A Palavra como Poder versus o Poder da Palavra[1]
Clotilde Leguil (ECF/AMP)
Será que o atual clima de desconfiança em relação à interpretação, o apego à performatividade de um “eu” que declara sua identidade, não revelam uma inquietude quanto à palavra e seus poderes? A interpretação do dito parece ser percebida como uma tomada de poder sobre o outro. O analista, ao interpretar a palavra, não estaria tomando poder sobre o paciente? Essa questão profunda está desde o início no cerne do ensino de Lacan. É também, sem nenhuma dúvida, uma das questões que serão esclarecidas pelas Jornadas da Escola da Causa Freudiana sobre “Interpretar”. Como, então, podemos conceber a interpretação, e até mesmo salvar a prática da interpretação no século XXI, de modo que ela não se torne uma tomada de poder sobre o paciente?
Interpretar versus tomar o poder
Em sua “Conferência em Genebra sobre o Sintoma”, de 1975, Lacan nos lembra que “o poder jamais repousa sobre a força pura e simples. O poder é sempre um poder ligado à palavra[2].” Ao reconhecer que o poder está sempre ligado à palavra, e não apenas à força, Lacan não ignora a possível deriva da experiência de análise em direção a um confronto imaginário entre o eu e o outro. Ele não ignora que a palavra possa exercer um poder de sugestão, de subjugação, de submissão. Portanto, ele não ignora o risco de um analista insuficientemente analisado buscar ocupar uma posição de domínio sobre o analisante. “Se se formam analistas, é para que haja sujeitos tais que neles o eu esteja ausente. […]” A análise deve visar à passagem de uma fala verdadeira, que junte o sujeito a um outro sujeito, do outro lado do muro da linguagem. É a relação derradeira de um sujeito a um Outro verdadeiro, ao Outro que dá resposta que não se espera, que define o ponto terminal da análise”[3], ele enfatizou já em 1955.
A experiência da psicanálise pressupõe, portanto, a capacidade de descobrir uma relação com a própria palavra e não se submeter à palavra de um Outro.
A interpretação, ao contrário de qualquer tentativa de tomar o poder sobre o outro por meio da palavra, deve carregar a palavra. Aqui reside a exigência ética, a do desejo do analista — não que ele acredite saber no lugar do analisante o que ele tem a dizer, mas que ele possa assumir um desejo de saber, o que pressupõe um consentimento à sua própria ignorância. Assim, “o inconsciente se fecha, com efeito, na medida em que o analista ‘deixa de ser portador da fala’, por já saber ou acreditar saber o que ela tem a dizer[4]”. O psicanalista que acredita saber de antemão o que a fala tem a dizer é, portanto, responsável pelo fechamento do inconsciente. O que Jacques-Alain Miller chamou de “uma renúncia autêntica ao desejo de poder”[5] é, portanto, uma condição da interpretação. Se o analista toma o poder sobre as palavras do paciente, isso se deve ao fato de que ele próprio ignora que é a palavra que já assumiu o poder e que é o verbo, enquanto inconsciente, que guia o destino do sujeito. A interpretação não visa se exercer como poder, mas encontrar o poder da palavra na medida em que ele é inaugural. No princípio era o poder da palavra. É essa renúncia ao desejo de poder que nos permite encontrar o imperativo do verbo. Mas essa renúncia é o efeito, no analista, de sua própria experiência de análise, de sua própria travessia das significações de seu destino, de seu consentimento com a falta e com a a perda.
Interpretar, abrir o caminho para um desapego.
O que tomou poder dentro de nós, mesmo antes de nascermos, é, portanto, a palavra. É por isso que a experiência da análise leva à redescoberta do imperativo do verbo, isto é, da dimensão imperativa do próprio significante. Aí reside o deslocamento. É, de fato, uma questão de poder, mas esse poder não é aquele do outro com quem falamos, mas aquele da palavra dentro de nós. A presença do analista, então, não se relaciona a uma tomada de poder, mas à possibilidade de descobrir a dimensão imperativa do verbo naquele que fala. Ao contrário de uma tomada de poder, trata-se de abrir o caminho para um desapego. Renunciar a todo controle e sugestão tem como efeito deixar a palavra ser, tomá-la para, simultaneamente, fazer cair sua dimensão imperativa. Como intervir, estar presente, cortar, interpretar, de forma a produzir esse efeito de desapego?
É isto que está em jogo na presença do analista. Ela se correlaciona, portanto, com uma experiência do inconsciente. É essa presença que possibilita ou faz obstáculo à experiência. Avançando cada vez mais na direção de uma interpretação visando não mais o sentido inconsciente, mas a perda de gozo, Lacan pôde afirmar, em 1964, que “a presença do psicanalista é irredutível, como testemunha dessa perda”[6]. Precisamos, portanto, de uma testemunha, e a testemunha não é aquela que toma o poder, mas aquela que atesta o real. A perda não ocorre à luz do dia, mas “numa zona de sombra”[7]. Ela nos confronta com um ponto opaco em nossa própria palavra. A presença do analista tem valor de uma iluminação. Ela lança luz sobre o que se perde. Somente o corte pode revelar onde a perda ocorre. Interpretar, ascender ao mal-entendidoMas, que a interpretação carregue a palavra também significa que ela abre caminho para a opacidade do dito. “O obscurantismo inerente à palavra”[8], segundo o termo escolhido por Lacan em 1980, é também o que torna a presença do analista necessária ainda. Em 1973, Lacan definiu a interpretação como uma tradução-articulação que sempre implica uma perda. De fato, “há sempre uma perda na tradução. Bem, o que está em jogo é, na verdade, que se perde”. Tocamos, não é mesmo, no fato de que essa perda é o próprio real do inconsciente, o real em si, pura e simplesmente. Para o ser falante, o real é que ele se perde em algum lugar, e onde? É aqui que Freud coloca a ênfase: ele se perde na relação sexual”[9].A interpretação, por fim, revela que “o verbo é inconsciente — isto é, mal-entendido”[10].É acessando esse mal-entendido de onde eu venho, ao que se perde na relação sexual, que posso me aproximar do núcleo de gozo que rege minha relação com as significações. A questão, então, na palavra, deixa de ser a da significação e passa a ser a da ressonância, e é a função poética que “destaca a matéria que, no som, excede o sentido[11]“, como afirma Éric Laurent. Essa matéria que excede o sentido está no nível da literalidade do dizer que faz o gozo ressoar. Contrariamente a qualquer tentativa de tomada de poder, coloca-se em questão, portanto, até o fim, para o analista, manejar com “a função poética da linguagem”[i], ocupando esse lugar de interpretante que permite abrir um caminho em direção ao indizível do núcleo de gozo.
Tradução: Cristina Drummond (EBP/AMP)
