Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Mônica Hage (EBP/AMP)
No texto “O inconsciente intérprete: o lugar do sonho”, Cristina Drummond traz a questão sobre “Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real”[1].
Se os sonhos precisam do dispositivo analítico para ganhar “estatuto de sonhos que interpretam o inconsciente”[2], é porque, fora dele, se resumiria a um “traço fora do sentido no corpo vivo”[3]. Talvez isso já nos permita vislumbrar que, para além do sentido, há algo mais no sonho: um corpo que vibra.
Quantas vezes escutamos dos analisantes: “ainda não sei o que esse sonho quer dizer, ou o que significa, mas o que sei é que produziu algo forte no corpo...” Esse algo no corpo, para além do seu significado, nos aponta que o sentido e a decifração não são capazes de recobrir tudo em um sonho.
O exemplo de Clotilde Leguil, trazido por Laurent Dupont nos mostra com clareza esse para além, que Freud denominou o umbigo do sonho. A analisante leva o sonho para a sessão e o interpreta dando-lhe um sentido. “Eu tinha acabado de ser nomeada passadora e sonhei que o analista estava olhando na minha boca e cortando pedaços de língua. Eu me encontrei com os pedaços de língua na mão e me perguntei como eu ainda seria capaz de beijar e falar. Finalmente, percebi que ainda podia falar. Quando saí, joguei os pedaços de língua que mantinha na mão no lixo». Fim do sonho. No momento, percebi esse sonho como se referindo a algo da ordem de uma separação com uma certa relação com a fala. Mas o analista apontou que ter a língua cortada também era abordar o que eu não podia dizer”[4]. Ela acrescenta: “esse sonho foi um choque elétrico”[5], já apontando o efeito do sonho no corpo. O que lhe permitiu ir além da decifração foi que o analista não se conformou, não se deixou “enganar pelo brilho da significação”[6].
Um dos fios de leitura proposto para o XXVI EBCF aponta para o que ressoa na interpretação. O que ressoa? Poderíamos dizer que no caso de Clotilde Leguil a fala do analista “o que eu não podia dizer”[7], ao abrir para o indizível, produziu ressonâncias além do sentido lhe permitindo abordar a sua “relação com a feminilidade na vertente do gozo”[8].
Esse pequeno fragmento clínico deixa claro que o sonho tem um duplo estatuto, já que além de ser tomado como a via régia de decifração do inconsciente, ele também marca o corpo e permite ler “o que isso satisfaz”?
Lacan, lido por Miller, no decorrer do seu ensino propõe revirar a interpretação ao avesso. Da ideia de decifração, tradução, significação, ele propõe uma interpretação a-semântica. Não se trata mais de pontuação, mas de corte que, ao separar S1 e S2, “reconduz o sujeito à opacidade de seu gozo”[9]. Para produzir esse efeito o analista é livre em sua tática. Serão palavras, sons, barulhos, gestos, enfim, algo que possa ressoar no corpo e afetar o gozo.
Nessas idas e vindas, viradas e reviradas, entre o direito e o avesso, quem interpreta? Se o inconsciente é o intérprete, e o fazer do analista? Estaríamos diante de contradições? Paradoxos?
O fragmento clínico trazido nos mostrou que talvez seja possível tocar o real, sem necessariamente deixar de dar lugar ao inconsciente intérprete, desde que estejamos advertidos dos limites da significação.
[1] Drummond, C. O inconsciente intérprete: o lugar do sonho. Texto publicado no Site do XXVI EBCF.
[2] Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[3] Idem.
[4] Leguil, C. Rêve, rivage, dénouement. Quarto, n.123, apud Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[5] Idem.
[6] Idem.
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] Miller. J.A. A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, n.15. São Paulo: Eolia, abril de 1996.
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
Blanca Musachi
Graciliano Ramos: Infância. Trevas e farrapos de imagens para um destino de escrita.
Trata-se de um importante escritor brasileiro que escreveu páginas memoráveis na literatura. Seu livro Infância é uma obra que tece uma ficção a partir de lembranças referidas à sua infância, onde nos interessa particularmente como ele atravessa o capítulo da infância chamado Cegueira, no livro.
