A ressonância no corpo do ouvido, da boca e da voz
A ressonância no corpo do ouvido, da boca e da voz
Fátima Sarmento
No Seminário 23, Lacan afirma: “temos apenas o equívoco como arma contra o sinthoma [...] é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe.”[1] Nesse mesmo Seminário, ele se vale dos nós para enodar o real, o corpo e o inconsciente, resultando daí um novo corpo – um corpo vazio que funciona como caixa de ressonância. Foi seguindo essa direção que ele chegou à sua última definição da pulsão: “as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer”[2].
Para Miller[3], Lacan utiliza-se da anatomia, mais especificamente da fisiologia, para mostrar que o circuito da palavra põe em função o ouvido, esse orifício que não se pode fechar, e põe também em função o buraco corporal da boca – a boca que beija a si mesma. Se o que importa é a ressonância no corpo do ouvido, da boca e da voz, fica evidente que a potência da palavra não depende de quem fala, mas de quem ouve.
Um exemplo clínico de Esthela Solano[4] está em conformidade com a ideia de que há um real que está antes do Outro e que corresponde a um choque inicial entre um significante e o corpo.
A analista recebe uma jovem cujo sofrimento passa pela homossexualidade feminina bastante enraizada, mas deixa claro que não quer mudar a sua escolha, quer apenas saber a razão de envolver-se com mulheres tão loucas. Sob transferência, a analisanda dá-se conta de que é sustentada por uma fantasia de ser sempre a que salva uma mulher. Por estar em análise, seu relato ultrapassa a série de mulheres, levando-a na direção de sua mãe. Assim, ela descobre a raiz da sua escolha homossexual em sua fantasia de salvar a mãe. Desde pequena, ela sempre ouviu que sua mãe quase morreu devido a uma doença infecciosa muito grave, sendo salva graças à penicilina. O nome dessa paciente termina com o som ...lina. Ela ouvia que a mãe fora salva graças à pênis...lina. Foi para esse lugar que ela se viu aspirada. A mãe inaugura a série das mulheres a serem salvas e a repetição foi reduzida a um S1 disparador.
O caso ensina que a psicanálise tem a chance de liberar, no sintoma, pelo viés do equívoco, o que ali se realiza como um gozo ignorado pelo próprio sujeito.
[1] LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 18.
[2] Ibid., p. 18.
[3] MILLER, J.-A. El ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 170.
[4] SOLANO SUAREZ, E. Detalhes e prudência diante das trapalhadas. O corpo e seus fenômenos. Correio, Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, n. 56, p. 113-114 ago. 2006.
Operar em lalíngua
Operar em lalíngua
Virgínia Carvalho
Aprendemos com o argumento do XXVI Encontro Brasileiro que no coração da prática psicanalítica está a interpretação e que esta incide sobre o umbigo do falasser, fazendo surgir um “significante irredutível”que permita ao falasser localizar, para além da significação, “a qual significante – não senso, irredutível, traumático – ele está, como sujeito, assujeitado”.
Tal indicação se deve ao fato de que, como pontua Lacan, lalíngua “serve para coisas diferentes da comunicação”, já que “aonde isso fala, isso goza”. Para Miller, “dizer ‘lalíngua’ em uma só palavra é justamente designar lalíngua pelo som, lalíngua suposta, aquela anterior ao significante mestre, aquela que a análise parece liberar e desencadear”. É o “depósito, a coletânea de vestígio dos outros ‘sujeitos’”, o modo como cada um inscreveu seu gozo pelos significantes.
A linguagem “é feita de lalíngua”, ou seja, ela é uma elucubração de saber sobre lalíngua. Nessa perspectiva, o inconsciente, que é intérprete - como vimos no último encontro preparatório, é um “saber-fazer com lalíngua”, “um saber que se articula a partir de lalíngua”.
Por essa razão, Lacan pode colocar, na interpretação, o acento sobre o significante, sobre “o jogo com a equivocidade”. Ele chega a dizer que “é em lalíngua que a interpretação opera”, pois ela deve visar o essencial no jogo de palavras para não alimentar o sentido do sintoma. A interpretação deve sempre ser “o ready-made de Marcel Duchamp”, o que nos lembra a ideia proposta por Miller do analista como uma “instalação portátil”.
