Duas pontuações: o significante e a letra; o enigma e o equívoco
Frederico Feu de Carvalho
As duas notas que seguem referem-se às questões levantadas em uma das reuniões do Cartel B de leitura do 26º EBCF, formado por Virgìnia Carvalho (mais-um), Célia Ferreira, Fátima Sarmento, Frederico Feu e Sílvia Sato. A segunda nota foi redigida em diálogo com o texto de Fátima Sarmento, “A ressonância no corpo do ouvido, da boca e da voz”, publicada no Boletim Burburinho.
– I –
Sabemos, desde Freud, que à medida que regredimos no inconsciente rompe-se a equivalência entre o significado e o significante que caracteriza o signo linguístico. Ao estender a ação do significante até o inconsciente, nos deparamos com o que o significante comporta de autonomia em relação ao signo, rompendo-se o sistema social da língua. Poderíamos dizer que essa autonomia se deve à função da letra.
É o que Lacan parece sustentar já em 1962, no Seminário 9, A Identificação (Lacan 1962): a letra é a essência do significante; por meio da letra, o significante se distingue do signo, adquirindo um sentido particular. A letra tem a função de distinguir o significante linguístico do significante psicanalítico porque introduz, no campo do significante, o que é próprio à noção de letra, ou seja, o ato de inscrever, imprimir, cifrar, recortar, apagar e rasurar o que se escreve. É portanto a instância da letra que dá o estatuto do inconsciente freudiano, segundo Lacan, e não o sentido recalcado. É o que se pode apreender desde a Carta 52 (Freud 1896/1969), na qual a estrutura do aparelho psíquico é esboçada a partir da função da letra, ou seja, da inscrição, retranscrição e tradução contínua de alguns significantes primordiais, o que faz da interpretação analítica um ato de leitura.
Mas, a suposição de que isso “quer dizer alguma coisa”, que designa aquilo que, no inconsciente, responde a uma cadeia articulada, graças à função da metáfora e da metonímia, renova-se no momento em que Lacan lhe opõe aquilo que “está escrito” (Lacan, 2003, p. 25) e que não se articula a nada, conservando sua opacidade frente à elucubração de saber inconsciente. A partir daí, a articulação da cadeia significante, na qual um significante representa o sujeito para um outro significante, se contrapõe ao “Um encarnado em lalíngua” (Lacan, 1985b: 196) como marca iterativa, mas não representativa do falasser.
Seguindo esta trilha, a psicanálise se define como uma prática da letra que limita a prática do sentido, desenhando a borda que escreve a experiência de um sujeito para além do que pode receber um significado. Como no célebre exemplo de Leclaire (1977, p. 93), Poordjeli, fruto do trabalho de análise, que Lacan menciona em 1964 (Lacan, 1985ª, p. 236), esse “nome secreto”, “termo intransponível”, “desprovido de sentido”, “matriz literal” que convoca o inconsciente como um nó.
A letra é o recorte transversal do texto no qual se escreve a contingência do encontro entre o significante e o gozo como ponto de fixação. O Um da letra se contrapõe à cadeia significante e à unidade do signo. O Um da letra só existe por si mesmo, pois quando digo a, esse a é pura diferença; quanto ao significante, importa-lhe a diferença relativa e a oposição entre o elemento a e o elemento b, como em “a árvore da vida” por oposição à “árvore frutífera”. Em outros termos, o significante estabelece relações no contexto de um mesmo sistema simbólico, enquanto o privilégio da letra acaba por se dirigir, segundo Lacan, à relação com o real.
A letra enoda, assim, dois registros heterogêneos, aos quais Lacan irá se referir ao evocar, em Lituraterra, o jogo de palavras litura/litoral (Lacan, 2003, p. 21). A letra designa o litoral entre o mar do saber e a terra do gozo, ali onde o vazio da significação impera, o significante é incapaz de referir e o que se escreve também se rasura.
O crescente interesse pela função da letra no ensino de Lacan acompanha o declínio progressivo de suas referências à linguística estrutural. Milner (1999, p. 94) identifica esse declínio à passagem do primeiro ao segundo classicismo de Lacan. No segundo classicismo (tendo como marco o Seminário 20), o regime da letra, que confere o estatuto do inconsciente, passa a ser pensado como uma escritura que excede o próprio sistema da língua. Por essa razão, Lacan irá forjar o termo linguisteria para distinguir, do domínio da linguística, o que diz respeito à fundação do sujeito: “meu dizer que o inconsciente é estruturado como uma linguagem não é do campo da linguística” (Lacan, 1985b, p. 25). Importante observar que essa promoção da função da letra é concomintante à distinção entre língua e lalíngua no ensino de Lacan.
