Editorial

Flávia Cêra

Este boletim informativo do Colóquio Ler Lacan hoje traz contribuições de cinco colegas que estão na Diretoria de Biblioteca de Seções da Escola Brasileira de Psicanálise. A Biblioteca é um dos lugares da Escola que anima as leituras, que toma os textos como letra viva. É também um dos lugares que apresenta a psicanálise, sua teoria, clínica e política à cidade ao mesmo tempo em que se abre e se interessa por outros saberes que tratam, de outra perspectiva, as mesmas questões e impasses da época.

Por isso, pareceu muito pertinente tomar como ponto de partida deste Boletim o trabalho com um texto de Jacques-Alain Miller publicado na Revista Opção Lacaniana: “Progressos em psicanálise bastante lentos”. Desse texto, foram extraídos pequenos pontos de leitura sobre o ensino de Lacan que foram comentados por cada uma das autoras.

Trata-se de uma aula do Curso da Orientação Lacaniana, O ser e o Um, em que Miller apresenta a seu tão admirável quanto incansável trabalho de “traduzir a língua de Lacan” em um percurso que nos conduz por uma arquitetura de invenção, uma lógica que não se evidencia facilmente e um gosto pela transmissão da psicanálise que se amplifica, no espaço e no tempo, em uma atualidade radical.

A tensão entre os escritos e os seminários são localizadas em pontos que Lacan queria tratar, as resistências, por exemplo, como podemos ler no texto de Camila Colás. No texto de Sandra Conrado, podemos acompanhar como os Seminários mobilizaram uma economia do saber que faz de sua leitura, até hoje, um lugar de invenção muito vivo. Paula Legey, por sua vez, tomou o vazio de uma “arquitetônica lacaniana” para mostrar como sua topologia se movimenta e nos implica no ensino de Lacan. Essa implicação, como podemos ver com Adriana Pessoa, é a tão citada consequência ao leitor, feita por Lacan, de que é preciso colocar algo de si. Gustavo Ramos encerra esse boletim com um percurso sobre as razões de Lacan de ter escolhido chamar seus Seminários e escritos de “meu ensino” e de ser, portanto, um “ensinador”.

 

Essas sutilezas abrem o campo de uma relação com o saber muito diferente do que encontramos costumeiramente. Mostra também que Lacan pensava o tempo inteiro sobre como conduzir o que se produzia em sua prática clínica e como esse saber, ou mais precisamente, essa relação com o saber, carregava seu ponto de impossível de ensinar. Aí estamos mergulhados nos temas que nos interessam e que animarão o Colóquio que acontecerá dia 26 de novembro, no CentroSul em Florianópolis.

Boa leitura!

 

CENTRO SUL
Av. Gov. Gustavo Richard, 850 – Centro
Florianópolis – SC, 88010-290, Brasil