Ler Lacan: um convite
Jacques Lacan é, antes de tudo e entre muitas coisas, um ensino e uma leitura, o ensino de uma leitura.[1]
Ler é uma aventura que ultrapassa o valor da decifração da reunião de letras, porque ela guarda em si um mistério que pode nos ajudar a “agarrar outros mistérios da vida humana”[2], a apreender o que escapa. Ler passa por uma erótica, pelo prazer do texto em um mergulho que tem começo, mas não se sabe bem sobre o fim. Ler Lacan, portanto, é uma experiência que implica um ato[3]. É o que propomos com o Colóquio Ler Lacan hoje..
“O que fazer com a leitura de Lacan, como fazê-la?”, pergunta Jacques-Alain Miller, que responde: “esse é um ponto crucial para esta Escola: saber como fazer para que não haja uma ortodoxia desta leitura, mas sim um respeito pela lógica do trabalho de escrita de Lacan, e que não se diga que se pode ler assim ou de outra maneira”[4]. O que faria a leitura não se transformar em uma ortodoxia e nem ser apenas um ponto de vista pessoal? Podemos responder com Miller que é pela transferência. Tanto o trabalho de transferência quanto a transferência de trabalho. E isso não quer dizer consenso ou concordância. Ao contrário, Lacan chegou a afirmar que boas leituras de seus textos aconteciam sob transferência negativa. Ler sob transferência quer dizer supor saber ao texto para se interessar por ele: “coloca-se o texto no lugar do Outro, A, e as perguntas que podemos pensar em dirigir ao texto, na realidade, é o texto mesmo que nos propõe”[5]. Isso não quer dizer que teremos apenas uma leitura: se estamos sempre acompanhados da própria experiência analítica, estamos sempre aprendendo a ler a nossa própria máquina de leitura, o inconsciente – que “não só vocês supõem que ele sabe ler, como supõem que ele pode aprender a ler”[6].
Não se lê, portanto, o mesmo texto porque se lê a partir do próprio texto, da própria época e à medida que lemos um texto, também somos lidos por ele. O texto, neste sentido, encontra seu sujeito – e não seu autor – por estar atravessado por uma experiência com a alteridade de um ponto de ilegível e que, na leitura mesmo, preserva um real. Por isso mesmo, um texto é inesgotável embora ele seja limitado, sua leitura, no entanto, é infinita.
Lemos e relemos em muitos dispositivos e momentos da Escola: cartéis, eventos, seminários, mas temos um lugar dedicado especialmente aos livros, às publicações, às leituras e aos debates que cuidam da “articulação e inserção de cada Escola na cidade”[7], cujas atividades, nos ensinou Judith Miller, “se encontram no coração de uma ação lacaniana”[8]: as Bibliotecas do Campo Freudiano. A Biblioteca é um dos lugares em que se celebra “a dignidade do que fazemos juntos”, como argumenta Miller, porque “precisamos nos juntar para termos em psicanálise os instrumentos de trabalho: por exemplo, as bibliotecas, (…) as publicações e também para reunir as solidões. (…) Desta forma não devemos esquecer o vínculo social que constitui a relação analítica, nem desconhecer em psicanálise o valor do estar junto.”[9] Afinal, foi Lacan que nos ensinou que não se aprende a ler sozinho e que a leitura não é uma experiência solitária.
O Colóquio Ler Lacan hoje tem o privilégio de estar articulado à FIBOL (Federação Internacional de Bibliotecas de Orientação Lacaniana), essa grande rede, cujo tema atual Ler Lacan. Ler com Lacan, conecta pelo mundo as leituras da Orientação Lacaniana. E teremos a alegria de contar com a presença de Eve Miller-Rose, responsável pela Fundação do Campo Freudiano. Estaremos juntos para ler Lacan e o faremos a partir de dois livros, O seminário, livro 15, o ato do psicanalista, de Jacques Lacan e A fábrica de psicanalistas, de Jacques-Alain Miller, ambos publicados em 2025. Veremos como a chegada desses livros “muda, a posteriori, a natureza dos elementos”[10] que tínhamos até aqui.. A temporalidade marcada no título, hoje, indica que os textos não serão recebidos “como o testemunho do que se pensava outrora”, e sim “como o que se pensa hoje e indicando as vias para o futuro.”[11]
A proposta é um ato de leitura em que cada um colocará algo de si. A expressão, apesar de muito conhecida e repetida, não deixa de convocar cada um dos leitores a encontrar as coordenadas das suas experiências para precisar os pontos de leitura, para encontrar seu saber ler articulado a um bem dizer[12]. Partiremos de fragmentos, da extração de peças soltas que se lêem, se tocam, se distanciam, se interpretam. As questões se colocam, especialmente, em torno do ato e da formação do analista, mas também do ensino, saber, Escola e todo grão que cada um trouxer para conversar nos tensos limiares de um esforço de elucidação – capaz de generalizar seu ensino -, e de um esforço de poesia – que resiste a toda e qualquer generalização-, e que não perde de vista as vias em que se renovam a leitura da pergunta de Lacan “o que é um psicanalista?”.
Aguardamos todos vocês no dia 26 de novembro às 15h no CentroSul em Florianópolis.
Flávia Cêra

