A interpretação “fora do sentido”.
Rachel Amin[i]
Para Rosine e Robert Lefort, a interpretação no autismo não visa à produção de sentido. Trata-se de uma intervenção que incide sobre o real do significante, sobre lalíngua como acontecimento de corpo, e não sobre uma mensagem a ser decifrada.
A partir do caso de Marie-Françoise[ii], os Lefort mostram que, no autismo, não há um sujeito sustentado pela articulação S1-S2; por isso, uma interpretação que busque revelar um significado oculto pode ser inoperante ou invasiva.
Rosine Lefort, diante da clínica com crianças muito pequenas e que apresentavam uma importante precariedade do simbólico, coloca seu próprio corpo em jogo no lugar de analista, ensinando-nos que a interpretação analítica é, sobretudo nesses casos, um entrelaçamento entre lalíngua e o corpo. O corpo do analista deve estar “encarnar o núcleo do trauma”[iii].
Além disso, ela propõe, nessa clínica, a interpretação “fora de sentido”, que consiste em isolar um significante, uma sonoridade, uma iteração ou um ato de linguagem sem lhe atribuir um significado. Trata-se de um isolamento de S1, um significante no real trazido pelo sujeito, que é preciso redobrá-lo na tentativa de introduzir uma escansão ou um corte em sua iteração. É uma intervenção que visa à localização do gozo, e não à produção de sentido.
Em Nonette, Jean-Robert Rabanel[iv] retoma essa orientação da interpretação fora do sentido. Rabanel nos diz, parceiro se torne um leitor da lalíngua do sujeito, deixando-se orientar por ela.
Trata-se de uma manobra que busca tocar o gozo, a letra ou a iteração significante por meio de intervenções mínimas — uma retomada literal, uma pontuação, um equívoco sonoro ou uma repetição —, evitando recobrir a invenção autística com significações vindas do Outro. É uma intervenção que visa ao S1, à letra ou ao acontecimento de corpo. Seu efeito esperado é uma modificação da posição do sujeito diante do gozo e uma possível abertura ao laço com o Outro.
BIBLIOGRAFIA
LEFORT, Rosine; LEFORT, Robert. A distinção do autismo. Marie-Françoise: o autismo infantil precoce. Belo Horizonte: Relicário, 2017. p. 13-40.
MILLER, Jacques-Alain. L’inconscient et le sinthome. La Cause Freudienne, Paris, n. 71, p. 76, jul. 2009.
RABANEL, Jean-Robert. Une clinique de l’objet a en institution. La Cause Freudienne, Paris, n. 78, Pag. 64-76, 2011.
