Entrevistas preliminares entre lalíngua, gozo e transferência.

Claudia Regina Santa Silva

Na escuta do discurso do sujeito, como o analista pode seguir os sinais de lalíngua, ou o seu fenômeno essencial- o gozo-, uma vez que o acessível no trabalho analítico só é possível pela linguagem?

Podemos pensar no fazer do analista incidindo sobre o gozo já no início de um tratamento, ou seja, já nas entrevistas preliminares?

Na vertente de seu último ensino, Lacan vai dizer que todo sujeito é feliz no nível do inconsciente, já que a pulsão “sempre funciona como convém” . Se o sujeito é feliz no funcionamento da pulsão, o que o leva a uma análise, já que nesta será inevitável percorrer o caminho ao encontro de um impossível que o real vem introduzir?

Sabemos que o sujeito em um início de tratamento quer buscar o alivio de seu sofrimento, ou mesmo rearranjar algo que não está mais tão arranjado como antes. Mas ao encontrar-se com o discurso analítico, encontra outra coisa. Depara-se com o próprio gozo, e ao encontra-lo será necessário decidir o que fazer com ele. Esse trabalho não é simples e por isso a transferência parece ter papel fundamental nesse processo. No início é com o suporte da transferência que o sujeito atravessa momentos chaves na análise, e no fim, será necessário desbastá-la, para se separar do analista e do gozo de falar.

Miller no texto O monologo da aparola, apresenta uma torção da interpretação enigma para a interpretação que aponta para o impossível, ou seja, contraria ao princípio do prazer. Podemos pensar que essa lógica pode estar presente nas entrevistas preliminares? Ou seja, o analista pode utilizar-se tanto da interpretação enigma como a que aponta para o gozo? Como isso pode nos ajudar a pensar o início de um tratamento e o que pode engendrar a transferência, já pensando que lalíngua está lá desde o princípio, e com isso também a presença do gozo?

 

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