A interpretação como leitura do sintoma
Maria Josefina Sota Fuentes
A interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro material de um significante com o corpo, quer dizer, ao choque puro da linguagem sobre o corpo. Então, certamente, para tratar o sintoma, é preciso passar pela dialética móvel do desejo, mas é preciso também se desprender das miragens da verdade que esse deciframento lhes traz e visar, ‘para além’ da fixidez do gozo, a opacidade do real.
(Miller, J.-A. Ler um sintoma. Opção Lacaniana, n. 70. São Paulo: Eolia, junho de 2015, p. 21.)
Nesta citação, Miller define a interpretação analítica de forma muito precisa, servindo-se das mudanças de paradigmas operadas na década de 70 no ensino de Lacan, tendo já advertido que há tempos a psicanálise se encontra na era “pós-interpretativa” [1]. E que, caso queiramos manter o termo “interpretação” para situar a prática do analista, será necessário tomar “a interpretação pelo avesso”.
O próprio fundador da psicanálise, Freud que a inaugura como a ciência da intepretação dos sonhos por excelência, estendendo a ação interpretativa do analista ao sintoma, adentrou na era “pós-interpretativa”. Passados os anos dourados dos primórdios da psicanálise, quando a abertura de um inconsciente dócil às interpretações triunfantes do analista incidia sobre sintomas que desapareciam milagrosamente em meses ou em uma caminhada nas montanhas, a prática analítica encontrou suas resistências. Se em 1917 Freud afirma que os sintomas têm um sentido de verdade e carregam uma mensagem cifrada pelo trabalho do inconsciente, passível de ser decifrada pela intepretação, em 1919 terá de acrescentar que o sintoma não se resume ao Sinn, ao sentido. Nos “Caminhos da formação do sintoma”, Freud procura a Bedeutung, a referência, os vestígios de uma satisfação enigmática e substitutiva da pulsão genital (inexistente), ligada às primeiras experiências traumáticas da “realidade sexual”. E em 1920 será preciso admitir, com o postulado da pulsão de morte, que a necessária e paradoxal satisfação do sintoma não se dissipa. Haverá sempre restos sintomáticos e o risco de a reação terapêutica negativa erguer-se como defesa frente ao furor sanandi do analista.
Portanto, convém destacar que interpretar “corretamente”[2] um sintoma não significa eliminá-lo (como pretendem as psicoterapias ou outras práticas normativas), mas localizar sua Bedeutung, as marcas primordiais que incidiram sobre o corpo do ser falante. É o que Lacan indica na Conferência em Genebra sobre o sintoma proferida em 1975, na porta de entrada do Seminário sobre o sinthoma. Nela, Lacan está menos interessado no aspecto simbólico do sintoma – já definido como um sentido aprisionado, ou uma metáfora determinada pelo discurso do Outro, ligada ao significante enigmático do trauma sexual e o termo que a ele vem substituir na cadeia significante. “O sintoma só é interpretado na ordem significante”[3], afirmava Lacan.
Porém Lacan nunca fez da interpretação um conceito fundamental na psicanálise por uma razão simples – explica Miller[4]. Pois a interpretação é o próprio inconsciente. Em outras palavras, o inconsciente estruturado como uma linguagem já é uma interpretação sobre o real opaco do sintoma. O inconsciente intérprete cifra e decifra, interpreta e paradoxalmente quer ser interpretado, pois a característica enigmática do significante apela à interpretação, convoca um S2 que responda pelo sentido ausente. É o que dá fundamento à regra da associação livre e à instalação da transferência como Sujeito suposto Saber. E quando o analista interpreta agregando sentido, fazendo alusão, pontuando, não faz outra coisa senão redobrar o trabalho do grande mestre da interpretação que é o próprio inconsciente. Não será necessário chegar à psicose para notar o caráter delirante que advém de tal modelo de intepretação, que agrega ao real do sintoma fora do sentido, o estatuto de uma verdade a ser decifrada na talking cure.
