A Chegada
tempo lógico, après-coup e lalíngua no cinema de Denis Villeneuve
Késia Ramos – EBP/AMP
“A pedra dá à frase seu grão mais vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual, / açula a atenção, isca-a com risco.”
João Cabral de Melo Neto, “Catar Feijão”
Assistir ao primoroso A Chegada (2016), de Denis Villeneuve[1], foi uma surpresa por muitos motivos: o cuidado atravessa cada camada do filme: a imagem, a escrita, os corpos dos heptápodes e, sobretudo, o desenho de som que lhes dá voz, premiado pela Academia por sua extraordinária concepção sonora.
Concebidos para romper com qualquer representação humana, os heptápodes nos parecem, a um só tempo, familiares e radicalmente outros, o que se reflete tanto na escrita quanto no som que os define. Em vez de alfabetos ou hieróglifos, ainda humanos demais, a escrita alienígena abandona a lógica das letras por um traço circular, gestual. Em vez do digital, o som aposta no orgânico (baleias, gatos, camelos, pássaros, flautas, vozes humanas transformadas), compondo uma verdadeira Babel sonora: som que não fala. Ressoa.
A Chegada não conta apenas uma história sobre o encontro entre seres humanos e extraterrestres: aproxima-nos de questões cruciais da psicanálise. Trago aqui a língua e o tempo.
Estamos acostumados a imaginar o tempo como uma linha: passado, presente, futuro. Freud, porém, percebeu, na escuta de seus pacientes, que a experiência subjetiva do tempo não segue essa ordem: uma cena vivida na infância pode, anos depois, ganhar sentido a partir de uma palavra, um encontro, uma lembrança. O acontecimento não mudou; mudou a maneira de lê-lo. Os processos inconscientes, nesse sentido, são atemporais: o depois pode modificar o sentido do antes.
Lacan retoma essa questão: a experiência do sujeito não se organiza apenas pelo tempo cronológico, mas também por um tempo lógico, marcado por antecipação e retroação.
Essa lógica atravessa A Chegada desde o início: o filme mostra cenas da vida de Louise com sua filha Hannah que, à medida que a narrativa avança, revelam-se não passado, mas futuro: um exemplo de retroação em que uma informação posterior transforma o sentido do que vimos antes. Lacan trabalha esse movimento a partir do sofisma dos três prisioneiros[2].
Onde essa lógica aparece em A Chegada? No primeiro encontro com os heptápodes, Louise está diante de algo para o qual ainda não tem código: ouve sons, vê corpos, encontra uma escrita que não conhece. É o instante de ver: algo se apresenta, mas ainda não há elementos para compreendê-lo.
Segue-se um longo trabalho: Louise retorna à nave. Observa. Escreve. Repete. Compara os sinais. Aproxima-se do vidro. Mostra o próprio corpo. Dá nomes. Precisa permanecer diante daquilo que ainda não compreende.
Enquanto Louise tenta decifrar a língua dos heptápodes, o mundo exige uma resposta imediata: os militares pressionam, os países cortam comunicação, a guerra se aproxima. Louise, porém, ainda não dispõe de todas as respostas; precisa agir sem ter alcançado um saber completo.
É nesse ponto que o filme toca o que Lacan chama de momento de concluir: não o fim de um raciocínio após reunir todas as certezas, mas o instante em que já não há mais tempo para esperar: é preciso se antecipar, decidir, agir. Louise telefona para o general Shang sem garantia de que seu gesto produzirá o efeito esperado; ela se arrisca em um ato. Não age porque sabe o que vai acontecer; produz, pelo ato, uma saída que não existia antes. A certeza não precede o ato: constitui-se nele.
Os três tempos lógicos não se localizam cena a cena, mas se articulam: primeiro, algo se apresenta sem que se possa compreendê-lo; depois, abre-se um tempo de elaboração; por fim, chega o momento de concluir, mesmo sem todas as garantias. É somente a partir da conclusão que o que veio antes ganha, retroativamente, seu sentido.
