Da escuta à leitura[1]

Da escuta à leitura[1]

Esthela Solano-Suárez

Uma análise é uma experiência de fala à qual um falasser pode se arriscar. Ao se endereçar a um analista, ele espera receber uma resposta capaz de esclarecer o enigma daquilo que nele não funciona, escavando uma desarmonia no mais íntimo de si como pertencendo ao que lhe é mais estranho, não sem afetá-lo.

O endereçamento a um analista inclui uma suposição, a qual é sustentada por uma crença. Crer que aquilo de que se sofre quer dizer alguma coisa, cujo sentido escapa, revela-se ser a premissa de uma verdadeira demanda de análise.

Portanto, uma demanda de sentido suscetível de esclarecer o que quer dizer a opacidade em jogo. Desde o início, surge o eixo em torno do qual se articula o lugar do sujeito suposto saber, cujo engodo consiste em acreditar que o analista é suposto poder fornecer um significante que viesse dar sentido ao significante enigmático do qual o falasser padece. Essa é a armadilha da demanda e aquilo que o analisante em potencial mais teme: que o analista possa crer que sua pessoa é convocada como aquele que sabe. Ocupar o lugar de um analista digno desse nome exige que ele não vista a roupa[2], o que faria dele apenas um fantoche ridículo.

Delimitar as coordenadas do que constitui a queixa do sujeito, correlacionada a um sofrimento, será essencial. Tato, prudência e gosto ao detalhe serão esperados no analista. Um interesse pela particularidade da situação que lhe é apresentada, sua preocupação com a precisão, fará surgir uma maneira de dizer na qual certos ditos ganharão relevo.

Do fluxo de palavras daquele que fala, o analista pode fazer ouvir, não as palavras, mas os significantes. Em especial, um significante que, por sua insistência, por sua consistência sonora, representa o sujeito e pode adquirir o valor de significante da transferência. A mudança ocorre no momento em que o analista introduz o analisante em uma outra diz-mensão, a do inconsciente, enquanto um saber que o sujeito pode decifrar[3].

Freud abriu esse caminho: inaugurando um discurso inédito, o discurso analítico, ele demonstrará que os sintomas, os sonhos, os lapsos, podem ser decifrados, revelando um sentido relativo ao saber inconsciente. O trabalho de ciframento do inconsciente, que se realiza nos sonhos, veicula uma satisfação do desejo produzindo, ao mesmo tempo, um “ganho de prazer”. O sentido do sintoma decifrado evidencia um saber-fazer do inconsciente com os significantes de lalíngua, sem deixar de realizar uma secreta satisfação pulsional.

A interpretação freudiana é da ordem do sentido, revelando uma verdade relativa ao sentido sexual.

A experiência freudiana esbarra na dificuldade do fim da análise; a constatação de um rochedo intransponível, do qual a castração é a chave, e a recusa da feminilidade o seu correlato. A constatação de “restos sintomáticos”, solicitando a retomada regular da análise, é coerente com a ideia de uma análise sem fim.

Jacques-Alain Miller considera que essa dificuldade decorre da modalidade de interpretação centrada no sentido. Na medida em que a experiência da fala é a da fuga do sentido e da falta do verdadeiro sobre o verdadeiro, o processo de deciframento não encontra seu ponto de finitude[4]. Ele observa que Freud, ao interpretar o sintoma no quadro da dialética edipiana, prolongando a metonímia do gozo, recobre de significação o significante do sintoma que opera fora-do-sentido. Ele contrapõe a isso a operação de Lacan que consiste em deslocar a interpretação do ternário edipiano para um ternário que não produz sentido: o enquadre borromeano[5].

A partir dessa perspectiva, é o próprio estatuto e funcionamento da interpretação que muda, passando da escuta do sentido à leitura do fora-do-sentido, acrescenta J.-A. Miller nesse texto.

Sigamos, portanto, essa nova perspectiva.

No enquadramento do nó borromeano que enoda três consistências – sendo o real, o simbólico e o imaginário –, sua disposição permite localizar que o sentido encontra seu lugar na interseção do imaginário e do simbólico. O sentido é aquilo que responde, no imaginário, ao simbólico. Se o imaginário se sustenta na consistência da imagem do corpo, Lacan conclui que há um parentesco entre a boa forma e o sentido; nesse caso, a consistência suposta ao simbólico está de acordo com essa imagem primordial[6]. Sabe-se que, para que haja nó, o imaginário e o simbólico não bastam; é necessário acrescentar-lhes o terceiro elemento, o real.

“O real [segundo Lacan] se funda por não ter sentido, por excluir o sentido ou, mais exatamente, por se decantar ao ser excluído dele”[7].

Na sua intenção de extrair a psicanálise do impasse freudiano, Lacan desloca a interpretação do sentido, que visava a verdade, em direção à existência de um real, a fim de fazer a operação analítica passar da impotência ao impossível. Para isso, ele se apoia na lógica, a qual Aristóteles dá o passo inaugural ao esvaziar os ditos de seu sentido. “Com isso, ele nos dá uma ideia da dimensão do real, [passando] pelo escrito”[8], indica Lacan.

A esse respeito, J.-A. Miller sublinha que “a linguagem, enquanto tal – nosso blábláblá habitual – não acede a nenhum real. Simplesmente, a linguagem supõe o ser a certas palavras”[9]. Em consequência, é necessário que a linguagem faça surgir “o real [como sendo] o produto fora-do-sentido de um discurso”[10]. Nesse caso, a lógica e o discurso matemático são capazes de produzir uma demonstração de impossibilidade. O real de Lacan, fora-do-sentido e sem lei, toca a impossibilidade da escrita da relação sexual entre os seres falantes.

É essa a orientação proposta por Lacan quando indica que, se “a análise […] é a resposta a um enigma”, nesse percurso “é preciso conservar a corda. […] corremos o risco de tartamudear, se não soubermos onde a corda termina, ou seja, no nó da não-relação sexual”[11].

Se o inconsciente é uma formação linguageira, e se a linguagem veicula o Um, o Um do significante, segue-se que, “do inconsciente, todo Um, na medida em que sustenta o significante de que o inconsciente consiste, é suscetível de se escrever por uma letra”[12]. Por essa via, o inconsciente adquire o estatuto de um escrito. Lacan acrescenta que a escrita da letra “é justamente aquilo que o sintoma opera de maneira selvagem”, de onde provém “o que não cessa de se escrever no sintoma”[13].

Daí a importância dessa referência à escrita para circunscrever a repetição.

Se o inconsciente e o sintoma são da ordem do escrito, o estatuto da interpretação muda ao passar “da escuta do sentido à leitura do fora-do-sentido”. Ler um sintoma “consiste em separar a fala do sentido veiculado por ela, a partir da escrita como fora-do-sentido, como Anzeichen, como letra”[14]. Isso consiste “em desmamar o sintoma do sentido”[15], pois “ao nutrir de sentido o sintoma, ou seja, o real, não fazemos senão dar-lhe continuidade de subsistência”[16].

Lacan indica que, se na prática analítica se opera a partir do sentido, ele não deixa de precisar que “por outro lado, o sentido, vocês só operam ao reduzi-lo”[17]. Reduzir o sentido visa produzir uma incidência sobre o real do gozo, esvaziando o sentido sexual que recobre sua opacidade. A interpretação passa então a apoiar-se naquilo que é legível no que se ouve nos ditos do analisante. Para isso, ela recorre ao que é fundamental no simbólico, a dimensão do equívoco, “a qual comporta a abolição do sentido”[18]. A legibilidade, como fundamento da interpretação do analista, orienta-se pela sonoridade do significante, afastando a finalidade da significação. A dimensão sonora, isolada pelo corte dos ditos, fará passar o dito ao dizer.

O dizer é um acontecimento, e faz acontecimento de corpo se a sonoridade do dito ressoa com os traços deixados por lalíngua no corpo. Nesse caso, o simbólico pode incidir sobre o real parasitário do gozo, tornando possível isolar um “gouço-sentido [j’ouis-sens]. É a mesma coisa [acrescenta Lacan] que ouvir um sentido”[19].

O legível, resultado de uma operação analítica fundada sobre o corte – operação que Lacan pensava elevar “à dignidade da cirurgia”[20] –, ao fazer irromper o fora-do-sentido que promove o equívoco, ao final do percurso, tropeçará no ilegível do sinthoma, e cujo gozo opaco, tendo sido circunscrito, assinala o mais singular de um falasser. Não sem que emerja a experiência de uma nova satisfação desprendida do pathos inicial.

 

Tradução: Gustavo Menezes

 

[1] Texto publicado originalmente no site da Journées de l'École de la Cause freudienne 53 - Interpréter, scander, ponctuer, couper de novembro de 2023.
[2] LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 253-254.
[3] LACAN, J. O Seminário, livro 21: les non-dupes errent. Aula de 13 nov. 1973. Inédito.
[4] MILLER, J.-A. Un rêve de Lacan. Le Réel en mathématique. Paris: Le Seuil, 2004, p. 127.
[5] MILLER, J.-A. Ler um sintoma. In: A fábrica de psicanalistas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2025, p. 253-262.
[6] LACAN, J. O Seminário, livro 22: R.S.I. Aula de 21 jan. 1975. Inédito.
[7] LACAN, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 62-63.
[8] LACAN, J. O Seminário, livro 21: les non-dupes errent. Aula de 12 fev. 1974. Inédito.
[9] MILLER, J.-A. Un rêve de Lacan. Op. cit., p. 127.
[10] Idem, p. 128.
[11] LACAN, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Op. cit., p. 70.
[12] LACAN, J. O Seminário, livro 22: R.S.I. Aula de 21 jan. 1975. Inédito.
[13] Idem.
[14] MILLER, J.-A. Ler um sintoma. Op. cit., p. 261.
[15] Idem.
[16] LACAN, J. (1974). A terceira. In: LACAN, J.; MILLER, J.-A. A terceira; Teoria de lalíngua. Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p. 53.
[17] LACAN, J. O Seminário, livro 22: R.S.I. Aula de 10 dez. 1974. Inédito.
[18] LACAN, J. (1974). A terceira. Op. cit., p. 54.
[19] LACAN, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Op. cit., p. 71.
[20] LACAN, J. O Seminário, livro 25: o momento de concluir. Aula de 11 abr. 1978. Inédito.

A distância entre a fala e a escrita[1]

A distância entre a fala e a escrita[1]

Ram Mandil

 

Há uma distância entre falar e escrever (...).
É nesta distância que opera a psicanálise, é
esta diferença que a psicanálise explora.”[2]

(JAM, “Ler um sintoma”).

Vamos considerar a relação entre a fala e a escrita tal como Lacan propõe ao longo de seu ensino, da qual se depreende não apenas a hipótese do inconsciente, mas também por onde se apoia a interpretação.

Podemos dizer que é no Seminário 20: mais, ainda que se consolida a distinção entre a letra e o significante, distinção essa que Lacan põe em marcha desde o Seminário 18: “De um discurso que não fosse semblante”.  É na lição sobre a função do escrito, do Seminário 20, que ele propõe considerar o que, num discurso, se produz por efeito de escrita.  A abordagem linguística sobre a fala, na medida em que ela distingue significante e significado, não se interessa pelo que nela opera ao nível da escrita e da leitura.  Sabemos que a linguística de Saussure, pelo menos aquela que se depreende de seus Cursos, circunscreve seu objeto, a fala, a partir de sua função semântica, colocando à parte, por exemplo, tudo aquilo que da linguagem se conjuga ao escrito.  No entanto, para Lacan, tomando como referência o discurso analítico, o significado não pertence ao mesmo campo do significante, ele é efeito de leitura daquilo que se ouve do significante[3].  O significado não está ao nível do que se escuta, do que se ouve – o que se ouve, é o significante – mas decorre de um efeito de leitura do significante.  Nesse sentido, haveria uma distância – o termo é de Lacan – entre o significante e o significado, uma distância que só poderá ser transposta a partir um ato de leitura. Lacan confere, pois, à essa distância, o estatuto de um escrito. É aqui que ganha relevância a distinção que ele estabelece entre a leitura como explicação e a leitura como compreensão. A leitura compreensiva – lembremos de nossos dias de escola, quando éramos incentivados a fazer a “leitura e compreensão” de um texto – é aquela que tende a apagar a distância entre o significante e o significado, apreendê-lo num mesmo movimento. Já a leitura pela via da explicação, implica dispor os elementos sobre um plano (é esse seu sentido etimológico, o ex-planare). Trata-se de uma leitura que permite considerar a distância entre o significante e o significado; fundamentalmente, um modo de acesso à sua não relação.

