Enunciação[1]
Óscar Ventura (ELP/AMP)
O que falar quer dizer nos introduz com um golpe certeiro no território da enunciação, que é provavelmente aquilo mais misterioso e mais enigmático que se põe em jogo na experiência analítica, seu relevo e seus efeitos, na medida em que concernem à própria lógica da relação do sujeito com a palavra, presente do início ao fim da cura.
Lacan e a Linguística da Enunciação
Cabe destacar, para valer como referência, que a linguística se interessa pela questão da enunciação em um momento relativamente tardio, fundamentalmente nos desenvolvimentos da linguística francesa a partir de Émile Benveniste e da publicação, em 1966, e de sua segunda edição em 1974, dos Problemas de Linguística Geral[2], principalmente na seção intitulada O homem na língua, que inauguram o campo de estudo da enunciação na linguística contemporânea, a partir do tencionamento e contraste com a obra de Ferdinand de Saussure, sob o argumento de que ele não levava em consideração, como objeto de estudo, a dimensão do uso da palavra, isto é, o sujeito da enunciação como tal. As teorias linguísticas ganham relevância na medida em que pretendem formalizar a enunciação, situando os ditos e as estruturas gramaticais e sintáticas que permitiriam localizá-la em uma frase, por exemplo, a partir dos dêiticos, dos advérbios de enunciação, a exclamação. Em suma, as estruturas mais amplas da língua permitiriam uma localização da enunciação e uma universalização de sua gênese.
É necessário sublinhar que o interesse de Lacan em estabelecer uma lógica da enunciação precede as teses linguísticas dos anos 1960. Embora Lacan não deixe de levar em conta os postulados de Émile Benveniste e seja provavelmente por seu intermédio que tenha tomado conhecimento da teoria dos atos de fala (speech acts), de John L. Austin[3], e da filosofia analítica americana, estas reduzem o ato de falar a um pragmatismo, considerando-o, em última instância, como uma função performativa. E o que daí decorre implicaria sustentar que o sujeito sabe o que diz; e mais ainda, que manteria uma relação de domínio sobre aquilo que diz ao falar. Sem dúvida, Lacan se inscreve muito longe de qualquer tese pragmática da língua, bem como de qualquer concepção evolutiva da relação da criança com a linguagem que teria como corolário uma suposta maturidade ou etapa final no que se refere à relação do sujeito com a palavra.
Desde muito cedo, Lacan mostra que, se há algo que a experiência analítica verifica, é que a enunciação possui uma localização muito precisa para o sujeito que fala, e ela se localiza justamente aí; no não dito, a enunciação evoca uma ausência. Em diferentes momentos de seu ensino, Lacan sustenta sempre a enunciação sob o estatuto do enigma, como um impossível de dizer, estrangeira, em seu sentido mais puro, ao próprio enunciado. Lacan chega a afirmar que: “Um enigma, como seu nome indica, é uma enunciação da qual não se acha o enunciado.”[4]
Momentos da enunciação
Podem-se indicar diferentes momentos do ensino de Lacan em que ele aborda a questão da enunciação. Do Seminário As Psicoses e De uma questão preliminar… até seu último ensino, há sempre uma constante: a enunciação é efeito de uma falha; em primeira instância, de uma falha no campo do desejo e, posteriormente, de uma falha radical em relação à disjunção que se estabelece entre o gozo e a palavra. Dito de outro modo, situada na lógica da economia psíquica, a enunciação é, de uma maneira ou de outra, efeito de uma perda de gozo.
A partir da construção do grafo do desejo, Lacan apresenta uma formalização inédita da enunciação. Já na primeira lição do Seminário 5[5], ele produz a distinção entre enunciado e enunciação por meio da análise do Witz freudiano do familionário. E continua essa elaboração no Seminário 6[6], no transcurso de uma extensa sequência de lições que dão conta do deslocamento do sujeito do enunciado para o sujeito da enunciação. Há sucessivas reformulações do grafo até que ele encontre sua versão definitiva no escrito Subversão do sujeito e dialética do desejo... Lacan empenha-se em situar uma lógica da enunciação articulando os dois níveis do grafo. No primeiro andar encontra-se a dimensão do enunciado, solidária às formações do inconsciente, no qual o sujeito recebe do Outro sua própria mensagem de maneira invertida. Esse andar encarna o estatuto do Outro da linguagem e fixa a significação por meio do ponto de capitonê; é o Nome-do-Pai que facilitaria a significação. Todas as operações metafóricas e metonímicas localizam-se nesse nível.
