O sino da interpretação
O sino da interpretação
Romildo do Rêgo Barros
Porque donde no hay significante no podemos estar seguros de que haya goce. De modo que hay que suponer que el significante no tiene simplemente efectos de significado, sino de goce. ¿Qué serían asimilables a qué? Podemos verlo con las campanas, cuando se produce una fisura. Cada vez que toquen el carillón, seguirán escuchando la fisura de la campana. Pues bien, el goce es la fisura de la campana. Si la interpretación se mide con el goce, entonces no se la solicita por sus efectos de sentido, sino de goce.
Miller, J.-A. Sutilezas analíticas. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 267
Freud utiliza a própria resistência do sujeito para fazer ressoar outra coisa. Ele não se perde nos meandros do gozo, mas tenta fazer vibrar as ressonâncias da fala. É a isso que Lacan chama sua técnica renovada da interpretação.
Miller, J.-A. Silet: os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 26.
Pode-se usar o termo resistência em muitos setores do saber e das práticas. Por exemplo, em engenharia, a resistência dos materiais é uma coisa importante.
O principal erro, me parece, nosso, de psicanalistas, é pensar que a resistência é um erro. Como se sujeito estivesse errado em resistir.
É o primeiro passo para não se entender nada do que ocorre.
Lacan propõe uma inversão decisiva. Ele diz que a resistência está do lado do analista. Mesmo nesse caso, podemos também cometer um erro em pensar que a resistência - que está sempre do lado do analista -, seja um erro, agora do analista.
É um defeito de raciocínio. Mais ou menos paralelo a pensar que a resistência do sujeito é um pecado, um defeito.
Então, se não é um pecado ou um defeito, o que será?
Podemos partir da ideia dos engenheiros e pensar que a resistência é um ponto preciso da fala. Existe sempre na fala, e até no discurso, um ponto que se manifesta como resistência.
Não há fala sem resistência. Então, creio que aí sim, se torna interessante pensar a resistência do lado do analista, porque é com relação ao ponto onde a resistência se manifesta no discurso analisante que cabe ao analista intervir. Alguma coisa que aparece na história, na fala do sujeito, e que chama à intervenção por parte do analista. Então aparece a resistência como alguma coisa que mostra. Nisso, embora não seja a mesma coisa, fica claro um certo paralelo com a noção lacaniana do acting out. A resistência seria a falta de reação do analista com relação a esse ponto, chamemos de um ponto de gozo, que pode levar a acting out, em que o sujeito atua este ponto de gozo.
No caso da resistência, estamos em um plano mais estrutural. Não há fala sem resistência. E cada vez que se manifesta resistência, é esse o lugar do analista como real, como interlocutor desse gozo.
Este ponto de real encarna um ponto de esgotamento do sentido.
Cabe então outro comentário. Há outro, digamos, defeito psicanalítico que é o de pensar que a intervenção do analista deve se articular ao momento em que o sentido começa a fraquejar. Ele viria, então, dar um reforço ao sentido.
Ao contrário, a função do analista é de apontar. Apontar aquilo que acontece como consequência no discurso quando o sentido fraqueja. É, digamos, uma função ligada ao real, ao gozo, ao esgotamento não só do sentido, como do desejo.
É que só existiria, se não fosse assim, só existiria interpretação como mais uma frase proposta pelo analista à frase que já foi dita pelo seu paciente, ou seja, seria uma análise sem fim.
Nesta passagem, Miller está propondo outro tipo de intervenção, em vez de apontar para o gozo, o ponto do gozo, ou o objeto condensador de gozo, tal como O São João de Leonardo da Vinci que Lacan indica, seria o caso, em algumas situações, de fazer vibrar.
Vale lembrar o que Freud faz quando vê seu analisante o vendo como Capitão Cruel, agente da tortura dos ratos. Freud não intervém pelo sentido, mesmo que ele possa dizer “Eu não tenho nenhuma vocação para tortura”, no sentido de “Eu não sou o Capitão Cruel”. Sabemos que ele parte para uma aparente doutrinação. Dá umas aulas de psicanálise. E Freud foi bastante criticado por isso.