Para consolidar a prática analítica em outras bases, contrária à paixão interpretativa e com a qual os analistas se defenderam sistematicamente contra o real da experiência analítica, foi necessário a Lacan orientar-se precisamente pelo Oriente. De sua viagem ao Japão, um litoral se delineou no divórcio entre o significante, articulável à cadeia significante e passível de engendrar sentido, e a letra em sua opacidade real, que apenas traduz em sua materialidade a mudez da Coisa.
Com essa nova orientação, Lacan define então o sintoma não mais como uma formação determinada pelo discurso do Outro, mas advindo do real da letra[5] que fixa um modo de satisfação por onde o gozo se infiltra. E, a fim de especificar a maneira como o corpo se deixa agarrar pelo discurso, como se dá o choque inaugural e traumático entre as palavras e os corpos, na sequência, Lacan define o sintoma como um moterialisme[6], a matéria da palavra desprovida de sentido com letra que se inscreve no corpo. É onde reside a “tomada do inconsciente”, então reformulado em novas bases.
Nenhum determinismo fatal atribuído ao Outro como causa do sintoma que não seja delirante. Pois não há uma comunicação entre o que os pais transmitem e aquilo que chega à criança, senão o abismo de uma relação impossível entre um dizer que ficou esquecido nos ditos parentais e aquilo que a criança escuta, e o que dessas palavras, como um meteorito, ravina as terras do real do seu corpo e se sedimenta como letra. Assim, a matéria do que Lacan chamou de lalíngua, esse mar de equívocos próprio da linguagem, marca casualmente o corpo onde se fixa a letra e um modo de gozo, a partir do qual cada um fabrica seu sintoma, tece suas ficções e ergue seu mundo.
Portanto, quando importam menos as razões da miséria do sintoma, é possível conceber o alcance de uma intepretação analítica tomada pelo seu avesso, contrária à elucubração do inconsciente estruturado como uma linguagem. Trata-se, como afirma Miller, da interpretação como um “saber ler que visa reduzir o sintoma à sua fórmula inicial”. Isto é, um “saber ler” que implica não somente o sintoma como um resto da operação analítica do qual falava Freud, mas como um real primordial produzido no choque da lalíngua com o corpo, o sinthoma que finalmente é concebido como uma escritura ilegível separada do campo da fala e da linguagem, que não se deixa absorver pela trama do discurso nem pelo sentido comum.
A paradoxal leitura do ilegível implicaria ler o que foi definitivamente escrito nas profundezas do inconsciente?
Em se tratando da escrita, tal como Lacan a desenvolve nos anos 70’, é preciso considerar que a letra que se materializa no sinthoma jamais poderá ser lida integralmente. Não se trata de uma letra morta eternizada no mármore de uma lápide. Laurent[7] indica que a letra é mais um furo por onde o gozo se infiltra, um fragmento da língua incomunicável que se deposita sem jamais ser inscrita na língua comum, do que qualquer impressão que transmita sua mensagem.
Deste modo, ler um sintoma implica sobretudo afinar o ato de leitura à ética do bem-dizer, a arte que o analista ensina ao analisante ao longo da análise[8], que consiste em dizer o indizível de forma cada vez mais justa, cada vez melhor, até ficar satisfeito com isso!
Assim, reconduzir o sujeito aos significantes elementares com os quais ele delirou em sua neurose, incluindo a neurose de transferência, permite que o trabalho de leitura do sintoma se entrelace ao trabalho de escrita do próprio inconsciente que, no puro equívoco da lalíngua, esfolia continuamente as miragens da verdade.
Se podemos afrouxar os nós cegos e fazer outros arranjos, ampliar um vazio fértil para fazer reverberar outras leituras, outras palavras, e bem-dizer o real do sinthoma sempre em causa, é porque ler já é escrever uma vida, sempre em aberto.
