Interpretação e construção

Elisa Alvarenga

 En tiempos de Freud no se establecía una diferencia tan hermética entre la interpretación y la construcción. Freud concebía muy bien la interpretación como comunicación de una construcción al paciente, una construcción, es decir, una elaboración de saber hecha por el analista. Freud explicaba esta elaboración de saber al paciente. No tenía dificultad en establecer de este modo una continuidad entre interpretación y construcción, entre la elaboración de saber y su comunicación a los fines de un efecto de verdad. Podemos decir que en su tiempo, y en todo caso para él -es la referencia, tal vez mítica, que tenemos-, el saber tenía en sí mismo efectos de verdad.

Miller, J.-A. La fuga del sentido. Buenos Aires, Paidós, 2012,  p. 227.

 

Esta afirmação de Miller, no seu curso de 28 de fevereiro de 1996, em Paris, pode ser esclarecida por um Seminário realizado em Milão dois anos antes, publicado sob o título “Marginália de ‘Construções em análise’”[1]. Miller começa propondo que a construção é uma espécie de ser intermediário entre interpretação e teoria, para chegar à constatação surpreendente de que, em “Construções em análise”, Freud está diante da evidência de que há sempre um resto que fica fora da construção e que Lacan escreve S(Ⱥ). Algo fica sempre defasado entre o todo e os pedaços e é isso que torna necessária a construção.

Em Freud, a interpretação teria o ar de um fragmento de construção, um tijolo da construção, uma pequena pílula de saber, enquanto a construção seria o todo do saber. Interpretação e construção seriam homogêneas. Miller considera que a interpretação em Freud abre, toca um elemento, faz ressoar, enquanto a construção liga diversos elementos, fecha.

Já para Lacan, interpretação e construção são dois modos bem diferentes. Elas se opõem como saber e verdade: a construção é uma elaboração de saber, enquanto a interpretação tem alguma coisa do oráculo. A construção da qual Lacan fala é aquela do fantasma que se realiza pelo efeito da operação analítica.

Para Freud, o analisante deve se lembrar do que foi recalcado, enquanto o analista deve construir ali onde o analisante não se lembra. Ou seja, Freud faz da construção uma atividade do analista. Já Lacan reparte as coisas de outra maneira: ele põe do lado do analisante não apenas a rememoração, mas também a construção, e o que cabe ao analista é o ato, a autorização simbólica de proceder à tarefa analisante.

Freud examina também a verdade e a falsidade de uma construção. Não é um grande problema fazer uma construção errada, pois, pode-se fisgar “a carpa da verdade justamente com a isca da mentira”[2]. O que garante a verdade de uma construção não é o sim ou o não do paciente, mas o material inconsciente que surge após uma construção. A denegação vale como certificado de autenticidade, assim como a resposta “Eu nunca pensei isso”, sinal de que se tocou o inconsciente. Aqui, diz Miller, o inconsciente não mente, ele fala ao lado e não podemos sugestioná-lo. O significante mente, é semblante, mas o gozo não mente, porque está do lado do real.

Se há um declínio da interpretação, propõe Miller, não é simplesmente por um déficit do saber constituído na psicanálise, mas por uma impotência da verdade em relação ao gozo[3]. É aí que se torna necessária uma outra modalidade de interpretação que é a leitura, que neste momento do seu Curso, Miller chama de legibilidade do sexo, ou das pulsões parciais, que vai além da interpretação do desejo e coloca em cena o corpo vivo com seu gozo[4].

 


[1] Miller, J.-A. Marginália de “Construções em análise”. Opção Lacaniana n. 17. São Paulo, nov. 1996, p. 92-107.
[2] Freud, S. Construções em análise. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte, Autêntica, 2016, p. 371. Freud se refere à fala de Polônio, personagem do Hamlet de Shakespeare, ato II, cena I.
[3] Miller, J.-A. La fuga del sentido, Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 234.
[4] Ibidem, p. 241-242.

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