MÚSICA AOS OUVIDOS[1]
Fernanda Otoni Brisset (EBP/AMP)
Como extrair, da leitura cruzada entre Freud e Lacan do caso Hans, uma bússola que possa servir de orientação para a experiência analítica hoje, no trabalho de formação que a Escola oferece à sua comunidade? O que o caso Hans nos ensina hoje?
No Seminário 4, Lacan toma alguns casos clássicos para mostrar que a relação de objeto que dá título ao curso demonstra, na verdade, que a mola da relação do sujeito com o mundo é a falta de objeto[2]. Há um furo real irredutível com o qual cada um tem de se haver, seja como for: privado, frustrado ou castrado. Aquele Seminário é, assim, um mergulho de Lacan no funcionamento dessa mola.
Não por acaso, Hans ocupa grande parte do Seminário 4, um caso surpreendente por uma razão simples e rara: nele podemos acompanhar, passo a passo, a antessala da formação de um sintoma, sua instalação, funcionamento, desdobramentos e transformações rumo à sua resolução, sendo o único caso sobre o qual Lacan se detém para extrair uma lógica da cura, como destaca Jacques-Alain Miller.. Aula a aula, Lacan retorna a Freud, seguindo a matéria da língua que, na usina da linguagem, se desdobra, como aparelho de gozo, na montagem de uma “resolução curativa”, para retomar a expressão do próprio Lacan. Se o objeto, para Lacan, perdido está, o falo surge como um objeto extraído do mal-estar[3] em condições de conectar esse não há ao que há na invenção de um mundo – um sintoma.
Em meio ao labirinto em que o próprio caso nos força entrar, puxarei alguns fios para lhes trazer uma primeira escansão desse retorno a Freud e Lacan.
Antessala da mordida
Hans “vivia feliz” imaginando ser o que a mãe deseja: ele se exibe e ela se encanta pelo pequeno exibicionista. Era vivamente interessado pelo seu faz-pipi, seu e dos outros seres vivos, especialmente os de gente grande. Seu interesse era teórico e prático: apalpa, manipula, examina e fantasia sua presença por todo lado. Em primeiro lugar, quis saber se sua mãe tinha um; ela diz que sim, mas não lhe mostrou. Sem ter acesso às provas, Hans deduz por comparação que, por ser grande, ela teria um faz pipi tão grande como o de um cavalo[4]. O significante cavalo entrou aí e dele irá se servir na montagem do que está por vir. Ele brinca com o faz-pipi, o seu e o dos outros. A brincadeira era de esconde-esconde, pois, como diz Lacan, o falo nunca estava ali onde se o procura, nunca ali onde se o encontra. Agora, trata-se de saber onde ele está, realmente[5]. Hans não media esforços para colocá-lo à prova em sua investigação obstinada. Só se fala de falo […] objeto central da organização de seu mundo e, concomitantemente, se engaja de corpo e alma na relação com a mãe, pela qual atesta à mãe que pode satisfazê-la, não somente como criança, mas também quanto ao seu desejo e, para dizer tudo, quanto àquilo que lhe falta[6]. Uma relação imaginária tapeadora, diz Lacan. Capturado pelo engodo que arma, ele é feliz!
O que então põe fim a essa relação tapeadora?
A mãe ameaça cortar o seu faz-pipi se dele não tirar a mão; ela o reprova no mesmo tempo em que ele prova a chegada indesejável daquele bebê, sua irmã, que nasce sem falar, sem dentes e cujo faz-pipi nem se vê. Não há relação entre o esperado e o apresentado. O que muda é que o seu próprio pênis começa a tornar-se alguma coisa completamente real[7], sofrendo a imiscuição de um gozo do qual não sabe nada. O falo desliza do imaginário ao real como uma equivalência instável, e é nesse plano que tudo oscila.
[…] o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar. É isso aí, a angústia. […] Ela [a criança] é aprisionada em sua própria armadilha, vítima de seu próprio jogo, […], confrontada com a hiância imensa que existe entre satisfazer uma imagem e ter algo de real para apresentar[8].
A pulsão real no corpo desarma o jogo imaginário, coloca em xeque sua certeza de o ser falo da mãe. O que ele tem lhe parece algo miserável, e isto é decisivo, como anota Lacan. O real da existência, ora trop, ora trou, arranca o pequeno falante do paraíso do engodo, a falácia do jogo fálico se revela – e se vê sozinho com a inquietude de seu faz-pipi, quase nada. Ser tudo ou nada para a mãe é o centro de gravidade – seu próprio ser fica ameaçado –, um buraco para onde pode ser aspirado ou, para dizer com Lacan, devorado. O mundo feliz do faz de conta desaba, está no epicentro do trauma.
