Editorial
Flávia Cêra
Este boletim informativo do Colóquio Ler Lacan hoje traz contribuições de cinco colegas que estão na Diretoria de Biblioteca de Seções da Escola Brasileira de Psicanálise. A Biblioteca é um dos lugares da Escola que anima as leituras, que toma os textos como letra viva. É também um dos lugares que apresenta a psicanálise, sua teoria, clínica e política à cidade ao mesmo tempo em que se abre e se interessa por outros saberes que tratam, de outra perspectiva, as mesmas questões e impasses da época.
Como ler Lacan?
Camila Colás
Diretora de Biblioteca da EBP-SP
(…) uma vez começado o Seminário, seus escritos se tornaram depósitos, cristalizações, quedas, rebotalhos dele. Seus escritos, sâo, disse Lacan, testemunhos dos momentos em que ele teria sentido, especialmente no que concerne ao Seminário, resistências a segui-lo.
MILLER, J.-A. Progressos em psicanálise bastante lentos. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 11.
Lacan dedicava-se à escrita e às publicações, antes mesmo de ter começado seu Seminário. Nesse sentido, podemos dizer que Lacan ao escrever e publicar nas revistas de psicanálise, psiquiatria e de outras áreas do saber daquela época, estava em busca de um leitor, queria ser lido e transmitir algo.
O Seminário: lugar da invenção, lugar de um saber
Sandra Conrado
Diretora de Biblioteca da EBP – Seção Nordeste
(…) a verdade é que os escritos de Lacan se erigem e se destacam contra o fundo do Seminário que, para falar propriamente, é o lugar da invenção, o lugar de um saber.
MILLER, J.-A. Progressos em psicanálise bastante lentos. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 13.
Extrair dessa citação de Jacques-Alain Miller o valor do seminário como lugar da invenção e do saber nos remete ao pensamento de Lacan em todo o seu percurso, como aquele que decidiu fazer de seu ensino o lugar vivo da palavra, na busca da construção de um saber que se articula. Se, enquanto escritor, Lacan fixou a letra (seus Escritos) para sustentar a doutrina psicanalítica, como “ensinador” (expressão do próprio Lacan) adotou um discurso, cuja fala transmite algo precioso até então visto: a letra freudiana na sua raiz estrutural.
Os Seminários de Lacan: uma arquitetura do real
Paula Legey
Diretora de Biblioteca EBP-Seção Rio de Janeiro
Os Seminários que prosseguem se enroscam como os giros da demanda, reiterando-se ano após ano, cabe dizer, até o fim, enquanto ele teve voz. Ao mesmo tempo, eles formam o contorno de um vazio central. É em direção a esse vazio que o Seminário progride. Esse vazio é, de algum modo, a mola da reiteração. a mola desse work in progress. Talvez devamos colocar um nome nesse vazio.
MILLER, J.-A. Progressos em psicanálise bastante lentos. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 17
Ao falar sobre a tarefa de estabelecer o texto dos Seminários de Lacan, Miller afirma tratar-se de “fazer aparecer a arquitetura” de seu ensino. Ele remete à doutrina da arquitetura tal como proposta no Seminário: “A identificação”, onde Lacan observa que, antes de ser volume, a arquitetura mobilizou e organizou superfícies em torno de um vazio. Miller evoca uma “arquitetônica lacaniana”, que consiste justamente nisso: organizar superfícies em torno de um vazio.
Ler um texto
Adriana Gomes Pessoa
Diretora de Biblioteca da EBP-Seção Leste-Oeste
É isto que faz Lacan em seus escritos. mas também em seus Seminários: ele dá as indicações para que se pense por si mesmo. Esta é uma ideia que ele próprio exprime no final da “Abertura” dos Escritos.
MILLER, J.-A. Progressos bastante lentos em psicanálise. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 19.
Lacan na abertura dos Escritos assinala uma orientação para a leitura : “[…] queremos, com o percurso de que estes textos são os marcos e com estilo que seu endereçamento impõe, levar o leitor a uma consequência em que ele precise colocar algo de si”.
Uma leitura assistida do inconsciente
Gustavo Ramos
Diretor de Biblioteca da EBP – Seção Sul
Lacan nunca disse: “minha obra”. Tampouco dizia: “minha teoria”. Ele dizia: “meu ensino”. (…) O que distingue um autor de um ensinador? Em primeiro lugar, um autor tem leitores, ao passo que um ensinador tem alunos. Além disso, o autor fala potencialmente para todos, já o ensinador fala para alguns.
MILLER, J.-A. Progressos em psicanálise bastante lentos. Opção Lacaniana. n. 64. São Paulo: Eólia, dezembro de 2012, p. 10
A leitura em um processo de análise se dá desde o seu início, ainda nas entrevistas preliminares. O candidato a analisante, ao fazer uso da associação livre, inicia o que podemos denominar de leitura do inconsciente. Em um primeiro momento, essa leitura pode se enquadrar na decifração de sentido; porém, ao longo do tempo, o sentido vai perdendo seu lugar para dar espaço ao que escapa de suas garras.

