O ato analítico, um ato sem medida

Oscar Ventura (ELP/AMP) 

Uma anedota

Resgato como introdução uma anedota, contada a nós por aquele cara cativante que foi Serge Cottet. Parece ser que em uma das lições do seminário XIV ─ não sabemos exatamente qual, mas podemos inferir que se trata de algumas das lições nas quais Lacan tratava, a partir das matemáticas, da lógica e da geometria, de dar conta da incomensurabilidade do gozo ─ “um analista disse algo que desagradou sobremaneira ao Dr. Lacan […] O referido analista disse ‘na próxima vez que eu fizer amor, não tenho que me esquecer da regra de calcular’.”[1] Esse desenganado da falta de relação sexual, tal como Serge Cottet o qualifica, dava conta de um não querer saber nada daquilo que funda um sintoma como tal, do enigma do sexo que só pode ser captado em sua incomensurabilidade, em sua ausência de medida e de proporção, onde nenhuma regra de calcular pode delimitar a medida adequada do que se põe em jogo, porque justamente não há forma possível de medir uma ausência.

Da medida à contingência

Essa breve lembrança serve, então, para colocar em perspectiva que, no que diz respeito ao ato analítico, tudo aquilo que seja da ordem da medida, do cálculo na transferência, em suma, de um saber que pudesse ser antecipado, não representaria mais do que a vã esperança de pretender conectar o que é a disjunção estrutural que existe entre o saber e o gozo. Se há uma lógica do ato analítico, ela só pode ser formalizada retroativamente pela própria contingência daquilo que a experiência de uma análise pode escrever para além do relato do analisante, daquilo que não está escrito para ser lido.

Lacan disse: “A contingência, eu a encarnei no para de não se escrever. Pois aí não há outra coisa senão encontro, o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um marca o traço do seu exílio, não como sujeito, mas como falante, do seu exílio da relação sexual”[2]. E é nesse território das pegas de um exílio onde o ato analítico tem a possibilidade de emergir, já não sendo solidário do sujeito do inconsciente, senão do parlêtre a quem em um momento qualquer que seja da experiência, se apagam as pegadas com as quais pretendia oferecer um nome à substância gozante que o atravessa como fundamento último de sua existência.

O exílio das pegadas

As pegadas de um exílio. Detenhamo-nos um pouco nelas. Se do que se trata no devir do tratamento concerne a uma redução progressiva do sentido, é lícito dizer que as pegadas que constroem a historicização, que formam parte de uma memória sempre incerta e que fazem de suporte ao relato do sujeito no tempo do tratamento, se esta está, podemos dizer assim, orientada pelo real, essas pegadas perdem consistência. As formas com as quais o analista intervém na transferência, suas interpretações, suas escansões, suas pontuações, seus cortes… são o testemunho de que em última instância o inconsciente estruturado como uma linguagem é um aparato de gozo. E todas essas manobras na transferência estariam destinadas a reduzir esse aparato que não deixa de gozar do sentido que desdobra. Esse desdobramento não mostra mais que a impotência de pretender alcançar uma satisfação que falha o tempo todo, aquilo que procura, enquanto tal, não existe. Trata-se de orientar o sujeito não no plano da busca infinita, mas sim na contingência que pode surpreendê-lo em uma satisfação inédita, que já não se suporta no semblante, senão no corpo que a suporta.

O corpo e a ressonância

Nessa direção, pegada e repetição são um binômio que se articula. O que chamamos de pegadas nesse sentido são solidárias da repetição. Isto tem uma raiz e uma genealogia freudiana muito precisa; o limite da rememoração é a repetição. E a coisa interessante reside justamente em pensar que tipo de escrita pode advir para além do que o inconsciente interpreta por si mesmo. Ou, dito de outra maneira, o inconsciente é o que se lê, o que se interpreta. Mas o que é da ordem do gozo não admite leitura alguma, o gozo em última instância pode se encarnar em uma letra que não está para ser lida, senão que é solidária de uma ressonância no corpo da qual emerge.

