FIO 6: SOBRE A EQUIVOCIDADE DAS PALAVRAS NO INCONSCIENTE

SIGMUND FREUD

FREUD, Sigmund. Os chistes e sua relação com o inconsciente. In:______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 8. Rio de Janeiro: Imago, 1960.

“O duplo sentido propriamente dito ou trocadilho, o caso ideal de uso múltiplo; à palavra aqui não se faz violência alguma (…) e, na construção da frase, ela pode, graças ao favor de certas circunstâncias, dizer dois sentidos”. (Freud, 1960, p. 187).

 

FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – volume 4: A interpretação dos sonhos: primeira parte. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 4. 363 p.

“É bastante fácil construir tais cadeias, como demonstram os trocadilhos e as charadas que as pessoas fazem todos os dias para seu divertimento. O reino dos chistes não conhece fronteiras”. (Freud, 1996, p. 154).

 

(…)Tem-se considerado como sinal infalível de que uma associação está isenta da influência das representações-meta o fato de as associações (ou imagens) em questão parecerem interelacionadas de um modo que se descreve como “superficial” – por assonância, ambiguidade verbal, coincidência temporal sem relação interna de sentido, ou por qualquer associação do tipo que permitimos nos chistes ou nos trocadilhos. Essa característica está presente nas cadeias de pensamento que vão dos elementos do sonho até os pensamentos intermediários e, destes, até os pensamentos oníricos propriamente ditos; já vimos exemplos disso – não sem espanto – em muitas análises de sonhos”. (Freud, 1996, p. 158).

 

FREUD, Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud – volume 5: A interpretação dos sonhos: segunda parte e sobre os sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 5. [406].

“Frequentemente, eles possuem mais de um ou mesmo vários significados e, como ocorre com a escrita chinesa, a interpretação correta só pode ser alcançada, em cada ocasião, partindo-se do contexto”. (Freud, 1996, p. 12).

 

“Segundo Henzen [1890], os sonhos que envolvem trocadilhos e jogos de linguagem ocorrem com particular frequência nas antigas sagas nórdicas, nas quais mal se consegue encontrar um sonho que não contenha uma ambiguidade ou um jogo de palavras. [1914.] Constituiria uma tarefa por si só coligir esses modos de representação e classificá-los de acordo com seus princípios subjacentes. [1909.] Algumas dessas representações quase poderiam ser descritas como chistes e dão a sensação de que nunca se poderia compreendê-las sem a ajuda de quem sonhou” [1911]. (Freud, 1996, p. 47).

 

FREUD, Sigmund. Análise da fobia de um garoto de cinco anos (“O pequeno Hans”). In:______.   Obras completas – volume 8: o delírio e os sonhos na Gradiva, análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos [1906-1909]. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. v. 8. p. 185-186.

“Esclareço: Hans não quis dizer que naquele momento ele adquiriu a bobagem, mas em conexão com aquilo. (…) acrescento algo que a criança não é capaz de dizer: que a palavra wegen [“por causa”] abriu o caminho para estender a fobia do cavalo para as carroças (Wagen, ou, como Hans a ouvia pronunciada, Wägen [pronúncia semelhante a wegen]). Não se deve esquecer que as crianças tratam as palavras de modo mais concreto que os adultos, que as homofonias são muito significativas para elas, portanto”. (Freud, 2015, p. 185-186)

 

JACQUES LACAN

LACAN, Jacques. A terceira. Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, n.62, p. 11-36, dez. 2011.

“(…) que o significante seja colocado por mim como representando um sujeito para outro significante, é a função que só se constata no deciframento, que é de tal forma que necessariamente retornamos à cifragem. Este é o único exorcismo do qual a psicanálise é capaz.

O deciframento se resume ao que faz cifra, ao que faz o sintoma, é algo que, a partir do real, sobretudo, não cessa de se escrever.

Chegar a domesticá-lo até o ponto em que a linguagem possa com ele produzir a equivocidade, é por aí que se ganha o terreno que separa o sintoma do gozo fálico”.

(…) é na medida em que algo no simbólico se restringe pelo que chamei de jogo de palavras, a equivocidade, a qual comporta a abolição do sentido, que tudo o que diz respeito ao gozo, e particularmente ao gozo fálico, pode igualmente se restringir. (Lacan, 2011, p. 30).

 

LACAN, Jacques. O Arturdito. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003.

“Os equívocos pelos quais se inscreve o lateral de uma enunciação concentram-se em três pontos nodais,

(…) Começo pela homofonia – da qual depende a ortografia.

(…) é secundada pela gramática. À qual, tanto nesse caso [o Pequeno Hans] como em outros, Freud não se priva de recorrer.

(…)

Número 3, agora: é a lógica, sem a qual a interpretação seria imbecil, sendo os primeiros a se servir dela, é claro, aqueles que para transcendentalizar a existência d do inconsciente, armam-se da afirmação de Freud de que ele é insensível à contradição”. (Lacan, 2003, p. 493-494).

 

LACAN, Jacques. Seminário 24 [1976-77]: L’Insu qui sait de l’une bévue c’est la mourre. Lição de 19/04/77. Inédito.

“Se você é psicanalista, verá que é por meio de uma forçagem que um psicanalista pode fazer soar outra coisa, outra coisa que o sentido, pois o sentido é o que ressoa com a ajuda do significante… (Tradução nossa). (Lacan, 1977, inédito).

 

LACAN, Jacques. Seminário 25 [1977-78]: Momento de Concluir. Inédito.

“Usar a escrita para equivocar, isto pode servir porque precisamos da equivocidade precisamente para a análise. Precisamos da equivocidade – é a definição da análise – porque, como a palavra a implica, a equivocidade imediatamente se volta para o sexo. O sexo, eu lhes disse isso – é um dizer. Isto vale o que vale, o sexo não define uma relação. Foi o que enunciei ao formular que “não há relação sexual”. Lição de 15/11/77 (Tradução nossa). (Lacan, 1977, inédito).

 

 “O analista, por sua vez, corta (tranche). O que ele diz é corte (coupure), quer dizer, participa da escrita, com a diferença que, para ele, ele produz equivocidade na ortografia. Ele escreve diferentemente, de maneira que, graças à ortografia, por uma forma diferente de escrever, soa algo diferente do que foi dito, do que foi dito com a intenção de dizer, ou seja, conscientemente, contanto que a consciência vá bem longe. É por isso que digo que, nem no que diz o analisante, nem no que diz o analista, há outra coisa além da escrita. Ela não vai longe, essa consciência, não se sabe o que diz quando se fala. É exatamente por isso que o analisante diz mais do que pretende dizer.

O analista corta (tranche) ao ler o que está em jogo nisto que ele quer dizer, se é que o analista sabe o que ele mesmo quer. Há em tudo isso muito manejo (jeu), no sentido de liberdade. Isso joga, no sentido que essa palavra tem de comum”. Lição de 20/12/77 (Tradução nossa). (Lacan, 1977, inédito).

 

JACQUES-ALAIN MILLER

MILLER, Jacques-Alain. O escrito na fala. Opção Lacaniana Online, São Paulo: Eólia, ano III, n.8, jul. 2012. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_8/O_escrito_na_fala.pdf

“Evoco tudo isso para docemente remetê-los à divertida atmosfera da inanição sonora. Por mais diversão que seja, é muito sério. A própria defasagem entre escutar e dizer, entre escrever e ler organiza para nós o lugar da interpretação analítica”. (Miller, 2012, p. 3).

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