Urge construir uma saída …
Como resposta provisória, Hans inventa um “quarto escuro”, onde “desaparece” para fazer xixi. Esse banheiro fantasiado existe para “fazer xixi”: ali faz sem fazer, manipula a coisa obscura, sozinho, fabricando algo que “não existe”.
É o momento aberto a uma dimensão que permitiria a passagem do imaginário ao simbólico – anota Lacan – se sobre o fundo insondável do desejo materno situasse onde está o pai. Não o pai como pessoa gentil sempre presente, mas o pai real com as ferramentas do reino da lei, para salvar o pênis real da mira da gula materna, ao entrar em cena com o arsenal simbólico de substituições possíveis. A simples presença empírica do pai não basta para resgatar o sujeito de sua imersão na insuficiência fundamental do “não ser”.
E é daí que nosso pequeno investigador parte para a construção de uma defesa diante da suposta potência infinita e do opaco desejo materno. Lá onde o pai não responde plenamente à sua função – uma invenção se apresenta como suplência.
Hans inventa um sintoma fóbico – uma borda: a mordida de um cavalo.
Da mordida ao mecanismo – a presença do analista
No Seminário 4, Lacan formaliza as transformações da posição subjetiva de Hans em análise – tentando extrair a lógica da cura, a passagem do engodo em que o sujeito vivia feliz – como falo da mãe – à verificação, pelo absurdo, de um “não há” absoluto como operador do mecanismo que leva à resolução do impasse.
Lacan em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, sublinha que “Hans desenvolve, sob forma mítica, todas as permutações possíveis de um número limitado de significantes”[9]. Da chuvarada de significantes que o banha, alguns ficam detidos com alta voltagem pulsional, cuja força faz girar a usina da linguagem. O cavalo é um desses significantes que já estava na usina aguardando para entrar em cena. Verificamos, como indica Miller, que de fato há um número limitado de significantes essenciais – aqueles que marcam o corpo, com incidência libidinal – e são esses que giram, combinam-se, retornam em outras configurações. A análise segue seu trabalho com esse giro, até que se produza uma mudança, um ponto de basta, uma resolução do impasse que se resolve numa forma de amarração, uma nova amarração, uma trama que satisfaz, não como dedução linear, mas efeito da dinâmica libidinal que revira os elementos na estrutura. Ou seja, esses giros permitem ler o mesmo de outra maneira quando são ordenados de outra forma.
É o que vamos ler ao seguir o trabalho de Hans em sua usina linguageira.
Hans acorda pensando que a mãe foi embora e ele não a teria para fazer dengo. No passeio ao parque, naquele dia, enuncia: “Tenho medo do cavalo me morder”. É o enunciado inaugural, dirá Freud. O sintoma fóbico entra na cena montado a cavalo e faz a passagem da angústia difusa deflagrada na antessala da mordida para uma forma em que o perigo se desloca para fora: é o cavalo que morde e é com ele que Hans passa a negociar. Ele condensa, ao mesmo tempo, o risco de ser engolido pela potência materna e a transposição desse risco para fora de si, num objeto externo, perigoso, mas delimitado – o cavalo –, esse objeto extraído do mal-estar, bela expressão de Lacan. O cavalo na estrutura lógica do sintoma fóbico funciona como objeto-sentinela, sinal de angústia que cria limiares, redesenha interior e exterior, limita deslocamentos, torna o mundo habitável, lá onde o pai não responde ao seu chamado.
A presença de um pai que fala, que escuta, que anota, não é suficiente para estar à altura de sua função. O pai de Hans se endereça a Freud pois, na verdade, ele também não tem como responder à pergunta “o que é um pai?”. E o caso aí já ensina que o analista em carne e osso não precisa estar presente para que a presença do analista opere.
É com a entrada do analista que o caso situa, com mais precisão, a função do pai, onde ele deve estar. A princípio, Freud orienta o pai a nomear o sintoma como uma bobagem e a dar sentido ao que lhe ocorre: “você gosta da mãe e quer ir para a cama com ela; por ter se interessado tanto pelo faz-pipi do cavalo, tem medo dele.” Introduz um pai que nomea e puxa o fio do simbólico. Hans bota a mão nele, entregando-se ao jogo das associações.