Segundo Milner (1995, p. 120), a descoberta dos anagramas de Saussurre, da qual Lacan toma conhecimento em 1964, foi decisiva para que a disjunção entre letra e significante se desenvolvesse no ensino lacaniano até completar-se, por volta de 1973. De fato, essa distinção nem sempre é clara no ensino lacaniano, transitando desde uma relação essencial, que toma a letra como essência do significante, até uma distinção quase absoluta, em Lituraterra (Lacan 1971/2003).
A equivalência inicial entre letra e significante foi pensada por Lacan (1957/1966) a partir das relações fonemáticas, preservando-se, no nível dos caracteres, o mesmo jogo de oposições que caracteriza essas relações, “cuja escuta deve equivaler a um procedimento de leitura, incidindo sobre as combinações e recombinações de letras (…) por meio de um movimento de suspensão de qualquer decisão semântica” (Mandil 2003, p. 31).
Já em Lituraterra, texto de 1971, assistimos a uma verdadeira promoção do escrito em contraposição à fala, que acaba por distanciar a noção de letra da noção de significante. O significante se inscreve em um sistema e somente subsiste por suas relações diferenciais; a letra subsiste só, embora possa se relacionar a outras letras, sendo uma positividade suportada por seu elemento sensível. O significante não pode ser apagado, embora possa vir a faltar em seu lugar, como mostra a operação do recalque; a letra pode ser apagada, rasurada, integralmente substituída. Um significante apenas representa um sujeito para um outro significante e nada transmite em si mesmo; a letra torna possível a transmissão integral, como prova a ciência galileana, assim como a sua função de grampo para um sujeito. O significante concerne ao semblante; a letra concerne ao litoral entre o saber e o real. O significante procede do múltiplo; a letra procede do Um. O significante pode ser partilhado por uma comunidade linguística, a partir do significante se tecem discursos; a letra, em sua solidão, é resto de discurso, provocando efeitos de dispersão no sistema.
Podemos citar duas referências históricas que corroboram essa distinção. Em primeiro lugar, como lembramos, o abismo instigante que separa as ocupações noturnas de Saussurre e o que ele fazia em nome da linguística. Em segundo lugar, a profunda vinculação que se pode estabelecer entre os anagramas estudados por Saussurre e o rébus freudiano, no ponto onde “Saussurre espera por Freud (…) e se renova a questão do saber” (Lacan, 1985b, p. 129). Bastaria evocar, para demonstra-lo, a estrita equivalência entre a formula “Ad temPLa pOrtatO” (“levado diante dos templos”) do verso saturnino, onde se lê a escrita anagramática do nome de Apolo no poema que lhe é dedicado (Starobinski,1996, p. 62), e a escrita dos nomes Signorelli e Bósnia-Herzegovina, no jogo de letras que se verifica em torno de Botticelli, Boltraffio, Signor, Herr, etc, “nomes manipulados como imagens de um texto (…) transformado em um jogo de enigma visual”, analisado por Freud em 1901 (Freud, 1969, v. VII. p. 24). Ou, ainda, a referência à Trimetilamina, que se escreve em caracteres bem distintos no sonho da injeção de Irma (Freud, 1969, v. V, cap. II).
Não escapa a Lacan a hesitação de Saussurre quanto a saber em que medida as estranhas pontuações de escrita que se encontram nos versos saturninos são produtos da intenção do poeta ou da própria astúcia da língua. É justamente a função da letra o que se ressalta nas palavras sob as palavras onde se leem os anagramas; é também aí que emerge a questão do falasser em sua relação com a língua, pois só resta ao falasser, para fazer a junção da fala com o gozo, o suporte das cifras, rasuras e manipulações literais.
– II –
A distinção entre o significante e a letra nos remete à uma segunda distinção, aquela entre o enigma e o equívoco, como formas distintas da interpretação analítica. Grosso modo, essa distinção corresponde a dois modos de interceptar o dito analisante, seja a partir da suposição de que “isso quer dizer alguma coisa”, que caracteriza o enigma, seja a partir do “escrito fora do sentido”, se podemos nos referir assim ao equívoco como a nossa única “arma contra o sinthoma” (Lacan 2007, p. 18).