O inconsciente como efeito de leitura do que se fala

Sabemos que, para Freud, o acesso ao inconsciente se dá a partir da consideração do relato do sonho como um texto, como um escrito, cuja interpretação equivale a um ato de leitura. O exemplo mais nítido e conhecido, é a referência ao modo de leitura de um rébus, pelo qual o valor de significante da imagem nada tem a ver com sua significação.   É o que Lacan ressalta em Função e campo: “Então, que retomemos a obra de Freud na Traumdeutung, para ali nos relembrarmos que o sonho tem a estrutura de uma frase, ou melhor, atendo-nos à sua letra, de um rébus, isto é, de uma escrita (...)” (LACAN, 1953/1998, p.268).  Mas essa escrita não deve ser considerada apenas ao nível da interpretação. Ela também se faz presente na elaboração do texto do sonho, tanto em sua retórica quanto em seus processos de cifração, seja através de “deslocamentos sintáticos”, seja por meio das “condensações semânticas”, por meio das quais “Freud nos ensina a ler as intenções ostentatórias ou demonstrativas, dissimuladoras ou persuasivas, retaliadoras ou sedutoras com que o sujeito modula seu discurso onírico” (LACAN, 1953/1998, p.268-69).

Mais adiante, em “Radiofonia”, Lacan fará nova referência à interpretação freudiana como produto de uma leitura.  Aqui ele inscreve Freud numa tradição que cultiva um modo de leitura associado à tradição talmúdica, um “saber ler” entendido como saber reconhecer a distância entre a letra e sua fala, “encontrando ali o intervalo preciso para aí se jogar com uma interpretação. (LACAN, 1970/ 2003, p.427)”.  Nessa passagem, Lacan faz uma referência direta ao Midrash, uma das formas de interpretação do texto bíblico ao nível da letra, um modo de leitura que visa “extrair (...) um dizer outro, ou até implicar nele o que ele negligencia (como referência) (LACAN, 1970/ 2003, p.428)”. Trata-se de uma leitura que não descuida em considerar uma palavra ou uma letra que pode ser aparentemente supérflua, que examina as narrativas paralelas ou as relações de vizinhança entre os trechos, ou que se interessa pelo modo de presença de cada desinência (de número ou gênero) de modo a extrair daí ensinamentos ou orientações para o convívio social.

A leitura e o aprender a ler. Legibilidade e ilegibilidade.

Entramos aqui num terreno pouco explorado, que diz respeito à experiência de leitura. Se é possível discernir uma problematização do escrito a partir da psicanálise, temos algumas indicações pontuais, mas precisas, de Lacan, a respeito da prática da leitura.  Podemos dizer que essas indicações apontam para dois aspectos fundamentais:  uma crítica aos procedimentos habituais de alfabetização (“alfabestização”) ou àquilo que Roland Barthes se refere como sendo “a ilusão alfabética”, a saber, considerar a escrita como mera representação, como pura transcrição do oral, ou como procedimento de fixação da linguagem articulada. Para Lacan, a crítica à alfabetização incide sobre a correspondência que se procura estabelecer entre uma letra e um fonema, como unidade mínima de sentido. Nesse aspecto, quando se ensina que a letra G corresponde a um determinado fonema (gê), vemos que o que se escreve pode designar fonemas distintos, como em GATO e em GIRAFA. Um segundo aspecto diz respeito à própria concepção de legibilidade. Nosso hábito de leitura toma como ponto de partida a noção de que o significado de um texto decorre do puro encadeamento dos significantes e, podemos acrescentar, associado à transmissão de uma “realidade” compartilhada entre escritor e leitor. Haveria aqui uma leitura pela via da “simpatia” (sym-pathos), de um compartilhamento imaginário de pathos, que tem como exemplo mais radical a leitura de suspense, aquela que nos faz querer passar a página para saber o que irá acontecer. Considerar o inconsciente a partir dessa perspectiva, é conceber uma versão do inconsciente como “simpático”. Seria essa uma versão do inconsciente transferencial? No entanto, essa versão não se coaduna, por exemplo, com a escrita de Joyce, que convoca um regime de leitura “antipática” – daí, inclusive,  o fundamento para  Lacan poder considerá-lo como um  “desabonado do inconsciente”.  Aqui somos convidados a exercitar um outro regime de leitura de um escrito que se mostra referido a uma significação vazia, produzida justamente por um artifício de opacificação do sentido.

No Seminário 20 , Lacan faz menção ao modo de leitura do lapso, uma leitura que se faz a partir da desestabilização do sentido ou seja, “ao que se enuncia do significante, vocês dão sempre uma leitura outra que não o que ele significa.” (LACAN, 1972-73/1985, p.52). Trata-se de uma leitura que permite aferir outra coisa que a significação, permitindo acesso, inclusive, ao que se escreve a partir do sem sentido.

O Posfácio ao Seminário 11

Mas é no “Posfácio” ao Seminário 11 – escrito na semana anterior à lição sobre a função do escrito do Seminário 20 – que Lacan acentua a problematização de uma correspondência imediata entre a escrita e a leitura ao reconhecer que seus Escritos, tanto quanto Finnegans Wake, de Joyce,  serem da ordem de “um escrito para não ser lido”. No entanto, nesse “Posfácio” Lacan introduz um outro componente da leitura ao associar as condições de legibilidade de um escrito com o que aí se deposita de gozo.

Vamos acompanhar o modo como ele apresenta essa perspectiva.  Lacan retoma o conhecido witz mencionado por Freud em diversas passagens:

Dois judeus encontram-se em um vagão de trem numa estação da Galícia. ‘Onde vais’?, diz um. ‘À Cracóvia’, diz o outro. ‘Que mentiroso tu és!’, exclama então o outro., ‘Dizes que vai à Cracóvia para que eu acredite que vais a Lemberg, mas sei muito bem que vais mesmo é à Cracóvia. Então, por que mentir para mim?’ (FREUD, 1905/2017, p.165).

Em seu comentário, Lacan associa, num primeiro momento, a função do escrito  à demanda a interpretar. O que o primeiro judeu responde, “vou à Cracóvia” é interpretada pelo segundo judeu como abrigando um desejo de enganar (“por que me mentes, dizendo a verdade?). A leitura de um desejo de enganar sugere a presença de um gozo naquilo que o primeiro judeu diz.

Nessa leitura de Lacan, o destino final do primeiro judeu não se esclarece a partir do que possa estar escrito no catálogo das estradas de ferro da estação, muito menos pela verificação  do que está escrito no bilhete. Para Lacan, o escrito que verdadeiramente interessa é aquele que se materializa na própria linha férrea e na fixação dos seus trilhos: “a função do escrito não constitui então o catálogo, mas a via mesma da estrada de ferro. E o objeto (a), tal como o escrevo, ele é o trilho por onde chega ao mais-gozar o de que se habita, mesmo se abriga a demanda a interpretar” ( LACAN, 1964/ 1988, p. 265).

Vemos aqui anunciado um outro aspecto da legibilidade de um escrito: uma legibilidade que não deriva da relação entre significantes, que não se depreende de uma decodificação do texto, mas que provém da leitura da presença de um gozo que ali se inscreveu. Em uma passagem de “Joyce, o sintoma”, Lacan explicita essa correlação entre gozo e escrita: “Leiam as páginas de Finnegans Wake, sem procurar compreender. Isso se lê. Se isso se lê, como me fazia notar alguém que me é próximo, é porque sentimos presente o gozo daquele que escreveu isso. Mas o que indagamos, pelo menos a pessoa em questão, é por que Joyce o publicou.” (LACAN, 1975-76/2007, p.161.)

Reitera-se aqui a conexão entre o gozo que se deposita na letra e a demanda a interpretar, demanda essa que, no caso de Joyce, se realiza com a sua decisão de publicar Finnegans Wake.  Antevendo que essa obra iria dar 300 anos de trabalho aos universitários, Joyce procura assegurar a conexão de seu sinthoma  com o campo do Outro.

O caráter de sinthoma da obra de Joyce – de um gozo que se cifra e que, ao mesmo tempo, se constitui como enigma para o Outro – indica um deslocamento da relação entre escrita e leitura quando examinada a partir do discurso analítico. Não haveria aqui uma contraposição entre o delírio, próprio à dimensão de semblante do significante, e o caráter singular da escrita do  sinthoma?  Lacan, ao sugerir que a noção de real, tal como ele a concebe, poderia muito bem ser sua resposta sinthomática à elucubração freudiana do inconsciente, não estaria indicando a via do sinthoma como aquilo que, por seu caráter único, permite contrapor-se à deriva universal do sentido?

Por outro lado, é a própria prática da interpretação que se reformula, quando se desloca da escuta do sentido para a leitura do fora de sentido.  É o que permite renovar a força de sua incidência na atualidade, sobretudo diante do novo cogito que se desenha - “eu sou aquilo que eu digo que sou” – pedra angular do movimento de “despatologização” generalizada que hoje assistimos.  Isso implica considerar a interpretação analítica como o que leva em conta a presença de um furo que habita o ser falante. Em outras palavras, considerar o modo de emergência do simbólico a partir do real que é modo como Deus anuncia seu nome a Moisés – “eu sou o que sou” -, essa vociferação que se projeta do fundo da sarça ardente, muito antes que o profeta pudesse sonhar com os dez mandamentos de suas leis.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Freud, Sigmund . Obras completas, volume 7 : o chiste e sua relação com o inconsciente (1905); tradução Fernando Costa Mattos e Paulo César de Souza. São Paulo : Companhia das Letras, 2017.
Lacan, Jacques. O seminário: livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
LACAN, J. “Função e campo da fala e da linguagem” (1953) . In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p.238-324.
LACAN, J. (1970). Radiofonia. In:______. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
Lacan, J. Posfácio. In: O seminário livro11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964) . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p.263-266.
Lacan, Jacques. Joyce, o sintoma. In: O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p.157-165.
Miller, Jacques- Alain. Ler um sintoma. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, n.70,  junho de 2015.
[1] Este texto foi publicado originalmente na Revista Curinga, n. 55, Letra, escrito e interpretação, da EBP-MG em julho de 2023.
[2] Miller, J-A. Ler um sintoma. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eolia, n.70,  junho de 2015, p.14.
[3]“Se há alguma coisa que possa nos introduzir a dimensão da escrita como tal, é nos apercebermos de que o significado não tem nada a ver com os ouvidos, mas somente com a leitura, com a leitura do que se ouve de significante. O significado não é aquilo que se ouve. O que se ouve é o significante”. (LACAN, 1972-73/1985, p.47).

Qual interpretação?[1]

Qual interpretação?[1]

Mauricio Tarrab[2]

 

  1. Qual interpretação?

Perguntar-se “qual interpretação?” é já supor que não há somente a “interpretação analítica”. A psicanálise tem continuado uma tradição interpretativa na cultura. Há a interpretação analítica e as outras.

Se nos centramos na interpretação analítica, a qual interpretação nos referimos?

Certamente à interpretação que utilizamos como instrumento na cura analítica. Mas, qual? A interpretação do inconsciente que temos aprendido a preservar? Ou a interpretação que Lacan homologa ao desejo mesmo? Ou aquela interpretação que o sujeito faz desse enigma que é o desejo do Outro? A que fiz ou a que deixei de fazer a um analisante? A interpretação que deixei passar? A interpretação verdadeira? A inexata? A que inaugurou a história da psicanálise e se formalizou como a interpretação que aponta a fazer consciente o inconsciente?

Ou mais adiante, a que tinha em sua mira as resistências do eu, ou também àquela que se apoia na contratransferência? Ou, para mencionar um capítulo forte da história psicanalítica, aquela interpretação que recai sobre a transferência. E, para ir ao tempo lacaniano: qual interpretação? A que aponta a preencher um ponto morto na dialética da cura, como nos indica Lacan em “Intervenções sobre a transferência” em seu momento mais kleiniano? Ou será a interpretação que está orientada à falta a ser, ao -j?

Ou se trata daquela que aponta a destacar um significante mestre? Ou, para dar um salto em Lacan mesmo, aquela interpretação que aponta ao indizível? Ao real? A um osso de não sentido? Ou será a interpretação que isola um significante irredutível? Ou a interpretação que aponta ao objeto a, o qual deve cair “ao lado” do significante? Asseguro-lhes que poderíamos continuar ampliando esta enumeração e estou seguro de que vocês me seguiriam aportando possibilidades que derivam das diversas maneiras em que se aborda e se tem abordado a questão inatingível na história da psicanálise, e que cada um de nós como praticantes enfrenta diariamente em sua prática.

Verão que procuro justificar o “Qual?” de meu título, introduzindo por sua vez a noção – que não é uma novidade para nenhum de vocês – de que a interpretação é tão onipresente na psicanálise como diversa e difícil de capturar em seu conceito e em sua aplicação, entrando em jogo variáveis diversas e difíceis de definir. Se admitimos que a psicanálise é um saber que não se pode transmitir em sua totalidade, há que se aceitar também que não há forma de transmitir um savoir-faire da interpretação analítica. Nisso, a prática que fazemos da interpretação é como a psicanálise mesma.

Isso poderia desiludir aos que buscam respostas concretas sobre “como se faz”. E isso não só é um desejo dos que começam, mas também de cada um dos que levamos anos na prática. Mas com a interpretação, assim como no encontro sexual, no corpo a corpo, não há manual de instruções que valha. E, como nesse livro exemplar de Carver[3], na interpretação, como no amor, somos todos principiantes.

