O inconsciente intérprete: o lugar do sonho

O inconsciente intérprete: o lugar do sonho

Serge Cottet analisando o declínio da interpretação visando o IX Encontro da AMP nos fala da dificuldade de se criar um efeito surpresa tal como as interpretações decifração criavam em tempos anteriores. Ele não pensa que a expressão “declínio da interpretação”[1] seja satisfatória para pensar o que observamos na clínica, mas que estaria implicado o fato de que certo manejo da interpretação contribui para provocar menos surpresa do que seria esperado.

Em textos dos Escritos, Lacan diz que os pós-freudianos assimilaram a interpretação ao flogístico, a um uso quase ocultista, e que isso impunha um manejo do significante e da letra como elementos do inconsciente, restaurando sua verdade[2].

Em 1964, Lacan lembrou que a interpretação não era aberta a todo sentido, alertando para uma certa religião da escuta que levava a efeitos de sentido antes que efeitos de significação[3].

Cottet também chama a atenção para o fato de que alguns analistas que fizeram o passe se esqueceram das interpretações que escutaram. Ele diz que isso pode ser uma consequência de que essas interpretações tenham operado. Além disso, o silencio do analista pode operar muitas vezes como uma interpretação.

Por outro lado, os analistas davam um lugar significativo para seus sonhos e para as formações do inconsciente. Tudo acontece como se elas tomassem o lugar da interpretação faltante. Tal fato confirma a tese posteriormente proposta por Miller segundo a qual quem interpreta é o inconsciente. A pergunta é se a interpretação deve ser homogênea à retórica do inconsciente, o que indicaria uma interpretação sob a forma do rumor, do equivoco, da homofonia, do enigma, da citação.

Além de perguntar para onde foi a interpretação a pergunta era se o silêncio como interpretação ou mesmo as intervenções do analista não alimentavam o gozo do sintoma ou não permitiam ir além do inconsciente, fazendo proliferar o gozo-sentido.

Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real. O par real e letra indicam um caminho distinto do par significante e significado. Penso que o conceito de inconsciente real também indica essa via.

Assim temos as interpretações que destacam os significantes do sujeito e aquelas que incidem sobre a pulsão.

Como pela decifração poder tocar o gozo da cifração?

Clotilde Leguil diz que a interpretação permite fazer ressoar o modo como o verbo ganhou poder em cada um, a fim de encontrar o que estava no começo do sintoma. O poder da palavra se distingue da palavra como poder[4]. A interpretação toma então o valor de um ato do qual resulta uma conversāo na posição do sujeito quanto a sua relação com o saber como diz Lacan no Seminário do Ato psicanalítico em 1967[5].

 

Cristina Drummond

 


[1] cf.. Cottet, S. O declínio da interpretação. In: Ensaios de Clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011
[2] cf. Lacan, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. (1958) In: ___. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998
[3] Lacan, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1990.
[4] Leguil, C. La parole comme pouvoir versus le pouvoir de la parole. Journée 53 da École de la Cause freudienne- Interpréter, scander, ponctuer, couper. Novembro de 2023.
[5] Lacan, J. O Seminário, livro 15, o ato psicanalítico.  Rio de Janeiro: Zahar, 2025.

Como ouvir os barulhos da língua?

Marcus André Vieira

A língua faz barulho? Não são nossas línguas que, ao colocar a língua inerte em movimento, rumorejam? Além disso, em que os barulhos da língua, caso existam, poderiam contribuir para a interpretação psicanalítica?

A interpretação, seja como tradução, como corte, enigma, citação, pontuação, ressignificação, até mesmo construção, entre outros, atua com base em planos distintos - nas diversas dimensões nas quais a linguagem nos constitui, produz e localiza a vida em nossas falas e corpos.

Quero abordar, o modo como a interpretação analítica pode ser situada a partir do conjunto de seminários de Lacan que J. A. Miller definiu como seu último ensino e que destaca a relação entre interpretação e lalíngua.

Para ingressar nesse plano, de conceitos ainda em construção, a pergunta sobre os barulhos da língua é uma boa porta de entrada. Barulhos da língua e não na língua. Com este “da língua” não estamos falando dos barulhos da realidade, que a língua transcreve e sonoriza, não é aquilo que fala o gozo, mas sim que é gozo de falar.

A língua surge como alfabestização, por isso, por transcrever a fala em fonemas, ela dá seu jeito, se vira. Ela não precisa sempre apresentar as coisas em seus lugares redondinhas, sempre poderá transcrever o fora de sentido. Por mais que seja aberrante, paradoxal o que se vive, a língua sempre consegue trazê-lo para dentro dela.

No entanto, nem mesmo Plunct, plact, zum, nem papum, nem laiálaiá que serão barulhos da língua. O barulho da língua seria mais o gozo da língua em nós e não nosso gozo transposto na linguagem, na língua. Em algum lugar entre a língua e o corpo está lalíngua.

Ao transcrever sons em fonemas, porém, a língua nos faz perder em gozo o que ganhamos em comunicação. Lalíngua, por outro lado, guarda esse gozo fora dos sons reconhecíveis. Como escutar, então, este barulho que habita a língua, seu rumorejar como queria Barthes? A língua terá que ser forçada, pois terá, como diz Guimarães Rosa, que entregar “o leite que a vaca não prometeu”, sonorizando algo desse gozo que sua própria existência silencia. Não é o que faz a poesia? Nesse plano, estamos falando de alguma coisa como o barulho do cabelo em crescimento, como diz Arnaldo Antunes. Ou do tom de azul daquela casinha, um tom de azul quase inexistente de azul que não , azul que é pura memória de algum lugar, ar, ar...

