O barulho da língua em Freud

Randra Gondouin

A atividade proposta de encontro com o texto, linha a linha, realizada no ateliê de Leitura[1] colocou-me a trabalho. Ao deter-me na passagem de Construções na análise (1937) em que Freud afirma que “a confirmação [da interpretação] se infiltra na oposição direta por meio de um ato falho”, chamou-me atenção o exemplo escolhido: o lapso entre Jauner, Gauner e jewagt. A curiosidade levou-me à origem dessa vinheta, localizada no capítulo V de Psicopatologia da vida cotidiana (1901), dedicado aos lapsos da fala. Retomar essa vinheta clínica a partir da perspectiva do argumento do XXVI EBCF sustentou minha questão: essa intervenção de Freud se inscreve no campo do efeito de verdade, do inconsciente intérprete ou já deixa entrever algo da interpretação que opera pela materialidade da língua?

Em Psicopatologia da vida cotidiana (1901), o episódio é apresentado para demonstrar o funcionamento do lapso. Ele escreve:

“Certa vez tive de interpretar o sonho de um paciente em que ocorria o nome “Jauner”. O sonhador conhecia uma pessoa com esse nome, mas era impossível descobrir porque ela havia aparecido no contexto do sonho; assim, arrisquei a conjectura de que talvez fosse apenas por causa do nome, que soa parecido com o insulto “Gauner” [malandro, trapaceiro]. Meu paciente contestou isso com rapidez e energia, mas, ao fazê-lo, cometeu um lapso da fala que confirmou minha suposição, pois tornou a confundir as mesmas letras. Sua resposta foi: “isso me aprece jewagt [gousado] demais [em vez de “gewagt (ousado)]”. Quando chamei sua atenção para esse lapso, ele aceitou minha interpretação.” (p.54)

Diante da interpretação de Freud, o paciente recusa de imediato a hipótese de que Jauner remetesse a Gauner. Entretanto, ao dizer que a interpretação lhe parecia“demasiado ousada” (gewagt), produz um lapso (jewagt) que repete a troca de letras em jogo na própria intervenção. O lapso insiste, assim, como uma confirmação da hipótese formulada por Freud.

Ao retomar esse mesmo fragmento clínico em Construções em análise, Freud já não está interessado em demonstrar a lógica do ato falho, como em Psicopatologia da vida cotidiana, mas em sustentar sua elaboração sobre a construção em análise. O exemplo passa a demonstrar que uma construção pode produzir efeitos mesmo quando encontra, de início, a resistência do sujeito.

Essa releitura permite situar, em um primeiro momento, a vinheta no eixo Efeito de verdade, proposto pelo argumento do XXVI EBCF. Como ali se afirma, as formações do inconsciente “revelam uma verdade que contraria o saber estabelecido”, manifestando-se como “tropeço, desfalecimento, rachadura”. O lapso comparece justamente como essa irrupção pela qual o inconsciente responde à intervenção do analista. O inconsciente, por assim dizer, toma a palavra e basta o analista escutar.

No entanto, meu interesse por esse exemplo não se esgota aí. O que me soa particular nesse recorte é que a intervenção de Freud não parece apoiar-se apenas em um conteúdo recalcado, mas também em um jogo de linguagem. Há uma materialidade sonora que orienta sua escuta — Jauner, Gauner, jewagt. E antes de atestar uma verdade, é o tropeço da língua que interessa.

Retomo, então, o argumento do XXVI EBCF, quando propõe pensar uma interpretação que faz ressoar lalíngua, sendo esta “um forçamento por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que não o sentido, para que os sons emitidos possam ser escritos diferentemente do sentido”. A intervenção freudiana apoia-se justamente na proximidade sonora entre os significantes, fazendo aparecer um arranjo singular da língua. E, ainda que Freud não formule essa operação, seria possível perguntar se esse jogo paronomástico não faz comparecer, já nesse momento, uma interpretação que se vale da materialidade da língua para produzir seus efeitos?

O argumento do XXVI EBCF afirma que “é em lalíngua que a interpretação opera”, deslocando seu alvo do efeito de sentido para a materialidade da língua, seus equívocos e suas ressonâncias. Nessa perspectiva, a interpretação não se orienta apenas pelo que as palavras querem dizer, mas pelo modo como elas soam. Não teria Freud, nesse exemplo, se deixado orientar por esse barulho da língua? Mesmo que para ele essa empreitada vise, ainda, o sentido.

Referências:

FREUD, Sigmund. Construções em análise (1937). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 23, p. 271–287.

FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana (1901). In: ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 6.

XXVI ENCONTRO BRASILEIRO DO CAMPO FREUDIANO. Argumento. Florianópolis, 2026. Disponível em: https://encontrobrasileiroebp2026.com.br/argumento/. Acesso em: 31 jul. 2026.

[1] Atividade coordenada por Virgínia Carvalho (EBP/AMP), na Unidade de Vitória da Seção Leste-Oeste, dedicada à leitura dos textos “Construções na análise”, de Sigmund Freud, e “O osso de uma análise”, de Jacques-Alain Miller.

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