Mas o que destaca Miller é que ele atua o capitão cruel quando dá aula. É diferente de dizer que é um engano. O que Miller está dizendo é que Freud está antecipando a Interpretação Lacaniana. Qual é a Interpretação Lacaniana?
Não é responder de lado, mas a partir do lugar em que está posto na transferência. Só que em vez de dizer que a transferência é um erro, você age do lugar do gozo. No lugar do gozo, você destitui a sequência fraseológica por fazer vibrar sua relação com o gozo. Aí desloca o Capitão Cruel. Não acredito que fosse a intenção de Freud, mas é uma interpretação excelente. Então, isso equivale a dizer que Freud dá corpo à ideia de que a resistência está sempre do lado do analista.
Miller compara a intervenção do analista ao badalo de um sino. Sino, no plano das ressonâncias, como manobra interpretativa, é só para fazer vibrar a fala. Não é para trazer os fiéis, que a missa vai começar. É para favorecer a experiência do gozo em ruptura com o sentido.
É uma metáfora fazer vibrar, mas eu acho que ele quer dizer com isso que você não pode fazer e pensar que é um corte, para rachar o simbólico, que já está estruturalmente.
Entendo que a ressonância exige um primeiro momento, que é o puro choque que no sino se dá pelo encontro do badalo com o corpo do sino. A ressonância é o que vai vir em consequência dessa aplicação de força na parede do sino com a vibração. A vibração vai existir até que a força do badalo desapareça, chegue a zero, aí termina.
O badalo é o encontro com esse ponto de gozo. O badalo é a presença do analista dando corpo a este ponto. Talvez isso tenha a ver com o acontecimento de corpo, como outra maneira de falar desse ponto do real da resistência.
Então, o que interessa é que as ressonâncias produzam uma mudança, uma certa mudança de posição da fantasia, ou outra possibilidade, que é quando já gastou tanto a fantasia que esse badalo, as ressonâncias, é o que você pode fazer.
Interpretação e construção
Interpretação e construção
Elisa Alvarenga
En tiempos de Freud no se establecía una diferencia tan hermética entre la interpretación y la construcción. Freud concebía muy bien la interpretación como comunicación de una construcción al paciente, una construcción, es decir, una elaboración de saber hecha por el analista. Freud explicaba esta elaboración de saber al paciente. No tenía dificultad en establecer de este modo una continuidad entre interpretación y construcción, entre la elaboración de saber y su comunicación a los fines de un efecto de verdad. Podemos decir que en su tiempo, y en todo caso para él -es la referencia, tal vez mítica, que tenemos-, el saber tenía en sí mismo efectos de verdad.
Miller, J.-A. La fuga del sentido. Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 227.
Esta afirmação de Miller, no seu curso de 28 de fevereiro de 1996, em Paris, pode ser esclarecida por um Seminário realizado em Milão dois anos antes, publicado sob o título “Marginália de ‘Construções em análise’”[1]. Miller começa propondo que a construção é uma espécie de ser intermediário entre interpretação e teoria, para chegar à constatação surpreendente de que, em “Construções em análise”, Freud está diante da evidência de que há sempre um resto que fica fora da construção e que Lacan escreve S(Ⱥ). Algo fica sempre defasado entre o todo e os pedaços e é isso que torna necessária a construção.
Em Freud, a interpretação teria o ar de um fragmento de construção, um tijolo da construção, uma pequena pílula de saber, enquanto a construção seria o todo do saber. Interpretação e construção seriam homogêneas. Miller considera que a interpretação em Freud abre, toca um elemento, faz ressoar, enquanto a construção liga diversos elementos, fecha.
Já para Lacan, interpretação e construção são dois modos bem diferentes. Elas se opõem como saber e verdade: a construção é uma elaboração de saber, enquanto a interpretação tem alguma coisa do oráculo. A construção da qual Lacan fala é aquela do fantasma que se realiza pelo efeito da operação analítica.