Hans vai ao encontro de Freud e, forçado a dizer algo a mais, aparece um detalhe que não se conecta a nada: a mancha preta em volta da boca do cavalo. O “professor Freud”, mais uma vez, mete o pai no complexo para abordar o real que aflige a criança:
Eu lhe revelei que ele temia o pai, justamente por gostar tanto de sua mãe. Ele devia acreditar por isso que o pai não gostava dele, mas isso não é verdade, pois o pai gosta mesmo muito dele e que ele podia confessar tudo ao pai, sem temor. Que muito tempo antes dele nascer, Freud já havia ficado sabendo que chegaria um pequeno Hans que amaria tanto a sua mãe, a ponto de precisar temer o pai[10].
Freud outorga ao pai o lugar da função de ordenador significante, conjugando lei e amor. Hans pergunta se o professor fala com Deus para saber das coisas. Supor em Freud um saber sobre o que se passa com ele, um saber sobre o real, o faz galgar outro lugar. O que se verificará a seguir é impressionante: o inconsciente transferencial se desperta e produz sonhos, fantasias e desenhos que se deslocam em uma sequência associativa incessante. Ele as endereça ao professor, se deixa levar pela espiral da linguagem e melhora consideravelmente.
Suporta melhor os cavalos, classifica-os. O medo generalizado se especifica: cavalos que mordem. Entra em jogo uma série de conexões simbólicas, substitutivas… Quando parece que a coisa está solta, Hans recomenda ao pai ir falar com o Professor, pois ele deve saber. Ele parece saber que as peças soltas podem encontrar um novo modo de se enroscar na trama. Hans se serve da transferência como um dispositivo conector. para enlaçar o que se apresenta disjunto: o gozo e o sentido. A coisa remexe o tecido na estrutura do corpo falante, muda de lugar, permuta, transforma enquanto se desloca. Sob transferência, investiga novas questões. Um jogo intenso de deslocamentos, permutações, deslizamentos significantes que animam a usina linguageira a todo vapor.
É quando o cavalo que morde se desloca para o cavalo de carga… e Hans se entrega a uma espécie de romance fantástico para responder “de onde vêm os bebês”… chegou numa caixa, num carro, em cima de cavalos… diferencia, sequencia, faz permutações até deslizar a coisa para os ouvidos… cavalo trotando, cavalo que cai… o que o leva mais longe em seu circuito associativo e informa que pegou a bobagem quando viu um cavalo cair e fazer assim com as pernas… e faz barulho com os pés. Lá onde a palavra não alcança, sob transferência, força um giro a mais que perfura a cena para dar passagem à substância sonora por um novo orifício.
Que barulho é esse? A língua do som.
O pai conta que esteve no consultório de Freud e Hans fica curioso para saber o que conversaram, mas nem espera o pai responder e entrega que mexe os pés “quando fica uma fera ou então quando tem que fazer lumft”[11].Algo que só se pode ouvir, não faz parte do que se diz, do que se vê, mas do que se ouve, mas está por ali, por “cair”.
Sigamos nossa pesquisa: a palavra lumpf é um som mais do que uma palavra. Hans aí, quando o pai evoca o analista, força suas associações a se deslocar para investigar o que ouve, o que se passa pelos seus ouvidos. Entre o som e o significante passa toda uma experiência… Insistia em observar sua mãe cagando e nomeava o barulho que faz o cocô ao cair do corpo materno: lumpf! O objeto não está lá, mas sua perda deixa uma marca que ressoa assim: lumpf. Ele alça ao dizer o som do objeto perdido… uma queda que ressoa… o som testemunha sua perda. Ele inventa com os ouvidos um significante novo que guarda o som de um resto que cai – lumpf. Ouvir se mostra um lugar libidinal privilegiado para este ser falante. Ele se interessa pela diferença do barulho que faz quando homens e mulheres urinam… ele ouve a relação que não há entre os sexos. Diz que “um barulho grande lembra o lumpf, já um pequeno lembra xixi”[12]. Lumpf se torna um significante ordenador, palavra que ressoa o que se passa naquilo que se ouve:
[…] a queda do cavalo que faz um estrondo (faz lumpf); o ressoar das patas do cavalo ao trotar (lumpf); a criança que cai da mãe no parto – e que, em alemão, é niederkommem (literalmente, cair, vir abaixo) – também é nomeada por ele de lumpf. Com a invenção da palavra Lumpf, ele faz uma série de diferenciações para ler o que se passa no seu mundo barulhento: forte, suave, rápido, lento etc.[13]
Como esse elemento sonoro se articula à trama do seu enredo fantástico?