Miller propõe que essa dimensão do dizer que se apreende no paradoxo, na poesia, mas que não há como traduzir, seja o solo litoral do último ensino, não mais o aspecto discursivo da experiência linguageira, mas seu aspecto mais material, mais rumoroso, lalingueiro.

Poder escutar esse barulho passa a ser, também, um dos nossos modos de intervenção, de interpretação. Não será o corte que traz o vão entre as palavras, a interlinha onde mora o sujeito, que vem para ressignificar, reconfigurar nossos textos de vida. Nem será apontar para o ponto cego da experiência, o umbigo do relato, para recortar ali o real como objeto da repetição, a, gozo estranho em forma disforme de alien.

É grande a ambição, essa de sermos capazes de escutar e de intervir em um espaço sem forma, entre o corpo e a linguagem. Mas é uma dimensão de trabalho necessária com que teremos de aprender a lidar. Não porque queremos ser poetas, ou por algum tipo de progresso técnico, e mais como resposta a uma verdadeira regressão, em muitos aspectos, da vida coletiva.

Não sentimos que o espaço de lalíngua está sendo forçado a encolher ou desaparecer? Ele é o vão entre fala e corpo, de onde surge, por exemplo, a surpresa pela torção de nossas certezas, quando a língua, mãe de tudo o que dissemos e sentimos, é forçada a produzir o inaudito? É uma experiência no extremo oposto do que vive alguém que precisa se cortar para abrir uma fenda no espaço sólido da angústia; ou quando o insulto atinge alguém no seu ser, independentemente da significação do que ouve. E sabemos como o neofascismo atual é capaz de operar com esse tipo de brutalidade, que nos atinge por fechar o espaço de estranheza que nos impede do mais básico, duvidar, refletir, repensar. Vemos fenômenos de mesma ordem em nomeações mais prosaicas, quando vemos tantos vivendo como se comessem proteína, não mais carne, peixes, ovos.

Esses e tantos outros fatos discursivos explodem em nossos dias revelando como se oblitera o espaço da linguagem em que ela é balbucio, em que ela encanta, ri e que guarda os poderes do espanto e do milagre.

Para circunscrever essa dimensão, Lacan recorre à metáfora da peneira: imaginem a língua materna como uma chuva, suja, carregada de lama - a água do gozo do Outro – por um lado e, por outro, o corpo da criança, como uma peneira. Lalíngua corresponderia aos detritos da chuva/linguagem que ficam presos na peneira.[1] A metáfora nos interessa por afastar a noção de uma língua adquirida por impressão – da ideia de que o Outro nos “marcou” com seus desejos e palavras. Nessa versão da linguagem, como ferro do significante sobre o corpo do vivente, nunca deixaremos de tomar a criança como vitimada, traumatizada. Com a peneira, podemos, porém, tomar o Outro como aquilo que banha e, no que banha, deixa restos com os quais viveremos não mais vítimas, mas artesões de nossos modos de ver e sentir o mundo.

A interpretação, de ponta a ponta no ensino de Lacan, visa produzir uma leitura para o ilegível, dar lugar ao real como fora do sentido. Este “fora” ganha muitas apresentações:  furo, vazio, sujeito, alien, resto, objeto e, agora, chuvarada, torrente que deixa detritos, pedaços sonoros corporais prévios aos fonemas.

Interpretar nessa dimensão poderia ser fazer vibrar a singularidade de alguns desses detritos, não apenas um deles, uma vez que sendo múltiplos não há como supor, ali, o núcleo singular do gozo. Lalíngua supõe uma abordagem do real em uma multiplicidade que requer montagem para se apresentar na língua de cada um, como parecem trazer os nomes de gozo dos testemunhos de passe.

Na busca de materializar lalíngua na experiência concreta, refiro-me a J. C. Milner que, seguindo Miller, propõe uma maneira bem simples e intuitiva.[2] Ele sugere que só a língua materna é habitada por lalíngua, porque ela é única a que chegamos a partir de nossos balbucios. Todas as outras serão apreendidas a partir dela. Por isso, para nós, o português tem algo a mais que nenhuma outra língua tem. Dito de outro modo, lalíngua é isso que se perde quando falamos outra língua.

Remeto vocês à novela A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov. O protagonista – assim como o autor - viveu na Rússia até seus quarenta anos e depois migrou para a Inglaterra. Nabokov resume esta virada que bem podia ser a fórmula do migrante de modo mais geral:

Pobre Knight, sua vida se dividiu em duas partes. Na primeira, era um sujeito sem graça acabando com o inglês e na segunda, era um sujeito acabado falando um inglês sem graça.[3]

Para concluir, lembro que nosso Encontro convida cada um de vocês a dizer como interpreta na sua prática, da maneira que for e no plano que for - o de lalíngua é apenas um deles.

Façamos a aposta que o imenso baú que abriremos, de distintas interpretações do que o Outro escreveu em nós, terá algumas chaves para abordar o derretimento generalizado dos laços que promove o neoliberalismo de hoje, assim como para o reacionarismo paranoico dos fascismos vigentes, a que esta nova forma do velho capitalismo nos tem levado.

Nossas interpretações poderiam permitir aos sujeitos que nos procuram extrair de si mesmos o ilegível que abra caminhos? Não sabemos ainda, mas saberemos melhor em nosso Encontro.