Para Freud, o analisante deve se lembrar do que foi recalcado, enquanto o analista deve construir ali onde o analisante não se lembra. Ou seja, Freud faz da construção uma atividade do analista. Já Lacan reparte as coisas de outra maneira: ele põe do lado do analisante não apenas a rememoração, mas também a construção, e o que cabe ao analista é o ato, a autorização simbólica de proceder à tarefa analisante.
Freud examina também a verdade e a falsidade de uma construção. Não é um grande problema fazer uma construção errada, pois, pode-se fisgar “a carpa da verdade justamente com a isca da mentira”[2]. O que garante a verdade de uma construção não é o sim ou o não do paciente, mas o material inconsciente que surge após uma construção. A denegação vale como certificado de autenticidade, assim como a resposta “Eu nunca pensei isso”, sinal de que se tocou o inconsciente. Aqui, diz Miller, o inconsciente não mente, ele fala ao lado e não podemos sugestioná-lo. O significante mente, é semblante, mas o gozo não mente, porque está do lado do real.
Se há um declínio da interpretação, propõe Miller, não é simplesmente por um déficit do saber constituído na psicanálise, mas por uma impotência da verdade em relação ao gozo[3]. É aí que se torna necessária uma outra modalidade de interpretação que é a leitura, que neste momento do seu Curso, Miller chama de legibilidade do sexo, ou das pulsões parciais, que vai além da interpretação do desejo e coloca em cena o corpo vivo com seu gozo[4].
[1] Miller, J.-A. Marginália de “Construções em análise”. Opção Lacaniana n. 17. São Paulo, nov. 1996, p. 92-107.
[2] Freud, S. Construções em análise. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte, Autêntica, 2016, p. 371. Freud se refere à fala de Polônio, personagem do Hamlet de Shakespeare, ato II, cena I.
[3] Miller, J.-A. La fuga del sentido, Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 234.
[4] Ibidem, p. 241-242.
ECOS DA I PREPARATÓRIA DO XXVI EBCF
ECOS DA I PREPARATÓRIA DO XXVI EBCF
Glória Maron
“O sonho é em si mesmo, uma interpretação, selvagem, é claro, mas interpretação?”[1], citação de Lacan que aponta para a o inconsciente intérprete assim como nos conduz a problematizar o fazer e a posição do analista. A interpretação do analista não visa uma suposta complementação do que falta ao texto do inconsciente e nem se confunde com sua tradução. Retomo e compartilho a pergunta de Cristina Drumond: como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real.
Os ecos da I Preparatória do XXVI EBCF contribuíram com muitos elementos para turbinar essas questões e nos impulsionar nessa trilha de pesquisa. A começar, foi se estabelecendo uma separação rigorosa entre uma interpretação que seja pela decifração ou pelo silêncio pode se colocar a serviço da infinitização do sentido daquela intervenção do analista que vai além do plano do dito do analisante, podendo assumir valor de corte.
Testemunhamos que as intervenções dos fragmentos clínicos não se orientaram no que quer dizer isso, nem tampouco o que o analisante quer para dizer isso e sim o que é que, ao dizer isso quer[2]. Essa torção que se volta para localizar o dizer naquilo que não foi dito na fala do analisante coloca no horizonte da interpretação lacaniana o deslocamento do isso quer dizer para o isso goza, abrindo a possibilidade de uma outra escrita do inconsciente e uma modificação da relação do analisante com uma dimensão real do gozo que lhe é inapreensível, opaco.
Sigamos essa trilha, ap
reendendo nas sutilezas dos fragmentos clínicos, o que não está contado em uma história, o não se torna uma mensagem, não produz sentido, mas está ali.
