Uma leitura assistida do inconsciente
Gustavo Ramos
Diretor de Biblioteca da EBP – Seção Sul
Lacan nunca disse: “minha obra”. Tampouco dizia: “minha teoria”. Ele dizia: “meu ensino”. (…) O que distingue um autor de um ensinador? Em primeiro lugar, um autor tem leitores, ao passo que um ensinador tem alunos. Além disso, o autor fala potencialmente para todos, já o ensinador fala para alguns.
MILLER, J.-A. Progressos em psicanálise bastante lentos. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 10
A leitura em um processo de análise se dá desde o seu início, ainda nas entrevistas preliminares. O candidato a analisante, ao fazer uso da associação livre, inicia o que podemos denominar de leitura do inconsciente. Em um primeiro momento, essa leitura pode se enquadrar na decifração de sentido; porém, ao longo do tempo, o sentido vai perdendo seu lugar para dar espaço ao que escapa de suas garras. Nesse meio tempo, a posição do analista também sofre uma modificação, como bem apregoou J.-A. Miller ao postular a passagem da escuta do sentido à leitura do fora de sentido[1], de modo que não é mais tão importante o que o paciente diz, mas a posição que ele ocupa ao dizer o que diz, ultrapassando o dito. A questão sobressalente é a do movimento contrário: se o analisante pode fazer uma leitura de seu inconsciente, a partir desse ato nós poderíamos denominá-lo de autor dessa leitura?
De um lado, há a incidência do auctor enquanto o seu testemunho pressuporia sempre algo – fato, coisa ou palavra – que lhe preexiste e cuja realidade e força devem ser convalidadas ou certificadas[2]; de outro, a auctoritas de que é preciso estar investido para que a palavra proferida tenha força de lei, ao contrário do que se tem dito, não o poder de fazer crescer (augere), e sim a força (scr. ojah), divina em seu princípio (cf. augur), de ‘fazer existir’[3].
O autor munido de sua autoridade faz valer o teor de seu escrito como válido para todos e, por essa via, poderia ser enquadrado como uma obra. Talvez seja por esse viés pelo qual Jacques Lacan não se referia ao que transmitia como “minha obra”, tampouco “minha teoria”, seu corolário. Ele preferia dizer seu ensino, e este também recebia uma leitura diferida do ensino no âmbito da universidade, na medida em que o ensino proposto por Lacan era o de alguém na posição de analisante, justamente aquele que no início de uma análise inicia sua leitura do inconsciente.
Já no encerramento do Congresso de Roma (2006), J.-A. Miller afirmou: “Pois bem, […] para um analista, seus analisantes, mesmo os coroados com o título de Analistas da Escola, não são suas obras. A obra, caso haja uma, o opus, está para além dele.”[4] Aqui estamos diante de uma constatação importante: o analisante não é uma obra de seu analista, no entanto produz uma leitura. Indo mais além, o analista não seria o certificador que validaria o teor da leitura do inconsciente de seu analisante, mas pode ser quem vai acompanhar seu analisante pelas veredas do que lhe sucede, afinal de contas o sujeito em análise não sabe ler sozinho isso que lhe acontece. É somente se valendo de um instrumento valioso, a transferência, que vai lhe permitir realizar uma leitura assistida do inconsciente; assistida não na regência verbal do sentido de ver e olhar – pois isso levaria água ao moinho do sentido, mas na de dar assistência, socorrer, acompanhar. Nesse caso, desde as entrevistas preliminares, o analisante entra em um percurso no qual realizará uma leitura de seu inconsciente, fazendo uso da transferência e do analista para esse intento, tornando-se assim, ao final, não o autor, mas o agente dessa leitura. São os efeitos dessa leitura que podem ser transmitidos no que chamamos, com Lacan, de ensino na psicanálise.
