A distância entre a fala e a escrita[1]

Ram Mandil

 

Há uma distância entre falar e escrever (…).
É nesta distância que opera a psicanálise, é
esta diferença que a psicanálise explora.”[2]

(JAM, “Ler um sintoma”).

Vamos considerar a relação entre a fala e a escrita tal como Lacan propõe ao longo de seu ensino, da qual se depreende não apenas a hipótese do inconsciente, mas também por onde se apoia a interpretação.

Podemos dizer que é no Seminário 20: mais, ainda que se consolida a distinção entre a letra e o significante, distinção essa que Lacan põe em marcha desde o Seminário 18: “De um discurso que não fosse semblante”.  É na lição sobre a função do escrito, do Seminário 20, que ele propõe considerar o que, num discurso, se produz por efeito de escrita.  A abordagem linguística sobre a fala, na medida em que ela distingue significante e significado, não se interessa pelo que nela opera ao nível da escrita e da leitura.  Sabemos que a linguística de Saussure, pelo menos aquela que se depreende de seus Cursos, circunscreve seu objeto, a fala, a partir de sua função semântica, colocando à parte, por exemplo, tudo aquilo que da linguagem se conjuga ao escrito.  No entanto, para Lacan, tomando como referência o discurso analítico, o significado não pertence ao mesmo campo do significante, ele é efeito de leitura daquilo que se ouve do significante[3].  O significado não está ao nível do que se escuta, do que se ouve – o que se ouve, é o significante – mas decorre de um efeito de leitura do significante.  Nesse sentido, haveria uma distância – o termo é de Lacan – entre o significante e o significado, uma distância que só poderá ser transposta a partir um ato de leitura. Lacan confere, pois, à essa distância, o estatuto de um escrito. É aqui que ganha relevância a distinção que ele estabelece entre a leitura como explicação e a leitura como compreensão. A leitura compreensiva – lembremos de nossos dias de escola, quando éramos incentivados a fazer a “leitura e compreensão” de um texto – é aquela que tende a apagar a distância entre o significante e o significado, apreendê-lo num mesmo movimento. Já a leitura pela via da explicação, implica dispor os elementos sobre um plano (é esse seu sentido etimológico, o ex-planare). Trata-se de uma leitura que permite considerar a distância entre o significante e o significado; fundamentalmente, um modo de acesso à sua não relação.

O inconsciente como efeito de leitura do que se fala

Sabemos que, para Freud, o acesso ao inconsciente se dá a partir da consideração do relato do sonho como um texto, como um escrito, cuja interpretação equivale a um ato de leitura. O exemplo mais nítido e conhecido, é a referência ao modo de leitura de um rébus, pelo qual o valor de significante da imagem nada tem a ver com sua significação.   É o que Lacan ressalta em Função e campo: “Então, que retomemos a obra de Freud na Traumdeutung, para ali nos relembrarmos que o sonho tem a estrutura de uma frase, ou melhor, atendo-nos à sua letra, de um rébus, isto é, de uma escrita (…)” (LACAN, 1953/1998, p.268).  Mas essa escrita não deve ser considerada apenas ao nível da interpretação. Ela também se faz presente na elaboração do texto do sonho, tanto em sua retórica quanto em seus processos de cifração, seja através de “deslocamentos sintáticos”, seja por meio das “condensações semânticas”, por meio das quais “Freud nos ensina a ler as intenções ostentatórias ou demonstrativas, dissimuladoras ou persuasivas, retaliadoras ou sedutoras com que o sujeito modula seu discurso onírico” (LACAN, 1953/1998, p.268-69).

Mais adiante, em “Radiofonia”, Lacan fará nova referência à interpretação freudiana como produto de uma leitura.  Aqui ele inscreve Freud numa tradição que cultiva um modo de leitura associado à tradição talmúdica, um “saber ler” entendido como saber reconhecer a distância entre a letra e sua fala, “encontrando ali o intervalo preciso para aí se jogar com uma interpretação. (LACAN, 1970/ 2003, p.427)”.  Nessa passagem, Lacan faz uma referência direta ao Midrash, uma das formas de interpretação do texto bíblico ao nível da letra, um modo de leitura que visa “extrair (…) um dizer outro, ou até implicar nele o que ele negligencia (como referência) (LACAN, 1970/ 2003, p.428)”. Trata-se de uma leitura que não descuida em considerar uma palavra ou uma letra que pode ser aparentemente supérflua, que examina as narrativas paralelas ou as relações de vizinhança entre os trechos, ou que se interessa pelo modo de presença de cada desinência (de número ou gênero) de modo a extrair daí ensinamentos ou orientações para o convívio social.