[1] LACAN, J. O SEMINÁRIO, livro XVI DE um Outro ao outro. Rio de Janeiro:Zahar. 2008. P.193
[2] _______________p. 195
Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Algumas reflexões sobre o tema da interpretação
Mônica Hage (EBP/AMP)
No texto “O inconsciente intérprete: o lugar do sonho”, Cristina Drummond traz a questão sobre “Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real”[1].
Se os sonhos precisam do dispositivo analítico para ganhar “estatuto de sonhos que interpretam o inconsciente”[2], é porque, fora dele, se resumiria a um “traço fora do sentido no corpo vivo”[3]. Talvez isso já nos permita vislumbrar que, para além do sentido, há algo mais no sonho: um corpo que vibra.
Quantas vezes escutamos dos analisantes: “ainda não sei o que esse sonho quer dizer, ou o que significa, mas o que sei é que produziu algo forte no corpo...” Esse algo no corpo, para além do seu significado, nos aponta que o sentido e a decifração não são capazes de recobrir tudo em um sonho.
O exemplo de Clotilde Leguil, trazido por Laurent Dupont nos mostra com clareza esse para além, que Freud denominou o umbigo do sonho. A analisante leva o sonho para a sessão e o interpreta dando-lhe um sentido. “Eu tinha acabado de ser nomeada passadora e sonhei que o analista estava olhando na minha boca e cortando pedaços de língua. Eu me encontrei com os pedaços de língua na mão e me perguntei como eu ainda seria capaz de beijar e falar. Finalmente, percebi que ainda podia falar. Quando saí, joguei os pedaços de língua que mantinha na mão no lixo». Fim do sonho. No momento, percebi esse sonho como se referindo a algo da ordem de uma separação com uma certa relação com a fala. Mas o analista apontou que ter a língua cortada também era abordar o que eu não podia dizer”[4]. Ela acrescenta: “esse sonho foi um choque elétrico”[5], já apontando o efeito do sonho no corpo. O que lhe permitiu ir além da decifração foi que o analista não se conformou, não se deixou “enganar pelo brilho da significação”[6].
Um dos fios de leitura proposto para o XXVI EBCF aponta para o que ressoa na interpretação. O que ressoa? Poderíamos dizer que no caso de Clotilde Leguil a fala do analista “o que eu não podia dizer”[7], ao abrir para o indizível, produziu ressonâncias além do sentido lhe permitindo abordar a sua “relação com a feminilidade na vertente do gozo”[8].
Esse pequeno fragmento clínico deixa claro que o sonho tem um duplo estatuto, já que além de ser tomado como a via régia de decifração do inconsciente, ele também marca o corpo e permite ler “o que isso satisfaz”?
Lacan, lido por Miller, no decorrer do seu ensino propõe revirar a interpretação ao avesso. Da ideia de decifração, tradução, significação, ele propõe uma interpretação a-semântica. Não se trata mais de pontuação, mas de corte que, ao separar S1 e S2, “reconduz o sujeito à opacidade de seu gozo”[9]. Para produzir esse efeito o analista é livre em sua tática. Serão palavras, sons, barulhos, gestos, enfim, algo que possa ressoar no corpo e afetar o gozo.
Nessas idas e vindas, viradas e reviradas, entre o direito e o avesso, quem interpreta? Se o inconsciente é o intérprete, e o fazer do analista? Estaríamos diante de contradições? Paradoxos?
O fragmento clínico trazido nos mostrou que talvez seja possível tocar o real, sem necessariamente deixar de dar lugar ao inconsciente intérprete, desde que estejamos advertidos dos limites da significação.
[1] Drummond, C. O inconsciente intérprete: o lugar do sonho. Texto publicado no Site do XXVI EBCF.
[2] Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[3] Idem.
[4] Leguil, C. Rêve, rivage, dénouement. Quarto, n.123, apud Dupont, L. Da decifração à letra, o caminho do sonho na análise. In: Papers 4. Sonho, real, verdade. Comitê de Ação da Escola Uma. XII Congresso da AMP. O sonho: sua interpretação e seu uso no tratamento lacaniano.
