O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
Serge Cottet analisando o declínio da interpretação visando o IX Encontro da AMP nos fala da dificuldade de se criar um efeito surpresa tal como as interpretações decifração criavam em tempos anteriores. Ele não pensa que a expressão “declínio da interpretação”[1] seja satisfatória para pensar o que observamos na clínica, mas que estaria implicado o fato de que certo manejo da interpretação contribui para provocar menos surpresa do que seria esperado.
Em textos dos Escritos, Lacan diz que os pós-freudianos assimilaram a interpretação ao flogístico, a um uso quase ocultista, e que isso impunha um manejo do significante e da letra como elementos do inconsciente, restaurando sua verdade[2].
Em 1964, Lacan lembrou que a interpretação não era aberta a todo sentido, alertando para uma certa religião da escuta que levava a efeitos de sentido antes que efeitos de significação[3].
Cottet também chama a atenção para o fato de que alguns analistas que fizeram o passe se esqueceram das interpretações que escutaram. Ele diz que isso pode ser uma consequência de que essas interpretações tenham operado. Além disso, o silencio do analista pode operar muitas vezes como uma interpretação.
Por outro lado, os analistas davam um lugar significativo para seus sonhos e para as formações do inconsciente. Tudo acontece como se elas tomassem o lugar da interpretação faltante. Tal fato confirma a tese posteriormente proposta por Miller segundo a qual quem interpreta é o inconsciente. A pergunta é se a interpretação deve ser homogênea à retórica do inconsciente, o que indicaria uma interpretação sob a forma do rumor, do equivoco, da homofonia, do enigma, da citação.
Além de perguntar para onde foi a interpretação a pergunta era se o silêncio como interpretação ou mesmo as intervenções do analista não alimentavam o gozo do sintoma ou não permitiam ir além do inconsciente, fazendo proliferar o gozo-sentido.
Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real. O par real e letra indicam um caminho distinto do par significante e significado. Penso que o conceito de inconsciente real também indica essa via.
Assim temos as interpretações que destacam os significantes do sujeito e aquelas que incidem sobre a pulsão.
Como pela decifração poder tocar o gozo da cifração?
Clotilde Leguil diz que a interpretação permite fazer ressoar o modo como o verbo ganhou poder em cada um, a fim de encontrar o que estava no começo do sintoma. O poder da palavra se distingue da palavra como poder[4]. A interpretação toma então o valor de um ato do qual resulta uma conversāo na posição do sujeito quanto a sua relação com o saber como diz Lacan no Seminário do Ato psicanalítico em 1967[5].
Cristina Drummond