A leitura e o aprender a ler. Legibilidade e ilegibilidade.

Entramos aqui num terreno pouco explorado, que diz respeito à experiência de leitura. Se é possível discernir uma problematização do escrito a partir da psicanálise, temos algumas indicações pontuais, mas precisas, de Lacan, a respeito da prática da leitura.  Podemos dizer que essas indicações apontam para dois aspectos fundamentais:  uma crítica aos procedimentos habituais de alfabetização (“alfabestização”) ou àquilo que Roland Barthes se refere como sendo “a ilusão alfabética”, a saber, considerar a escrita como mera representação, como pura transcrição do oral, ou como procedimento de fixação da linguagem articulada. Para Lacan, a crítica à alfabetização incide sobre a correspondência que se procura estabelecer entre uma letra e um fonema, como unidade mínima de sentido. Nesse aspecto, quando se ensina que a letra G corresponde a um determinado fonema (gê), vemos que o que se escreve pode designar fonemas distintos, como em GATO e em GIRAFA. Um segundo aspecto diz respeito à própria concepção de legibilidade. Nosso hábito de leitura toma como ponto de partida a noção de que o significado de um texto decorre do puro encadeamento dos significantes e, podemos acrescentar, associado à transmissão de uma “realidade” compartilhada entre escritor e leitor. Haveria aqui uma leitura pela via da “simpatia” (sym-pathos), de um compartilhamento imaginário de pathos, que tem como exemplo mais radical a leitura de suspense, aquela que nos faz querer passar a página para saber o que irá acontecer. Considerar o inconsciente a partir dessa perspectiva, é conceber uma versão do inconsciente como “simpático”. Seria essa uma versão do inconsciente transferencial? No entanto, essa versão não se coaduna, por exemplo, com a escrita de Joyce, que convoca um regime de leitura “antipática” – daí, inclusive,  o fundamento para  Lacan poder considerá-lo como um  “desabonado do inconsciente”.  Aqui somos convidados a exercitar um outro regime de leitura de um escrito que se mostra referido a uma significação vazia, produzida justamente por um artifício de opacificação do sentido.

No Seminário 20 , Lacan faz menção ao modo de leitura do lapso, uma leitura que se faz a partir da desestabilização do sentido ou seja, “ao que se enuncia do significante, vocês dão sempre uma leitura outra que não o que ele significa.” (LACAN, 1972-73/1985, p.52). Trata-se de uma leitura que permite aferir outra coisa que a significação, permitindo acesso, inclusive, ao que se escreve a partir do sem sentido.

O Posfácio ao Seminário 11

Mas é no “Posfácio” ao Seminário 11 – escrito na semana anterior à lição sobre a função do escrito do Seminário 20 – que Lacan acentua a problematização de uma correspondência imediata entre a escrita e a leitura ao reconhecer que seus Escritos, tanto quanto Finnegans Wake, de Joyce,  serem da ordem de “um escrito para não ser lido”. No entanto, nesse “Posfácio” Lacan introduz um outro componente da leitura ao associar as condições de legibilidade de um escrito com o que aí se deposita de gozo.

Vamos acompanhar o modo como ele apresenta essa perspectiva.  Lacan retoma o conhecido witz mencionado por Freud em diversas passagens:

Dois judeus encontram-se em um vagão de trem numa estação da Galícia. ‘Onde vais’?, diz um. ‘À Cracóvia’, diz o outro. ‘Que mentiroso tu és!’, exclama então o outro., ‘Dizes que vai à Cracóvia para que eu acredite que vais a Lemberg, mas sei muito bem que vais mesmo é à Cracóvia. Então, por que mentir para mim?’ (FREUD, 1905/2017, p.165).

Em seu comentário, Lacan associa, num primeiro momento, a função do escrito  à demanda a interpretar. O que o primeiro judeu responde, “vou à Cracóvia” é interpretada pelo segundo judeu como abrigando um desejo de enganar (“por que me mentes, dizendo a verdade?). A leitura de um desejo de enganar sugere a presença de um gozo naquilo que o primeiro judeu diz.