[1] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, Opção Lacaniana, n° 23. São Paulo, Eolia, 1998.
[2] Miller, J. A. Le tout derner Lacan (curso da Orientação Lacaniana, 2006-2007, inédito, aula de 7/3/07, Laurent E. O avesso da biopolítica, Rio de Janeiro, Contra Capa, 2016, pp. 99 e seguintes, referidos por Milner, J. C. “Back and Forth from letter to homophony”, Society for Theoretical Psychoanalysis, Problemi International, vol. 1 no. 1, 2017 (disponivel em https://problemi.si/issues/p2017-1/04problemi_international_2017_1_milner.pdf),
[3] “Poor Knight! he really had two periods, the first – a dull man writing broken English, the second – a broken man writing dull English” (Nabokov, V. The real life of Sebastian Knith, London, Penguin Books, 1964, p. 6.

A interpretação psicanalítica ainda faz barulho?

Louise Lhullier

Bom dia!

Começo por agradecer pela confiança expressa no convite formulado pela Diretoria da EBP, para coordenar o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano com a querida Flávia Cêra.

Agradeço também pela insistência de Henri Kaufmanner e Marcus André Vieira para que participássemos da Comissão de Orientação Epistêmica, não nos deixando absorver pelas inúmeras decisões, operações, tarefas necessárias à materialização do XXVI Encontro.

Muitos colegas já se juntaram a nós, trabalhando animadamente para que possamos construir nosso Encontro. A eles e aos que estarão conosco a partir de hoje, compartilhando trabalho, alegrias, preocupações, há que agradecer pela parceria.

O Argumento do Encontro, já disponível no site, foi construído pelos quatro da Comissão de Orientação Epistêmica, não sem a participação importante de nosso êxtimo, Oscar Ventura, e dos oportunos “pitacos” de Luiz Felipe Monteiro, diretor da EBP e Presidente do XXVI Encontro Brasileiro. Nossas falas de hoje acrescentam algo da elaboração de cada um e cada uma sob a inspiração dessa produção coletiva. Esperamos e apostamos que ele venha a inspirar muitos outros e outras.

“Vivemos uma época saturada de sentido, em que a palavra se encontra simultaneamente inflacionada e regulada”.[1]

Constatamos hoje um grande alvoroço. Equívocos. Boatos. Mentiras. Uma falação generalizada.

A escala é inédita. Já não se trata apenas de conversas que se entrelaçam no encontro dos corpos — nas casas, nas ruas, nos espaços públicos. Hoje, em poucos minutos, uma postagem pode alcançar milhões de visualizações.

Nunca se falou tanto. Nunca se interpretou tanto. Falar implica produzir sentido. Produzir sentido implica interpretar. Há um excesso de interpretação.

Ao longo de sua história, a psicanálise teve de afirmar repetidas vezes sua diferença em relação a outros saberes. Somos novamente convocados a isso.

Uma pergunta se impõe: como sustentar o coração da prática analítica - a interpretação -em sua especificidade?

E outra, ainda: como fazer escutar o seu barulho em meio ao cotidiano ruidoso que hoje satura a experiência da palavra?

A palavra interpretação atravessa muitos campos. Cada um define o que é interpretar. Cada um define também o estatuto da verdade que sustenta sua prática.

Tomemos um deles: a hermenêutica.

A hermenêutica parte de um pressuposto: há uma verdade a ser revelada. Interpretar é decifrar. A pergunta que a orienta é conhecida: o que isso quer dizer?

Quando algo parece obscuro, fragmentado, equívoco, trata-se de esclarecer, reconstruir, integrar. O ruído aparece aí como obstáculo — algo a ultrapassar para que o sentido se revele. A interpretação hermenêutica faz, portanto, proliferar o sentido.

Em muitos momentos da obra freudiana, a interpretação aparece como decifração: sonhos, lapsos e sintomas são tomados como formações que podem ser lidas, traduzidas, reconstruídas. Há aí algo de uma hermenêutica freudiana.

Mas, com Lacan, a questão se desloca. Depois de Lacan, não há mais lugar para a hermenêutica na psicanálise[2]. A interpretação analítica segue outra via.

Jacques-Alain Miller tem desenvolvido essa via inaugurada por Lacan tanto em seus cursos regulares[3], como em outros momentos de sua transmissão. Ele afirmou, por exemplo, em sua apresentação no First Paris/Chicago Psychoanalytic Workshop (1986): “Lacan disse muito claramente que a psicanálise não é uma hermenêutica”[4]. A psicanálise não deve ser confundida com uma ciência do sentido.

Com Lacan e Miller aprendemos que a língua não é apenas instrumento de comunicação. Ela é também matéria de gozo. Isso muda tudo.

Aquilo que, para a hermenêutica, aparece como barulho, ruído — tropeços, lapsos, repetições, equívocos — constitui, para a psicanálise, ponto de incidência clínica. Não é algo a eliminar. É algo a escutar, a ler, a escrever.

Por isso, a pergunta da psicanálise não é “o que isso quer dizer?” A pergunta da psicanálise recai sobre o gozo implicado no dizer.

Enquanto a interpretação hermenêutica restaura a continuidade do sentido, a interpretação analítica visa introduzir um corte justamente ali onde o sentido se oferece em excesso.

A interpretação analítica vai operar no ponto em que a língua faz barulho. Ali onde ela toca o corpo.

Foi a partir dessa perspectiva que, na mesa de abertura das atividades da Seção Sul, ontem à noite, abordamos o objeto voz. Tomamos como uma das referências o livro de Heloísa Caldas, Da voz à escrita[5].

Nesse livro, Heloísa formula sinteticamente algo muito orientador: “o fazer analítico sobre a voz deve romper o mito da compreensão e evitar o gozo da falação”[6].

Romper o mito da compreensão. Evitar o gozo da falação. Aí se condensa aquilo que podemos talvez considerar uma regra geral da interpretação ao longo do ensino de Lacan: A interpretação analítica não acrescenta sentido. Ela corta.