Quão mais fácil seria um manual de instruções!

 

  1. As ficções, o real e a máquina de interpretar

Começarei referindo-me ao cartaz que elegeram para situar meu primeiro ponto sobre a interpretação. É uma bela foto, e aprecio a boa fotografia. De imediato, essa figura simples e enigmática, caminhando de costas pela rua, me fez perguntar-me: o que quiseram dizer? É Pessoa caminhando por Lisboa, e isso leva à relação da poesia e a interpretação? Ou é meu amigo Sinatra, que esteve com vocês há alguns dias e cujos chapéus, como os do personagem da foto, são já bem conhecidos entre nós?

De qualquer maneira, o efeito estético e o sem sentido da imagem pareciam perder-se entre a elucubração poética e o chiste.

Não vou me estender em minhas associações automáticas acerca das intenções do cartaz, tão belo como enigmático. Contudo, com este simples exemplo, quero destacar como existe uma predisposição a interpretar, disposta a colocar-se em movimento para preencher qualquer furo com algum sentido. Há uma interpretação disposta a saltar sobre o desconhecido, e é a que vou me referir de imediato.

Talvez seja exagerado referir-me a isso como já o fiz, como uma ‘máquina de interpretar’[4]. Mas, a grande maioria do que chamamos ‘ficções’, desde o fantasma até o que designamos como estruturas clínicas e, ainda sendo mais radicais, o que chamamos a realidade, possuem essa estrutura de ficção, e são de alguma maneira interpretações.

J.-A. Miller faz uma afirmação que me basta para justificar meu primeiro ponto: “A debilidade [mental] consagra o corpo falante como tal ao delírio”.[5] Interpretemos... A debilidade mental consagra o corpo falante ao delírio, porque, para dizê-lo com o ultimíssimo Lacan, o falante é débil frente ao real. Necessita ficções para suportar o real; por isso e para isso delira.

Neste contexto, uma “máquina de interpretar” produz, entre outras coisas, delírios. Delírios interpretativos que, se falamos da paranoia, se fazem mais evidentes, porque há uma relação estreita entre interpretação e paranoia, o que faz Miller dizer, citando Lacan, que na análise há uma dinâmica paranoide, todo ato ou palavra se submete à intepretação. O que se diz e o que se faz, por parte de ambos partenaires, está sujeito à interpretação. Não somente o analista interpreta; de fato, o paciente não faz mais que interpretar, interpretar tudo, o que diz, o que se diz a ele, o que não se diz, o silêncio, os barulhos do analista, seus gestos... e esse “clima paranoide” deve ser administrado, ter um limite, uma borda, administração que fica por conta do analista, que é quem deve moderá-lo. Por isso, Lacan se refere à analise como uma “paranoia dirigida”.

Que sentido tem isso que me diz? Que quis me dizer com o que disse? Por que esse gesto, esse comentário, esse barulho atrás do divã? E, dando um passo além no clima paranoide interpretativo da análise, se poderia perguntar: “Me disse isso, mas o que quer?” O “o que quer?” atrás do “me disse” sugere que não sei; quer dizer, não tenho a certeza paranoide sobre a interpretação do Outro. E, não obstante, ainda que não possua essa certeza, deliro um pouco ao redor não somente de seu enunciado, o do analista, mas também de sua enunciação, quer dizer, acerca do que deseja aí.

Atrás desse clima interpretativo, através da bruma, desponta o desejo do Outro. E então, a análise como tal, estará encaminhada de boa maneira, com a máquina interpretativa a toda marcha, quer dizer, com a transferência instalada.

Se bem que nesta época ultramoderna da psicanálise lacaniana, muitos praticantes não têm tanto em conta que algo que se chama transferência deveria instalar-se... estão mais focados no sinthome, no escabelo, no parlêtre e demais conceitos. Entretanto, entre interpretação e transferência se joga quase tudo desde o mesmo começo de uma psicanálise. E deter-se na controvérsia entre Freud e Lacan a respeito, nunca é inútil. Interpretamos hoje – como sugeria Freud – uma vez instalada a transferência? Ou como indicava Lacan, interpretamos para que se instale a transferência?

Nada ilustra melhor essa maquinaria interpretativa que a resposta que se dá aos fenômenos intuitivos nas psicoses, sejam ordinárias ou extraordinárias. A maquinaria interpretativa se desdobra com brutalidade ou com elegância, mas sempre com eficácia frente ao abrupto da emergência de um real, por exemplo, de um fenômeno elementar, acompanhado de um estado de estupor e desconcerto. Tanto a psiquiatria clássica, a boa psiquiatria certamente, como a leitura freudiana, coloca essa resposta, o delírio interpretativo por exemplo, do lado da cura e não da enfermidade. Se entende muito bem que, por mais louca e delirante que seja essa interpretação, está s serviço de evitar algo pior.

“A debilidade [mental] consagra o corpo falante ao delírio”. A debilidade do mental, então, está na causa do delírio. O que chamamos “debilidade mental” excede a partição estrutural: neurose, psicose, perversão, e reúne um “para-todos” os falantes.

Se seguimos radicalmente esta indicação, então o termo “interpretação” ganha uma complexidade considerável. Não somente se aplica à prática do analista e do paciente, mas também tem uma utilidade, um uso comum – não ordinário, mas comum – quer dizer, está no registro de um “para todos”, como resposta ao abrupto do real. Frente a isso, o mental, segundo Lacan, é débil.

De fato, toda uma clínica pode se estruturar em função da presença ou ausência deste aparato interpretativo. A falta deste aparato é bem conhecida na clínica das psicoses. E não é necessário recorrer a casos extraordinários para compreender o padecimento insuportável que sucede por não contar com esse aparato interpretativo para afrontar a emergência do fora de sentido mais contundente do real.

No entanto, estas construções ficcionais não são privativas das psicoses. Desta perspectiva, inclusive nas neuroses – em última instância, a crença neurótica no pai que chamamos “neurose” – podem ser consideradas ficções desta índole.

J.-A. Miller estende ao extremo, mas com justiça, este argumento que lhes apresento, e que por certo não é desconhecido para vocês. Em Sutilezas analíticas, e no contexto de uma aula na qual explora e reformula as modalidades de análise, faz uma leitura provocativa do texto de Lacan “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, que podem encontrar em Outros escritos. Diz, na página 119 de Sutilezas analíticas: “[...] o psíquico para Lacan é uma ficção, e o lógico é o real”, e agrega: “[...] uma psicanálise tem estrutura de ficção”.[6] Como desconhecer a estrutura de ficção de uma psicanálise? De entrada, Lacan sublinhou que o analista, em seu ato, era mestre da verdade. Indicou em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” que, devido à pontuação que aportava – e aí a interpretação – e, sobretudo, pelo corte final da sessão – que somente responde a sua decisão e que é simplesmente outra versão extrema da interpretação mesma -, o analista faz variar a verdade.

Como poderão ver, desta frase se desprendem múltiplas consequências para a concepção que temos da interpretação. Lacan não compartilhava a ideia freudiana de que o analista é um buscador da verdade; melhor, acreditava que se encontrava com ela. O interessante, o essencial, é que, segundo uma definição contundente, com a interpretação se trata de “fazer variar a verdade”. Com esta perspectiva, toda nossa concepção do inconsciente e do ponto de mira, do alvo da interpretação e seus efeitos, muda com essa “variação”.

Retomemos: a psicanálise tem estrutura de ficção. Isso ressoa com a ideia de que a psicanálise é uma paranoia... dirigida. Também conecta com o que quero assinalar sobre a máquina de interpretar na qual estamos imersos, não só como analistas e analisantes, mas também como seres falantes. Débeis frente ao real, requerem-se ficções para suportá-lo, ficções estas que nos consagra essa debilidade.

J.-A. Miller o assinala no mesmo parágrafo, ainda que de uma maneira distinta e com uma formulação contundente. Após assinalar que a psicanálise tem uma estrutura de ficção, afirma: “Se o real é o gozo, o inconsciente é uma defesa contra o gozo [...]”.[7]

Se o real fosse o gozo, então o inconsciente seria uma defesa contra o gozo... o inconsciente mesmo como uma defesa do real. E como pode o inconsciente defender do real? Interpretando! Porque o inconsciente não faz mais que interpretar. Claro que, com essa interpretação, também goza; mas essa é outra perspectiva que abordarei mais adiante.

Tampouco é minha intenção adentrarmos hoje nos labirintos do conceito de defesa. Não desejo levá-los por esse caminho. Contudo, o inconsciente é esse saber articulado que funciona como defesa contra o real. De que maneira? Cifrando, cifrando aquilo que, do real, apresenta-se como fora de sentido e, claro, como gozo fora do sentido. Esse cifrado é o esforço de poesia do inconsciente. Assim, a interpretação se encontra tanto do lado do deciframento como do ciframento..., mas então, qual interpretação?

O inconsciente se constrói como saber, como uma elucubração de saber. O inconsciente mesmo se constrói com interpretações. Interpretações de que? De que, senão do fora de sentido, da opacidade do real?

Pensem no trauma: o trauma como irrupção de uma quantidade de libido que, segundo Freud, “o aparato psíquico” não pode processar. Essa quantidade se processa por sua ligação com as representações. Ditas representações são as que devem outorgar sentido ao sem sentido provocado pela irrupção e pela efração que produz o trauma. A elucubração significante, a que chamamos “elaboração”, permite ligar essa efração a novas representações quando os sentidos tenham caducado. Desde Freud, o trabalho de elaboração tem sido o meio decisivo de atravessar, ou melhor dizendo, de elaborar um trauma.

O que quero destacar destas breves passagens de Sutilezas analíticas, são as consequências que tem para nós localizar que, na prática, estamos entre real e ficção. E, frente ao real, não fazemos outra coisa que interpretar! Talvez esteja exagerando, mas analistas, analisantes e até o vizinho da esquina, para mencionar o homem comum, interpretamos. Seguramente percebem que se perfila um “para todos”. Um “todos” intérpretes frente ao real.

Em Vincennes, Lacan toma Freud como guia mais uma vez para deixar-nos uma indicação inquietante e chave para o tema da interpretação: “Freud [...] considerou que nada é apenas sonho, e que todo mundo (se tal expressão pode ser dita), todo mundo, é louco, ou seja, delirante”.[8]

Desde Calderón de la Barca e sua La vida es sueño, expõe-se como aquele prisioneiro isolado desde sempre constrói todo um mundo. Finaliza-se com aquela frase que tem feito seu curso na cultura hispânica, e que culmina com uma conclusão inquietante: “Toda a vida é sonho e os sonhos, sonhos são”.

Ou, para citar o outro extremo em termos de épocas e geografias culturais, tomemos a Zhuang Tzu. Lacan refere-se a ele em seu Seminário para mencionar aquele paradoxo que se apresenta ao imperador chinês. Depois de despertar-se desconcertado após uma noite na qual sonhou que era uma borboleta revoando com despreocupada facilidade, pergunta-se, devido ao vívido desse sonho, se era Zhuang Tzu quem sonhou que era uma borboleta, ou se era uma borboleta sonhando que era Zhuang Tzu.

Todo mundo é louco, quer dizer, delirante. Quer dizer, já que falamos da interpretação, que todo mundo interpreta.

Consideremos, por exemplo, a relação entre a experiência de perplexidade e o delírio. Há a experiência de perplexidade frente a um signo do real e há a interpretação. Quer dizer que há um movimento, uma articulação entre o que faz signo, e deixa perplexo, e o S2, significante do delírio.

Essa articulação é a máquina interpretativa a que me referi figurativamente. E, em contraposição a isso, temos a interpretação analítica. E o que essa interpretação analítica faz é reduzir, devastar, enfraquecer, desinflar, reduzir ao essencial, o delírio ou a ficção.

Não se trata de alimentar o delírio, nem de fomentar a ficção da interpretação neurótica. Tanto para esta última como para o delírio psicótico, o objetivo é o mesmo: reduzir, devastar, debilitar, reduzir ao essencial e desinflar a ficção. Busca-se fazer variar a verdade até chegar a um ponto de significação vazia, com o qual podemos nos arranjar de uma forma diferente.

Ainda que com a interpretação analítica seguimos o que Freud ensinou, ao vincular a opacidade do sintoma neurótico ao sentido edípico, não é menos certo que podemos colocar o ato do analista, sua interpretação, do lado completamente oposto; quer dizer, do lado do “signo”, do que produz perplexidade, justamente para perturbar a ficção que sustenta o discurso do analisante. Um gesto enigmático, um som, uma interjeição, uma frase que não se entende bem, enigmática, ou inclusive um corte da sessão em meio a uma frase; são todas ações que levamos a cabo quando interpretamos. E somos plenamente conscientes que estas ações colocam em movimento, do lado do analisante, sua própria interpretação e, posteriormente, a do inconsciente, seguindo o esquema previamente mencionado.