E esse território sem pegadas para ler, implica um momento muito fundamental da experiência. Podemos tentar dizer isso de uma maneira simplificada, rápida; é quando, por exemplo, nas vicissitudes de um tratamento se produz uma cessação da demanda, um stop da metonímia, quando alguém deixa de falar para o Outro, inclusive quando se instala a certeza de que não há mais o que dizer… E é nesse momento que provavelmente algo diferente pode se escrever na transferência. Algo que requer um ato que ofereça a possibilidade de fazer mutar o gozo, de lhe permitir uma declinação que não se encapsule na pura pulsão de morte, que possa advir uma Outra satisfação que não seja a ruína do sujeito.

Mas, é claro, isto implica também uma lógica diferente da interpretação ou, mais precisamente, para dizer isso com mais propriedade, do ato como tal. E de que natureza é esse ato? Para onde ele aponta se já não aponta para o significante como tal, se já não é solidário do deciframento, se não se trata da razão? Podemos dizer que nele o que se escreve é da ordem da ressonância, do que no corpo responde como acontecimento de dizer. Mas o que é a ressonância? É algo que não chega a se dizer, mas que, no entanto, se escuta, algo da própria língua do sujeito que pode ser isolado, algo inclusive estrangeiro à linguagem, mas produzido pela própria linguagem, destilado pela linguagem. E é neste espaço onde o ato se impõe e seus efeitos, como diz Lacan, “são recebidos no âmbito do estímulo que ela [a interpretação] traz para a inventiva do sujeito”[3], para a poesia que sua própria língua pode imprimir.

A estranha materialidade do que se escuta

É possível materializar isso que não se diz, mas se escuta? Poderíamos pensar que pode ser um neologismo, o resto indizível de um sonho, um equívoco. Mas o fundamental é que, se isso se produz, se isso é escutado, seja lá o que for… o sujeito, nesse instante, nesse mesmo momento, fica só com sua língua privada, com o mais íntimo, sem analista, sem Outro, sem sujeito suposto saber, nem semblante de objeto. “O ato analítico está vinculado ao sujeito suposto saber, mas precisamente na sua falha”[4].

Como fazer isso ressoar? Não há uma fórmula, claro, porque o próprio analista é surpreendido no que escuta, impacta nele. Talvez, e somente como uma fórmula possível entre outras, se possa dizer que é a jaculação como ato, por exemplo, o que pode sancionar isso, essa perturbação do discurso, essa queda da cadeia, esse fracasso do sentido. Mas, claro, não podemos deslizar em direção a uma técnica, porque ela não existe. Em todo caso, é o corpo do analista que, de alguma maneira, responde ao impacto e serve de suporte a isso, fazendo ressoar que ali há algo cifrado, uma letra que não é significante e que já não admite nenhum S2, deixando o sujeito à mercê de sua própria relação com a língua. E, neste sentido, é, efetivamente, um momento de destituição do analista. O ato tem a propriedade, no momento mesmo de se produzir, de desalojar o analista da cena. E é o analista quem consente em não ser mais do que um objeto descartável, porque não reside nele mais do que o mérito de ser a testemunha do fracasso do saber que ele representa em cada ato que realiza. Aí reside a condição ética na qual funda sua prática.

 

Tradução: Nelson Matheus Silva
Revisão: Esperanza Izuel

 


[1] Cottet, S. “Lapsus del Acto Sexual: Ejaculatio Praecox”. Em: Acto e Interpretación. Buenos Aires: Manantial, 1984, p. 31.
[2] Lacan, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 198.
[3]  Lacan, J. O Seminário, livro 15: o ato psicanalítico. Rio de Janeiro: Zahar, 2025, p.58.
[4] Miller, J.-A. Donc, La lógica de la cura. Paidós, Buenos Aires, 2011, p. 438.

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