Há, porém, algo mais em jogo. À medida que Louise aprende a língua dos heptápodes, sua própria experiência com o tempo começa a mudar. A língua dos heptápodes não lhe entrega uma informação sobre o que vai acontecer. Os logogramas oferecem uma imagem bonita disso: são circulares, sem começo, meio e fim.
Um pequeno detalhe do filme condensa isso com precisão: Hannah. O nome da filha de Louise é um palíndromo: lê-se de frente para trás e de trás para frente. O começo já contém o fim; o fim nos devolve ao começo.
O que se desloca, quando uma história muda de sentido, não é o acontecimento em si, mas o significante que o nomeia. É o que Lacan chama de après-coup, a posteriori. Numa análise, a mesma história contada muitas vezes pode, em um momento, mudar de sentido: a partir de uma palavra, um silêncio, uma associação. O passado não se apaga: pode ser reescrito. É talvez isso que A Chegada faz com o espectador: ao final, é preciso voltar ao começo.
Chego à lalíngua. Antes de sabermos o que é substantivo, verbo ou pronome, somos atingidos por sons: vozes, apelidos, cantigas, repetições, expressões familiares, palavras ditas de modos muito particulares. Barulhos da língua que, antes mesmo de compreendermos seu significado, já nos atravessam e deixam marcas.
É dessa dimensão que Lacan se aproxima quando fala de lalíngua: não a língua organizada do dicionário, mas a língua tal como foi ouvida, recortada, experimentada no corpo. Por isso lalíngua não serve apenas para comunicar: ela toca o corpo e produz efeitos. Barulhos da língua.
É essa mesma dimensão que os sons dos heptápodes fazem ouvir: antes de significarem algo para Louise, eles chegam como ruído, vibração, ressonância: um som que ainda não diz, mas já produz um efeito.
Cabe perguntar, então: aprender uma língua, ou deixar-se transformar por ela?
No início, os militares esperam uma resposta objetiva (quem são eles, o que querem, por que vieram), como se Louise pudesse simplesmente decodificar uma mensagem. Mas ela insiste que não é tão simples: traduzir exige construir uma relação com aquela língua. Louise precisa se aproximar dos heptápodes, encontrá-los, repetir, errar, suportar o mal-entendido. A relação com uma língua exige que o próprio corpo se coloque em jogo.
Aqui está, talvez, uma das ideias mais bonitas de A Chegada: Louise começa querendo traduzir a língua dos heptápodes, mas, pouco a pouco, é a língua dos heptápodes que a traduz. Não é diferente na experiência analítica: também ali não se trata de decodificar o que um sujeito diz, mas de escutar como ele usa determinadas palavras. Por isso uma análise exige tempo: tempo para que algo possa ser escutado de outra maneira.
No final do filme, uma palavra produz enorme tensão: arma. Diante dela, o medo autoriza a única leitura possível: se há uma arma, há uma ameaça. Mas Louise insiste: a palavra talvez não signifique o que todos supunham. Então: é presente.
O presente que os heptápodes oferecem é a própria língua, e, com ela, uma outra relação com o tempo, tão circular quanto os logogramas: sem começo, meio ou fim fixos. É também assim que o tempo funciona numa análise: giramos em torno de um dizer, dos equívocos, dos barulhos da língua.
Também o psicanalista maneja algo que é, a um só tempo, presente e arma: lalíngua, que, como lembra Miller, “não é nada mais que os equívocos na íntegra”[3], aqueles que a história de uma língua deixou persistir. Não se interpreta pela gramática, pelo sentido já fixado ou por aquilo que se supõe que a língua queira dizer, mas pelo que nela insiste, ressoa, não se deixa reduzir ao sentido.
Presente e arma, portanto, não se opõem. A língua nos é dada, nos antecede e deixa suas marcas. Mas é também por seus equívocos, cortes e ressonâncias que ela pode atingir, deslocar, ferir.
Se a língua é presente e arma, uma análise pode permitir que algo daquilo que marcou e feriu encontre, pela via da interpretação, outro destino.
