, p. 17).
MILLER, Jacques-Alain. El psiconálisis líquido. In:______. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015. (Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller) Tradução nossa.
“Na psicanálise do sujeito, a interpretação joga com a relação com a verdade, mas ao longo da análise, não é mais o caso. Como Lacan nos diz, não é porque o sentido de sua interpretação tenha efeitos que os analistas estão no campo do verdadeiro. Avalia-se a interpretação pelo acontecimento de gozo que a partir de então, é capaz de engendrar. A psicanálise joga com a relação com o que produz gozo”. (Miller, 2015, p. 216).
[…]
Poderia então ocorrer que o acontecimento de gozo não tivesse a ver com o deciframento, e seria melhor situado no nível do corte, e, neste caso, o que temos chamado de sessão curta, que Lacan já evocara no início do seu ensino em outro contexto, poderia ser a sessão da era da psicanálise líquida, aquela que não está ordenada pelas formações do inconsciente, mas, pelos acontecimentos de gozo. Neste caso, segundo o que nos revela a experiência mais genuína, a contingência, aquela que qualifica o amor, também seria a forma do psicanalista em sua interpretação”. (Miller, 2015, p. 216-217).
MILLER, Jacques-Alain. Des-sentido para as psicoses. In:______. Matemas I. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1996. p.162-169.
“Nós acreditamos que conhecemos a língua que falamos porque a compreendemos. É uma ilusão. O saber da língua excede em muito o conhecimento que temos dela. Sem isso, a psicanálise, enquanto freudiana, é impensável. Trata-se da própria fonte da interpretação”. (Miller, 1996, p. 163).
[…]
“Pois bem, eu diria que o convite analítico é este: “talvez, você aprenderá a língua que fala”. A interpretação não teria valor se não se apoiasse neste dado: a língua é Outro, escrito com maiúscula.” “Que essa língua seja Outro, não impede que seja permeável a invenções da linguagem. Foi o que aconteceu com Freud que, no próprio arremate relativo a sua descoberta, forjou uma linguagem”. (Miller, 1996, p. 163).
MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan: O sinthoma. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2009.
“E Lacan acrescenta algo em que podemos ouvir o murmúrio do Seminário do Sinthoma: um ruído no qual podemos tudo ouvir. E, de certa forma, isso seria dizer que o simbólico está de fato no real, mas sob a forma puramente material do sonoro, um som sem o sentido, em termos precisos, como um murmúrio, antes que se ergam as construções que ele irá permitir, já que nele tudo podemos ouvir”. (Miller, 2009, p. 48-49).