Lumpf é o nome do que não se escreve – substância sonora. Em seu trabalho, Hans é um criador, um artífice do som e faz de lalíngua matéria prima do seu savoir-faire. Hans parte para o campo ficcional – um imaginário radical que dá a impressão, dirá Lacan, de estar zombando de todos –, mas, em verdade, é um imaginário que atua freneticamente para ordenar as peças soltas, para organizar o mundo simbólico em torno de um real que só se pode imaginar. Ao seguir a língua do som, ele faz das suas criações linguageiras um suporte para escoar o real do gozo que não se liga a nada. Ele fabrica o falo, não mais imaginário, mas como uma ferramenta que lhe permita entrar na dimensão do semblante.
Do faz-pipi ao fazer do falo.
Lembramos que em “A significação do falo”, um ano depois de seu Seminário 4, o falo resulta da ação metafórica do pai sobre o desejo da mãe, localizando um limite para o gozo materno. No caso Hans que, na ausência de um pai real efetivo em sua função, foi montado a cavalo que nosso pequeno se instala nessa outra ditmension – o inconsciente – para inventar formas de se defender desse gozo devorado e responder aos impasses de sua existência. O significante fóbico – cavalo – funciona como um limite provisório – um suplente – na ausência de uma solução mais efetiva.
Na década de 1970, no Seminário 18, De um discurso que não fosse semblante, Lacan propõe que o simbólico já não tem tanto o mesmo valor. Naquele momento, Lacan já havia formalizado o fato de que tem algo no gozo impossível de apreender, seja pelo simbólico ou pelo imaginário. Tem algo amorfo que resta irredutível, inimaginável e indizível e que não cessa de não se escrever. O gozo só cria obstáculos. Então como ele participa na manufatura dos laços do corpo falante? Afinal, nós fazemos amor…?[14] Lacan responde ser com o falo que é, muito propriamente, o gozo sexual como coordenado com um semblante, solidário a um semblante[15]. Entretanto, se algo do gozo se passa ao discurso, através da usina da linguagem, sobra um resto que não se liga a nada, do qual nada pode ser dito, que segue como uma mancha irredutível e que ressoa como um barulho que cai. Afinal, dirá Lacan, a estrutura é tal que o homem em si, do modo como ele funciona, é castrado[16].
No caso de Hans, o pai real, em sua presença vacilante, encontra no dispositivo analítico – a intervenção de Freud – um modo de operar como nomeador, introduzindo diferenças, construindo ferramentas simbólicas, redistribuindo lugares, dando consistência lógica ao “não há”. E a cura chega quando constrói de forma articulada uma ficção sobre a castração – Não vou citar, pois todos leram – entra o encanador, lhe desparafusa e lhe dá um faz-pipi novo em folha. Quando o sujeito acede ao falo simbólico como dispositivo conector, a fobia cede. O que era fixação deve tornar-se destacável. A ameaça de perda se converte em operação de troca. O falo torna-se mobilizável. O “não há” pode ser assumido.
Porque ao real nunca se acede, só se pode imaginar com as verdades mentirosas cuja montagem é obra da articulação do falo em sua função de semblante. Para tanto, é necessário que “o menino assuma o falo como significante”, ou seja, tomá-lo como um conector para operar uma sofisticada operação de enodar os três registros – uma ordenação lógica. O não há deixa de ser vivido como um déficit e passa a ser a mola da criação de uma solução inédita.
Da Usina à Ópera: um percurso lógico
Lacan segue Hans e sua usina linguageira, o transitório, a permutação. O caso se escreve como estrutura que segue constantes em movimento. No caso de Hans, foram tantas voltas, tantos circuitos, até encontrar uma solução que ordene o conjunto, apresentando-lhe uma saída absolutamente inédita do complexo labirinto onde estava enredado. É o mesmo banheiro, o mesmo faz-pipi, a mesma banheira, mas entra aí um encanador, e lá onde a coisa estava grudada, desparafusa, para enroscar um do mesmo, mas maior: esses giros permitem manter a estrutura de uma nova maneira.
Assim, vimos que o esforço de Hans foi para encontrar um mecanismo – o falo como semblante – com o qual operar, sem ter que ceder seu ser para saciá-lo, mesmo porque precocemente descobre que o desejo pode ser insaciável. Ele consente com o objeto que não há, e se não há, outro pode vir no lugar… não é mais tudo ou nada – o não todo participa como operador do mecanismo que gira em torno de um não há original.
