FIO 3 – LALÍNGUA, LÍNGUA E DISCURSO: QUAL A MATÉRIA DA INTERPRETAÇÃO?
JACQUES LACAN
LACAN, Jacques. O seminário sobre “A carta roubada”. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Mas, quanto à carta/letra, quer a tomemos no sentido de elemento tipográfico, de epístola ou daquilo que faz o letrado, diremos que o que se diz deve ser entendido à letra, que há uma carta à espera de vocês com um carteiro, ou que vocês têm cartas/letras – mas nunca que haja de la lettre em alguma parte, não importando a que título elas lhes diga respeito, nem que seja para designar a correspondência em atraso. Pois o significante é unidade por ser único, não sendo, por natureza, senão símbolo de uma ausência. E é por isso que não podemos dizer da carta/letra roubada que, à semelhança de outros objetos, ela deva estar ou não estar em algum lugar, mas sim que, diferente deles, ela estará e não estará onde estiver, onde quer que vá.”. (Lacan, 1998, p. 27).
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Designamos por letra esse suporte material que o discurso concreto toma emprestado da linguagem.”. (Lacan, 1998, p. 498).
LACAN, Jacques. Lituraterra. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
“Não é a letra…litoral, mais propriamente, ou seja, figurando que um campo inteiro serve de fronteira para o outro, por serem eles estrangeiros, a ponto de não serem recíprocos? A borda no furo do saber, não é isso que ela desenha?”. (Lacan, 2003, p. 18).
LACAN, Jacques. O seminário sobre “A carta roubada”. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Um resto, que analista algum há de desprezar, preparado como está para reter tudo o que é da alçada do significante, ainda que nem sempre saiba o que fazer com isso: a carta, deixada displicentemente pelo ministro. de que a mão da Rainha pode fazer um bolinho de papel.”. (Lacan, 1998, p. 15).
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“A linguagem, com sua estrutura, pré-existe à entrada de cada sujeito no momento de seu desenvolvimento mental. (…) O sujeito, se pode parecer servo da linguagem, o é ainda mais de um discurso em cujo movimento universal seu lugar já está inscrito em seu nascimento, nem que seja sob a forma de seu nome próprio”. (Lacan, 1998, p. 498).
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“Freud exemplifica de todas as maneiras que esse valor de significante da imagem nada tem a ver com sua significação (…) O psicanalista de hoje admita que decodifica, em vez de se decidir fazer com Freud as paradas necessárias (…) para compreender que ele decifra: o que se distingue de decodificar pelo fato de que um criptograma só tem todas as suas dimensões quando é o de uma língua perdida”. (Lacan, 1998, p. 514).
LACAN, Jacques. Lituraterra. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
“Literatura é uma acomodação de restos”. (Lacan, 2003, p. 16).
LACAN, Jacques. Lituraterra. In:______. Outros escritos. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.
“Resta saber como o inconsciente, que digo ser o efeito da linguagem (…), comanda essa função da letra”. (Lacan, 2003, p. 18).
“Não há metalinguagem, mas o escrito que se fabrica com a linguagem é material, talvez dotado de força para que nele se modifiquem nossas formulações. Será possível, do litoral, constituir um discurso tal que se caracterize por não ser emitido pelo semblante?”. (Lacan, 2003, p. 23).
LACAN, Jacques. Variante do tratamento-padrão. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.
“No caminho da que é verdadeira, não é preciso procurar muito pela ambiguidade insustentável que se propõe à psicanálise; ela está ao alcance de todos. É ela que se revela na questão do que falar quer dizer, e todos a encontram ao simplesmente acolher um discurso. Pois a própria locução em que a língua recolhe sua intenção mais ingênua – a de entender o que ele “quer dizer”- já deixa claro que ele não o diz. Mas o que quer dizer esse “quer dizer” pode ainda ser entendido de duas maneiras, e compete ao ouvinte que seja uma ou outra: ou o que o falante quer lhe dizer através do discurso que lhe dirige, o, ou o que esse discurso lhe ensina sobre a condição do falante.”. (Lacan, 1998, p. 333).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1985.
“[…] Se não houvesse discurso analítico, vocês continuariam a falar como papagaios, a cantar o disc-cursocorrente, a fazer girar o disco, esse disco que gira porque não há relação sexual […]”. (Lacan, 1985, p. 40).
“Seguir o fio do discurso analítico não tende para nada menos do que refraturar, encurvar, marcar com uma curvatura própria, e por uma curvatura que não poderia nem mesmo ser mantida como sendo como a das linhas de força, aquilo que produz como tal a falha, a descontinuidade”. (Lacan, 1985, p. 50).