Então, qual interpretação? De que lado a colocamos: do lado do signo ou do lado da ficção? Vou dizer que fazemos um e outro, segundo a decisão e prudência de cada um. “Intérprete do que me é apresentado, eu decido sobre meu oráculo”, diz Lacan; e posso então interpretar de uma maneira ou de outra, segundo o que exija o momento.

Vê-se em nossa prática atual que, embora a interpretação se encontre do lado do analista, que interpreta, quem interpreta, também consideramos fundamental que a interpretação fique do lado do analisante... portanto, quero enfatizar que o termo “interpretação” já não engloba todos os significados e os usos que lhe damos. Não somente a interpretação não está aberta a todos os sentidos, mas também que a interpretação, a analítica, vai contra essa produção interpretativa. Isso se aplica tanto à inicial, aquela que faz acontecimento de corpo, como àquela que se mantém de maneira constante e que chamamos “fantasma”.

 

3.Interpretar / Analisar “o inconsciente é a política"

Poderia ter intitulado esta intervenção simplesmente “A interpretação analítica”, e evitaria todo este primeiro desenvolvimento. No entanto, ao fazê-lo, teria omitido um aspecto que creio fundamental. Por outro lado, seria um problema – e é agora que o abordo – tentar definir qual seria a particularidade da interpretação que consideramos “analítica”. E um dos problemas é como transmitir aquilo com que cada um de nós se enfrenta cada dia em sua prática, sem ter a pretensão de oferecer hoje um manual de instruções. Uma vez descartada essa pretensão, como se aproximar ao que seria a interpretação analítica?

Talvez um ponto de partida resida na advertência de que a interpretação não se pode ensinar, nem transmitir, e muito menos copiar das que temos recebido. Ainda que a imitação do analista que tivemos ou temos, ou daqueles com quem supervisionamos, sejam obstáculos compreensíveis do laço transferencial que, como praticantes, mantemos, e na qual supostamente se encontra um apoio para a incerteza do ato.

Começo então por perguntar-me e perguntar-lhes se pensam que interpretar é o mesmo que analisar. Poderia ser uma resposta óbvia à primeira vista, mas há algo nessa diferença que não é tão óbvio. Creio que, na diferença entre analisar e interpretar, nessa articulação que as diferencia, reside toda a subversão freudiana. E isso começa com a Traumadeutung, quer dizer, com a interpretação dos sonhos que, em um certo sentido, e seguindo a visão com a que o próprio Freud sonhava, mudou o mundo.

No Exórdio, uma espécie de epígrafe que se encontra logo antes de começar “A interpretação dos sonhos”, Freud cita Dante dando, assim, intencionalidade e orientação a seu descobrimento, invenção e prática incipiente: extraído por Dante de La Eneida, escreve ali em latim “Flectere si nequeo superos, Acheronte movebo” (“Já que não posso mover as potências superiores, vou mover as potências de baixo, vou mover as potências infernais”). Já para esse Freud inicial, tratava-se de movebo, de mover algo “do mundo subterrâneo”.

E numa carta na qual responde um comentarista, explica porque essa epígrafe: “O desejo rejeitado pelas instâncias mentais superiores (o desejo onírico reprimido) remove o mundo mental subterrâneo (o inconsciente) para ser escutado”. Não se trata somente de analisar, mas sim de “mover”, deslocar, e, seguindo o final da frase, “fazer escutar”.

A interpretação, ao menos a interpretação analítica, inclui a aspiração de introduzir um movimento no mundo subjetivo. Por isso, pode-se dizer que a interpretação é política.

Enquanto “analisar” não é necessariamente uma política, ainda que possa servir a alguma, “interpretar” é claramente uma ação política. É interessante ler, desta maneira, a indicação lacaniana de que o inconsciente é a política, à condição de se dar conta de que o inconsciente é a política porque o inconsciente interpreta.

Podemos examinar isso por duas perspectivas: por um lado, temos a direção da cura, que supõe uma tática, uma estratégia e uma política. Por outro, a estrutura mesma da interpretação e o que consideremos sua eficácia. Deve haver eficácia, por que, se não houvesse, para que interpretar? Sua eficácia será correlativa a sua capacidade de tocar algo do real, a menos que consideremos a psicanálise como uma literatura. Assim é como se a considera atualmente: como uma literatura antiga... enfim.

O escrito de Lacan “A direção da cura e os princípios de seu poder” tem um título eminentemente político: a direção da cura, mas também: os princípios de seu poder. Vocês sabem que, nesse escrito que não perdeu atualidade, a interpretação é da ordem da tática. É a ordem dos movimentos rápidos, das intervenções conjunturais em tempo presente com um objetivo próximo. É da ordem da caça, de capturar a presa, de mover as peças na direção de um objetivo que, quase sempre, tanto para o analista como para o analisante, desconhece-se de antemão. Ainda assim, contamos com o que gostamos de chamar, com algo de poesia e muito de ingenuidade, um horizonte ético ao qual nos dirigimos, ou uma orientação. Com isso enchemos a boca e nos tranquilizamos, ainda que não saibamos muitas vezes o que isso quer dizer.

Em todo caso, não é uma tática ao vento, é uma tática porque existe a estratégia da transferência e isso se marca numa política da cura. A interpretação é o presente; é agora, é já! E se nos descuidamos, a oportunidade passa. Como estamos seguros de que não meteremos os pés pelas mãos? Não podemos estar seguros, como tampouco podemos “preparar” uma interpretação (como se dissesse: “então, na próxima sessão vou lhe dizer que...”). Isso sempre tem um efeito de forçamento e com resultados questionáveis. Na prática da psicanálise, o cálculo da interpretação é inexato e se está sempre com os pés enfiados na lama. Estamos sempre em risco de nos equivocar-nos, de dizer o que não era apropriado, de não dizer o que justo era o que havia que dizer... de querer compreender demasiado rápido. Lacan adverte aos jovens psiquiatras e psicanalistas que o escutavam em seu inicial Seminário 3: “Comecem por não crer que vocês compreendem. Partam da ideia do mal-entendido fundamental. Aí está um disposição primeira, na falta da qual não há verdadeiramente nenhuma razão para que vocês não compreenda tudo e não importa o quê.”[9] E será o momento em que terão deixado passar a interpretação que havia que se fazer.

Mas, então não temos nenhuma referência para nos orientarmos? Fazemos o que fazemos e dizemos o que dizemos assim, ao acaso? A experiência analítica não tem um marco que a regule e que permita situar nossa interpretação ali? Pois sim, tem. Em um extremo da experiência analítica temos a interpretação e, no outro extremo, temos o sintoma. Recordo-lhes a frase do Seminário 11: “O recalcado primordial é um significante, e o que se edifica por cima para constituir o sintoma, podemos considerá-lo como um andaime de significantes. [...] Na outra extremidade, há a interpretação [...] A interpretação aponta o desejo, ao qual, em outro sentido, ela é idêntica. [...] No intervalo, a sexualidade”.[10] A interpretação, o sintoma, o desejo, o andaime significante, a sexualidade, disso está feita a experiência analítica, e nossa interpretação ocupa um dos extremos.

Sabemos, desde Freud, e cada um espera poder reproduzir em algum momento de sua prática essa operação, que a interpretação tem a oportunidade de produzir que um sentido se desvie, que uma fixação mortificante se dilua, que um véu se levante, que se desarticule um nó de gozo e sentido, e que algo se escreva novamente; enfim, que algo do corpo seja tocado. Isso demonstra seu valor de instrumento político, já que é o meio pelo qual um discurso incide nos corpos. E vocês sabem que este enfoque tem uma atualidade incontestável. Se estamos imersos nesta ordem política, que é a direção da cura mesma, não podemos falar da interpretação sem situar “os princípios de seu poder”. Lacan o fez energicamente para questionar a psicanálise de seu tempo. Pensava que devia questionar a intrusão, não só do discurso universitário, mas também em especial do discurso do mestre na psicanálise de sua época, devido às consequências que isso teria na experiência da psicanálise, na posição dos analistas e, certamente, na prática da interpretação que se encarnava no analista como mestre.

Mencionei como o discurso do mestre se infiltrava na prática e na experiência da psicanálise..., no entanto, parece que isso não afeta a nós, lacanianos hipermodernos. Estamos advertidos de tantas coisas e damos muitas por resolvidas, confiando que Lacan e Miller já tenham situado o problema. Mas, às vezes, esquecemos que isso pode se infiltrar em nossa prática e nem sequer consideramos formular-nos perguntas como: quem é o mestre? Quem é o mestre desta psicanálise que supostamente eu conduzo? E, quando se fala da direção da cura, da transferência e, claro, da interpretação, como evitar a pergunta de quem é o mestre? E se se evita a resposta, o mestre do jogo aparecerá em algum momento de maneira inesperada... e então, pediremos uma supervisão de urgência.

Como mencionei em outra oportunidade, isso aparece no diálogo que Miller cita em seu curso.[11]

“A questão é – disse Alice ao famoso ovo Humpty-Dumpty -, se você pode fazer que as palavras signifiquem tantas coisas distintas.

A questão é – responde Humpty-Dumpty – saber quem é o mestre aqui. Isso é tudo.”

Qual é, então, a questão para o analista? Ser capaz de que as palavras signifiquem tantas coisas distintas, como quer Alice, ou a questão é saber quem é o mestre?

Humpty-Dumpty é um maestro da arbitrariedade: “Quando eu emprego uma palavra, essa palavra significa exatamente o que eu decidi que significa... nem mais, nem menos”.

O que Humpty-Dumpty diz à Alice, e que às vezes uma análise nos permite localizar, é que a questão não é saber que as palavras signifiquem muitas coisas distintas; o que lhe aponta é que há um significante mestre que decide sobre as palavras, as coisas e o corpo na vida daquele que nos fala, e que decide sobre suas significações múltiplas e intermináveis. E sabemos a importância que tem numa análise encontrar um significante que seja uma chave de leitura e os efeitos que isso tem para o analisante.

Então, qual interpretação? O problema se desloca do “qual” à palavra mesma, “interpretação”, porque a usamos para nossos fins e não podemos prescindir dela. No entanto, devemos reconhecer que é uma palavra que abarca campos extensos e distantes da psicanálise mesma: quem toca um instrumento musical “interpreta” uma obra, por exemplo. Um ator ou uma atriz “interpretam” um papel que está escrito em alguma parte. Um compositor e diretor de orquestra muito próximo, meu irmão, para nomeá-lo, explicava-me a importância que tinha justamente “interpretar” o que o compositor esperava que fosse lido em sua partitura, quer dizer, no que havia alguma vez escrito. Essa interpretação, embora queira ser fiel a isso, tem sempre algo daquilo que a interpreta. Está a obra, por assim dizer, e está a interpretação que lhe agrega algo a cada vez que se a executa.

Está o fato e está a interpretação. J.-A. Miller faz valer este argumento para a psicanálise mesma. Está a psicanálise e estão suas interpretações.

Há uns anos, dei um seminário sobre a interpretação em São Paulo. Na noite anterior, levaram-me a escutar música clássica num charmoso teatro, a Sala São Paulo. Enquanto escutava um concerto de Rajmáninov, seguia pensando no que teria que dizer no dia seguinte. E, como o contexto me sugeria, ao escutar o primeiro violino num solo espetacular, perguntei-me: por que usamos a mesma palavra para dizer coisas tão distintas como o que fazemos numa análise e o que, com arte, esse violinista fazia ao fazer soar essas cordas da maneira que eu o escutava nesse momento?

Pensei que esse momento poderia encontrar uma vinculação que fosse além da maestria, do savoir-faire com um e outro instrumento. Finalmente, encontrei uma forma de dizê-lo que me satisfez.

Em poucas palavras, o executante de um instrumento musical, com maior ou menor maestria, faz o mesmo que o analista: faz escutar o que está escrito. Considero que “fazer escutar o que está escrito” é uma boa fórmula para a interpretação analítica. No entanto, é essencial acrescentar que, em ambos os casos, o corpo está concernido mais além das palavras.

 

4 . Então... não só palavras

Há muitos anos, uma famosa canção italiana, uma melodia de amor muito popular, dizia: “Paroles, paroles, paroles...”, “palavras, palavras, palavras, palavras tão só palavras há entre os dois”.

Poder-se-ia dizer que isso é o que ocorre entre o analisante e o analista: tão só palavras. E, embora seguindo esta linha que exploro com vocês ao falar da interpretação, é preciso enfatizar, conforme a firme indicação de Humpty-Dumpty, que analisar, analisar-se e interpretar não são meros jogos de palavras. O “primeiro lacanismo”, se se pode chamar assim a esse enfoque que prosperou, ao menos na Argentina, fez do jogo de palavras o alfa e o ômega da interpretação e da análise, fruto de sua própria desorientação. Esta perspectiva prevaleceu até que J.-A. Miller desembarcou com “o outro Lacan” em meados dos anos 80, o que permitiu abrir um campo novo para a análise, para os analistas que estávamos nos formando e, com certeza, para a interpretação, que vai mais além do jogo de palavras.