Se o enigma nos remete à decifração, tendo como suporte material a cadeia significante e como parâmetro a construção do axioma da fantasia, o equívoco nos remete, primordialmente, ao fora-de-sentido e tem como parâmetro a dissolução do sintoma.
É o que ocorre com o fragmento clínico descrito por Estela Solano e relembrado por Fátima Sarmento em nosso cartel. De um lado, constatamos a construção, passo a passo, do axioma da fantasia, “salvar uma mulher”, ao qual podemos vincular o modo de gozo da paciente. De outro, o equívoco entre “penicilina e pénis-lina” que atrela o nome próprio dessa paciente à sua posição fálica.
No fragmento clínico, essas duas vertentes se entrelaçam. A interpretação da posição fantasmática “salvar uma mulher” é uma construção da análise. A partir dessa construção chega-se, pela via associativa, à cena com a qual se inícia a série de repetições em suas relações amorosas, ou seja, a grave doença de sua mãe que teria sido salva pela penicilina. A equivocação com “pênis-lina” ressoa como esse “S1 disparador” para o qual a paciente teria sido “aspirada”, como matéria própria do sintoma. Mas, como “arma contra o sinthoma”, a equivocação não necessariamente remete ao que já estava escrito à espera de um leitor; ela soa mais como uma escrita do que como um gesto de leitura, como no célebre equívoco de Lacan entre “Gestapo” e “gest-au-peaux”, relatado por Suzanne Hommel (2022).
Conforme o relato de Suzanne, Lacan se levanta como uma flecha de sua poltrona e acaricia o seu rosto, inscrevendo, graças ao equívoco, uma nova possibilidade de escrita para o significante traumático “Gestapo”. Esse ato interpretativo, que é também ato de escrita, não agrega nenhum sentido ao trauma, apenas decompõe o significante “Gestapo” em sua literalidade e o reescreve como “gest-au-peaux” no rosto de Suzanne. A partir daí, ele persiste ao lado do significante traumático, “Gestapo”, como uma espécie de “dupla inscrição” (Freud 1915/1969).
Um outro exemplo nos vem à mente. No relato clínico do Homem dos Ratos, aquilo que Freud chama de solução (Lösung) do sintoma coincide com a decomposição da cadeia significante Ratten – Heiraten – Raten – Spielratte (literalmente: rato – casamento – prestações– rato de jogo) (Freud, 1913/1969, p. 216), como se a exposição da materialidade literal do sintoma fosse a condição necessária à sua dissolução, para além de toda exaustiva construção da fantasia que o nome-de-gozo “homem dos ratos” condensa[1]. A sequência soletra a materialidade do sintoma.
O sintoma apararece assim como que amarrado pela letra, como uma configuração nodal, um traçado. Aqui se detém a ficção fantasmática em torno do enigma do desejo. Segundo a solução freudiana desse caso clínico, podemos dizer que é a letra que sustenta o sintoma sobre o qual se constrói a fantasia.
No caso reportado por Esthela Solano, a letra sustenta o sintoma como um nome próprio. É como se a interpretação do sintoma, ao soletrar “pênis-lina”, interceptasse, por meio da dissolução literal de “penicilina”, a sua base material. Como postula Freud, a fantasia, tal como “salvar uma mulher”, seria uma construção amalgamática erigida sobre restos literais, fragmentos de coisas vistas e ouvidas que constituem o seu núcleo. (FREUD, 1896/1969, p. 341).
A análise da fantasia, as ficções e enigmas que as associações do analisante permitem interpretar, encontram assim, no curso da análise, esses restos como uns sozinhos, graças à possibilidade, nem sempre evidente, do equívoco entre o dito e o dizer analisante. Somente por meio do equívoco se pode soletrar o nome-do-sintoma, isto é, escrevê-lo, como uma mostração, atrelada a um nome-próprio, a fim de dissolvê-lo. Como em Penis-lina, Poordjeli e no o anagrama de “Apolo”; ou, ainda, como em Trimetilamina, escrita em grossos caracteres no sonho de Freud para nomear o seu núcleo assemântico, e no esquecimento de “Signorelli”, onde também se lê as inicias de Sigmund.