Considerar essa poética da interpretação não equivale a ficarmos apenas buscando os barulhinhos e grunhidos irreconhecíveis no caso, como muito bem nos indicou Henri Kaufmanner no Preparatório. O que seria, então, operar em lalíngua? Como nos servirmos dessa orientação tão precisa de Lacan em nossa prática cotidiana? E na psicanálise aplicada? Como podemos pensar essa operatividade da interpretação, a partir de lalíngua?
Entrevistas preliminares entre lalíngua, gozo e transferência.
Entrevistas preliminares entre lalíngua, gozo e transferência.
Claudia Regina Santa Silva
Na escuta do discurso do sujeito, como o analista pode seguir os sinais de lalíngua, ou o seu fenômeno essencial- o gozo-, uma vez que o acessível no trabalho analítico só é possível pela linguagem?
Podemos pensar no fazer do analista incidindo sobre o gozo já no início de um tratamento, ou seja, já nas entrevistas preliminares?
Na vertente de seu último ensino, Lacan vai dizer que todo sujeito é feliz no nível do inconsciente, já que a pulsão “sempre funciona como convém” . Se o sujeito é feliz no funcionamento da pulsão, o que o leva a uma análise, já que nesta será inevitável percorrer o caminho ao encontro de um impossível que o real vem introduzir?
Sabemos que o sujeito em um início de tratamento quer buscar o alivio de seu sofrimento, ou mesmo rearranjar algo que não está mais tão arranjado como antes. Mas ao encontrar-se com o discurso analítico, encontra outra coisa. Depara-se com o próprio gozo, e ao encontra-lo será necessário decidir o que fazer com ele. Esse trabalho não é simples e por isso a transferência parece ter papel fundamental nesse processo. No início é com o suporte da transferência que o sujeito atravessa momentos chaves na análise, e no fim, será necessário desbastá-la, para se separar do analista e do gozo de falar.
Miller no texto O monologo da aparola, apresenta uma torção da interpretação enigma para a interpretação que aponta para o impossível, ou seja, contraria ao princípio do prazer. Podemos pensar que essa lógica pode estar presente nas entrevistas preliminares? Ou seja, o analista pode utilizar-se tanto da interpretação enigma como a que aponta para o gozo? Como isso pode nos ajudar a pensar o início de um tratamento e o que pode engendrar a transferência, já pensando que lalíngua está lá desde o princípio, e com isso também a presença do gozo?
ECOS DA I PREPARATÓRIA DO XXVI EBCF
ECOS DA I PREPARATÓRIA DO XXVI EBCF
Glória Maron
“O sonho é em si mesmo, uma interpretação, selvagem, é claro, mas interpretação?”[1], citação de Lacan que aponta para a o inconsciente intérprete assim como nos conduz a problematizar o fazer e a posição do analista. A interpretação do analista não visa uma suposta complementação do que falta ao texto do inconsciente e nem se confunde com sua tradução. Retomo e compartilho a pergunta de Cristina Drumond: como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real.
Os ecos da I Preparatória do XXVI EBCF contribuíram com muitos elementos para turbinar essas questões e nos impulsionar nessa trilha de pesquisa. A começar, foi se estabelecendo uma separação rigorosa entre uma interpretação que seja pela decifração ou pelo silêncio pode se colocar a serviço da infinitização do sentido daquela intervenção do analista que vai além do plano do dito do analisante, podendo assumir valor de corte.
Testemunhamos que as intervenções dos fragmentos clínicos não se orientaram no que quer dizer isso, nem tampouco o que o analisante quer para dizer isso e sim o que é que, ao dizer isso quer[2]. Essa torção que se volta para localizar o dizer naquilo que não foi dito na fala do analisante coloca no horizonte da interpretação lacaniana o deslocamento do isso quer dizer para o isso goza, abrindo a possibilidade de uma outra escrita do inconsciente e uma modificação da relação do analisante com uma dimensão real do gozo que lhe é inapreensível, opaco.
Sigamos essa trilha, ap
reendendo nas sutilezas dos fragmentos clínicos, o que não está contado em uma história, o não se torna uma mensagem, não produz sentido, mas está ali.
[1] LACAN, J. O SEMINÁRIO, livro XVI DE um Outro ao outro. Rio de Janeiro:Zahar. 2008. P.193
[2] _______________p. 195
Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Mônica Hage (EBP/AMP)
No texto “O inconsciente intérprete: o lugar do sonho”, Cristina Drummond traz a questão sobre “Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real”[1].