“Para introduzir um discurso científico concernente ao saber, é preciso interrogar o saber onde ele está. Esse saber, na medida em que no antro da língua que ele repousa, quer dizer o inconsciente. (…) Minha hipótese é a de que o indivíduo que é afetado pelo inconsciente é o mesmo que constitui o que chamo de sujeito do significante. (…) O significante, em si mesmo, não é nada de definível senão como uma diferença para com um outro significante”. (Lacan, 1985, p. 152).
“É porque há o inconsciente, isto é, alíngua no que é por coabitação com ela que se define um ser chamado falante, que o significante pode ser chamado a fazer sinal, a constituir o signo”. (Lacan, 1985, p. 153)
LACAN, Jacques. O seminário, livro 19: …ou pior (1971-1972). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2012.
“(…) Quando digo que só gozamos com o Outro, o importante não é a relação daquilo que poderíamos acreditar que é nosso ser com aquilo que se goza, mas sim que não usufruímos dele sexualmente – não existe relação sexual — nem somos usufruídos por ele. Vocês estão vendo que lalíngua, que escrevo numa palavra só, lalíngua, mas que é uma boa moça, resiste nesse ponto. Ela faz beicinho. E realmente preciso dizer, goza-se com o Outro mentalmente(…)” (Lacan, 2012, p. 109).
LACAN, Jacques. Seminário 21: Les non-dupes errent (1973-1974). Inédito.
Lição de 18 de dezembro de 1973:
“Aquelas do que está apenas esboçado, a saber, a teoria dos nós, com a ressalva de que, ainda assim, isso é de fato o representante da linguagem e que lalíngua, escrita como eu a escrevo, o reflete em sua própria formação, e que, além disso, para dizer tudo, quanto mais nos aprofundamos em falar dela, mais confirmamos o que é evidente, que estamos igualmente no Simbólico, e depois disso, como não admitir o Real, real pelo fato de que, nesse assunto, colocamos nele a nossa própria pele?(…)”. (Lacan, 1973, inédito).
Lição de 8 de janeiro de 1974:
“(…) Não vejo por que eu me impediria de imaginar o que quer que seja, se essa imaginação é a boa, e o que sustento é que a boa só se certifica pelo fato de poder se demonstrar, demonstrar-se no Simbólico, o que quer dizer intitulá-la simbólica, a uma certa desmontagem de lalíngua, na medida em que ela dá acesso a quê? Ao inconsciente. (…)”. (Lacan, 1974, inédito).
Lição de 11 de junho de 1974:
“(…) o que propus desde o início deste ensino, desde o discurso de Roma — é estarmos de acordo com a importância que tem na prática analítica, o material da lalíngua. Certamente, o linguista se encontra, de entrada, totalmente introduzido nessa consideração da lalíngua ter um material (…)”. (Lacan, 1974, inédito).
LACAN, Jacques. O Seminário 24: L’insu que sait de l’unebévue s’aile à mourre (1976–1977). Inédito.
Lição de 16 de novembro de 1976:
“(…) A gente se reconhece no chiste, porque o chiste se sustenta naquilo que chamei. Quero dizer que o interesse do chiste para o inconsciente está, ainda assim, ligado a essa coisa específica que comporta a aquisição da lalangue (…)”. (Lacan, 1976, inédito).
LACAN, Jacques. Rumo a um significante novo. Traduzido por Samyra Assad. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.22, p. 6-15, ago. 1998. (Lição de 19 de abril de 1977).
“(…) a aprendizagem que o sujeito realizou numa língua dentre outras, que é para ele alíngua, na esperança de revesti-la-ela, alíngua-, equivoca com fazer-real (faire- réel). Alíngua, qualquer que seja, é uma obscenidade. O que Freud designa – perdoem-me também o equívoco – de obrecena, de outra cena que a linguagem ocupa por sua estrutura, estrutura elementar que se resume àquela do parentesco.
[…]
Existe uma coisa que permite forçar esse autismo- é a alíngua é uma tarefa comum. É justamente aí onde estou, capaz de fazer-me entender por todos aqui.
[…]
É fato que as línguas-que eu escrevi l´élangue, se alongam ao serem traduzidas uma na outra, mas o único saber resta sendo o saber das línguas. O parentesco não se traduz de fato, mas apenas tem de comum isso aqui que os analisantes só falam disso (…)” (Lacan, 1998, p. 9).
LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma, 1975-1976. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2007.
