Da escuta à leitura[1]
Esthela Solano-Suárez
Uma análise é uma experiência de fala à qual um falasser pode se arriscar. Ao se endereçar a um analista, ele espera receber uma resposta capaz de esclarecer o enigma daquilo que nele não funciona, escavando uma desarmonia no mais íntimo de si como pertencendo ao que lhe é mais estranho, não sem afetá-lo.
O endereçamento a um analista inclui uma suposição, a qual é sustentada por uma crença. Crer que aquilo de que se sofre quer dizer alguma coisa, cujo sentido escapa, revela-se ser a premissa de uma verdadeira demanda de análise.
Portanto, uma demanda de sentido suscetível de esclarecer o que quer dizer a opacidade em jogo. Desde o início, surge o eixo em torno do qual se articula o lugar do sujeito suposto saber, cujo engodo consiste em acreditar que o analista é suposto poder fornecer um significante que viesse dar sentido ao significante enigmático do qual o falasser padece. Essa é a armadilha da demanda e aquilo que o analisante em potencial mais teme: que o analista possa crer que sua pessoa é convocada como aquele que sabe. Ocupar o lugar de um analista digno desse nome exige que ele não vista a roupa[2], o que faria dele apenas um fantoche ridículo.
Delimitar as coordenadas do que constitui a queixa do sujeito, correlacionada a um sofrimento, será essencial. Tato, prudência e gosto ao detalhe serão esperados no analista. Um interesse pela particularidade da situação que lhe é apresentada, sua preocupação com a precisão, fará surgir uma maneira de dizer na qual certos ditos ganharão relevo.
Do fluxo de palavras daquele que fala, o analista pode fazer ouvir, não as palavras, mas os significantes. Em especial, um significante que, por sua insistência, por sua consistência sonora, representa o sujeito e pode adquirir o valor de significante da transferência. A mudança ocorre no momento em que o analista introduz o analisante em uma outra diz-mensão, a do inconsciente, enquanto um saber que o sujeito pode decifrar[3].
Freud abriu esse caminho: inaugurando um discurso inédito, o discurso analítico, ele demonstrará que os sintomas, os sonhos, os lapsos, podem ser decifrados, revelando um sentido relativo ao saber inconsciente. O trabalho de ciframento do inconsciente, que se realiza nos sonhos, veicula uma satisfação do desejo produzindo, ao mesmo tempo, um “ganho de prazer”. O sentido do sintoma decifrado evidencia um saber-fazer do inconsciente com os significantes de lalíngua, sem deixar de realizar uma secreta satisfação pulsional.
A interpretação freudiana é da ordem do sentido, revelando uma verdade relativa ao sentido sexual.
A experiência freudiana esbarra na dificuldade do fim da análise; a constatação de um rochedo intransponível, do qual a castração é a chave, e a recusa da feminilidade o seu correlato. A constatação de “restos sintomáticos”, solicitando a retomada regular da análise, é coerente com a ideia de uma análise sem fim.
Jacques-Alain Miller considera que essa dificuldade decorre da modalidade de interpretação centrada no sentido. Na medida em que a experiência da fala é a da fuga do sentido e da falta do verdadeiro sobre o verdadeiro, o processo de deciframento não encontra seu ponto de finitude[4]. Ele observa que Freud, ao interpretar o sintoma no quadro da dialética edipiana, prolongando a metonímia do gozo, recobre de significação o significante do sintoma que opera fora-do-sentido. Ele contrapõe a isso a operação de Lacan que consiste em deslocar a interpretação do ternário edipiano para um ternário que não produz sentido: o enquadre borromeano[5].
A partir dessa perspectiva, é o próprio estatuto e funcionamento da interpretação que muda, passando da escuta do sentido à leitura do fora-do-sentido, acrescenta J.-A. Miller nesse texto.
Sigamos, portanto, essa nova perspectiva.
No enquadramento do nó borromeano que enoda três consistências – sendo o real, o simbólico e o imaginário –, sua disposição permite localizar que o sentido encontra seu lugar na interseção do imaginário e do simbólico. O sentido é aquilo que responde, no imaginário, ao simbólico. Se o imaginário se sustenta na consistência da imagem do corpo, Lacan conclui que há um parentesco entre a boa forma e o sentido; nesse caso, a consistência suposta ao simbólico está de acordo com essa imagem primordial[6]. Sabe-se que, para que haja nó, o imaginário e o simbólico não bastam; é necessário acrescentar-lhes o terceiro elemento, o real.