Escreve sobre a doença nos olhos que o perseguiu na meninice. Padecia de pálpebras inflamadas. Um sintoma doloroso em excesso. Vivia na treva. Descreve seu aspecto desagradável, que inspirava repugnância e despertava a viva antipatia da mãe que o apelidou de bezerro encourado (um intruso) e cobra cega, motivo de deboche e zombaria. Escreve: Devo o apelido ao meu desarranjo, à minha feiura; ao desengonço. Não havia roupa que me assentasse no corpo. Depois do tempo de se revoltar contra essa injúria familiar que o comparava a um bicho infeliz, conclui que ninguém tinha culpa de seu organismo achacado e mofino. A leitura deu lugar à escrita como sinthome, e para dar consistência à sua imagem corporal.
Essa doença nos olhos, como ele mesmo diz, o afastou da escola e o tornou solitário, sem amigos. Mas um dia revela-se para ele algo que vai mudar a sua vida: “Na escuridão percebi o valor enorme das palavras”, escreve. Ou seja, do “mergulho da sombra, com migalhas de sons, farrapos de imagens dolorosos” encontra uma saída quando percebe o “valor enorme das palavras”. Aprenderá a ler aos 9 anos e se tornará um leitor voraz, aos 11 se tornará editor do jornal da escola e, no caminho das letras, construirá um destino de escritor, que explora o trauma – cuja essência é o trauma da língua –, o “sintraumatiza”, como diz Miller com Lacan, referindo-se a outro escritor célebre, Joyce. Cito: “Ele explora o trauma, o “sintraumatiza”… É a essência de todo sintoma. Eles têm o hábito de se esconder sob fantasias, mas com Joyce nós temos a sua essência. É o núcleo da clínica”. (Miller citado por Ram Mandil, em Lacan, leitor de Joyce, capítulo O artífice e sua arte. p. 271, verso).
Infância, de Graciliano Ramos, se é uma biografia, como toda biografia, está esburacada, tem um ponto de impossível estrutural, de fracasso para dizer o real, e onde os fatos são, como ensina Lacan, fatos de discurso. O que importa é a arte com a qual ele “sintraumatiza” a incidência da língua sobre o ser que fala, que constitui o infantil indelével.
Temos outros exemplos. Em Manoel de Barros vemos como ele fez do infantil, matéria de poesia. Em seu poema Fontes, ele diz que tem três parceiros para suas memórias inventadas: Os pássaros, os andarilhos e a criança: “parceiro desde sempre é a criança que me escreve”.
Assim como Graciliano, mas sem o dramatismo da cegueira, Manoel de Barros diz: “A criança me deu a semente da palavra”. “Uso a palavra para compor meus silêncios”. Isso diz do tratamento que “sintraumatiza” o barulho da língua, fazendo “delirar o verbo”, tecendo o que Lacan chamou de um gai savoir, um saber alegre.
Citações e Referências - I preparatória
Alguns destaques orientadores para animar a conversa sobre o Inconsciente Intérprete, tema da I Preparatória para o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita.
“Se o inconsciente interpreta, o que resta, então, para o analista fazer?”
Jacques-Alain Miller
La fuga del sentido
“Fazer ressoar, fazer alusão, subentender, silenciar, fazer oráculo, citar, fazer enigma. meio-dizer, revelar – quem faz isso? Quem o faz melhor? Quem maneja essa retórica desde nascença, enquanto você se esforça para aprender rudimentos dela? Quem? – a não ser o próprio inconsciente.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“O que ainda chamamos ‘interpretação’, muito embora a prática analítica seja sobretudo pós-interpretativa, certamente revela, mas o quê? – apenas uma opacidade irredutível na relação do sujeito com lalíngua”.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“Não se trata de saber se a sessão é breve ou longa, silenciosa ou falante. Ou a sessão é uma unidade semântica, onde S2 vem pontuar a elaboração – delírio a serviço do Nome-do-Pai – muitas sessões se constituem dessa forma. Ou a sessão analítica é uma unidade a-semântica reconduzindo o sujeito para a opacidade de seu gozo. Isso supõe que antes de ser encerrada, deve ser cortada”.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“… podemos admitir que o sonho, o lapso, o chiste, isso se lê”.
Jacques-Alain Miller
El ultimísimo Lacan
“O psicanalista só consegue acertar o alvo se ele estiver à altura da interpretação operada pelo inconsciente, já estruturado como uma linguagem. (…) É preciso dar todo o seu lugar à barra que separa as duas dimensões [significante e o significado] e permite a topologia da poética. A função poética revela que a linguagem não é significação, mas ressonância, e evidencia a matéria que, no som, excede o sentido”.