Se acrescentamos sentido, permanecemos na hermenêutica. Quando operamos um corte, entramos no campo próprio da interpretação analítica.

É nesse ponto que a fórmula “da voz à escrita” ganha todo o seu alcance.

Não se trata da passagem do som ao significado. Não se trata de compreender melhor, de explorar o dito ou de fazer uso da letra alfabética para fazer falar o inconsciente.

Trata-se de outra coisa. Trata-se da tentativa de tocar algo do real — algo da voz que independe do sentido e até mesmo do som. Algo que ressoa no corpo, produzindo efeitos. Algo que pode ser cifrado pela letra em sua função algébrica, quando se trata de escrever relações estruturais.

É aí que a interpretação analítica encontra sua especificidade. A verdade na qual ela se funda é a do gozo: há gozo! Uma verdade que só se pode semi-dizer, na verdade mentirosa dos semblantes que lhe servem de anteparo.

É justamente aí que se abre o trabalho ao qual este Encontro nos convoca. Diante da falação generalizada que marca nossa época, a psicanálise não se propõe a gritar mais alto. Ela se propõe a ler, nos barulhos da língua, aquilo que insiste para além do sentido.

O XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano quer ser um lugar para esse trabalho. Um lugar onde a clínica de nosso tempo possa ser interrogada.
Um lugar onde possamos colocar à prova — caso por caso — o que a interpretação analítica ainda pode.

Por isso, este lançamento é um convite a partilhar aquilo que cada um e cada uma encontra em sua prática: os impasses, os paradoxos, os achados, os restos que resistem ao sentido; para que possamos continuar a fazer existir um lugar onde os barulhos da língua encontrem novas formas de se escrever: a Escola de Lacan.

Florianópolis, 7 de março de 2026.


[1] XXVI EBCF. Argumento. Disponível em Argumento - XXVI EBCF Encontro Brasileirodo Campo Freudiano. Último acesso: 11/03/2026
[2] Lacan, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 15 e 146.
[3] Ver, por ex.: Miller, J.-A. La fuga del sentido. Buenos Aires: Paidós, 2012.
[4] Miller, J.-A. How Psychoanalysis Cures According to Lacan. Newsletter of the Freudian Field, Volume 1, Issue 2, Fall 1987. Disponível em: Newsletter of the Freudian Field, Volume 1, Issue 2, Fall 1987 - DocsLib. Último acesso em 11/03/2026. Tradução livre.
[5] Caldas, H. Da voz à escrita: clínica psicanalítica e literatura. Rio de Janeiro: Contracapa Livraria, 2007
[6] Idem, p. 144.

Ode ao bizarro: pontuações sobre a interpretação

Henri Kaufmanner

Em seu texto “Vous avez dit Bizzare?”[1] Miller destaca a dimensão bizarra da interpretação. Para ele, todos os fenômenos apontados por Freud  e que resultaram na criação da psicanálise são bizarros. Fundamentalmente diz Miller, o inconsciente se manifesta de maneira bizarra.

Costumamos procurar o analista a partir de fenômenos ou incapacidades bizarras. Entretanto, diz Miller, mais até que seus pacientes, os analistas são bizarros. Não há como não reconhecer isso. Por exemplo, somos radicalmente contra qualquer regulamentação da profissão de analista. Afinal isso nos arrancaria de nossa bizarrice, pois o analista a princípio não existe, sendo um efeito de seu ato. Ou ainda, o fato de que em nossa Escola, os seus membros fazem questão de pagar mais de que os não membros em nossas atividades. Pagamos por nosso desejo de Escola.

Acompanhando Miller, percebemos que todo o percurso de Lacan em seu ensino se orienta por essa bizarrice da psicanálise, e no que diz respeito à interpretação, podemos dizer que esta se revela na busca por cernir o que há de mais singular, a diferença absoluta. É essa joia bizarra que ao longo de nossos trabalhos  para o Encontro Brasileiro devemos lapidar.

Desde seus primórdios, com a interpretação pela via do sentido, inaugurada por Freud, passando pelas pontuação e pelo corte, chegando a poética e as ressonâncias do efeito da lalingua sobre o corpo, o que esta em questão é não perder a virulência da prática analítica, sua subversão, não deixando que a mesma caia no senso comum. Não é surpresa constatar  que aquilo que anteriormente era considerado bizarro, hoje em dia, muitas vezes, já perdeu sua dimensão disruptiva e é acolhido tranquilamente como algo comum de nosso tempo. Na chamada era de Ouro da psicanálise, por sua novidade, a intervenções plenas de sentido de Freud provocavam efeitos absolutamente inesperados e revelavam o bizarro do inconsciente.

Em nosso tempo, nesse mundo em que todos falam e todos  reforçam a importância da escuta, o saber é muitas vezes reduzido a um enxame de informação. Nesse mundo das mais diversas tribos, diante da moral identitária, preservar o espaço do bizarro se faz tarefa primordial. Quando partilhávamos a paróquia do Outro, um chiste por sua surpresa, seu efeito suplementar e bem humorado, muitas vezes acabava por descortinar a vacilação do Outro, seu mais além, acrescentando sentido e paradoxalmente, revelando sua inconsistência. Não por acaso Freud apontava o humor como tratamento a incidência do SuperEu.  Hoje em dia com a pluralização das paróquias, embora não tenhamos abandonado o chiste, muitas vezes só nos resta o equívoco e suas ressonâncias sobre o corpo com aquilo que pode fazer valer o furo, diante do retorno do Outro do fanatismo e da moral.