Ao largo de seu ensino, Lacan formula diferentes maneiras de pensar a estrutura básica da interpretação e, ainda que não o faça de maneira explícita, isso se pode ler em múltiplos desenvolvimentos. E, em todos estes desenvolvimentos, pode-se perceber o esforço de redução. Isso não é um ponto de chegada na concepção lacaniana da interpretação. Estava já em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, quando diz: “[...]até o suspiro de um silencio [tomado] por todo o desenvolvimento lírico que ele vem suprir.”[12]

Ao final, tão ao final como numa de suas “conversas” do ano de 1971 no Hospital Sainte-Anne, a qual está publicada num pequeno livro que conhecemos como Estou falando com as paredes, a primeira dessas “conversas” chama-se “Saber, ignorância, verdade e gozo”.

Pensando na interpretação analítica, tomemos o primeiro termo: o saber. “O saber não-sabido de que se trata na psicanálise é um saber que efetivamente se articula, que é estruturado como uma linguagem [...]”.[13]

Um saber que não se sabe para si mesmo e que se chama o inconsciente. E já se sabe que quando se trata da articulação do inconsciente, sabe-se que não se trata ali de um mero jogo de palavras. A “primazia do saber em psicanálise” é um primeiro ponto para situar essa “estrutura da interpretação”, a qual quero apresentar-lhes tomando o Lacan de Estou falando com as paredes.

No segundo ponto, Lacan já vai de cheio ao nosso tema: “O segundo, vocês não esperaram por mim para sabê-lo - dirijo-me aos psicanalistas pois ele é o próprio princípio do que vocês fazem, a partir do momento em que interpretam”.[14] Não se entusiasmem, não vai nos dizer como interpretar! Mas sim, vai apontar o “princípio” que guia a interpretação que se queira analítica.

“Não há uma só interpretação que não diga respeito – no que vocês escutam – ao laço que se manifesta entre a palavra e o gozo. Pode ser que vocês o façam de maneira inocente, sem que nunca tenham se dado conta de que nunca uma interpretação quer dizer outra coisa, mas enfim, uma interpretação analítica é sempre isso. O benefício, seja primário ou secundário, é um benefício do gozo”.[15]

Podemos ser inocentes, como Alice, e pensar que se trata de um jogo de palavras, ou que a transferência que sustenta o laço analítico refere-se somente a palavras, como a canção que alude à decepção amorosa. Todavia, o que encontrarão é que o que dizem refere-se ao laço que há entre as palavras e o gozo. Algumas coisas, tanto no amor como na análise, melhor sabê-las logo.

Então, para retomar Humpty-Dumpty, e contradizer sua arbitrariedade, o mestre a que ele se refere é o gozo.

Lacan diz que o laço entre palavras e gozo não apareceu em Freud de imediato, porque diz que houve em Freud uma época do princípio do prazer e, então, o que imperava era o prazer do sentido. Podemos explicar o caminho mais classicamente freudiano de uma psicanálise dizendo que vai: da ignorância de um saber que não se sabe e faz sintoma, à verdade que a interpretação revela e que é a chave ética e curativa freudiana, e um saber como saldo. A interpretação desvelava a verdade do conflito edípico ou o fato traumático ignorado à causa da repetição (sou muito clássico, mas só sigo ao modo em que Lacan o expõe em Estou falando com as paredes), e obtinha-se um saber como saldo que permitia uma restituição das relações do sujeito com a “realidade”.

Claro, continua Lacan, um dia Freud mesmo foi surpreendido, mais além do sentido deste programa, por outra coisa: a repetição. A insistência de um benefício de gozo, que comanda a repetição.

O laço entre as palavras e o gozo que diz respeito à interpretação manifesta-se na repetição. E podemos nos perguntar – inocentemente se assim desejam: se não houvesse repetição, como interpretar? Às vezes, ainda que o analista possa captar um nó de gozo sentido no discurso analisante, só a repetição permite interpretá-lo. Insistência da repetição, mas também instante, oportunidade da interpretação. Freud descobre na repetição o mais além do princípio do prazer, quer dizer, o gozo.

E ali Lacan formula seu terceiro ponto para esta “estrutura da interpretação”, que formulo para nossos fins. “Se nossa interpretação nunca tem senão o sentido de fazer notar o que o sujeito encontra aí, o que é que ele encontra? Nada que não deva ser catalogado no registro do gozo.”[16]

Então, já que temos localizado que a interpretação analítica diz respeito ao laço entre a palavra e o gozo, extraio agora da primeira parte deste parágrafo uma indicação maior de Lacan a respeito da interpretação analítica. Leiamos com cuidado: “Se nossa interpretação nunca tem senão o sentido de fazer notar o que o sujeito encontra”. Não veem ali o princípio reduzido do que Lacan pensa da interpretação analítica? Refiro-me a seu sentido, não a seu significado. O sentido implica direção: é fazer notar o que o sujeito encontra.

Ah! É fantástico como é capaz quase de dizer tudo em uma pequena frase, como de passagem.

Fazer notar. Interpretar é fazer notar. Que simplicidade! E para isso, tanta teoria! E sim, tanta teoria. Mas também tanta prática.

Passo, então, à segunda parte da frase: “[...] fazer notar o que o sujeito encontra”. (Mas, o que encontra? Repetição). Essa é a outra indicação maior para o praticante, em especial, é uma indicação contra a ferocidade do praticante, à qual muitas vezes vem a substituir a ferocidade curativa. Quero dizer que, quando na prática se passa da ferocidade curativa, seja porque tenham tropeçado com o impossível nas curas que conduzem, ou porque em sua própria análise tenham se encontrado com o impossível de curar, muitas vezes se escuta nas supervisões essa nova ferocidade de converter-se em buscadores da verdade, detetives do mistério do sofrimento sintomático. E Lacan nos indica que se trata de que o sujeito analisante encontre, e que vocês “façam notar”. Façam notar o quê? Que nesse nó de palavras e atos há uma repetição de gozo. Isso implica já uma certa destituição do analista mestre do saber e da verdade, não é certo?

Fica ainda o quarto ponto de Lacan em Estou falando com as paredes, referido à interpretação, ao menos nestas três pequenas páginas que comento. Qual é o quarto ponto? Já que apontou que se trata do gozo, pergunta-se à continuação: “Onde é que isso habita, o gozo? Do que ele precisa? De um corpo.”

Busca situar o ground, o solo, o real onde se amarram, onde se encarnam os discursos; neste caso, a interpretação deve tocar o corpo. Fica claro, então, porque mencionei há pouco que nem a análise, nem a interpretação são somente um jogo de palavras. Em relação à interpretação, ao falar de ressonâncias, indica-se esta borda onde se entrelaçam um saber não sabido, mas articulado – o inconsciente – as palavras, os gozos e os corpos.

Quando alguém se analisa, não fala às paredes; isso é o que alguém supõe quando associa livremente para cumprir a regra enunciada pelo analista, em cuja presença fala. Supõe-se que fala ao Outro, esse Outro que vocês, analistas, supõem que são na transferência. E é sobre esse dizer, feito de palavras e atos, que vocês interpretam.

No entanto, uma análise levada até o final circunscreve o discurso de tal maneira que, como Lacan disse em Saint-Anne, falar com as paredes é seguir, não suas palavras, mas sim o circuito da reflexão de sua voz. Ao final, o analista bem poderia ser esse muro, essas paredes que contém o espaço onde o mais singular do analisante tem a oportunidade de ressoar.

 

Para terminar

Para concluir, recordemos que “todo mundo é louco, ou seja, é delirante”. “Delirar”, quer dizer, “interpretar”, qualifica o termo “loucura”. Poderíamos afirmar que a loucura é sua interpretação. Para todos há “a loucura”, mas essa loucura é singular, quer dizer, de cada um. Que a faz singular? A singularidade da loucura de cada um radica, em princípio, no efeito único do encontro inaugural do qual emerge o sinthome, e sua interpretação. Isso redefine certas perspectivas e afeta a interpretação analítica, porque é claro que na análise se trata de alcançar com a interpretação aquilo que responde do sintoma (que é como Lacan chama o inconsciente no seminário “RSI”).[17] Mas há também o que não responde do sintoma. Isso que assimilamos ao conceito de “acontecimento de corpo”, ou, para ser mais conceitual: ao Um sozinho, como analisá-lo?

Essa loucura de cada um, além do acontecimento de corpo, está feita do que cada um leu do encontro com o real que lhe tocou, e do sentido e do gozo que há extraído disso.

 

Tradução: Valéria Beatriz Araujo
[1] Conferência pronunciada em La Plata,  em 2019, a propósito do encerramento do curso SCF.
[2] Tarrab, Mauricio. “Qué interpretación”. In: El decir y lo real. Hacer escuchar lo que esta escrito. 1ª ed. – Olivos: Grama ediciones, 2024.
[3] Carver, R. Principiantes. Barcelona: Anagrama, 2010.
[4] Tarrab, Mauricio. Las psicoses y la máquina de interpretar. Em: El decir y lo real, op. cit.
[5] Miller, J.-A. El inconsciente y el cuerpo hablante, in: Lo real puesto al día, en el siglo XXI. Buenos Aires: Grama ediciones, 2014, p. 330.
[6] Miller, J.-A., Sutilezas analíticas. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 119.
[7] Miller, op.cit., p. 119.
[8] Lacan, J. Tranferência para Saint Denis? Lacan a favor de Vincennes. Correio. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, nº 65. São Paulo: EBP, 2010, p. 31.
[9] Lacan, J. O seminário, livro 3, as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 31.
[10] Lacan, J. O Seminário, livro 11, os quatro conceitos fundamentais de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p.167.
[11] Miller, J.-A. Los usos del lapso. Buenos Aires: Paidós, 2007.
[12] Lacan, J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 253.
[13] Lacan, J. Estou falando com as paredes, p. 23.
[14] Lacan, J. Ibid., p. 26.
[15] Ibid., p. 31.
[16] Lacan, J. Ibid., p. 28. NT.: em francês lê-se faire remarquer. Na versão em português usada aqui está traduzido como assinalar. Como no texto o autor dá destaque ao termo fazer notar, decidimos alterar ligeiramente a tradução para dar mais coerência ao texto.
[17] Lacan, J. Seminário 21, RSI, classe de 10/12/74. Inédito.

Como ouvir os barulhos da língua?

Como ouvir os barulhos da língua?

Marcus André Vieira

A língua faz barulho? Não são nossas línguas que, ao colocar a língua inerte em movimento, rumorejam? Além disso, em que os barulhos da língua, caso existam, poderiam contribuir para a interpretação psicanalítica?

A interpretação, seja como tradução, como corte, enigma, citação, pontuação, ressignificação, até mesmo construção, entre outros, atua com base em planos distintos - nas diversas dimensões nas quais a linguagem nos constitui, produz e localiza a vida em nossas falas e corpos.

Quero abordar, o modo como a interpretação analítica pode ser situada a partir do conjunto de seminários de Lacan que J. A. Miller definiu como seu último ensino e que destaca a relação entre interpretação e lalíngua.

Para ingressar nesse plano, de conceitos ainda em construção, a pergunta sobre os barulhos da língua é uma boa porta de entrada. Barulhos da língua e não na língua. Com este “da língua” não estamos falando dos barulhos da realidade, que a língua transcreve e sonoriza, não é aquilo que fala o gozo, mas sim que é gozo de falar.

A língua surge como alfabestização, por isso, por transcrever a fala em fonemas, ela dá seu jeito, se vira. Ela não precisa sempre apresentar as coisas em seus lugares redondinhas, sempre poderá transcrever o fora de sentido. Por mais que seja aberrante, paradoxal o que se vive, a língua sempre consegue trazê-lo para dentro dela.

No entanto, nem mesmo Plunct, plact, zum, nem papum, nem laiálaiá que serão barulhos da língua. O barulho da língua seria mais o gozo da língua em nós e não nosso gozo transposto na linguagem, na língua. Em algum lugar entre a língua e o corpo está lalíngua.

Ao transcrever sons em fonemas, porém, a língua nos faz perder em gozo o que ganhamos em comunicação. Lalíngua, por outro lado, guarda esse gozo fora dos sons reconhecíveis. Como escutar, então, este barulho que habita a língua, seu rumorejar como queria Barthes? A língua terá que ser forçada, pois terá, como diz Guimarães Rosa, que entregar “o leite que a vaca não prometeu”, sonorizando algo desse gozo que sua própria existência silencia. Não é o que faz a poesia? Nesse plano, estamos falando de alguma coisa como o barulho do cabelo em crescimento, como diz Arnaldo Antunes. Ou do tom de azul daquela casinha, um tom de azul quase inexistente de azul que não , azul que é pura memória de algum lugar, ar, ar...

Miller propõe que essa dimensão do dizer que se apreende no paradoxo, na poesia, mas que não há como traduzir, seja o solo litoral do último ensino, não mais o aspecto discursivo da experiência linguageira, mas seu aspecto mais material, mais rumoroso, lalingueiro.