Se os sonhos precisam do dispositivo analítico para ganhar “estatuto de sonhos que interpretam o inconsciente”[2], é porque, fora dele, se resumiria a um “traço fora do sentido no corpo vivo”[3]. Talvez isso já nos permita vislumbrar que, para além do sentido, há algo mais no sonho: um corpo que vibra.
Quantas vezes escutamos dos analisantes: “ainda não sei o que esse sonho quer dizer, ou o que significa, mas o que sei é que produziu algo forte no corpo...” Esse algo no corpo, para além do seu significado, nos aponta que o sentido e a decifração não são capazes de recobrir tudo em um sonho.
O exemplo de Clotilde Leguil, trazido por Laurent Dupont nos mostra com clareza esse para além, que Freud denominou o umbigo do sonho. A analisante leva o sonho para a sessão e o interpreta dando-lhe um sentido. “Eu tinha acabado de ser nomeada passadora e sonhei que o analista estava olhando na minha boca e cortando pedaços de língua. Eu me encontrei com os pedaços de língua na mão e me perguntei como eu ainda seria capaz de beijar e falar. Finalmente, percebi que ainda podia falar. Quando saí, joguei os pedaços de língua que mantinha na mão no lixo». Fim do sonho. No momento, percebi esse sonho como se referindo a algo da ordem de uma separação com uma certa relação com a fala. Mas o analista apontou que ter a língua cortada também era abordar o que eu não podia dizer”[4]. Ela acrescenta: “esse sonho foi um choque elétrico”[5], já apontando o efeito do sonho no corpo. O que lhe permitiu ir além da decifração foi que o analista não se conformou, não se deixou “enganar pelo brilho da significação”[6].
Um dos fios de leitura proposto para o XXVI EBCF aponta para o que ressoa na interpretação. O que ressoa? Poderíamos dizer que no caso de Clotilde Leguil a fala do analista “o que eu não podia dizer”[7], ao abrir para o indizível, produziu ressonâncias além do sentido lhe permitindo abordar a sua “relação com a feminilidade na vertente do gozo”[8].
Esse pequeno fragmento clínico deixa claro que o sonho tem um duplo estatuto, já que além de ser tomado como a via régia de decifração do inconsciente, ele também marca o corpo e permite ler “o que isso satisfaz”?
Lacan, lido por Miller, no decorrer do seu ensino propõe revirar a interpretação ao avesso. Da ideia de decifração, tradução, significação, ele propõe uma interpretação a-semântica. Não se trata mais de pontuação, mas de corte que, ao separar S1 e S2, “reconduz o sujeito à opacidade de seu gozo”[9]. Para produzir esse efeito o analista é livre em sua tática. Serão palavras, sons, barulhos, gestos, enfim, algo que possa ressoar no corpo e afetar o gozo.
Nessas idas e vindas, viradas e reviradas, entre o direito e o avesso, quem interpreta? Se o inconsciente é o intérprete, e o fazer do analista? Estaríamos diante de contradições? Paradoxos?
O fragmento clínico trazido nos mostrou que talvez seja possível tocar o real, sem necessariamente deixar de dar lugar ao inconsciente intérprete, desde que estejamos advertidos dos limites da significação.
[1] Drummond, C. O inconsciente intérprete: o lugar do sonho. Texto publicado no Site do XXVI EBCF.
[2] Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[3] Idem.
[4] Leguil, C. Rêve, rivage, dénouement. Quarto, n.123, apud Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[5] Idem.
[6] Idem.
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] Miller. J.A. A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, n.15. São Paulo: Eolia, abril de 1996.
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
Blanca Musachi
Graciliano Ramos: Infância. Trevas e farrapos de imagens para um destino de escrita.
Trata-se de um importante escritor brasileiro que escreveu páginas memoráveis na literatura. Seu livro Infância é uma obra que tece uma ficção a partir de lembranças referidas à sua infância, onde nos interessa particularmente como ele atravessa o capítulo da infância chamado Cegueira, no livro.