Nosso começo se deu pelo sujeito do inconsciente fruto da articulação significante, um conceito que opera na relação com o Outro da linguagem, onde o ser é sua articulação como falta-a-ser. Somos levados a deduzir que essa falta-a-ser também é fruto dessa articulação, e, de forma mais precisa, em sua relação com o Outro, o ser se reduz a um efeito de sentido. Se seguimos nessa linha de pensamento verificamos que essa redução acaba estabelecer uma primazia do Édipo. Tal primazia já revelava seus problemas quando a clínica se deparava com a falta do sentido, como nas psicoses e nas novas formas de sintoma.

Com o avanço do ensino de Lacan pudemos entender que, o sujeito, aquele que se representa de um significante a outro, portanto, um sujeito que advém na produção de saber dessa articulação, é fruto de uma elucubração de saber, o nome pelo qual Lacan passou a nomear a linguagem. E, segundo o que ainda nos diz Lacan no seminário XX, essa elucubração, o inconsciente estruturado como linguagem, é fruto da psicanálise. Se o inconsciente estruturado como linguagem é efeito da psicanálise, o sujeito somente pode ser percebido como efeito da psicanálise e não numa anterioridade a essa. Bizarro! Podemos até alcançar o que teria levado Lacan a chamar o efeito da psicanálise sobre lalangue de "linguisteria". Afinal, o que se busca na análise é o discurso histérico, a "linguisteria" é o que se consegue com a ação da máquina psicanalítica sobre o parlêtre. A maquina psicanalítica, seu discurso portanto, opera a partir dos semblantes, estes mesmo efeitos desse discurso.

Já a noção de parlêtre” recoloca o corpo tomado a partir do impacto de lalangue e seu valor de ressonância, e busca tocar o real. A psicanálise não se reduz ao sujeito lógico do significante, embora este não deixe de a partir de seus furos ressoar a sonoridade do impacto de lalangue sobre o corpo. Se o sujeito em sua falta-a-ser continua nos interessando, interessa-nos sobremaneira a sua presença de ser, como se vira com esse corpo que goza de si mesmo.

Esse estatuto de corpo, despojado do saber que se articula, resulta numa nova concepção da idéia de debilidade mental:

... o homem não se safa de modo algum desse negócio de saber, isso lhe é... isso lhe é imposto. Isso lhe é imposto pelo que chamei de efeitos de significantes. E ele não fica aí a vontade. Ele não sabe ‘fazer com’ (‘faire avec’) o saber..... é o que se chama a debilidade mental, da qual devo dizer que eu não sou exceção”.... “esse material é o que nos habita. Com este material ele não sabe como se virar (‘il ne sait y faire’)”[2].

A partir do momento em que o que esta em jogo não é apenas o sujeito, mas o corpo afetado por lalangue, o saber que esta em pauta não é mais o saber elucubrado, da articulação significante, mas um saber fazer com a afetação que esse significante produz sobre o corpo. Nessa mesma lição, Lacan acrescenta que o parlêtre, fala sempre só e sempre uma única coisa, a menos que possa dialogar com um analista. Essa fala solitária e repetitiva, se daria em função do S(A /). Para ele, se o sujeito dialoga com o Outro, há um ponto nesse Outro em que não existe resposta, e que nesse ponto latimos.

Se é pelo encontro de S(A/), ali onde o Outro não responde, que latimos, que falamos sempre a mesma coisa, o monólogo pode se interromper se algo da ordem de um eu (moi) se produzir, e, assinala Lacan, não há nada que diga que esse eu não venha propriamente dito delirar.[3] A experiência psicótica, permite-nos vislumbrar, como que o delírio pode se apresentar como alternativa à debilidade (por sua vez o autismo nos convoca a novas invenções). Se é exatamente onde o Outro não existe que se pode interromper o monólogo pela invenção de um moi, de maneira paradoxal, dialética mesmo, mais aberto à invenção, mais próximo da solução delirante, o psicótico se encontra.

Como então acolher o que é do campo da debilidade de cada um. Aquilo que afeta o corpo, e que do corpo apenas faz signo, sinal de presença enquanto corpo. Cabe então ao psicanalista lidar com loucos ou débeis. Na vertente do débil a análise pode restaurar a dimensão do equívoco no significante, produzindo assim uma vacilação na cadeia repetitiva de sentido produzido ali onde o sujeito não sabe. É dessa maneira que a psicanálise se aproxima da poesia, na medida em que abre mão do sentido em busca de uma nova significação, particular a cada um. Dessa forma abre-se a perspectiva de encontrar uma nova significação para o sintoma, algo que permita ao sujeito se identificar, “tratando” a disjunção entre o ser e o corpo.

Termino com um exemplo de Lacan. Foi ele mesmo que nos ensinou que uma audiência, como a presente em seus seminários, produz interpretação. Na lição  de 8 de março de 1977[4] dois acontecimentos acabam por exigir dele um comentário. Inicialmente, ele troca o nome de Pasteur pelo de Freud e logo se corrige. E num segundo momento ele erra ao escrever o matema do discurso do analista, sendo logo corrigido por Miller.

Lacan discorda de que no segundo acontecimento teria acontecido um lapso. Para ele, o que aconteceu foi um erro grosseiro. Reduzir seu erro ao lapso seria reduzi-lo ao inconsciente freudiano e isso exigiria um sentido. Para Lacan, o inconsciente produtor de sentido nos adormece, funciona por sugestão, sendo portanto, hipnótico. Todo discurso afinal é hipnótico e o esforço de Lacan em seu último ensino é provocar o despertar desse adormecimento. Lacan prefere apontar para o real.

