Barulhos da língua na psicose

Iordan Gurgel

Há uma passagem de Jacques-Alain Miller, em ‘Como começam as análises’, que merece uma leitura atenta para evitar os próprios “barulhos do mal-entendido” que ela pode suscitar.

Não há nada de excessivo em postular um parentesco de estrutura entre a psicanálise e a psicose, no momento de seu início de desencadeamento. O próprio Lacan havia pensado fazer da análise uma paranoia dirigida. Nisto, o verdadeiro começo da análise é assimilável ao desencadeamento do delírio interpretativo. Não é à toa que, na psicose, falamos de interpretação. Pode-se ver, no sujeito neurótico em análise, aparecerem alguns fenômenos de margem que pertencem a uma espécie de delírio interpretativo.”

À primeira vista, essa formulação pode levar à impressão de que Miller estaria aproximando a análise da psicose ou mesmo afirmando que a análise produziria uma psicose. Não é essa, contudo, a sua tese.

O que Miller propõe é um parentesco estrutural entre o início da análise e o desencadeamento psicótico. Essa homologia não diz respeito aos seus desfechos, mas ao fenômeno inaugural comum aos dois processos: a irrupção de um significante que rompe a continuidade da experiência e impõe ao sujeito a pergunta: O que isto quer dizer?”

Essa leitura se apoia numa afirmação feita pouco antes pelo próprio Miller: “Estamos tão convictos de que esse significante quer dizer alguma coisa, que não sabemos o que ele quer dizer.”

Em ambos os casos, emerge um significante enigmático que exige interpretação. É precisamente esse ponto que aproxima estruturalmente o início da análise e o início do delírio: ambos começam quando um significante perde seu sentido habitual e adquire o estatuto de enigma, convocando uma intensa atividade interpretativa.

Entretanto, é justamente nesse ponto que aparece a diferença decisiva entre neurose e psicose.

Na psicose, a interpretação tende à produção de uma certeza. O delírio procura fechar o enigma, estabilizando-o numa significação definitiva. Na análise, ao contrário, a interpretação é sustentada pela transferência e orientada pelo dispositivo analítico. O enigma permanece aberto, podendo ser trabalhado pela cadeia significante até encontrar seu limite na operação do ato analítico, em vez de se cristalizar numa certeza.

Pode-se dizer, então, que o delírio constitui uma solução de certeza, enquanto a análise é uma experiência sustentada pela suposição de saber e pela ausência de garantia última do sentido.

É nesse contexto que Miller recupera uma conhecida formulação de Lacan: a análise como uma “paranoia dirigida”[1]. A expressão, frequentemente tomada de modo equivocado, não designa uma paranoia clínica produzida pela análise. Ela indica que o dispositivo analítico organiza deliberadamente um movimento interpretativo.

O paranoico parte da convicção de que tudo significa alguma coisa. Na análise, algo semelhante ocorre, embora sob uma lógica inteiramente diversa: o analisante passa a interrogar lapsos, sonhos, atos falhos, sintomas e esquecimentos, supondo que ali há um saber a ser decifrado. Nesse sentido, a análise promove uma “paranoia dirigida“, isto é, uma orientação do trabalho interpretativo em direção ao inconsciente, sob a regulação da transferência e do desejo do analista.

Essa aproximação entre o início da análise e o desencadeamento psicótico constitui uma das formulações mais radicais de Miller sobre o primeiro ensino de Lacan. Ao mesmo tempo, ela antecipa desenvolvimentos posteriores de seu ensino, especialmente a elaboração da psicose ordinária, na medida em que destaca a função central do significante enigmático tanto no desencadeamento psicótico quanto na entrada em análise.

Convém lembrar, por fim, que o próprio Lacan irá relativizar a fórmula da “paranoia dirigida“. A partir do Seminário 11, e de maneira ainda mais decisiva em seu último ensino, o eixo da experiência analítica desloca-se da interpretação para o real do gozo e para o sintoma. A interpretação deixa de visar prioritariamente a produção de sentido e passa a operar sobretudo sobre a materialidade de lalíngua, seus equívocos e seus efeitos de gozo. Assim, se a análise pode começar sob o signo do enigma e da interpretação, ela tende a conduzir o sujeito para além da busca de significações, em direção ao encontro com o modo singular de gozar inscrito em seu sintoma.

 


[1] Conforme Lacan em: ‘A agressividade em psicanálise’ (Escritos (JZE, RJ, 1998), p. 112:…“a maiêutica analítica adota um rodeio que equivale, em suma, a induzir no sujeito uma paranoia induzida”.

 

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