Escreve sobre a doença nos olhos que o perseguiu na meninice. Padecia de pálpebras inflamadas. Um sintoma doloroso em excesso. Vivia na treva. Descreve seu aspecto desagradável, que inspirava repugnância e despertava a viva antipatia da mãe que o apelidou de bezerro encourado (um intruso) e cobra cega, motivo de deboche e zombaria. Escreve: Devo o apelido ao meu desarranjo, à minha feiura; ao desengonço. Não havia roupa que me assentasse no corpo. Depois do tempo de se revoltar contra essa injúria familiar que o comparava a um bicho infeliz, conclui que ninguém tinha culpa de seu organismo achacado e mofino. A leitura deu lugar à escrita como sinthome, e para dar consistência à sua imagem corporal.
Essa doença nos olhos, como ele mesmo diz, o afastou da escola e o tornou solitário, sem amigos. Mas um dia revela-se para ele algo que vai mudar a sua vida: “Na escuridão percebi o valor enorme das palavras”, escreve. Ou seja, do “mergulho da sombra, com migalhas de sons, farrapos de imagens dolorosos” encontra uma saída quando percebe o “valor enorme das palavras”. Aprenderá a ler aos 9 anos e se tornará um leitor voraz, aos 11 se tornará editor do jornal da escola e, no caminho das letras, construirá um destino de escritor, que explora o trauma – cuja essência é o trauma da língua –, o “sintraumatiza”, como diz Miller com Lacan, referindo-se a outro escritor célebre, Joyce. Cito: “Ele explora o trauma, o “sintraumatiza”… É a essência de todo sintoma. Eles têm o hábito de se esconder sob fantasias, mas com Joyce nós temos a sua essência. É o núcleo da clínica”. (Miller citado por Ram Mandil, em Lacan, leitor de Joyce, capítulo O artífice e sua arte. p. 271, verso).
Infância, de Graciliano Ramos, se é uma biografia, como toda biografia, está esburacada, tem um ponto de impossível estrutural, de fracasso para dizer o real, e onde os fatos são, como ensina Lacan, fatos de discurso. O que importa é a arte com a qual ele “sintraumatiza” a incidência da língua sobre o ser que fala, que constitui o infantil indelével.
Temos outros exemplos. Em Manoel de Barros vemos como ele fez do infantil, matéria de poesia. Em seu poema Fontes, ele diz que tem três parceiros para suas memórias inventadas: Os pássaros, os andarilhos e a criança: “parceiro desde sempre é a criança que me escreve”.
Assim como Graciliano, mas sem o dramatismo da cegueira, Manoel de Barros diz: “A criança me deu a semente da palavra”. “Uso a palavra para compor meus silêncios”. Isso diz do tratamento que “sintraumatiza” o barulho da língua, fazendo “delirar o verbo”, tecendo o que Lacan chamou de um gai savoir, um saber alegre.
Citações e Referências - I preparatória
Alguns destaques orientadores para animar a conversa sobre o Inconsciente Intérprete, tema da I Preparatória para o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita.
“Se o inconsciente interpreta, o que resta, então, para o analista fazer?”
Jacques-Alain Miller
La fuga del sentido
“Fazer ressoar, fazer alusão, subentender, silenciar, fazer oráculo, citar, fazer enigma. meio-dizer, revelar – quem faz isso? Quem o faz melhor? Quem maneja essa retórica desde nascença, enquanto você se esforça para aprender rudimentos dela? Quem? – a não ser o próprio inconsciente.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“O que ainda chamamos ‘interpretação’, muito embora a prática analítica seja sobretudo pós-interpretativa, certamente revela, mas o quê? – apenas uma opacidade irredutível na relação do sujeito com lalíngua”.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“Não se trata de saber se a sessão é breve ou longa, silenciosa ou falante. Ou a sessão é uma unidade semântica, onde S2 vem pontuar a elaboração – delírio a serviço do Nome-do-Pai – muitas sessões se constituem dessa forma. Ou a sessão analítica é uma unidade a-semântica reconduzindo o sujeito para a opacidade de seu gozo. Isso supõe que antes de ser encerrada, deve ser cortada”.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“… podemos admitir que o sonho, o lapso, o chiste, isso se lê”.
Jacques-Alain Miller
El ultimísimo Lacan
“O psicanalista só consegue acertar o alvo se ele estiver à altura da interpretação operada pelo inconsciente, já estruturado como uma linguagem. (…) É preciso dar todo o seu lugar à barra que separa as duas dimensões [significante e o significado] e permite a topologia da poética. A função poética revela que a linguagem não é significação, mas ressonância, e evidencia a matéria que, no som, excede o sentido”.