Por outro lado ele reconhece que trocar o nome de Pasteur pelo de Freud seria um lapso. Ele ocorreu enquanto Lacan discorria sobre a geração espontânea. As pesquisas de Pasteur acabaram com essa crença de crescimento espontâneo de micro-organismos. Lacan lamenta o tamanho do sucesso de Pasteur em suas pesquisas. A geração espontânea era uma muralha contra a existência de Deus. Como consequência, haveria uma série de perguntas que vão desde as origens da vida na terra ate o que faz do homem um falasser que permanecem não sabidas. Porém adormecidos que fomos pela crença em Deus, nos esquecemos desse desconhecimento. O esforço de Lacan em nos afastar da crença do inconsciente enquanto saber dirige-nos ao real, e é essa orientação que nos preserva enquanto bizarrice e nos coloca a trabalho.


[1] Miller,J-A. Vous avez dit bizarre? In.: Quarto Revue de psicanálise n.78 février 2003
[2] Lacan, J. Seminário 24, L’unbevue....Lição de 11/01/1977 (Inédito)
[3] Lacan, J. idem
[4] Lacan, J. op.cit. 08/03/1977

A extraterritorialidade da língua[1]

Leonardo Scofield

Boa dia a todos.

Quero começar agradecendo, de maneira muito especial, ao Conselho e à Diretoria da Escola Brasileira de Psicanálise pela confiança depositada na Seção Sul para sediar o próximo Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.

Agradeço nominalmente à presidente da Escola, Maria José Gontijo, e ao diretor-geral, Luiz Felipe Monteiro, por essa aposta — que nós recebemos com entusiasmo, mas também com a responsabilidade que ela implica.

É uma alegria poder dizer que esse encontro acontecerá aqui, nesta ilha. A ilha de Santa Catarina.

Talvez valha a pena fazer uma pequena digressão, porque as cidades, assim como os sujeitos, também têm sua história com os nomes.

Florianópolis nem sempre se chamou assim. Durante muito tempo foi conhecida como Nossa Senhora do Desterro. Um nome curioso.

“Desterro” é uma palavra forte. Remete ao exílio, à expulsão, àquele que é lançado para fora de seu lugar.

Uma cidade com um nome que já carrega em si uma certa experiência de desterritorialidade.

E talvez isso não seja tão estranho para nós.

Porque, de certo modo, a psicanálise sempre teve alguma afinidade com o desterro.

Freud retirou o sujeito do centro de si mesmo.

E Jacques Lacan, ao recolocar a psicanálise no campo da linguagem para além da semântica, também nos desterrou — digamos assim — da ideia de que somos senhores daquilo que dizemos.

Não somos nós que falamos a língua. É a língua que fala em nós.

É justamente nessa direção que se orienta o tema do próximo encontro: “Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita”.

Esse tema nos convida a percorrer alguns momentos decisivos do ensino de Lacan.

Podemos lembrar, por exemplo, daquele Lacan de Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise³, onde a palavra aparece como eixo da experiência analítica.

Mas podemos também avançar até o Lacan de seu último ensino, em textos como Lituraterra⁴ e O aturdito⁵, onde a língua aparece como matéria sonora, como escrita, como aquilo que deixa sulcos e marcas no corpo — justamente ao não se reduzir a um sentido unívoco.

Ali, a língua faz barulho. Ela tropeça. Ela ressoa. Ela se escreve de maneiras contingentes.

É justamente nesse ponto — entre fala e escrita, entre som e traço — que a interpretação analítica encontra novas possibilidades.

Recolocamos a trabalho o tema da interpretação, trinta anos depois do que Jacques‑Alain Miller chamou de “a interpretação pelo avesso”⁶.

Seguindo a orientação lacaniana, aprendemos a importância de escutar aquilo que está ali como escrita. Aprendemos a ler o sintoma como uma forma singular de escrita do gozo.

Talvez possamos dizer — retomando o espírito do antigo nome desta cidade — que, se há um desterro na experiência analítica, ele não é exatamente um exílio.

É antes uma marca de extraterritorialidade da língua.

Uma extraterritorialidade que permite uma passagem: da palavra para a letra, do sentido para o equívoco, da fala para a escrita, da escuta para a leitura, da língua organizada para os seus barulhos.

É justamente essa perspectiva que queremos explorar juntos no próximo Encontro.

Portanto, fica aqui o convite: “Si quésh, quésh; si não quésh, dish.”

Que cada um possa se deixar afetar por esses barulhos da língua.


Referências
LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. Lituraterra. In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, Jacques. O aturdito. In: LACAN, Jacques. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
MILLER, Jacques‑Alain. A interpretação pelo avesso. In: Opção Lacaniana Revista Brasileira Internacional de Psicanalise, nº 15.

[1] Texto apresentado no lançamento do 26º Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.

Discurso de lançamento do XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano – Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita

Luiz Felipe Monteiro

Se passaram dois anos desde o último Encontro Brasileiro, em 2024: os corpos aprisionados pelos discursos e seus restos. Ali pudemos recolher os efeitos dos corpos quando atravessamos pelos distintos discursos. Naquele encontro o corpo falante foi posto no centro para com ele se interrogar como o discurso do mestre contemporâneo incide, alcança e faz sintoma. Investigou-se de que modo tais corpos são aprisionados, ou seja, como eles são constituídos e respondem aos significantes mestres da época.

Porém todo discurso também implica o que deles vacilam, modos de gozar que escapam à sua injunção. O último encontro também nos lembrou que há os restos não capturados, não capturáveis e eles insistem. Podemos dizer que foi com eles que chegamos até aqui hoje. Com os restos, brechas e frestas que chegamos ao 26ª Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: Barulhos da língua — a interpretação entre a fala e a escrita.