Poder escutar esse barulho passa a ser, também, um dos nossos modos de intervenção, de interpretação. Não será o corte que traz o vão entre as palavras, a interlinha onde mora o sujeito, que vem para ressignificar, reconfigurar nossos textos de vida. Nem será apontar para o ponto cego da experiência, o umbigo do relato, para recortar ali o real como objeto da repetição, a, gozo estranho em forma disforme de alien.

É grande a ambição, essa de sermos capazes de escutar e de intervir em um espaço sem forma, entre o corpo e a linguagem. Mas é uma dimensão de trabalho necessária com que teremos de aprender a lidar. Não porque queremos ser poetas, ou por algum tipo de progresso técnico, e mais como resposta a uma verdadeira regressão, em muitos aspectos, da vida coletiva.

Não sentimos que o espaço de lalíngua está sendo forçado a encolher ou desaparecer? Ele é o vão entre fala e corpo, de onde surge, por exemplo, a surpresa pela torção de nossas certezas, quando a língua, mãe de tudo o que dissemos e sentimos, é forçada a produzir o inaudito? É uma experiência no extremo oposto do que vive alguém que precisa se cortar para abrir uma fenda no espaço sólido da angústia; ou quando o insulto atinge alguém no seu ser, independentemente da significação do que ouve. E sabemos como o neofascismo atual é capaz de operar com esse tipo de brutalidade, que nos atinge por fechar o espaço de estranheza que nos impede do mais básico, duvidar, refletir, repensar. Vemos fenômenos de mesma ordem em nomeações mais prosaicas, quando vemos tantos vivendo como se comessem proteína, não mais carne, peixes, ovos.

Esses e tantos outros fatos discursivos explodem em nossos dias revelando como se oblitera o espaço da linguagem em que ela é balbucio, em que ela encanta, ri e que guarda os poderes do espanto e do milagre.

Para circunscrever essa dimensão, Lacan recorre à metáfora da peneira: imaginem a língua materna como uma chuva, suja, carregada de lama - a água do gozo do Outro – por um lado e, por outro, o corpo da criança, como uma peneira. Lalíngua corresponderia aos detritos da chuva/linguagem que ficam presos na peneira.[1] A metáfora nos interessa por afastar a noção de uma língua adquirida por impressão – da ideia de que o Outro nos “marcou” com seus desejos e palavras. Nessa versão da linguagem, como ferro do significante sobre o corpo do vivente, nunca deixaremos de tomar a criança como vitimada, traumatizada. Com a peneira, podemos, porém, tomar o Outro como aquilo que banha e, no que banha, deixa restos com os quais viveremos não mais vítimas, mas artesões de nossos modos de ver e sentir o mundo.

A interpretação, de ponta a ponta no ensino de Lacan, visa produzir uma leitura para o ilegível, dar lugar ao real como fora do sentido. Este “fora” ganha muitas apresentações:  furo, vazio, sujeito, alien, resto, objeto e, agora, chuvarada, torrente que deixa detritos, pedaços sonoros corporais prévios aos fonemas.

Interpretar nessa dimensão poderia ser fazer vibrar a singularidade de alguns desses detritos, não apenas um deles, uma vez que sendo múltiplos não há como supor, ali, o núcleo singular do gozo. Lalíngua supõe uma abordagem do real em uma multiplicidade que requer montagem para se apresentar na língua de cada um, como parecem trazer os nomes de gozo dos testemunhos de passe.

Na busca de materializar lalíngua na experiência concreta, refiro-me a J. C. Milner que, seguindo Miller, propõe uma maneira bem simples e intuitiva.[2] Ele sugere que só a língua materna é habitada por lalíngua, porque ela é única a que chegamos a partir de nossos balbucios. Todas as outras serão apreendidas a partir dela. Por isso, para nós, o português tem algo a mais que nenhuma outra língua tem. Dito de outro modo, lalíngua é isso que se perde quando falamos outra língua.

Remeto vocês à novela A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov. O protagonista – assim como o autor - viveu na Rússia até seus quarenta anos e depois migrou para a Inglaterra. Nabokov resume esta virada que bem podia ser a fórmula do migrante de modo mais geral:

Pobre Knight, sua vida se dividiu em duas partes. Na primeira, era um sujeito sem graça acabando com o inglês e na segunda, era um sujeito acabado falando um inglês sem graça.[3]

Para concluir, lembro que nosso Encontro convida cada um de vocês a dizer como interpreta na sua prática, da maneira que for e no plano que for - o de lalíngua é apenas um deles.

Façamos a aposta que o imenso baú que abriremos, de distintas interpretações do que o Outro escreveu em nós, terá algumas chaves para abordar o derretimento generalizado dos laços que promove o neoliberalismo de hoje, assim como para o reacionarismo paranoico dos fascismos vigentes, a que esta nova forma do velho capitalismo nos tem levado.

Nossas interpretações poderiam permitir aos sujeitos que nos procuram extrair de si mesmos o ilegível que abra caminhos? Não sabemos ainda, mas saberemos melhor em nosso Encontro.


[1] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, Opção Lacaniana, n° 23. São Paulo, Eolia, 1998.
[2] Miller, J. A. Le tout derner Lacan (curso da Orientação Lacaniana, 2006-2007, inédito, aula de 7/3/07, Laurent E. O avesso da biopolítica, Rio de Janeiro, Contra Capa, 2016, pp. 99 e seguintes, referidos por Milner, J. C. “Back and Forth from letter to homophony”, Society for Theoretical Psychoanalysis, Problemi International, vol. 1 no. 1, 2017 (disponivel em https://problemi.si/issues/p2017-1/04problemi_international_2017_1_milner.pdf),
[3] “Poor Knight! he really had two periods, the first – a dull man writing broken English, the second – a broken man writing dull English” (Nabokov, V. The real life of Sebastian Knith, London, Penguin Books, 1964, p. 6.

A interpretação psicanalítica ainda faz barulho?

A interpretação psicanalítica ainda faz barulho?

Louise Lhullier

Bom dia!

Começo por agradecer pela confiança expressa no convite formulado pela Diretoria da EBP, para coordenar o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano com a querida Flávia Cêra.

Agradeço também pela insistência de Henri Kaufmanner e Marcus André Vieira para que participássemos da Comissão de Orientação Epistêmica, não nos deixando absorver pelas inúmeras decisões, operações, tarefas necessárias à materialização do XXVI Encontro.

Muitos colegas já se juntaram a nós, trabalhando animadamente para que possamos construir nosso Encontro. A eles e aos que estarão conosco a partir de hoje, compartilhando trabalho, alegrias, preocupações, há que agradecer pela parceria.

O Argumento do Encontro, já disponível no site, foi construído pelos quatro da Comissão de Orientação Epistêmica, não sem a participação importante de nosso êxtimo, Oscar Ventura, e dos oportunos “pitacos” de Luiz Felipe Monteiro, diretor da EBP e Presidente do XXVI Encontro Brasileiro. Nossas falas de hoje acrescentam algo da elaboração de cada um e cada uma sob a inspiração dessa produção coletiva. Esperamos e apostamos que ele venha a inspirar muitos outros e outras.

“Vivemos uma época saturada de sentido, em que a palavra se encontra simultaneamente inflacionada e regulada”.[1]

Constatamos hoje um grande alvoroço. Equívocos. Boatos. Mentiras. Uma falação generalizada.

A escala é inédita. Já não se trata apenas de conversas que se entrelaçam no encontro dos corpos — nas casas, nas ruas, nos espaços públicos. Hoje, em poucos minutos, uma postagem pode alcançar milhões de visualizações.

Nunca se falou tanto. Nunca se interpretou tanto. Falar implica produzir sentido. Produzir sentido implica interpretar. Há um excesso de interpretação.

Ao longo de sua história, a psicanálise teve de afirmar repetidas vezes sua diferença em relação a outros saberes. Somos novamente convocados a isso.

Uma pergunta se impõe: como sustentar o coração da prática analítica - a interpretação -em sua especificidade?

E outra, ainda: como fazer escutar o seu barulho em meio ao cotidiano ruidoso que hoje satura a experiência da palavra?

A palavra interpretação atravessa muitos campos. Cada um define o que é interpretar. Cada um define também o estatuto da verdade que sustenta sua prática.

Tomemos um deles: a hermenêutica.

A hermenêutica parte de um pressuposto: há uma verdade a ser revelada. Interpretar é decifrar. A pergunta que a orienta é conhecida: o que isso quer dizer?

Quando algo parece obscuro, fragmentado, equívoco, trata-se de esclarecer, reconstruir, integrar. O ruído aparece aí como obstáculo — algo a ultrapassar para que o sentido se revele. A interpretação hermenêutica faz, portanto, proliferar o sentido.

Em muitos momentos da obra freudiana, a interpretação aparece como decifração: sonhos, lapsos e sintomas são tomados como formações que podem ser lidas, traduzidas, reconstruídas. Há aí algo de uma hermenêutica freudiana.

Mas, com Lacan, a questão se desloca. Depois de Lacan, não há mais lugar para a hermenêutica na psicanálise[2]. A interpretação analítica segue outra via.

Jacques-Alain Miller tem desenvolvido essa via inaugurada por Lacan tanto em seus cursos regulares[3], como em outros momentos de sua transmissão. Ele afirmou, por exemplo, em sua apresentação no First Paris/Chicago Psychoanalytic Workshop (1986): “Lacan disse muito claramente que a psicanálise não é uma hermenêutica”[4]. A psicanálise não deve ser confundida com uma ciência do sentido.

Com Lacan e Miller aprendemos que a língua não é apenas instrumento de comunicação. Ela é também matéria de gozo. Isso muda tudo.

Aquilo que, para a hermenêutica, aparece como barulho, ruído — tropeços, lapsos, repetições, equívocos — constitui, para a psicanálise, ponto de incidência clínica. Não é algo a eliminar. É algo a escutar, a ler, a escrever.

Por isso, a pergunta da psicanálise não é “o que isso quer dizer?” A pergunta da psicanálise recai sobre o gozo implicado no dizer.

Enquanto a interpretação hermenêutica restaura a continuidade do sentido, a interpretação analítica visa introduzir um corte justamente ali onde o sentido se oferece em excesso.

A interpretação analítica vai operar no ponto em que a língua faz barulho. Ali onde ela toca o corpo.

Foi a partir dessa perspectiva que, na mesa de abertura das atividades da Seção Sul, ontem à noite, abordamos o objeto voz. Tomamos como uma das referências o livro de Heloísa Caldas, Da voz à escrita[5].

Nesse livro, Heloísa formula sinteticamente algo muito orientador: “o fazer analítico sobre a voz deve romper o mito da compreensão e evitar o gozo da falação”[6].

Romper o mito da compreensão. Evitar o gozo da falação. Aí se condensa aquilo que podemos talvez considerar uma regra geral da interpretação ao longo do ensino de Lacan: A interpretação analítica não acrescenta sentido. Ela corta.

Se acrescentamos sentido, permanecemos na hermenêutica. Quando operamos um corte, entramos no campo próprio da interpretação analítica.

É nesse ponto que a fórmula “da voz à escrita” ganha todo o seu alcance.

Não se trata da passagem do som ao significado. Não se trata de compreender melhor, de explorar o dito ou de fazer uso da letra alfabética para fazer falar o inconsciente.

Trata-se de outra coisa. Trata-se da tentativa de tocar algo do real — algo da voz que independe do sentido e até mesmo do som. Algo que ressoa no corpo, produzindo efeitos. Algo que pode ser cifrado pela letra em sua função algébrica, quando se trata de escrever relações estruturais.

É aí que a interpretação analítica encontra sua especificidade. A verdade na qual ela se funda é a do gozo: há gozo! Uma verdade que só se pode semi-dizer, na verdade mentirosa dos semblantes que lhe servem de anteparo.

É justamente aí que se abre o trabalho ao qual este Encontro nos convoca. Diante da falação generalizada que marca nossa época, a psicanálise não se propõe a gritar mais alto. Ela se propõe a ler, nos barulhos da língua, aquilo que insiste para além do sentido.

O XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano quer ser um lugar para esse trabalho. Um lugar onde a clínica de nosso tempo possa ser interrogada.
Um lugar onde possamos colocar à prova — caso por caso — o que a interpretação analítica ainda pode.

Por isso, este lançamento é um convite a partilhar aquilo que cada um e cada uma encontra em sua prática: os impasses, os paradoxos, os achados, os restos que resistem ao sentido; para que possamos continuar a fazer existir um lugar onde os barulhos da língua encontrem novas formas de se escrever: a Escola de Lacan.

Florianópolis, 7 de março de 2026.


