Jaculatória, palavra que fere …
Jésus Santiago
O discurso em questão não faz cadeia […] Desde então, trata-se de saber se o efeito de sentido em seu real tem a ver com o emprego das palavras ou com sua jaculação […] Acreditava-se que eram as palavras que tinham peso. Mas à medida que tivemos o trabalho de isolar a categoria do significante, acabamos vendo que a jaculação comporta um sentido isolável .
Lacan, J. Seminário XXII, RSI (1974-1975). Séance du 11 février 1975. Ornicar? Paris, n. 4, p. 97.
Retomar a jaculatória como horizonte para renovar a prática interpretativa implica uma reinvenção que se pretenda à altura do sintoma como acontecimento de corpo. Tal como reinventada no ensino de Lacan, a jaculação constitui — como sugere Éric Laurent — um filão fecundo para pensar a interpretação enquanto acontecimento[1]. Elevar o ato interpretativo a essa dignidade exige, primordialmente, distinguir a fala do dizer. Em Les non-dupes errent, Lacan adverte: nem toda fala é um dizer; do contrário, qualquer locução seria um acontecimento e as falas vãs não seria faladas. O dizer, diversamente, é da ordem do acontecimento[2]. Se a interpretação permanece como pilar da psicanálise, é porque sua operatividade reside no alcance das palavras. Neste momento do ensino, a interpretação postula-se como um instrumento que rompe com o vazio do falatório para atingir o dizer capaz de confrontar o insuportável do sintoma — única maneira de abrir uma porta ao real.
Portanto, a jaculação, enquanto dizer da ordem do acontecimento, emerge como meio apto a enlaçar a interpretação ao sintoma, este concebido como a reiteração do gozo do Um sobre o corpo. Para que a interpretação se sustente como jaculação, torna-se necessário transcender a função da fala, comumente voltada a gerar efeitos de sentido. Ir além dos efeitos de sentido — situados na junção do imaginário com o simbólico — implica reconhecer a jaculação como incompatível com um dizer esclarecedor ou com a tradução obtida pelo acréscimo de um significante-dois a um significante-um[3]. Assim, um ano após formular a interpretação como acontecimento, Lacan, no Seminário RSI, explicita a interpretação como jaculação: ‘O que apresentamos como o nó borromeano já vai contra a imagem de concatenação. O discurso em questão não faz cadeia […]. Desde então, trata-se de saber se o efeito de sentido em seu real tem a ver com o emprego de palavras ou com sua jaculação […]. Acreditava-se que eram palavras que tinham peso. Mas, à medida que tivemos o trabalho de isolar a categoria do significante, acabamos vendo que a jaculação comporta um sentido isolável[4].
Depreende-se que o caráter a-semântico da jaculação não se reduz à mera erradicação do sentido, mas à urgência de isolá-lo em seu efeito de real. Construir a interpretação como o que faz nó entre o dizer e o acontecimento de corpo é contrapor-se ao discurso que faz cadeia, o qual se sustenta sob o imaginário da concatenação. Tal perspectiva borromeana, reiterada nesta lição do R.S.I., posiciona a jaculação como a via privilegiada para extrair o real do efeito de sentido, operando, assim, um tratamento efetivo sobre as disrupções do gozo.
Laurent propõe que o enodamento entre o dizer e o acontecimento de corpo — próprio à jaculação — converge para a noção de vociferação, articulada por Miller na lição final de seu curso Todo mundo é louco[5]. O cerne dessa conceituação reside na ruptura com a equivalência entre a vociferação e o enunciado proposicional, este último tradicionalmente submetido à binaridade do verdadeiro ou falso. Diferente do fato proposicional, que se esgota em sua validade lógica, a vociferação e o enunciado poético operam para além desse critério. Embora ambas se fundamentem no par enunciado/enunciação, Miller define a vociferação pela suspensão dessa distinção, fazendo com que o enunciado e a enunciação se tornem indivisíveis no corpo falante.
É precisamente nesse ponto que a jaculação se equivale à vociferação: em ambas opera a suspensão da diferença entre enunciado e enunciação. A essa indivisibilidade soma-se o imperativo do corpo; vociferar exige um corpo em sua condição de falasser. Isso implica que tanto a vociferação quanto a jaculação convocam a voz como objeto (a) — aquele que mais tangencia a consistência lógica do real do gozo. Dentre as cinco formas episódicas do objeto, a voz é a que menos se deixa capturar pelo semblante do aparelho significante. Por situar-se na vertente do real, a voz na jaculação abre caminho à escritura e, consequentemente, à impressão, à rasura e à cunhagem da letra sobre o corpo.
A vociferação constitui a face renovada da jaculação, deslocando a interpretação para a vertente da ressonância do significante e franqueando a via do equívoco. Para a jaculação, o significante atua menos pela produção de sentido e mais pela sua ressonância como real, fazendo vibrar a voz além da significação. Através do objeto voz, a interpretação joga com a equivocidade dos significantes que agenciam o gozo, aproximando-se, assim, do estatuto da escritura. Apenas a escrita é capaz de circunscrever e isolar o real do efeito de sentido. Consequentemente, o inconsciente deixa de ser confundido com a revelação dos capítulos censurados da história do sujeito, transmutando-se em um texto que se lê e no qual a leitura equivoca, esvaziando o sentido ao dar ouvido aos ruídos de lalíngua. De fato, esse texto escrito do inconsciente, no que tange à linguagem, pode autonomizar-se[6] — a exemplo do rigor matemático — o escrito do inconsciente faz suplência ao sentido pelo rastro do som.
Para transmutar o inconsciente em um texto legível, é imperativo abdicar da premissa de que interpretar equivale a escutar significações preestabelecidas. A interpretação convoca, fundamentalmente, o ato da leitura em detrimento da escuta. Enquanto esta última se detém nas significações que despertam a compreensão — mantendo o gozo subjacente[7] —, a leitura opera em outra dimensão: nela, o significante ascende à condição de letra, desvinculado da tirania do sentido. Diferente da escuta, que busca isolar o significante a partir do significado, a leitura parte da materialidade do significante para, só então, dar lugar a possíveis significações. Essa defasagem evidencia que a passagem da escuta à leitura exige, necessariamente, o atravessamento pela escrita.
Em última instância, o uso da palavra só se efetiva como interpretação sob a égide da leitura. A própria condição de existência do inconsciente é o ler; nisso, ele guarda homogeneidade com o ato interpretativo, visto que ambos subsistem enquanto grafias da fala. Assim como a letra se oferece à leitura, o inconsciente — para o psicanalista — é o que se supõe ler. A jaculação, portanto, é a letra extraída da leitura que emana do inconsciente, da qual, rigorosamente, muito pouco se escuta. Não há escuta apartada da interpretação, de modo que a palavra, na experiência analítica, jamais é sacralizada[8]. Ao visar o real do efeito de sentido, a jaculação impõe-se como letra apofântica: fere o falasser para além da dicotomia entre verdadeiro e falso, prescindindo de qualquer demanda — sobretudo a de reconhecimento.