Nessa leitura de Lacan, o destino final do primeiro judeu não se esclarece a partir do que possa estar escrito no catálogo das estradas de ferro da estação, muito menos pela verificação  do que está escrito no bilhete. Para Lacan, o escrito que verdadeiramente interessa é aquele que se materializa na própria linha férrea e na fixação dos seus trilhos: “a função do escrito não constitui então o catálogo, mas a via mesma da estrada de ferro. E o objeto (a), tal como o escrevo, ele é o trilho por onde chega ao mais-gozar o de que se habita, mesmo se abriga a demanda a interpretar” ( LACAN, 1964/ 1988, p. 265).

Vemos aqui anunciado um outro aspecto da legibilidade de um escrito: uma legibilidade que não deriva da relação entre significantes, que não se depreende de uma decodificação do texto, mas que provém da leitura da presença de um gozo que ali se inscreveu. Em uma passagem de “Joyce, o sintoma”, Lacan explicita essa correlação entre gozo e escrita: “Leiam as páginas de Finnegans Wake, sem procurar compreender. Isso se lê. Se isso se lê, como me fazia notar alguém que me é próximo, é porque sentimos presente o gozo daquele que escreveu isso. Mas o que indagamos, pelo menos a pessoa em questão, é por que Joyce o publicou.” (LACAN, 1975-76/2007, p.161.)

Reitera-se aqui a conexão entre o gozo que se deposita na letra e a demanda a interpretar, demanda essa que, no caso de Joyce, se realiza com a sua decisão de publicar Finnegans Wake.  Antevendo que essa obra iria dar 300 anos de trabalho aos universitários, Joyce procura assegurar a conexão de seu sinthoma  com o campo do Outro.

O caráter de sinthoma da obra de Joyce – de um gozo que se cifra e que, ao mesmo tempo, se constitui como enigma para o Outro – indica um deslocamento da relação entre escrita e leitura quando examinada a partir do discurso analítico. Não haveria aqui uma contraposição entre o delírio, próprio à dimensão de semblante do significante, e o caráter singular da escrita do  sinthoma?  Lacan, ao sugerir que a noção de real, tal como ele a concebe, poderia muito bem ser sua resposta sinthomática à elucubração freudiana do inconsciente, não estaria indicando a via do sinthoma como aquilo que, por seu caráter único, permite contrapor-se à deriva universal do sentido?

Por outro lado, é a própria prática da interpretação que se reformula, quando se desloca da escuta do sentido para a leitura do fora de sentido.  É o que permite renovar a força de sua incidência na atualidade, sobretudo diante do novo cogito que se desenha – “eu sou aquilo que eu digo que sou” – pedra angular do movimento de “despatologização” generalizada que hoje assistimos.  Isso implica considerar a interpretação analítica como o que leva em conta a presença de um furo que habita o ser falante. Em outras palavras, considerar o modo de emergência do simbólico a partir do real que é modo como Deus anuncia seu nome a Moisés – “eu sou o que sou” -, essa vociferação que se projeta do fundo da sarça ardente, muito antes que o profeta pudesse sonhar com os dez mandamentos de suas leis.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Freud, Sigmund . Obras completas, volume 7 : o chiste e sua relação com o inconsciente (1905); tradução Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo : Companhia das Letras, 2017.
Lacan, Jacques. O seminário: livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
LACAN, J. “Função e campo da fala e da linguagem” (1953) . In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p.238-324.
LACAN, J. (1970). Radiofonia. In:______. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
Lacan, J. Posfácio. In: O seminário livro11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p.263-266.
Lacan, Jacques. Joyce, o sintoma. In: O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p.157-165.
Miller, Jacques- Alain. Ler um sintoma. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, n.70,  junho de 2015.
[1] Este texto foi publicado originalmente na Revista Curinga, n. 55, Letra, escrito e interpretação, da EBP-MG em julho de 2023.
[2] Miller, J-A. Ler um sintoma. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, n.70,  junho de 2015, p.14.
[3]“Se há alguma coisa que possa nos introduzir a dimensão da escrita como tal, é nos apercebermos de que o significado não tem nada a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do que se ouve de significante. O significado não é aquilo que se ouve. O que se ouve é o significante”. (LACAN, 1972-73/1985, p.47).

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