Barulhos da interpretação na clínica com crianças

Analícea Calmon

“Na clínica das crianças há efetivamente o sujeito que não respeita o código, não passa pelo código. Nesse momento somos confrontados com seus gritos, suas jaculações. O problema que encontramos aqui é a captura. Como capturar algo do sujeito nesse “código”? O analista se encontra na posição de validar o código do Outro, validar as regras e, digamos que aí, “interpretar a criança” é da ordem da captura”

(Miller, J.-A. Interpretar a Criança. Opção Lacaniana, nº 72. São Paulo: Edições Eólia. 2016, p.13-19)

O fragmento acima fala de um barulho que pode ser escutado entre o código e a captura, na clínica com crianças. O próprio título do texto de onde foi extraído este fragmento, gramaticalmente, provoca um ruído, visto que interpretar é um verbo transitivo que requer um objeto. Neste caso quem está ocupando o lugar de objeto é a criança. E o sujeito que pratica a ação de interpretar, quem é? O analista? Ou a própria criança? Este é um ruído que se faz presente. na parte final do fragmento acima destacado.

Código, na linguagem corrente, significa um sistema de símbolos usados na comunicação. Captura, na linguagem corrente, significa ato de apreender e também obtenção de dados. Como entender os respectivos usos destes significantes na clínica psicanalítica, no que se refere a “interpretar a criança?”

Vale lembrar que, no seu último ensino, na perspectiva do Real, Lacan critica a noção de código, por remeter a símbolos e significados pré-estabelecidos. Tais símbolos e significados aparecem no seu primeiro ensino, referidos às noções de código e captura, como podemos ver no seu escrito Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo, datado de 1960. “Mensagens de códigos e códigos de mensagens distinguir-se-ão como formas puras no sujeito […] que se contenta com esse Outro prévio.” (Lacan, J. 1960/1998, p. 821). E esse Outro, designado como lugar da fala, manifesta-se na captura imaginária, onde o disfarce se integra no jogo de aproximação e ruptura. E na perspectiva do simbólico, ainda nos anos 60, Lacan enuncia que o sujeito é capturado pelo significante

Considerando os dois significantes em questão, à luz dos 3 registros – R.S.I – destacamos, no início do texto de Miller, uma referência à posição do analista como instrumento, com a ressalva de que na análise das crianças o analista é menos instrumento, vez que é obrigado a tomar mais iniciativas do que com o adulto, o que significa validar as regras e o código do Outro e faz entender que interpretar a criança é algo da ordem da captura, não sem barulhos.


Referências:
Lacan, J. Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Lacan, J. O Seminário, Livro 11, Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.
Lacan J. O Seminário, Livro 20, Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982.

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