[1] XXVI EBCF. Argumento. Disponível em Argumento - XXVI EBCF Encontro Brasileirodo Campo Freudiano. Último acesso: 11/03/2026
[2] Lacan, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 15 e 146.
[3] Ver, por ex.: Miller, J.-A. La fuga del sentido. Buenos Aires: Paidós, 2012.
[4] Miller, J.-A. How Psychoanalysis Cures According to Lacan. Newsletter of the Freudian Field, Volume 1, Issue 2, Fall 1987. Disponível em: Newsletter of the Freudian Field, Volume 1, Issue 2, Fall 1987 - DocsLib. Último acesso em 11/03/2026. Tradução livre.
[5] Caldas, H. Da voz à escrita: clínica psicanalítica e literatura. Rio de Janeiro: Contracapa Livraria, 2007
[6] Idem, p. 144.

Ode ao bizarro: pontuações sobre a interpretação

Ode ao bizarro: pontuações sobre a interpretação

Henri Kaufmanner

Em seu texto “Vous avez dit Bizzare?”[1] Miller destaca a dimensão bizarra da interpretação. Para ele, todos os fenômenos apontados por Freud  e que resultaram na criação da psicanálise são bizarros. Fundamentalmente diz Miller, o inconsciente se manifesta de maneira bizarra.

Costumamos procurar o analista a partir de fenômenos ou incapacidades bizarras. Entretanto, diz Miller, mais até que seus pacientes, os analistas são bizarros. Não há como não reconhecer isso. Por exemplo, somos radicalmente contra qualquer regulamentação da profissão de analista. Afinal isso nos arrancaria de nossa bizarrice, pois o analista a princípio não existe, sendo um efeito de seu ato. Ou ainda, o fato de que em nossa Escola, os seus membros fazem questão de pagar mais de que os não membros em nossas atividades. Pagamos por nosso desejo de Escola.

Acompanhando Miller, percebemos que todo o percurso de Lacan em seu ensino se orienta por essa bizarrice da psicanálise, e no que diz respeito à interpretação, podemos dizer que esta se revela na busca por cernir o que há de mais singular, a diferença absoluta. É essa joia bizarra que ao longo de nossos trabalhos  para o Encontro Brasileiro devemos lapidar.

Desde seus primórdios, com a interpretação pela via do sentido, inaugurada por Freud, passando pelas pontuação e pelo corte, chegando a poética e as ressonâncias do efeito da lalingua sobre o corpo, o que esta em questão é não perder a virulência da prática analítica, sua subversão, não deixando que a mesma caia no senso comum. Não é surpresa constatar  que aquilo que anteriormente era considerado bizarro, hoje em dia, muitas vezes, já perdeu sua dimensão disruptiva e é acolhido tranquilamente como algo comum de nosso tempo. Na chamada era de Ouro da psicanálise, por sua novidade, a intervenções plenas de sentido de Freud provocavam efeitos absolutamente inesperados e revelavam o bizarro do inconsciente.

Em nosso tempo, nesse mundo em que todos falam e todos  reforçam a importância da escuta, o saber é muitas vezes reduzido a um enxame de informação. Nesse mundo das mais diversas tribos, diante da moral identitária, preservar o espaço do bizarro se faz tarefa primordial. Quando partilhávamos a paróquia do Outro, um chiste por sua surpresa, seu efeito suplementar e bem humorado, muitas vezes acabava por descortinar a vacilação do Outro, seu mais além, acrescentando sentido e paradoxalmente, revelando sua inconsistência. Não por acaso Freud apontava o humor como tratamento a incidência do SuperEu.  Hoje em dia com a pluralização das paróquias, embora não tenhamos abandonado o chiste, muitas vezes só nos resta o equívoco e suas ressonâncias sobre o corpo com aquilo que pode fazer valer o furo, diante do retorno do Outro do fanatismo e da moral.

Nosso começo se deu pelo sujeito do inconsciente fruto da articulação significante, um conceito que opera na relação com o Outro da linguagem, onde o ser é sua articulação como falta-a-ser. Somos levados a deduzir que essa falta-a-ser também é fruto dessa articulação, e, de forma mais precisa, em sua relação com o Outro, o ser se reduz a um efeito de sentido. Se seguimos nessa linha de pensamento verificamos que essa redução acaba estabelecer uma primazia do Édipo. Tal primazia já revelava seus problemas quando a clínica se deparava com a falta do sentido, como nas psicoses e nas novas formas de sintoma.

Com o avanço do ensino de Lacan pudemos entender que, o sujeito, aquele que se representa de um significante a outro, portanto, um sujeito que advém na produção de saber dessa articulação, é fruto de uma elucubração de saber, o nome pelo qual Lacan passou a nomear a linguagem. E, segundo o que ainda nos diz Lacan no seminário XX, essa elucubração, o inconsciente estruturado como linguagem, é fruto da psicanálise. Se o inconsciente estruturado como linguagem é efeito da psicanálise, o sujeito somente pode ser percebido como efeito da psicanálise e não numa anterioridade a essa. Bizarro! Podemos até alcançar o que teria levado Lacan a chamar o efeito da psicanálise sobre lalangue de "linguisteria". Afinal, o que se busca na análise é o discurso histérico, a "linguisteria" é o que se consegue com a ação da máquina psicanalítica sobre o parlêtre. A maquina psicanalítica, seu discurso portanto, opera a partir dos semblantes, estes mesmo efeitos desse discurso.

Já a noção de parlêtre” recoloca o corpo tomado a partir do impacto de lalangue e seu valor de ressonância, e busca tocar o real. A psicanálise não se reduz ao sujeito lógico do significante, embora este não deixe de a partir de seus furos ressoar a sonoridade do impacto de lalangue sobre o corpo. Se o sujeito em sua falta-a-ser continua nos interessando, interessa-nos sobremaneira a sua presença de ser, como se vira com esse corpo que goza de si mesmo.

Esse estatuto de corpo, despojado do saber que se articula, resulta numa nova concepção da idéia de debilidade mental:

... o homem não se safa de modo algum desse negócio de saber, isso lhe é... isso lhe é imposto. Isso lhe é imposto pelo que chamei de efeitos de significantes. E ele não fica aí a vontade. Ele não sabe ‘fazer com’ (‘faire avec’) o saber..... é o que se chama a debilidade mental, da qual devo dizer que eu não sou exceção”.... “esse material é o que nos habita. Com este material ele não sabe como se virar (‘il ne sait y faire’)”[2].

A partir do momento em que o que esta em jogo não é apenas o sujeito, mas o corpo afetado por lalangue, o saber que esta em pauta não é mais o saber elucubrado, da articulação significante, mas um saber fazer com a afetação que esse significante produz sobre o corpo. Nessa mesma lição, Lacan acrescenta que o parlêtre, fala sempre só e sempre uma única coisa, a menos que possa dialogar com um analista. Essa fala solitária e repetitiva, se daria em função do S(A /). Para ele, se o sujeito dialoga com o Outro, há um ponto nesse Outro em que não existe resposta, e que nesse ponto latimos.

Se é pelo encontro de S(A/), ali onde o Outro não responde, que latimos, que falamos sempre a mesma coisa, o monólogo pode se interromper se algo da ordem de um eu (moi) se produzir, e, assinala Lacan, não há nada que diga que esse eu não venha propriamente dito delirar.[3] A experiência psicótica, permite-nos vislumbrar, como que o delírio pode se apresentar como alternativa à debilidade (por sua vez o autismo nos convoca a novas invenções). Se é exatamente onde o Outro não existe que se pode interromper o monólogo pela invenção de um moi, de maneira paradoxal, dialética mesmo, mais aberto à invenção, mais próximo da solução delirante, o psicótico se encontra.

Como então acolher o que é do campo da debilidade de cada um. Aquilo que afeta o corpo, e que do corpo apenas faz signo, sinal de presença enquanto corpo. Cabe então ao psicanalista lidar com loucos ou débeis. Na vertente do débil a análise pode restaurar a dimensão do equívoco no significante, produzindo assim uma vacilação na cadeia repetitiva de sentido produzido ali onde o sujeito não sabe. É dessa maneira que a psicanálise se aproxima da poesia, na medida em que abre mão do sentido em busca de uma nova significação, particular a cada um. Dessa forma abre-se a perspectiva de encontrar uma nova significação para o sintoma, algo que permita ao sujeito se identificar, “tratando” a disjunção entre o ser e o corpo.

Termino com um exemplo de Lacan. Foi ele mesmo que nos ensinou que uma audiência, como a presente em seus seminários, produz interpretação. Na lição  de 8 de março de 1977[4] dois acontecimentos acabam por exigir dele um comentário. Inicialmente, ele troca o nome de Pasteur pelo de Freud e logo se corrige. E num segundo momento ele erra ao escrever o matema do discurso do analista, sendo logo corrigido por Miller.

Lacan discorda de que no segundo acontecimento teria acontecido um lapso. Para ele, o que aconteceu foi um erro grosseiro. Reduzir seu erro ao lapso seria reduzi-lo ao inconsciente freudiano e isso exigiria um sentido. Para Lacan, o inconsciente produtor de sentido nos adormece, funciona por sugestão, sendo portanto, hipnótico. Todo discurso afinal é hipnótico e o esforço de Lacan em seu último ensino é provocar o despertar desse adormecimento. Lacan prefere apontar para o real.

Por outro lado ele reconhece que trocar o nome de Pasteur pelo de Freud seria um lapso. Ele ocorreu enquanto Lacan discorria sobre a geração espontânea. As pesquisas de Pasteur acabaram com essa crença de crescimento espontâneo de micro-organismos. Lacan lamenta o tamanho do sucesso de Pasteur em suas pesquisas. A geração espontânea era uma muralha contra a existência de Deus. Como consequência, haveria uma série de perguntas que vão desde as origens da vida na terra ate o que faz do homem um falasser que permanecem não sabidas. Porém adormecidos que fomos pela crença em Deus, nos esquecemos desse desconhecimento. O esforço de Lacan em nos afastar da crença do inconsciente enquanto saber dirige-nos ao real, e é essa orientação que nos preserva enquanto bizarrice e nos coloca a trabalho.


[1] Miller,J-A. Vous avez dit bizarre? In.: Quarto Revue de psicanálise n.78 février 2003
[2] Lacan, J. Seminário 24, L’unbevue....Lição de 11/01/1977 (Inédito)
[3] Lacan, J. idem
[4] Lacan, J. op.cit. 08/03/1977

A extraterritorialidade da língua[1]

A extraterritorialidade da língua[1]

Leonardo Scofield

Boa dia a todos.

Quero começar agradecendo, de maneira muito especial, ao Conselho e à Diretoria da Escola Brasileira de Psicanálise pela confiança depositada na Seção Sul para sediar o próximo Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.

Agradeço nominalmente à presidente da Escola, Maria José Gontijo, e ao diretor-geral, Luiz Felipe Monteiro, por essa aposta — que nós recebemos com entusiasmo, mas também com a responsabilidade que ela implica.

É uma alegria poder dizer que esse encontro acontecerá aqui, nesta ilha. A ilha de Santa Catarina.

Talvez valha a pena fazer uma pequena digressão, porque as cidades, assim como os sujeitos, também têm sua história com os nomes.

Florianópolis nem sempre se chamou assim. Durante muito tempo foi conhecida como Nossa Senhora do Desterro. Um nome curioso.

“Desterro” é uma palavra forte. Remete ao exílio, à expulsão, àquele que é lançado para fora de seu lugar.

Uma cidade com um nome que já carrega em si uma certa experiência de desterritorialidade.

E talvez isso não seja tão estranho para nós.

Porque, de certo modo, a psicanálise sempre teve alguma afinidade com o desterro.

Freud retirou o sujeito do centro de si mesmo.

E Jacques Lacan, ao recolocar a psicanálise no campo da linguagem para além da semântica, também nos desterrou — digamos assim — da ideia de que somos senhores daquilo que dizemos.

Não somos nós que falamos a língua. É a língua que fala em nós.

É justamente nessa direção que se orienta o tema do próximo encontro: “Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita”.

Esse tema nos convida a percorrer alguns momentos decisivos do ensino de Lacan.

Podemos lembrar, por exemplo, daquele Lacan de Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise³, onde a palavra aparece como eixo da experiência analítica.

Mas podemos também avançar até o Lacan de seu último ensino, em textos como Lituraterra⁴ e O aturdito⁵, onde a língua aparece como matéria sonora, como escrita, como aquilo que deixa sulcos e marcas no corpo — justamente ao não se reduzir a um sentido unívoco.

Ali, a língua faz barulho. Ela tropeça. Ela ressoa. Ela se escreve de maneiras contingentes.

É justamente nesse ponto — entre fala e escrita, entre som e traço — que a interpretação analítica encontra novas possibilidades.

Recolocamos a trabalho o tema da interpretação, trinta anos depois do que Jacques‑Alain Miller chamou de “a interpretação pelo avesso”⁶.

Seguindo a orientação lacaniana, aprendemos a importância de escutar aquilo que está ali como escrita. Aprendemos a ler o sintoma como uma forma singular de escrita do gozo.

Talvez possamos dizer — retomando o espírito do antigo nome desta cidade — que, se há um desterro na experiência analítica, ele não é exatamente um exílio.

É antes uma marca de extraterritorialidade da língua.