Em resumo, o tratamento de Hans promove a passagem do falo imaginário ao falo simbólico. O momento da crise se situa na irrupção do falo como o real que verifica a inexistência da relação (entre a criança e a mãe) e na aparição da irmã – que desestabiliza a posição subjetiva. O sintoma fóbico surge como uma operação (substituições, permutaçoes e transformações) cuja função é fazer suplência ao pai real que não entra: é um tempo para compreender, no qual o pequeno investigador se dedica para construir um pequeno Nome-do-Pai, por vias tortas, para essa travessia. A mãe deixa de ser totalidade ameaçadora e entra num sistema manipulável. A potência opaca se reduz ao localizável. O ilimitado se torna delimitado. Em analise se verifica o giro decisivo quando Hans passa da mordida ao mecanismo, como evoca JAM. Esse é o gesto clínico fundamental que ganha atualidade: porque ele nos mostra, com precisão, como um sintoma pode funcionar como uma montagem que limita e diversifica.
É precisamente aqui que se abre o campo das questões que gostaria de dirigir à comunidade analítica. Se em Hans a lógica da cura se confunde, em grande parte, com a metáfora paterna, o que acontece quando o Nome‑do‑Pai se apresenta de forma mais vacilante, mais pulverizada, mais “sintomática” nas configurações contemporâneas? Em que medida ainda podemos contar com montagens fóbicas que assumam, por um tempo, a função de borda e de suplência, e como ler, caso a caso, quando essa suplência se cristaliza e quando ela se deixa trabalhar como “tempo para compreender”?
Ler hoje o Seminário 4 e o texto de Freud sobre Hans, não como “caso histórico”, mas como um caso único, orientados pela lógica da cura tal como a extrai JAM, é situar a direção do tratamento e o desejo do analista no coração da nossa prática. Se aí estamos, na apresentação dos casos deveríamos encontrar uma forma de ordenar o vocabulário próprio de cada análise que conduzimos e fazer o esforço de ler as coordenadas do caso a partir de um detalhe operador – como a mordida em Hans – para bem seguir o singular da cura. Lendo a atualidade do caso Hans, ainda hoje, o que fazemos, na direção da cura, quando não há mais a “cura por excelência” de um sintoma que se apaga com clareza, mas, antes, montagens múltiplas, soluções mais oblíquas, suplências que já nascem sob o signo de um Nome‑do‑Pai‑sintoma?
Como se conclui uma análise se o inconsciente, por estrutura, repete e não existe percurso que resta zero? O que Hans pode nos ensinar sobre o destino do que se repete na vida como ela é?
Glacy Gorski[17] no Enapol nos comentou que Herbert Graf, o pequeno Hans, que em uma entrevista já adulto, revela o que soube fazer com as marcas da lalíngua. Freud diz que seu amor pela música surgiu ao mesmo tempo que a sua angústia, inclusive, a descrição detalhada da sua fobia por cavalos parece uma opereta. Sua história é cheia de barulhos: as carroças de todo tipo que cruzam a cidade, os cavalos que trotam com proeza, o ressoar do chicote, as carroças de carga que circulam com rapidez, grandes, barulhentas, pesadas; por fim, aquelas que caem mais e as que caem menos. Na adolescência, Herbert disse ao diretor do colégio que queria ser diretor de ópera, sendo ridicularizado pelos colegas, pois essa profissão não existia. Herbert seguiu mesmo assim. Mais tarde, ele se faz diretor de ópera. Ele inventa, de fato, a profissão que tanto sonhara. Como já apontava Freud[18], temos, aí, algo tensional, irremovível e persistente: a “força constante da pulsão”[19].
Enfim, se nos deixarmos ensinar, caso a caso, pelo laboratório que é Hans, sem o transformar em norma, mas tomando‑o como operador lógico para ler outras trajetórias, outros giros, outras maneiras, sempre singulares, de um falante responder, com o que há àquilo que não há, encontramos com a opera que se encena no teatro analítico e embalados pela língua da música de cada um, vamos verificando que não há relação, não há objeto, não há Outro. Mas em um instante oportuno, o “não há” deixa de se apresentar como a boca da esfinge que devora ao se reduzir a um simples furo – é quando, enfim, se dá passagem a um respiro que areja o mundo do corpo falante como música aos ouvidos!