Éric Laurent
A interpretação: da escuta ao escrito
SUGESTÕES DE LEITURA:
Jacques-Alain Miller:
A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, n.15. São Paulo: Eolia, abril de 1996.
Nosso sujeito suposto saber. Opção Lacaniana, n. 47. São Paulo: Eólia, dezembro de 2006.
El ultimissimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. Lección 2 de mayo del 2007.
Os trumains. Lição de 2 de maio de 2007 do curso de J.-A. Miller « A orientação lacaniana. O ultimíssimo Lacan » (2006-2007), ensino pronunciado no âmbito do Departamento de Psicanálise da Universidade Paris VIII. Versão estabelecida por Pascale Fari. Disponível em: http://bit.ly/4fA24Mr
A palavra que fere. Opção Lacaniana, n. 56/57. São Paulo: Eólia, julho de 2010
La fuga del sentido. Buenos Aires Paidós, 2012.
Éric Laurent:
A interpretação ordinária. Arteira. Florianópolis: EBP – Seção Santa Catarina, n. 9, 2017. Disponível em: http://revistaarteira.com.br/images/pdf/Arteira-9.pdf
A Interpretação: da escuta ao escrito. Revista Correio, n. 87. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, abril de 2022.
Serge Cottet:
O declínio da interpretação. Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.
Pierre-Gilles Guéguen:
La interpretación lacaniana. Revista Freudiana, n. 64. Barcelona, ELP-Catalunya, 2012. Disponível em: https://freudiana.com/la-interpretacion-lacaniana/
O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
Serge Cottet analisando o declínio da interpretação visando o IX Encontro da AMP nos fala da dificuldade de se criar um efeito surpresa tal como as interpretações decifração criavam em tempos anteriores. Ele não pensa que a expressão “declínio da interpretação”[1] seja satisfatória para pensar o que observamos na clínica, mas que estaria implicado o fato de que certo manejo da interpretação contribui para provocar menos surpresa do que seria esperado.
Em textos dos Escritos, Lacan diz que os pós-freudianos assimilaram a interpretação ao flogístico, a um uso quase ocultista, e que isso impunha um manejo do significante e da letra como elementos do inconsciente, restaurando sua verdade[2].
Em 1964, Lacan lembrou que a interpretação não era aberta a todo sentido, alertando para uma certa religião da escuta que levava a efeitos de sentido antes que efeitos de significação[3].
Cottet também chama a atenção para o fato de que alguns analistas que fizeram o passe se esqueceram das interpretações que escutaram. Ele diz que isso pode ser uma consequência de que essas interpretações tenham operado. Além disso, o silencio do analista pode operar muitas vezes como uma interpretação.
Por outro lado, os analistas davam um lugar significativo para seus sonhos e para as formações do inconsciente. Tudo acontece como se elas tomassem o lugar da interpretação faltante. Tal fato confirma a tese posteriormente proposta por Miller segundo a qual quem interpreta é o inconsciente. A pergunta é se a interpretação deve ser homogênea à retórica do inconsciente, o que indicaria uma interpretação sob a forma do rumor, do equivoco, da homofonia, do enigma, da citação.
Além de perguntar para onde foi a interpretação a pergunta era se o silêncio como interpretação ou mesmo as intervenções do analista não alimentavam o gozo do sintoma ou não permitiam ir além do inconsciente, fazendo proliferar o gozo-sentido.
Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real. O par real e letra indicam um caminho distinto do par significante e significado. Penso que o conceito de inconsciente real também indica essa via.
Assim temos as interpretações que destacam os significantes do sujeito e aquelas que incidem sobre a pulsão.
Como pela decifração poder tocar o gozo da cifração?
Clotilde Leguil diz que a interpretação permite fazer ressoar o modo como o verbo ganhou poder em cada um, a fim de encontrar o que estava no começo do sintoma. O poder da palavra se distingue da palavra como poder[4]. A interpretação toma então o valor de um ato do qual resulta uma conversāo na posição do sujeito quanto a sua relação com o saber como diz Lacan no Seminário do Ato psicanalítico em 1967[5].
Cristina Drummond






