FIO 5 – ROMPER O DISCURSO PARA SOLETRAR O INDIZÍVEL (LETRA)
SIGMUND FREUD
FREUD, Sigmund. Histórias clínicas: cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. 797 p. (Obras incompletas de Sigmund Freud).
“(…) Durante a parada entabulamos uma conversa e o capitão contou que lera sobre um castigo terrível implantado no Oriente (…). Aqui ele interrompe, levanta-se e pede-me para poupá-lo da descrição dos detalhes. Asseguro-lhe que não tenho inclinação para a crueldade, que certamente não gostaria de atormentá-lo e que naturalmente não lhe poderia dar de presente algo que eu mesmo não possuísse. Da mesma forma, ele poderia pedir-me que lhe desse dois cometas de presente”.
(…)
“Em todos os pontos importantes de sua narrativa sua fisionomia assumia uma expressão estranha, bastante composta, que só posso interpretar como de horror diante do seu prazer, ignorado por ele mesmo”. (Freud, 2021, p. 347).
Ela (Dora) contou que, um dia, encontrara o Sr. K. na rua, quando ela estava em companhia de uma prima que não o conhecia. De súbito, a prima exclamou: ‘Dora, o que há com você? Você ficou pálida como um cadáver!’ Ela própria não sentira nada dessa alteração, mas precisou me ouvir dizer que o jogo fisionômico e a expressão de afeto obedecem muito mais ao inconsciente do que ao consciente e que são traiçoeiros para o primeiro deste”. (Freud, 2021, p. 91).
JACQUES LACAN
LACAN, Jacques. A terceira. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.62, p. 11-36, dez. 2011.
“A interpretação deve sempre (…) visar o essencial no jogo de palavras para não ser aquela que alimenta o sintoma com o sentido.
(…)
O significante-unidade [a letra] é fundamental (…).
Quando Aristóteles, como qualquer um, exatamente como nós, se põe a dar uma ideia de elemento, é preciso sempre uma série de letras, RSI.
Não há nada que dê a ideia de elemento quanto o grão de areia – (…) sobre o qual eu disse que não se podia senão contar. (…) por mais numerosos que sejam os grãos de areia, nós sempre chegaremos a calibrá-los. (…) Tudo isso só nos vem a partir de algo que não tem suporte melhor do que a letra.
Mas não existe letra sem lalíngua. É este inclusive o problema – como pode lalíngua precipitar-se na letra¿ Nunca se fez nada realmente sério sobre a escrita, entretanto isto valeria a pena, pois aí está realmente uma articulação”. (Lacan, 2011, p. 24-25).
“O sintoma é a irrupção dessa anomalia na qual consiste o gozo fálico, na medida em que aí se desdobra, se expande essa falta fundamental que qualifico de não-relação sexual.
É na medida em que, na interpretação, é unicamente sobre o significante que incide a intervenção analítica, que algo do campo do sintoma pode recuar.
É no simbólico, na medida em que lalíngua que o suporta, que o saber inscrito de lalíngua, que, falando propriamente, constitui o inconsciente, se elabora, ganha do sintoma.
Isto não impede que o círculo marcado com o S não corresponda a algo desse saber que jamais será reduzido. Isto é, a saber, a Urverdrängung de Freud, ou seja, o que do inconsciente jamais será interpretado”. (Lacan, 2011, p. 31).
LACAN, Jacques. Seminário 21: Les non-dupes errent (1973-1974). Inédito
“O que quer dizer isto: que a interpretação é incalculável em seus efeitos? Isto quer dizer que seu único sentido é o gozo”. (Lacan, Seminário 24, aula de 21/11/73. Tradução nossa). (Lacan, 1973, inédito).
“O signans tem o interesse de nos permitir, na análise, operar, resolver (…) ainda que, como todo mundo, só sejamos capazes de ter um pensamento a cada vez (…) mas de nos colocar nesse estado pudicamente chamado de “atenção flutuante”, que faz com que, justamente, quando o parceiro ali, o analisante, emite um pensamento, possamos ter outro completamente diferente, é um feliz acaso do qual irrompe um flash. E é justamente a partir daí que pode se produzir a interpretação, ou seja, devido ao fato de termos uma “atenção flutuante”, ouvimos o que ele disse, algumas vezes em razão de uma espécie de equivocidade, quer dizer, de uma equivalência material (…) nos damos conta do que ele disse… nos damos conta porque o padecemos… que o que ele disse podia ser ouvido completamente atravessado. E é justamente ao ouvi-lo completamente atravessado, que lhe permitimos dar-se conta de onde seus pensamentos, sua própria semiótica, de onde ela emerge: ela não emerge de nada além do que da ex-sistência de lalíngua”. Lição de 21, 11/06/74. (Tradução nossa). (Lacan, 1974, inédito).
JACQUES-ALAIN MILLER
MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Rio de Janeiro: JZE, 2011.
“o conceito de interpretação deriva da comunicação de um saber. Pode-se dizer que a partir do momento em que se mede a interpretação pelo gozo, pela constância do gozo, então, depois da comunicação de saber, a interpretação emigra em direção ao grito. Por isso Lacan pôde dizer que a interpretação eficaz talvez fosse da ordem da jaculação, ou seja, um uso do significante não para fins de significação, não para fins de significado, mas um uso no qual é o som, a própria consistência do som, que poderia fazer soar o sino do gozo como convém a fim de que seja possível satisfazer-se com o gozo” (Grifos do original). (Miller, 2011, p. 203).
MILLER, Jacques-Alain. La vie de Lacan (2009-2010). Inédito.
“de certo modo, jamais podemos dizer quanto ao inconsciente: ‘é isso’. Enfim, não podemos dizê-lo, e não o dizemos senão na interpretação. Mais precisamente, o dizemos em voo, e, de certa forma, dizer ‘é isso’ é o princípio e a essência da interpretação em seu risco, no desconhecido com o qual ela tem de lidar.”
“A interpretação joga com a indeterminação, isto é, ela sempre supõe um salto, do qual testemunha o analista iniciante, quando ele recua diante daquilo que experimenta como um risco. E é por isso que Lacan se lamentava que, para os analistas ditos experimentados, precisamente para eles se apaga esse elemento de risco que comporta toda interpretação, esse lado ‘salto no abismo’, salto ‘no’ ou ‘sobre’ o abismo, e é na interpretação que podemos dizer que o analista inventa um saber”. Lição de 02/06/2010 (Tradução nossa). (MILLER, 2010, inédito).
“é a interpretação que deve fazer passar da indeterminação à certeza, o que faz da interpretação, com efeito, uma decisão que isola o que Lacan já chama o nó do ininterpretável”. “No fundo, o nó do ininterpretável é um nó de gozo”. Lição, 09/06/2010 (Tradução nossa). (MILLER, 2010, inédito).
MILLER, Jacques-Alain. Peças avulsas. Traduzido por Márcia Souza Bandeira. Opção Lacaniana, São Paulo: Eolia, n.45, p. 9-30, maio 2006.
“O que quer dizer traumatismo? Que a desarmonia é original, que o som de lalíngua [alíngua] nunca é harmônico (…) ela não pode ser reparada, curada. A lalíngua [alíngua] faz, do ser que a habita e que a falará, um doente (…) e tudo o que lhe é permitido fazer é fazer disso uma obra”. (Miller, 2006, p. 12).
