Finezas e sutilezas
Maria do Carmo Dias Batista
“A orientação para o singular não quer dizer não decifrarmos o inconsciente. Ela quer dizer que essa exploração encontra sempre necessariamente um obstáculo, que essa decifração se interrompe no fora do sentido do gozo e que, ao lado do inconsciente, onde isso fala – e fala a cada um porque o inconsciente é sempre sentido comum – há o singular do sinthoma, onde isso não fala a ninguém. Razão pela qual Lacan o qualifica de acontecimento de corpo.”
Jacques-Alain Miller[1]
O fragmento acima encontra-se na sexta aula do curso de 2008-2009 de Jacques-Alain Miller, Choses de finesse em psychanalyse, de 17 de dezembro de 2008. Em português, extratos do curso estão publicados no livro Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan, com o nome “Coisas de fineza em psicanálise”. Na tradução ao espanhol, recebeu o título de Sutilezas analíticas.[2]
O curso trata, sobretudo, do psicanalista. Miller toma dois guias: a sutileza do ato falho de Freud[3], sutileza de admitir, em 1938, seu egoísmo recalcado em generosidade “não-quero” [… dar o presente; é para mim!] e o espírito de fineza de Pascal, antônimo do espírito da geometria, ou seja, o contrário do matema. Miller quer esclarecer o final do último ensino de Lacan, tomando a teoria dos nós como “tentativa de flexibilizar o matema […], de torná-lo capaz de capturar as coisas de fineza”.[4]
Fineza e sutileza são adjetivos certeiros para falar da posição do analista na decifração (ou não) do inconsciente e de seu obstáculo, o gozo, bem como para falar do sinthoma como acontecimento de corpo. Os dois pontos estão articulados no fragmento, pois o inconsciente faz nó com o sinthoma, conforme Lacan na conferência “Joyce, o sinthoma”.[5]
Há uma separação radical entre o inconsciente-saber-sintoma-interpretável e o acontecimento-sinthoma, excluído do saber, porém não do inconsciente (real). A fineza do analista consistiria em diferenciar qual terreno clínico está em jogo, pois, “a orientação para o singular não quer dizer não decifrarmos o inconsciente. [Porém,] a decifração se interrompe no fora do sentido do gozo […] e, ao lado do inconsciente, há o singular do sinthoma”.[6]
Difícil conceber acontecimento e sinthoma sem a interposição do corpo. Especialmente o sinthoma, cuja etimologia indica, desde os primórdios da medicina, índices, sinais e acontecimentos no corpo. Em Joyce, há o corpo tomado como casca de fruta madura depois de uma surra, estranheza, corpo fora do corpo… sem dúvida um acontecimento que demonstra a externalidade do escritor em relação a seu corpo.[7]
Em “Corpo, carne, cadáver”[8], Miller esmiuça três acepções do corpo em psicanálise: o do estádio do espelho, imaginário, corpo propriamente dito. Depois, há o corpo do gozo, Miller o denomina “carne” e o vincula ao real. Finalmente, o corpo simbolizado, o corpse, designado por “cadáver” e articulado ao simbólico.
O singular do sinthoma “onde isso não fala a ninguém”, como está no fragmento, será relativo ao gozo, à carne, ao acontecimento de corpo-carne, “aquele cuja consistência é de gozo”[9]. Mas, o sinthoma se repete e, nesse movimento, rotiniza o excesso de gozo.
A repetição coloca na ordem do dia os restos de trauma (de real) transformados em sinthoma. E, também, no “pós-analítico”, é a repetição a advertir o sujeito da âncora constituída pelo sinthoma.
Pensar o inconsciente a partir do gozo é uma das apostas do último ensino de Lacan. A sutileza do analista consiste em ser, ele próprio, um sinthoma. Diz Miller sobre o analista na continuação do fragmento: “dar-se ares de acontecimento de corpo, de semblante de traumatismo. E terá muito a sacrificar para fazer jus a ser, ou a ser considerado, um naco de real”.[10]
Entre finezas e sutilezas do analista, resta articular, dos desdobramentos do fragmento na mesma lição, a “natureza de defesa do inconsciente”[11], ou seja, na interpretação, para além da decifração e do sentido, trata-se de atrapalhar, de desmontar a defesa inconsciente.
Se o inconsciente é a própria defesa contra o real, a interpretação visa a perturbá-la, quer dizer, fazer ressoar, na interpretação, o nó do corpo com a lalíngua. De alguma maneira, impactar o corpo com a língua.[12]
Equívocos, homofonias, gramáticas, sons, gestos… uma espécie de corpo a corpo entre a interpretação e seu impacto no analisando.
Em suma, ter a sutileza de escutar os barulhos da língua.