[5] Idem.
[6] Idem.
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] Miller. J.A. A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, n.15. São Paulo: Eolia, abril de 1996.
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
SINTRAUMATIZAR O BARULHO DA LÍNGUA
Blanca Musachi
Graciliano Ramos: Infância. Trevas e farrapos de imagens para um destino de escrita.
Trata-se de um importante escritor brasileiro que escreveu páginas memoráveis na literatura. Seu livro Infância é uma obra que tece uma ficção a partir de lembranças referidas à sua infância, onde nos interessa particularmente como ele atravessa o capítulo da infância chamado Cegueira, no livro.
Escreve sobre a doença nos olhos que o perseguiu na meninice. Padecia de pálpebras inflamadas. Um sintoma doloroso em excesso. Vivia na treva. Descreve seu aspecto desagradável, que inspirava repugnância e despertava a viva antipatia da mãe que o apelidou de bezerro encourado (um intruso) e cobra cega, motivo de deboche e zombaria. Escreve: Devo o apelido ao meu desarranjo, à minha feiura; ao desengonço. Não havia roupa que me assentasse no corpo. Depois do tempo de se revoltar contra essa injúria familiar que o comparava a um bicho infeliz, conclui que ninguém tinha culpa de seu organismo achacado e mofino. A leitura deu lugar à escrita como sinthome, e para dar consistência à sua imagem corporal.
Essa doença nos olhos, como ele mesmo diz, o afastou da escola e o tornou solitário, sem amigos. Mas um dia revela-se para ele algo que vai mudar a sua vida: “Na escuridão percebi o valor enorme das palavras”, escreve. Ou seja, do “mergulho da sombra, com migalhas de sons, farrapos de imagens dolorosos” encontra uma saída quando percebe o “valor enorme das palavras”. Aprenderá a ler aos 9 anos e se tornará um leitor voraz, aos 11 se tornará editor do jornal da escola e, no caminho das letras, construirá um destino de escritor, que explora o trauma – cuja essência é o trauma da língua –, o “sintraumatiza”, como diz Miller com Lacan, referindo-se a outro escritor célebre, Joyce. Cito: “Ele explora o trauma, o “sintraumatiza”… É a essência de todo sintoma. Eles têm o hábito de se esconder sob fantasias, mas com Joyce nós temos a sua essência. É o núcleo da clínica”. (Miller citado por Ram Mandil, em Lacan, leitor de Joyce, capítulo O artífice e sua arte. p. 271, verso).
Infância, de Graciliano Ramos, se é uma biografia, como toda biografia, está esburacada, tem um ponto de impossível estrutural, de fracasso para dizer o real, e onde os fatos são, como ensina Lacan, fatos de discurso. O que importa é a arte com a qual ele “sintraumatiza” a incidência da língua sobre o ser que fala, que constitui o infantil indelével.
Temos outros exemplos. Em Manoel de Barros vemos como ele fez do infantil, matéria de poesia. Em seu poema Fontes, ele diz que tem três parceiros para suas memórias inventadas: Os pássaros, os andarilhos e a criança: “parceiro desde sempre é a criança que me escreve”.
Assim como Graciliano, mas sem o dramatismo da cegueira, Manoel de Barros diz: “A criança me deu a semente da palavra”. “Uso a palavra para compor meus silêncios”. Isso diz do tratamento que “sintraumatiza” o barulho da língua, fazendo “delirar o verbo”, tecendo o que Lacan chamou de um gai savoir, um saber alegre.
Citações e Referências - I preparatória
Alguns destaques orientadores para animar a conversa sobre o Inconsciente Intérprete, tema da I Preparatória para o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, Barulhos da língua: a interpretação entre a fala e a escrita.
“Se o inconsciente interpreta, o que resta, então, para o analista fazer?”
