SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
Blanca Musachi
Graciliano Ramos: Infância. Trevas e farrapos de imagens para um destino de escrita.
Trata-se de um importante escritor brasileiro que escreveu páginas memoráveis na literatura. Seu livro Infância é uma obra que tece uma ficção a partir de lembranças referidas à sua infância, onde nos interessa particularmente como ele atravessa o capítulo da infância chamado Cegueira, no livro.
Escreve sobre a doença nos olhos que o perseguiu na meninice. Padecia de pálpebras inflamadas. Um sintoma doloroso em excesso. Vivia na treva. Descreve seu aspecto desagradável, que inspirava repugnância e despertava a viva antipatia da mãe que o apelidou de bezerro encourado (um intruso) e cobra cega, motivo de deboche e zombaria. Escreve: Devo o apelido ao meu desarranjo, à minha feiura; ao desengonço. Não havia roupa que me assentasse no corpo. Depois do tempo de se revoltar contra essa injúria familiar que o comparava a um bicho infeliz, conclui que ninguém tinha culpa de seu organismo achacado e mofino. A leitura deu lugar à escrita como sinthome, e para dar consistência à sua imagem corporal.
Essa doença nos olhos, como ele mesmo diz, o afastou da escola e o tornou solitário, sem amigos. Mas um dia revela-se para ele algo que vai mudar a sua vida: “Na escuridão percebi o valor enorme das palavras”, escreve. Ou seja, do “mergulho da sombra, com migalhas de sons, farrapos de imagens dolorosos” encontra uma saída quando percebe o “valor enorme das palavras”. Aprenderá a ler aos 9 anos e se tornará um leitor voraz, aos 11 se tornará editor do jornal da escola e, no caminho das letras, construirá um destino de escritor, que explora o trauma – cuja essência é o trauma da língua –, o “sintraumatiza”, como diz Miller com Lacan, referindo-se a outro escritor célebre, Joyce. Cito: “Ele explora o trauma, o “sintraumatiza”… É a essência de todo sintoma. Eles têm o hábito de se esconder sob fantasias, mas com Joyce nós temos a sua essência. É o núcleo da clínica”. (Miller citado por Ram Mandil, em Lacan, leitor de Joyce, capítulo O artífice e sua arte. p. 271, verso).
Infância, de Graciliano Ramos, se é uma biografia, como toda biografia, está esburacada, tem um ponto de impossível estrutural, de fracasso para dizer o real, e onde os fatos são, como ensina Lacan, fatos de discurso. O que importa é a arte com a qual ele “sintraumatiza” a incidência da língua sobre o ser que fala, que constitui o infantil indelével.
Temos outros exemplos. Em Manoel de Barros vemos como ele fez do infantil, matéria de poesia. Em seu poema Fontes, ele diz que tem três parceiros para suas memórias inventadas: Os pássaros, os andarilhos e a criança: “parceiro desde sempre é a criança que me escreve”.
Assim como Graciliano, mas sem o dramatismo da cegueira, Manoel de Barros diz: “A criança me deu a semente da palavra”. “Uso a palavra para compor meus silêncios”. Isso diz do tratamento que “sintraumatiza” o barulho da língua, fazendo “delirar o verbo”, tecendo o que Lacan chamou de um gai savoir, um saber alegre.