Vejam: Há uma pequena declinação: dos corpos e os discursos para a língua e seus barulhos. Mas percebam que ainda é sobre um corpo vivo e falante, dessa vez com a luz sobre os atravessamentos pelo discurso, o propriamente analítico.

Há o discurso analítico e há o discurso sobre psicanálise. Não se confundem é isso é sempre importante lembrar.

Dizer “psicanálise” não é garantia de haver a lâmina cortante da causa analítica e nisso, sabemos, não há garantias a priori, além daquelas que cada um possa dar prova, vez a vez, singularmente.

Em 2025 vocês acompanharam como o termo “psicanálise” foi alvo de uma disputa de poder e do capital. Impedir o seu uso como chancela para cursos universitários foi uma vitória, mas também um sintoma de que facilmente uma dizer sobre psicanálise pode estar a serviço de outros discursos, mestre, universitário e capital facilmente se unem para a sua injunção. Sabemos vide o que se passa na saúde mental da França, não é somente um caso no Brasil.

É nesse contexto que a escolha pelo tema da interpretação, feita por esta diretoria e acolhida pelos colegas da Escola Brasileira de Psicanálise, visa dar consequência ao que nos concerne enquanto discurso analítico.

Não se trata de definir nem o discurso analítico, tampouco a interpretação, mas nos colocarmos a trabalhar para que as condições de sua emergência possam ser verificadas, discutidas, interrogadas, postas a serviço da formação analítica tal como pode se sustentar por cada um em meio a um trabalho que também é de Escola.

Trazer à tona a interpretação pode ter efeitos naquilo mesmo que nos concerne como Escola, Escola Brasileira de Psicanálise. Jacques Alain Miller em sua Teoria de Turim, uma teoria sobre a Escola Sujeito, diz que “A vida de uma Escola deve se interpretar. É interpretável. Interpretável analiticamente.”[1]

Segundo Miller, trata-se de “remeter cada um dos membros da comunidade à sua solidão, à solidão de sua relação ao Ideal[2]”, isto é, à causa analítica. Interpretar a vida da Escola não é interpretar de modo a colmar um sentido coletivo, não é fazer sugestão. Mas o inverso, é remeter, cada um, em seu modo de gozar, em sua solidão, ao que através de uma Escola se veicula, ou não se veicula, seus trânsitos poderíamos arriscar dizer. Trata-se de subjetivar a Escola, o que em seu dizer “implica que cada um meça o salto entre a causa particular de seu desejo e a causa freudiana.”[3]

“Este sujeito está determinado pelos significantes dos quais é efeito, pois isto é o que define um sujeito, mais nada. É por isto que o ato de colocar os significantes que determinam a Escola é um ato de responsabilidade absoluta, pois é um ato de interpretação, que opera sobre o sujeito pelo viés da palavra.”[4]

Gostaria de lembrar nesse preciso ponto: a Escola chama-se brasileira de psicanálise, o encontro chama-se brasileiro — do campo freudiano. Menos do que o sentido que porta esse significante, interessa interrogar que espécie de real ele veicula, que contingência ele permite, que consequência nos corpos, nas cores, nos gostos, nos cheiros ele pode ter para os circuitos que nos envolvem no cotidiano de a prática e na vida de uma escola. Qual o seu trânsito?

Insisto: não se trata de retórica sobre o significante “brasileiro”, mas tirar consequências deste significante, interrogando como o caroço de real que ele porta incide em um a um, em sua solidão subjetiva, nessa Escola.

O convite ao Encontro Brasileiro do Campo Freudiano é também um convite a que cada um, a seu modo, se sirva destes significantes que nos reúnem.

Um Encontro que se diga do Campo Freudiano e que se diga brasileiro. Tirar as consequências do singular que esse significante pode ter para cada um, pode vir a ter um efeito interpretativo para uma escola que se pensa como escola-sujeito, uma escola portanto, viva.

Vocês que nos acompanham em todo o Brasil já participam de certa forma dessa experiência que acaba de começar. Essa experiência contará com as atividades preparatórias que virão e se completa com os corpos presentes de vocês nessa cidade tão encantadora que é Florianópolis.

Meu obrigado a todos que nos acompanham — presentes nas sessões da Escola Brasileira de Psicanálise e também nas suas telas, que nos permitem conectar — vastamente. Agradeço igualmente aos colegas envolvidos na produção, na construção e no desenvolvimento deste encontro. E já me adianto e também deixo meu obrigado a cada um que enviar o seu trabalho para a comissão de orientação. De alguma maneira este envio não é somente índice da transferência de trabalho, mas também uma forma de se servir destes significantes que aqui nos reúnem hoje.

Com essas palavras, fico por aqui. E com muito entusiasmo, convido cada um que está nos acompanhando a seguir nesses Barulhos da Língua!


[1] MILLER, J.-A. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. Opção Lacaniana Online, n. 21, 2016, p. 3. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/teoria_de_turim.pdf
[2] Ibid, p. 5
[3] Ibid, p. 10
[4] Ibid, p. 10

Partimos!

Flávia Cêra

Bom dia a todos, quero dizer que é uma enorme satisfação estar aqui neste sábado com colegas tão queridos e com todos que nos acompanham, para lançar o XXVI EBCF. E especialmente, por estar neste lugar que movimenta e faz pulsar a cidade em variadas vozes, sons, sentidos, pelo qual tenho um amor e respeito imensos que é a Universidade Federal de Santa Catarina. É um belo lugar para darmos nosso pontapé inicial.