Éric Laurent
A interpretação: da escuta ao escrito
SUGESTÕES DE LEITURA:
Jacques-Alain Miller:
A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, n.15. São Paulo: Eolia, abril de 1996.
Nosso sujeito suposto saber. Opção Lacaniana, n. 47. São Paulo: Eólia, dezembro de 2006.
El ultimissimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. Lección 2 de mayo del 2007.
Os trumains. Lição de 2 de maio de 2007 do curso de J.-A. Miller « A orientação lacaniana. O ultimíssimo Lacan » (2006-2007), ensino pronunciado no âmbito do Departamento de Psicanálise da Universidade Paris VIII. Versão estabelecida por Pascale Fari. Disponível em: http://bit.ly/4fA24Mr
A palavra que fere. Opção Lacaniana, n. 56/57. São Paulo: Eólia, julho de 2010
La fuga del sentido. Buenos Aires Paidós, 2012.
Éric Laurent:
A interpretação ordinária. Arteira. Florianópolis: EBP – Seção Santa Catarina, n. 9, 2017. Disponível em: http://revistaarteira.com.br/images/pdf/Arteira-9.pdf
A Interpretação: da escuta ao escrito. Revista Correio, n. 87. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, abril de 2022.
Serge Cottet:
O declínio da interpretação. Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.
Pierre-Gilles Guéguen:
La interpretación lacaniana. Revista Freudiana, n. 64. Barcelona, ELP-Catalunya, 2012. Disponível em: https://freudiana.com/la-interpretacion-lacaniana/
O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
Serge Cottet analisando o declínio da interpretação visando o IX Encontro da AMP nos fala da dificuldade de se criar um efeito surpresa tal como as interpretações decifração criavam em tempos anteriores. Ele não pensa que a expressão “declínio da interpretação”[1] seja satisfatória para pensar o que observamos na clínica, mas que estaria implicado o fato de que certo manejo da interpretação contribui para provocar menos surpresa do que seria esperado.
Em textos dos Escritos, Lacan diz que os pós-freudianos assimilaram a interpretação ao flogístico, a um uso quase ocultista, e que isso impunha um manejo do significante e da letra como elementos do inconsciente, restaurando sua verdade[2].
Em 1964, Lacan lembrou que a interpretação não era aberta a todo sentido, alertando para uma certa religião da escuta que levava a efeitos de sentido antes que efeitos de significação[3].
Cottet também chama a atenção para o fato de que alguns analistas que fizeram o passe se esqueceram das interpretações que escutaram. Ele diz que isso pode ser uma consequência de que essas interpretações tenham operado. Além disso, o silencio do analista pode operar muitas vezes como uma interpretação.
Por outro lado, os analistas davam um lugar significativo para seus sonhos e para as formações do inconsciente. Tudo acontece como se elas tomassem o lugar da interpretação faltante. Tal fato confirma a tese posteriormente proposta por Miller segundo a qual quem interpreta é o inconsciente. A pergunta é se a interpretação deve ser homogênea à retórica do inconsciente, o que indicaria uma interpretação sob a forma do rumor, do equivoco, da homofonia, do enigma, da citação.
Além de perguntar para onde foi a interpretação a pergunta era se o silêncio como interpretação ou mesmo as intervenções do analista não alimentavam o gozo do sintoma ou não permitiam ir além do inconsciente, fazendo proliferar o gozo-sentido.
Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real. O par real e letra indicam um caminho distinto do par significante e significado. Penso que o conceito de inconsciente real também indica essa via.
Assim temos as interpretações que destacam os significantes do sujeito e aquelas que incidem sobre a pulsão.
Como pela decifração poder tocar o gozo da cifração?
Clotilde Leguil diz que a interpretação permite fazer ressoar o modo como o verbo ganhou poder em cada um, a fim de encontrar o que estava no começo do sintoma. O poder da palavra se distingue da palavra como poder[4]. A interpretação toma então o valor de um ato do qual resulta uma conversāo na posição do sujeito quanto a sua relação com o saber como diz Lacan no Seminário do Ato psicanalítico em 1967[5].
Cristina Drummond
















































