Operar em lalíngua
Virgínia Carvalho
Aprendemos com o argumento do XXVI Encontro Brasileiro que no coração da prática psicanalítica está a interpretação e que esta incide sobre o umbigo do falasser, fazendo surgir um “significante irredutível”que permita ao falasser localizar, para além da significação, “a qual significante – não senso, irredutível, traumático – ele está, como sujeito, assujeitado”.
Tal indicação se deve ao fato de que, como pontua Lacan, lalíngua “serve para coisas diferentes da comunicação”, já que “aonde isso fala, isso goza”. Para Miller, “dizer ‘lalíngua’ em uma só palavra é justamente designar lalíngua pelo som, lalíngua suposta, aquela anterior ao significante mestre, aquela que a análise parece liberar e desencadear”. É o “depósito, a coletânea de vestígio dos outros ‘sujeitos’”, o modo como cada um inscreveu seu gozo pelos significantes.
A linguagem “é feita de lalíngua”, ou seja, ela é uma elucubração de saber sobre lalíngua. Nessa perspectiva, o inconsciente, que é intérprete – como vimos no último encontro preparatório, é um “saber-fazer com lalíngua”, “um saber que se articula a partir de lalíngua”.
Por essa razão, Lacan pode colocar, na interpretação, o acento sobre o significante, sobre “o jogo com a equivocidade”. Ele chega a dizer que “é em lalíngua que a interpretação opera”, pois ela deve visar o essencial no jogo de palavras para não alimentar o sentido do sintoma. A interpretação deve sempre ser “o ready-made de Marcel Duchamp”, o que nos lembra a ideia proposta por Miller do analista como uma “instalação portátil”.
Considerar essa poética da interpretação não equivale a ficarmos apenas buscando os barulhinhos e grunhidos irreconhecíveis no caso, como muito bem nos indicou Henri Kaufmanner no Preparatório. O que seria, então, operar em lalíngua? Como nos servirmos dessa orientação tão precisa de Lacan em nossa prática cotidiana? E na psicanálise aplicada? Como podemos pensar essa operatividade da interpretação, a partir de lalíngua?