A psicanálise é um dos instrumentos mais cortantes para desestabilizar a monocultura da língua. Seus manejos, interpretações, cortes, emendas, montagens, forçamentos poéticos vão construindo a possibilidade de ouvir, ler, escrever outras línguas, línguas menores, que contém elementos de uma vibrante capacidade de subverter uma estrutura. Em uma análise, nos encontramos com as línguas que falamos, e com as línguas em que fomos falados. Inventamos inúmeras formas de dizer o que há ali de inominável, indizível, ininterpretável. Nos encontramos com  a integral dos equívocos que persistem, com os cristais de lalíngua que não escorrem pela peneira da linguagem. Como falamos é feito da “contribuição milionária de todos os erros” de cada um para cada língua, de cada língua em cada corpo.

Isso também faz um Encontro que, pensei certa vez, funciona como um acelerador de partículas. O tempo e o espaço se modificam pelo choque, pelo atrito, que criam a surpresa do desconhecido. A forma de conhecê-lo é, paradoxalmente, a língua. Talvez porque seja mediado, irremediavelmente, por ela e, eventualmente, possamos dizer que todo encontro é o encontro com uma língua que deixa e produz marcas, traços, histórias e que nos confronta com seus cacos. Mas não há ponto zero da língua a que se retorna. Para todo fim, para qualquer meio e para todo começo é preciso aprender, conhecer e inventar com a língua que temos. Longe das tecnologias de comunicação e da linguagem, os usos da língua em uma análise guarda seus mistérios nos ruídos, murmúrios, barulhos – trazendo consigo a possibilidade de uma nova escrita. E me parece que tudo isso está posto desde o começo da concepção de um encontro, mas especialmente, de um Encontro do Campo Freudiano.

Existe uma coisa que sempre me fascinou no Campo Freudiano que é a capacidade de fazer esses Encontros acontecerem. Nós também temos os nossos aceleradores de partículas. Isso tem uma certa magia: o encaixe dos tempos, dos andamentos das coisas que, mesmo quando desanda, consegue bricolagens inéditas, rebolados inacreditáveis aparecem e, de repente, estamos juntos. É como se fosse possível alcançar a mágica do tempo de Clarice e dividi-lo “em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível” isso mostra sua beleza e ao mesmo tempo a magnitude do trabalho exigido. Esse fazer é uma das tantas traduções que encontrei para o que atende pelo nome de Orientação Lacaniana: o que fazemos juntos.

Nossa sorte é ter muitas feiticeiras e feiticeiros, bruxos e bruxas, e toda sorte de alquimistas que trabalham muito e fazem as coisas ganharem força, forma e vida. As coordenações e equipes espetaculares de cada comissão estão no site e a elas agradeço muito muito porque o trabalho já começou! Vocês vão ver também que nosso site, bem como nosso material de divulgação, é feito com a linda e sonora obra de Kamilla Nunes, a quem quero agradecer também. Escrita é o nome da série de desenhos, assim no singular. Mas que é composta por vários desenhos, os múltiplos, como a Kamilla mesmo nos contou. Desde que eu vi essa série, pensei que era a cara do Encontro. E aí está, entre o singular e o múltiplo, o lugar da Escrita.

Agora vou falar um pouco da estruturação que temos pensado na Comissão de Orientação para o Encontro: teremos sete cartéis de leitura dos casos. Eles serão compostos por colegas de todas as seções da EBP. A ideia é que os casos sejam a base de todo Encontro, não apenas das Mesas Simultâneas. Outra ideia é que as mesas simultâneas estejam mais envolvidas e misturadas, enlaçadas na programação geral e não aconteçam apenas em um dia. É para trazermos seus barulhos mais para perto. Para as salas que receberão as mesas, também pensamos um formato em que possamos destacar e acompanhar alguns fios conceituais, clínicos e políticos que nos ajudem a precisar os efeitos, modos e incidências da interpretação. Então, atenção!, já temos um prazo para o envio de trabalhos que é dia 23/08. Vamos seguir esse calendário para dar tempo dos cartéis trabalharem e construirmos a programação a partir do que os casos ensinam. As informações para o envio de trabalhos já estão no site.

Lá vocês também poderão ler o argumento que escrevemos para orientar e encontrar alguns fios de leitura que convidamos todos a trabalhar. Temos quatro entradas no argumento geral: efeito de verdade, fazer surgir um significante irredutível, é em lalíngua que a interpretação opera e, finalmente, corte: escrita e leitura. Propomos também seis fios de leitura que colocam questões, problemas, aporias para pensarmos como e do que é feita a interpretação analítica hoje e, especialmente, a partir da orientação de Jacques-Alain Miller sobre o último ensino de Lacan quando ele afirma que há “um chamado a outro modo de interpretação”. Partimos, então, sabendo que a interpretação não pretende um esclarecimento, apesar de muitas vezes alcançar algo nesse sentido. Ela se aproxima dos pontos opacos, dos umbigos que não se pode dominar. A escrita, a leitura, o dizer do analista - que Lacan vai tomar como formas da interpretação - são parte fundamentais dessa operação, seja na aventura das entrelinhas ou nas leituras ao pé da letra para que uma língua não se feche sobre si mesma, porque não existe a última e verdadeira palavra, mas um saber-fazer com o gozo. A interpretação é por onde acontece esse trabalho, é ela que pode produzir uma letra que, por ser ilegível, pode suspender e questionar os impossíveis estruturais da história de uma vida ou de um povo, e que, aberta aos atravessamento das alteridades, suas equivocidades, pode soar outra coisa que o sentido, mais perto do que faz a vida pulsar.

Então, o convite é para que nos encontremos antes mesmo do Encontro, em cartéis, em ateliês de leituras, em escritas e conversas para, em novembro, tratarmos todos juntos da interpretação que é o coração da psicanálise! E, claro, preparem-se para vir para Florianópolis. Esperamos vocês todos aqui!


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