Como ler Lacan?
Camila Colás
Diretora de Biblioteca da EBP-SP
(…) uma vez começado o Seminário, seus escritos se tornaram depósitos, cristalizações, quedas, rebotalhos dele. Seus escritos, sâo, disse Lacan, testemunhos dos momentos em que ele teria sentido, especialmente no que concerne ao Seminário, resistências a segui-lo.
MILLER, J.-A. Progressos em psicanálise bastante lentos. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 11.
Lacan dedicava-se à escrita e às publicações, antes mesmo de ter começado seu Seminário. Nesse sentido, podemos dizer que Lacan ao escrever e publicar nas revistas de psicanálise, psiquiatria e de outras áreas do saber daquela época, estava em busca de um leitor, queria ser lido e transmitir algo.
Nas primeiras elaborações, ao escrever e publicar discussões de casos clínicos já orientados pela psicanálise freudiana, é possível notar o uso da palavra singularidade que Lacan usava para explicar algum traço do caso, do sintoma ou da paranoia. Para orientar a discussão clínica na direção do singular, recorria imediatamente aos textos de Freud. Podemos nos perguntar: o que Lacan queria transmitir neste primeiro momento? Como queria ser lido?
Sobre os Primeiros escritos, Miller diz: “não teriam sido republicados se não convidassem a uma leitura a posteriori” e ressalta como de imediato se reconhece na leitura destes primeiros escritos uma orientação da clínica para o “´um por um’ imposta pela prática da psicanálise”[1].
Foram os escritos de Lacan que levaram Miller até ele: “sob a injunção de Louis Althusser, tomei conhecimento, no final de 1963, dos artigos de Lacan disponíveis nas livrarias. E foi precisamente assim que fui pego”[2] Mas ao ter seu Seminário começado, Miller diz que “seus escritos se tornaram depósitos, cristalizações, quedas, rebotalhos dele. Seus escritos, são, disse Lacan, testemunhos dos momentos em que ele teria sentido, especialmente no que concernia ao Seminário, resistências a segui-lo”.
Os escritos de Lacan tinham um endereçamento, mas ele escrevia quando tinham “resistência a segui-lo”, dessa forma, ele esteve sempre à altura da época, no sentido de estar atento aos outros discurso. Miller[3], em um Colóquio ocorrido no ano de 2001, em Roma, sobre o ensino de Lacan diz: “o tempo de Lacan era o da psicanálise do presente”. Como podemos entender isto? Se é do presente, é porque o ensino não está dissociado da prática da psicanálise. Se não podemos dissociar o ensino da prática analítica, é preciso a presença viva do analista para estar à altura de discutir a época, afinal, o psicanalista é o sinthoma e não a psicanálise.[4] Esta formulação nos coloca de frente com o que seria a formação do analista de orientação lacaniana que não está dissociado do desejo do analista: “o desejo do analista em cada caso, não pode de modo algum ser deixado fora de nossa questão, pela razão de que o problema da formação do analista o coloca”.[5]
Miller, após a morte de Lacan, é convidado pelo presidente de um dos dois grupos da IPA (Internacional Psychoanaytical Association) em Buenos Aires a dar aulas sobre a teoria de Lacan. Ele não vai e decide que não há ensino sem a prática. Os da IPA queriam só os recursos e “absorver Lacan muito rapidamente (…) separando suas teorias de sua prática”[6].
Tomo esta frase de Miller, como orientação. Para ler Lacan, talvez seja preciso não ter tanta pressa, pois corre-se o risco de absorvê-lo rapidamente e achar que o saber já foi apreendido. Assim, como ler Lacan? Existiria uma forma ou um manual? Acredito que não. Cada um poderá descobrir como ler Lacan e ir ao encontro do seu ensino ao seu modo, sem perder de vista, a formação do analista que não tem fim.