“O real [segundo Lacan] se funda por não ter sentido, por excluir o sentido ou, mais exatamente, por se decantar ao ser excluído dele”[7].
Na sua intenção de extrair a psicanálise do impasse freudiano, Lacan desloca a interpretação do sentido, que visava a verdade, em direção à existência de um real, a fim de fazer a operação analítica passar da impotência ao impossível. Para isso, ele se apoia na lógica, a qual Aristóteles dá o passo inaugural ao esvaziar os ditos de seu sentido. “Com isso, ele nos dá uma ideia da dimensão do real, [passando] pelo escrito”[8], indica Lacan.
A esse respeito, J.-A. Miller sublinha que “a linguagem, enquanto tal – nosso blábláblá habitual – não acede a nenhum real. Simplesmente, a linguagem supõe o ser a certas palavras”[9]. Em consequência, é necessário que a linguagem faça surgir “o real [como sendo] o produto fora-do-sentido de um discurso”[10]. Nesse caso, a lógica e o discurso matemático são capazes de produzir uma demonstração de impossibilidade. O real de Lacan, fora-do-sentido e sem lei, toca a impossibilidade da escrita da relação sexual entre os seres falantes.
É essa a orientação proposta por Lacan quando indica que, se “a análise […] é a resposta a um enigma”, nesse percurso “é preciso conservar a corda. […] corremos o risco de tartamudear, se não soubermos onde a corda termina, ou seja, no nó da não-relação sexual”[11].
Se o inconsciente é uma formação linguageira, e se a linguagem veicula o Um, o Um do significante, segue-se que, “do inconsciente, todo Um, na medida em que sustenta o significante de que o inconsciente consiste, é suscetível de se escrever por uma letra”[12]. Por essa via, o inconsciente adquire o estatuto de um escrito. Lacan acrescenta que a escrita da letra “é justamente aquilo que o sintoma opera de maneira selvagem”, de onde provém “o que não cessa de se escrever no sintoma”[13].
Daí a importância dessa referência à escrita para circunscrever a repetição.
Se o inconsciente e o sintoma são da ordem do escrito, o estatuto da interpretação muda ao passar “da escuta do sentido à leitura do fora-do-sentido”. Ler um sintoma “consiste em separar a fala do sentido veiculado por ela, a partir da escrita como fora-do-sentido, como Anzeichen, como letra”[14]. Isso consiste “em desmamar o sintoma do sentido”[15], pois “ao nutrir de sentido o sintoma, ou seja, o real, não fazemos senão dar-lhe continuidade de subsistência”[16].
Lacan indica que, se na prática analítica se opera a partir do sentido, ele não deixa de precisar que “por outro lado, o sentido, vocês só operam ao reduzi-lo”[17]. Reduzir o sentido visa produzir uma incidência sobre o real do gozo, esvaziando o sentido sexual que recobre sua opacidade. A interpretação passa então a apoiar-se naquilo que é legível no que se ouve nos ditos do analisante. Para isso, ela recorre ao que é fundamental no simbólico, a dimensão do equívoco, “a qual comporta a abolição do sentido”[18]. A legibilidade, como fundamento da interpretação do analista, orienta-se pela sonoridade do significante, afastando a finalidade da significação. A dimensão sonora, isolada pelo corte dos ditos, fará passar o dito ao dizer.
O dizer é um acontecimento, e faz acontecimento de corpo se a sonoridade do dito ressoa com os traços deixados por lalíngua no corpo. Nesse caso, o simbólico pode incidir sobre o real parasitário do gozo, tornando possível isolar um “gouço-sentido [j’ouis-sens]. É a mesma coisa [acrescenta Lacan] que ouvir um sentido”[19].
O legível, resultado de uma operação analítica fundada sobre o corte – operação que Lacan pensava elevar “à dignidade da cirurgia”[20] –, ao fazer irromper o fora-do-sentido que promove o equívoco, ao final do percurso, tropeçará no ilegível do sinthoma, e cujo gozo opaco, tendo sido circunscrito, assinala o mais singular de um falasser. Não sem que emerja a experiência de uma nova satisfação desprendida do pathos inicial.
Tradução: Gustavo Menezes