Entretanto, nessa articulação, há que considerar que o Outro, como tal, é tributário de uma falta, a ausência que nele se aloja é a condição que permite a Lacan inscrever a enunciação no segundo andar do grafo. A condição para que a enunciação se estabeleça implica esse furo no Outro, a fuga no sistema das representações só pode alojar ali aquilo que no dizer, como tal, é inominável. Nesse sentido, a enunciação é o que faz borda nesse espaço, onde não existe o significante que poderia dar conta daquilo que é o campo libidinal do sujeito. Esse inominável ganhará ainda maior consistência a partir do Seminário 10[7], quando Lacan faz emergir o objeto a, estrangeiro e heterogêneo ao sistema de representações do Outro. A passagem de um andar ao outro, do enunciado à enunciação, implica uma disjunção irreversível entre o sistema das representações do sujeito e seu tempo libidinal.
Num primeiro momento da formulação do grafo, a enunciação era veiculada pela determinação inconsciente e articulada à dialética do desejo. Contudo, à medida que o Outro se torna inconsistente, Lacan começa a elucidar a dimensão da enunciação articulada ao real.
Um real da enunciação
Não poderíamos desconsiderar a reformulação conceitual que Lacan opera a partir de seu último ensino, a qual permite colocar em perspectiva a articulação da enunciação com o real e com o corpo. A partir do Seminário 20[8], Lacan institui um deslocamento que é radical para apreender um novo estatuto da enunciação. Trata-se daquele que vai do Outro da linguagem ao corpo como Outro, solidário também da passagem do inconsciente para a lalíngua.
Se o inconsciente estruturado como uma linguagem fica reduzido a um aparelho de gozo, a enunciação não pode mais que orientar-se a estabelecer o fracasso daquilo que, na linguagem, não cessa de não equivocar. E esse equívoco é tributário de uma reação que só se inscreve como uma irrupção no acontecimento de corpo. Talvez esse impacto seja o índice clínico mais preciso de que dispomos para dar conta de que a enunciação permanece enodada a um real próprio para cada um. Poderíamos dizer que o sintagma de Lacan, “o mistério do corpo falante”[9], poderia ressoar o mistério mesmo da enunciação: trata-se justamente de que, em última instância, não há forma do dizer que não implique as coordenadas da inexistência.
Se o ser da linguagem tem vida, é precisamente por causa da falha estrutural à qual a própria linguagem está submetida: “para a linguagem significa algo muito diferente do que chamamos simplesmente vida. O que significa morte para o suporte somático tem tanto lugar quanto vida nas pulsões que provêm do que acabo de chamar de vida da linguagem. As pulsões […] provêm da relação com o corpo […] além disso, o corpo tem furos. É inclusive o que, no dizer de Freud, teria de colocar o homem na via desses furos abstratos concernentes à enunciação do que quer que seja”[10].
É nessa via, na via a esse território dos furos pulsionais, que se encaminha o ato analítico. O corte, veiculado pelo próprio corpo do analista, concebido como a forma mais radical do ato, oferece a possibilidade de produzir mudanças no registro da enunciação e de ordenar de outra maneira a economia libidinal. Ele opera no nível do enunciado e objeta o sentido que o próprio enunciado pretende aprisionar.
A experiência clínica dá testemunho disso, na medida em que há sequências nas quais se podem isolar passagens que dão conta de um franqueamento e que produzem como efeito uma nova modulação da enunciação. Não são banais os momentos em que é possível precisar, por exemplo, a passagem de um sujeito da queixa ao sintoma, da culpabilidade à responsabilidade, de uma queda identificatória à assunção de um modo de gozo. E assim até o fim, até o próprio ponto da certeza de que “… o fundamental da língua consiste em que ao falar, se cria”[11]
Se a enunciação é o que faz laço de maneira autêntica, é porque seu registro só é concebível na medida em que o corpo é comovido por um dizer singular, que não se ampara em nenhuma representação nem em nenhum sentido. Inclusive sem um enunciado que a sustente.
Tradução: Juan Galigniana
