Ler um texto
Adriana Gomes Pessoa
Diretora de Biblioteca da EBP-Seção Leste-Oeste
É isto que faz Lacan em seus escritos. mas também em seus Seminários: ele dá as indicações para que se pense por si mesmo. Esta é uma ideia que ele próprio exprime no final da “Abertura” dos Escritos.
MILLER, J.-A. Progressos bastante lentos em psicanálise. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 19.
Lacan na abertura dos Escritos assinala uma orientação para a leitura : “[…] queremos, com o percurso de que estes textos são os marcos e com estilo que seu endereçamento impõe, levar o leitor a uma consequência em que ele precise colocar algo de si”.
Podemos extrair dessa afirmação que o modo de ler de Lacan torna o texto vivo. Leitura e transmissão, em psicanálise, diferem do saber acumulativo acadêmico. Propõe a implicação daquele que o lê, no distanciamento do saber pronto. Porta em si algo de enigma, de não totalizado. Refere-se a uma leitura que não é “para-todos” de forma assimilável como um saber a ser compreendido. Trata-se de um saber particularmente paradoxal, como explica Dominique Laurent: um saber que não se ensina, por isto não se refere a uma matéria de ensino, que não é universal[1]. O que está então em jogo no ensino e na transmissão da psicanálise?
Os textos de Lacan portam uma diferença semântica onde, como afirma Miller[2], as palavras não são as coisas e introduzem uma chamada para cada um inventar sua própria maneira de ler. Num primeiro tempo de seu ensino, Lacan privilegiou o significante sobre o significado, numa referência ao Outro. Em seu último ensino, está em questão a escrita, a escrita do inconsciente, que porta sua materialidade fora do sentido que possam se escrever de um modo distinto. Somos convocados a contornar o real em jogo na escrita com o enigma de um saber. A leitura em psicanálise implica no inconsciente daquele que lê, de modo a poder se servir do texto e a ler o que desconhece.
O que se coloca de si na leitura é justamente essa falta de significação pré-dita. O leitor implica-se em sua leitura, com seu desejo de saber, e de sua transferência que são mobilizadas pelo trabalho de leitura e construção compartilhada e debatida coletivamente em dispositivos da Escola propostos por Lacan.
Manter o inconsciente vivo, a psicanálise, num tempo em que as respostas prontas e rápidas são postas como modo de vida, é um desafio. Miller intitula seu artigo como: Progressos bastante lentos em psicanálise. Há um tempo em questão na leitura e na escrita.
