Os barulhos da língua – entre silêncio e som
Valéria Beatriz Araujo
Conforme lemos no argumento do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano[1], a interpretação “faz escutar, e aí é barulhenta”. É da ordem do burburinho, “produz ondas na clínica e na cidade”. E nesse ressoar, encontramos a interpretação, ali, entre a fala e a escuta. Ali, onde “a linguagem não é apenas informação ou comunicação, mas laço e ressonância”[2], pois, “às vezes não se encontram as palavras que se está sentindo dentro de si mesmo” [3]. Ali, onde corpo e palavra têm pontos de contato e pontos de atrito, e o intraduzível vem operar uma nova escrita pelo equívoco, uma leitura de lalíngua no corpo. Toca algo de Borges, para quem toda leitura é uma tradução, uma maneira singular de ler o que está escrito.
Se a interpretação está entre a fala e a escuta, o que se interpreta no que se escuta, a partir do que se escreve, naquilo que se lê? Afinal, como aponta Oswald de Andrade, “a gente escreve o que ouve, não o que houve”. De modo semelhante, Guimarães Rosa é o “escritor por excelência do ‘mundo escutado’. Em um dos prefácios do seu romance Tutaméia, de 1967, ele anuncia: ‘A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a história. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota’”[4].
E, pela via lacaniana, esclarece Laurent[5]: “No segundo [ensino], Lacan se livra dessa referência à história para manter apenas a referência ao ‘estava escrito’”. Apreendida pelo equívoco, a interpretação supõe um reenvio ao está escrito, o que leva Lacan, no seminário 23, a desenvolver a escrita como apoio da fala. A interpretação como forçamento poético, segue Laurent[6], convoca Lacan a explorar “os recursos do que pode permitir ao analista fazer ressoar outra coisa que não o sentido, algo que convoque o gozo na língua comum. Primeiro, há a poesia”.
Então, qual interpretação? Mauricio Tarrab nos diz: “Perguntar-se ‘qual interpretação?’ é já supor que não há somente a ‘interpretação analítica’. A psicanálise tem continuado uma tradição interpretativa na cultura”. Segue Tarrab: “Mas com a interpretação, assim como no encontro sexual, no corpo a corpo, não há manual de instruções que valha. E, como nesse livro exemplar de Carver[7], na interpretação, como no amor, somos todos principiantes”[8].
Tarrab nos lembra que se perfila um “todos” intérpretes frente ao real[9]: “Não somente se aplica à prática do analista e do paciente, mas [a interpretação] também tem uma utilidade, um uso comum – não ordinário, mas comum – quer dizer, está no registro de um ‘para todos’, como resposta ao abrupto do real”. Tal como Zhuang Tzu, que se pergunta se era ele que sonhou que era uma mariposa, ou se era uma mariposa sonhando que era Zhuang Tzu. Ou, como quem toca um instrumento musical interpreta uma obra, por outra via. Ou, ainda, um ator ou uma atriz interpretam um papel que está escrito em alguma parte.
Podemos então considerar, que “fazer escutar o que está escrito” é uma boa fórmula para a interpretação analítica. No entanto, é essencial acrescentar que, em ambos os casos [de interpretação], o corpo está concernido mais além das palavras”[10]. Ou seja, um acontecimento que afeta o corpo do sujeito da linguagem, para além do organismo.
Nestes barulhos da língua, podemos localizar uma perspectiva clínica e, ao mesmo tempo, política, no bem dizer de Tarrab: “A interpretação, ao menos a interpretação analítica, inclui a aspiração de introduzir um movimento no mundo subjetivo. Por isso, pode-se dizer que a interpretação é política”[11]. “E o que essa interpretação analítica faz é reduzir, devastar, enfraquecer, desinflar, reduzir ao essencial, o delírio ou a ficção”[12].
“Não se trata de oposição entre silencio, escrito e oralidade, entre texto e fala, ou entre silencio e som; ao contrário, trata-se da conjugação desses dois momentos – de sua fricção. É um escrever de ouvido; isto é, o texto se forma com a escuta dos sons que restam na escrita, como silêncio”[13].