“[…] afinal de contas, temos apenas o equívoco como arma contra o sinthoma.” (Lacan, 2007, p. 18).
LACAN, Jacques. El Seminario, livro 24 L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Revista Lacaniana de Psicoanálisis, Buenos Aires: EOL, ano XVI, n. 29, abr. 2021. Clase del 14 de diciembre de 1976. Tradução nossa.
“A une-bévue é um todo falso. Seu padrão, se me permitem, é o significante. O significante padrão- ou seja, exemplo- é o mesmo ou o outro. Não há significante mais típico que estes dois enunciados. Outra unidade é semelhante à outra. Tudo o que sustenta a diferença entre o mesmo e o outro, é que o mesmo seja o mesmo materialmente. A noção de matéria é fundamental porque funda o mesmo. Tudo o que não está fundado na matéria é uma estafa: material-não-mente”. (Lacan, 2021, p. 14).
JACQUES-ALAIN MILLER
MILLER, Jacques-Alain. Não há clínica sem ética. In:______. Matemas I. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1996. p. 107-115.
“Com certeza, desenvolve-se mais facilmente o fazer valer a interpretação enquanto ela joga com o ‘cristal da língua’ […]”. (Miller, 1996, p. 112).
MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan: O sinthoma. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2009.
“De certa forma, é o inconsciente como exterior ao sujeito suposto saber, exterior à máquina significante que produz sentido aos borbotões, desde que a deixemos funcionar, conforme acreditamos que somos obrigados a fazer”. (Miller, 2009, p. 18).
“Sabemos que lalíngua não é a linguagem, é um ordenamento, uma sabedoria da língua. Quando fazemos surgir esse neologismo, evidenciamos, ao mesmo tempo, que a linguagem é uma abstração, ao passo que lalíngua visa – ela visa o que, precisamente? – a fala tomada, eu diria, materialmente, ou seja, no caso, foneticamente”. (Miller, 2009, p. 123-124).
“Lalíngua, entendida foneticamente, é, por isso mesmo, sem o lastro da gramática. A gramática é a norma que permite dizer isso se diz ou isso não se diz. Mas nunca tomamos esse ponto de partida, a não ser a propósito daquilo que foi dito de fato, ou melhor, materialmente. Pois bem, lalíngua absorve o que se diz.
Nesse sentido, ela não tem, como o tem a gramática, um negativo. Ela joga com o léxico e também com a sintaxe. Ela se abre àquilo com que Lacan se encantou, ela se abre a todos os equívocos”. (Miller, 2009, p. 124).
“Ao que parece, a cada vez que falha uma interpretação que procede pelo sentido, que de todo modo tem sempre um efeito de sentido, pode-se dizer que somos reconduzidos a este real separado do sentido”. (Miller, 2009, p. 159).
MILLER, Jacques-Alain. A interpretação pelo avesso. Traduzido por Angelina Harari. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.15, p. 96-99, abr. 1996.
“Eis o motivo pelo qual, exatamente aqui, avançando nessa outra dimensão da interpretação, Lacan apela ao Finnegans Wake, um texto que apesar de manejar incessantemente as relações palavra/escrita, som/sentido, tecido por condensações, equívocos, homofonias, não tem a ver com o velho inconsciente. Porque todo ponto de estofo aí fica caduco, não se prestando à interpretação, nem à tradução – a despeito ele heróicos esforços. Porque ele próprio não é uma interpretação, reconduzindo maravilhosamente o sujeito da leitura à perplexidade como fenômeno elementar do sujeito em alíngua”. (Miller, 1996, p. 98).
MILLER, Jacques-Alain. O inconsciente e o corpo falante. In:______. O osso de uma análise + O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2015.
“A interpretação não é um fragmento de construção incidindo sobre um elemento isolado do recalque, como o pensava Freud. Ela não é a elucubração de um saber. Ela não é tampouco um efeito de verdade logo absorvido pela sucessão das mentiras. A interpretação é um dizer que visa ao corpo falante para produzir nele um acontecimento, para passar para as tripas, dizia Lacan. Isso não se antecipa, mas se verifica a posteriori, pois o efeito de gozo é incalculável. Tudo o que a análise pode fazer é afinar-se com a pulsação do corpo falante para se insinuar no sintoma. Quando se analisa o inconsciente, o sentido da interpretação é a verdade. Quando se analisa o falasser, o corpo falante, o sentido da interpretação é o gozo. Esse deslocamento da verdade ao gozo dá a medida do que se torna a prática analítica na era do falasser”. (Miller, 2015, p. 136).