Uma extraterritorialidade que permite uma passagem: da palavra para a letra, do sentido para o equívoco, da fala para a escrita, da escuta para a leitura, da língua organizada para os seus barulhos.

É justamente essa perspectiva que queremos explorar juntos no próximo Encontro.

Portanto, fica aqui o convite: “Si quésh, quésh; si não quésh, dish.”

Que cada um possa se deixar afetar por esses barulhos da língua.


Referências
LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. Lituraterra. In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. O aturdito. In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
MILLER, Jacques‑Alain. A interpretação pelo avesso. In: Opção Lacaniana Revista Brasileira Internacional de Psicanalise, nº 15.

[1] Texto apresentado no lançamento do 26º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.

Discurso de lançamento do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano – Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita

Discurso de lançamento do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano
Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita

Luiz Felipe Monteiro

Se passaram dois anos desde o último Encontro Brasileiro, em 2024: os corpos aprisionados pelos discursos e seus restos. Ali pudemos recolher os efeitos dos corpos quando atravessamos pelos distintos discursos. Naquele encontro o corpo falante foi posto no centro para com ele se interrogar como o discurso do mestre contemporâneo incide, alcança e faz sintoma. Investigou-se de que modo tais corpos são aprisionados, ou seja, como eles são constituídos e respondem aos significantes mestres da época.

Porém todo discurso também implica o que deles vacilam, modos de gozar que escapam à sua injunção. O último encontro também nos lembrou que há os restos não capturados, não capturáveis e eles insistem. Podemos dizer que foi com eles que chegamos até aqui hoje. Com os restos, brechas e frestas que chegamos ao 26ª Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: Barulhos da língua — a interpretação entre a fala e a escrita.

Vejam: Há uma pequena declinação: dos corpos e os discursos para a língua e seus barulhos. Mas percebam que ainda é sobre um corpo vivo e falante, dessa vez com a luz sobre os atravessamentos pelo discurso, o propriamente analítico.

Há o discurso analítico e há o discurso sobre psicanálise. Não se confundem é isso é sempre importante lembrar.

Dizer “psicanálise” não é garantia de haver a lâmina cortante da causa analítica e nisso, sabemos, não há garantias a priori, além daquelas que cada um possa dar prova, vez a vez, singularmente.

Em 2025 vocês acompanharam como o termo “psicanálise” foi alvo de uma disputa de poder e do capital. Impedir o seu uso como chancela para cursos universitários foi uma vitória, mas também um sintoma de que facilmente uma dizer sobre psicanálise pode estar a serviço de outros discursos, mestre, universitário e capital facilmente se unem para a sua injunção. Sabemos vide o que se passa na saúde mental da França, não é somente um caso no Brasil.

É nesse contexto que a escolha pelo tema da interpretação, feita por esta diretoria e acolhida pelos colegas da Escola Brasileira de Psicanálise, visa dar consequência ao que nos concerne enquanto discurso analítico.

Não se trata de definir nem o discurso analítico, tampouco a interpretação, mas nos colocarmos a trabalhar para que as condições de sua emergência possam ser verificadas, discutidas, interrogadas, postas a serviço da formação analítica tal como pode se sustentar por cada um em meio a um trabalho que também é de Escola.

Trazer à tona a interpretação pode ter efeitos naquilo mesmo que nos concerne como Escola, Escola Brasileira de Psicanálise. Jacques Alain Miller em sua Teoria de Turim, uma teoria sobre a Escola Sujeito, diz que “A vida de uma Escola deve se interpretar. É interpretável. Interpretável analiticamente.”[1]

Segundo Miller, trata-se de “remeter cada um dos membros da comunidade à sua solidão, à solidão de sua relação ao Ideal[2]”, isto é, à causa analítica. Interpretar a vida da Escola não é interpretar de modo a colmar um sentido coletivo, não é fazer sugestão. Mas o inverso, é remeter, cada um, em seu modo de gozar, em sua solidão, ao que através de uma Escola se veicula, ou não se veicula, seus trânsitos poderíamos arriscar dizer. Trata-se de subjetivar a Escola, o que em seu dizer “implica que cada um meça o salto entre a causa particular de seu desejo e a causa freudiana.”[3]

“Este sujeito está determinado pelos significantes dos quais é efeito, pois isto é o que define um sujeito, mais nada. É por isto que o ato de colocar os significantes que determinam a Escola é um ato de responsabilidade absoluta, pois é um ato de interpretação, que opera sobre o sujeito pelo viés da palavra.”[4]

Gostaria de lembrar nesse preciso ponto: a Escola chama-se brasileira de psicanálise, o encontro chama-se brasileiro — do campo freudiano. Menos do que o sentido que porta esse significante, interessa interrogar que espécie de real ele veicula, que contingência ele permite, que consequência nos corpos, nas cores, nos gostos, nos cheiros ele pode ter para os circuitos que nos envolvem no cotidiano de a prática e na vida de uma escola. Qual o seu trânsito?

Insisto: não se trata de retórica sobre o significante “brasileiro”, mas tirar consequências deste significante, interrogando como o caroço de real que ele porta incide em um a um, em sua solidão subjetiva, nessa Escola.

O convite ao Encontro Brasileiro do Campo Freudiano é também um convite a que cada um, a seu modo, se sirva destes significantes que nos reúnem.

Um Encontro que se diga do Campo Freudiano e que se diga brasileiro. Tirar as consequências do singular que esse significante pode ter para cada um, pode vir a ter um efeito interpretativo para uma escola que se pensa como escola-sujeito, uma escola portanto, viva.

Vocês que nos acompanham em todo o Brasil já participam de certa forma dessa experiência que acaba de começar. Essa experiência contará com as atividades preparatórias que virão e se completa com os corpos presentes de vocês nessa cidade tão encantadora que é Florianópolis.

Meu obrigado a todos que nos acompanham — presentes nas sessões da Escola Brasileira de Psicanálise e também nas suas telas, que nos permitem conectar — vastamente. Agradeço igualmente aos colegas envolvidos na produção, na construção e no desenvolvimento deste encontro. E já me adianto e também deixo meu obrigado a cada um que enviar o seu trabalho para a comissão de orientação. De alguma maneira este envio não é somente índice da transferência de trabalho, mas também uma forma de se servir destes significantes que aqui nos reúnem hoje.

Com essas palavras, fico por aqui. E com muito entusiasmo, convido cada um que está nos acompanhando a seguir nesses Barulhos da Língua!


[1] MILLER, J.-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. Opção Lacaniana Online, n. 21, 2016, p. 3. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/teoria_de_turim.pdf
[2] Ibid, p. 5
[3] Ibid, p. 10
[4] Ibid, p. 10

Partimos!

Partimos!

Flávia Cêra

Bom dia a todos, quero dizer que é uma enorme satisfação estar aqui neste sábado com colegas tão queridos e com todos que nos acompanham, para lançar o XXVI EBCF. E especialmente, por estar neste lugar que movimenta e faz pulsar a cidade em variadas vozes, sons, sentidos, pelo qual tenho um amor e respeito imensos que é a Universidade Federal de Santa Catarina. É um belo lugar para darmos nosso pontapé inicial.

A psicanálise é um dos instrumentos mais cortantes para desestabilizar a monocultura da língua. Seus manejos, interpretações, cortes, emendas, montagens, forçamentos poéticos vão construindo a possibilidade de ouvir, ler, escrever outras línguas, línguas menores, que contém elementos de uma vibrante capacidade de subverter uma estrutura. Em uma análise, nos encontramos com as línguas que falamos, e com as línguas em que fomos falados. Inventamos inúmeras formas de dizer o que há ali de inominável, indizível, ininterpretável. Nos encontramos com  a integral dos equívocos que persistem, com os cristais de lalíngua que não escorrem pela peneira da linguagem. Como falamos é feito da “contribuição milionária de todos os erros” de cada um para cada língua, de cada língua em cada corpo.

Isso também faz um Encontro que, pensei certa vez, funciona como um acelerador de partículas. O tempo e o espaço se modificam pelo choque, pelo atrito, que criam a surpresa do desconhecido. A forma de conhecê-lo é, paradoxalmente, a língua. Talvez porque seja mediado, irremediavelmente, por ela e, eventualmente, possamos dizer que todo encontro é o encontro com uma língua que deixa e produz marcas, traços, histórias e que nos confronta com seus cacos. Mas não há ponto zero da língua a que se retorna. Para todo fim, para qualquer meio e para todo começo é preciso aprender, conhecer e inventar com a língua que temos. Longe das tecnologias de comunicação e da linguagem, os usos da língua em uma análise guarda seus mistérios nos ruídos, murmúrios, barulhos – trazendo consigo a possibilidade de uma nova escrita. E me parece que tudo isso está posto desde o começo da concepção de um encontro, mas especialmente, de um Encontro do Campo Freudiano.

Existe uma coisa que sempre me fascinou no Campo Freudiano que é a capacidade de fazer esses Encontros acontecerem. Nós também temos os nossos aceleradores de partículas. Isso tem uma certa magia: o encaixe dos tempos, dos andamentos das coisas que, mesmo quando desanda, consegue bricolagens inéditas, rebolados inacreditáveis aparecem e, de repente, estamos juntos. É como se fosse possível alcançar a mágica do tempo de Clarice e dividi-lo “em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível” isso mostra sua beleza e ao mesmo tempo a magnitude do trabalho exigido. Esse fazer é uma das tantas traduções que encontrei para o que atende pelo nome de Orientação Lacaniana: o que fazemos juntos.

Nossa sorte é ter muitas feiticeiras e feiticeiros, bruxos e bruxas, e toda sorte de alquimistas que trabalham muito e fazem as coisas ganharem força, forma e vida. As coordenações e equipes espetaculares de cada comissão estão no site e a elas agradeço muito muito porque o trabalho já começou! Vocês vão ver também que nosso site, bem como nosso material de divulgação, é feito com a linda e sonora obra de Kamilla Nunes, a quem quero agradecer também. Escrita é o nome da série de desenhos, assim no singular. Mas que é composta por vários desenhos, os múltiplos, como a Kamilla mesmo nos contou. Desde que eu vi essa série, pensei que era a cara do Encontro. E aí está, entre o singular e o múltiplo, o lugar da Escrita.

Agora vou falar um pouco da estruturação que temos pensado na Comissão de Orientação para o Encontro: teremos sete cartéis de leitura dos casos. Eles serão compostos por colegas de todas as seções da EBP. A ideia é que os casos sejam a base de todo Encontro, não apenas das Mesas Simultâneas. Outra ideia é que as mesas simultâneas estejam mais envolvidas e misturadas, enlaçadas na programação geral e não aconteçam apenas em um dia. É para trazermos seus barulhos mais para perto. Para as salas que receberão as mesas, também pensamos um formato em que possamos destacar e acompanhar alguns fios conceituais, clínicos e políticos que nos ajudem a precisar os efeitos, modos e incidências da interpretação. Então, atenção!, já temos um prazo para o envio de trabalhos que é dia 23/08. Vamos seguir esse calendário para dar tempo dos cartéis trabalharem e construirmos a programação a partir do que os casos ensinam. As informações para o envio de trabalhos já estão no site.

Lá vocês também poderão ler o argumento que escrevemos para orientar e encontrar alguns fios de leitura que convidamos todos a trabalhar. Temos quatro entradas no argumento geral: efeito de verdade, fazer surgir um significante irredutível, é em lalíngua que a interpretação opera e, finalmente, corte: escrita e leitura. Propomos também seis fios de leitura que colocam questões, problemas, aporias para pensarmos como e do que é feita a interpretação analítica hoje e, especialmente, a partir da orientação de Jacques-Alain Miller sobre o último ensino de Lacan quando ele afirma que há “um chamado a outro modo de interpretação”. Partimos, então, sabendo que a interpretação não pretende um esclarecimento, apesar de muitas vezes alcançar algo nesse sentido. Ela se aproxima dos pontos opacos, dos umbigos que não se pode dominar. A escrita, a leitura, o dizer do analista - que Lacan vai tomar como formas da interpretação - são parte fundamentais dessa operação, seja na aventura das entrelinhas ou nas leituras ao pé da letra para que uma língua não se feche sobre si mesma, porque não existe a última e verdadeira palavra, mas um saber-fazer com o gozo. A interpretação é por onde acontece esse trabalho, é ela que pode produzir uma letra que, por ser ilegível, pode suspender e questionar os impossíveis estruturais da história de uma vida ou de um povo, e que, aberta aos atravessamento das alteridades, suas equivocidades, pode soar outra coisa que o sentido, mais perto do que faz a vida pulsar.

Então, o convite é para que nos encontremos antes mesmo do Encontro, em cartéis, em ateliês de leituras, em escritas e conversas para, em novembro, tratarmos todos juntos da interpretação que é o coração da psicanálise! E, claro, preparem-se para vir para Florianópolis. Esperamos vocês todos aqui!


CENTRO SUL
Av. Gov. Gustavo Richard, 850 – Centro
Florianópolis – SC, 88010-290, Brasil