Fala a partir do silêncio
Angelina Harari
“É isto que faz o analista: falar do silêncio. Quando ele fala, fala ou deveria falar a partir do silêncio. E, guardar o silêncio, mesmo quando fala. É o segredo da interpretação. Preservar o lugar do que não se diz, ou do que não pode se dizer. Atribuir menos sua fala à fala do outro do que com o que ela cala. Pois o sujeito do verbo silet poderia também ser a fala. A fala guarda o silêncio. E falha diante do gozo.”
Miller, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p.11.
O contexto da citação acima são as preparatórias de eventos cujas temáticas foram: “Você não diz nada” (Escola da Causa Freudiana) e “Os Poderes da Palavra” (Campo Freudiano).
Usaremos o aforismo de Lacan “Não há relação sexual”, recentemente trabalhado em um Congresso da AMP (abril/2026), à guisa de introdução, para abordar o corte lacaniano como prática interpretativa do analista para fazer falar o silêncio, conforme nos orienta J-A Miller ao assinalar que o analista guarda o silêncio, ou seja, quando o analista interpreta com o corte da sessão, está preservando a fala, a partir do silêncio.
O estatuto do Um
Há-Um [Yad’lun] Lacan o profere (o lança) como uma jaculação e o repete: “(…) repito o que isto quer dizer, porque não é algo de uma sonoridade muito habitual. Há-Um [Yad’lun] tem jeito de vir não sei de onde, do Um, não é?”[1]. Esta jaculação do Seminário 19, é isso que articularei, qual o vínculo entre a jaculação Há-Um e o aforismo Não há relação sexual.
Em que os dois se completam?
Para J. Lacan o Um articula-se ao fato de que “ele não se pensa, nem mesmo sozinho (…). Quando o Um se articula destaca-se exatamente isto: não há dois. Eu lhes disse, isso é um dizer…o que se interpreta imediatamente por nós – não há relação sexual.”[2]
A interpretação é a palavra usada para falar de como se completam, como se articulam, os dois aforismos. E ao “não há dois” virá se acrescentar “há o corpo”[3]. Logo, o Um supõe uma articulação com o corpo. E segundo a orientação lacaniana, o corpo aparece como o Outro do significante, ou seja, o corpo se apresenta no título Encore [Mais, Ainda, livro 20] como en corps e o Outro (com maiúscula) é o corpo, entende-se como “já se dirigir em direção ao registro do real”[4].
E J. Lacan, em seu último livro do Seminário (lição de 17 de janeiro de 1978) nos propõe um neologismo “Os trumains” para nos falar do ser humano, do ser humano perfurado, mostrando o simbólico em sua inadequação: “o significante é responsável pela não-relação sexual nos seres humanos”. Podemos aí identificar que: “o modelo do ato analítico no ultimíssimo ensino e na prática derradeira de Lacan é o corte”[5].
Seguindo esse fio, temos que a interpretação é ler de outra maneira: “o sujeito suposto saber ler de outra maneira, com a condição de ligar a outra maneira à sigla S(Ⱥ)”[6]
O Um e as entrevistas preliminares
O ato analítico, o corte, o ler de outro modo, os trumains, ou como se joga o jogo nos começos de uma análise? Quando alguém vem nos ver pela primeira vez, para Lacan, isto se compensará (no discurso do mestre) “(…) no dia em que isso for, o discurso analítico”[7]. E ele continua com o que ressalta no assunto das entrevistas preliminares: “É o confronto de corpos. É justamente porque isso parte desse encontro de corpos que não será mais questão disso a partir do momento em que se entra no discurso analítico”[8].
Terminarei a leitura com uma vinheta ocorrida em um controle/supervisão: deixar o analisante falar muito, não fazendo o corte da sessão, é um jeito de o analista falar muito, mesmo que ele fique em silêncio absoluto. Portanto, a meu ver, somente a prática interpretativa do corte implica a fala do analista que fala a partir do silêncio.