Jacques-Alain Miller
La fuga del sentido
“Fazer ressoar, fazer alusão, subentender, silenciar, fazer oráculo, citar, fazer enigma. meio-dizer, revelar – quem faz isso? Quem o faz melhor? Quem maneja essa retórica desde nascença, enquanto você se esforça para aprender rudimentos dela? Quem? – a não ser o próprio inconsciente.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“O que ainda chamamos ‘interpretação’, muito embora a prática analítica seja sobretudo pós-interpretativa, certamente revela, mas o quê? – apenas uma opacidade irredutível na relação do sujeito com lalíngua”.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“Não se trata de saber se a sessão é breve ou longa, silenciosa ou falante. Ou a sessão é uma unidade semântica, onde S2 vem pontuar a elaboração – delírio a serviço do Nome-do-Pai – muitas sessões se constituem dessa forma. Ou a sessão analítica é uma unidade a-semântica reconduzindo o sujeito para a opacidade de seu gozo. Isso supõe que antes de ser encerrada, deve ser cortada”.
Jacques-Alain Miller
A interpretação pelo avesso
“… podemos admitir que o sonho, o lapso, o chiste, isso se lê”.
Jacques-Alain Miller
El ultimísimo Lacan
“O psicanalista só consegue acertar o alvo se ele estiver à altura da interpretação operada pelo inconsciente, já estruturado como uma linguagem. (…) É preciso dar todo o seu lugar à barra que separa as duas dimensões [significante e o significado] e permite a topologia da poética. A função poética revela que a linguagem não é significação, mas ressonância, e evidencia a matéria que, no som, excede o sentido”.
Éric Laurent
A interpretação: da escuta ao escrito
SUGESTÕES DE LEITURA:
Jacques-Alain Miller:
A interpretação pelo avesso. Opção Lacaniana, n.15. São Paulo: Eolia, abril de 1996.
Nosso sujeito suposto saber. Opção Lacaniana, n. 47. São Paulo: Eólia, dezembro de 2006.
El ultimissimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2013. Lección 2 de mayo del 2007.
Os trumains. Lição de 2 de maio de 2007 do curso de J.-A. Miller « A orientação lacaniana. O ultimíssimo Lacan » (2006-2007), ensino pronunciado no âmbito do Departamento de Psicanálise da Universidade Paris VIII. Versão estabelecida por Pascale Fari. Disponível em: http://bit.ly/4fA24Mr
A palavra que fere. Opção Lacaniana, n. 56/57. São Paulo: Eólia, julho de 2010
La fuga del sentido. Buenos Aires Paidós, 2012.
Éric Laurent:
A interpretação ordinária. Arteira. Florianópolis: EBP – Seção Santa Catarina, n. 9, 2017. Disponível em: http://revistaarteira.com.br/images/pdf/Arteira-9.pdf
A Interpretação: da escuta ao escrito. Revista Correio, n. 87. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, abril de 2022.
Serge Cottet:
O declínio da interpretação. Ensaios de clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.
Pierre-Gilles Guéguen:
La interpretación lacaniana. Revista Freudiana, n. 64. Barcelona, ELP-Catalunya, 2012. Disponível em: https://freudiana.com/la-interpretacion-lacaniana/
O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
O inconsciente intérprete: o lugar do sonho
Serge Cottet analisando o declínio da interpretação visando o IX Encontro da AMP nos fala da dificuldade de se criar um efeito surpresa tal como as interpretações decifração criavam em tempos anteriores. Ele não pensa que a expressão “declínio da interpretação”[1] seja satisfatória para pensar o que observamos na clínica, mas que estaria implicado o fato de que certo manejo da interpretação contribui para provocar menos surpresa do que seria esperado.
Em textos dos Escritos, Lacan diz que os pós-freudianos assimilaram a interpretação ao flogístico, a um uso quase ocultista, e que isso impunha um manejo do significante e da letra como elementos do inconsciente, restaurando sua verdade[2].
Em 1964, Lacan lembrou que a interpretação não era aberta a todo sentido, alertando para uma certa religião da escuta que levava a efeitos de sentido antes que efeitos de significação[3].
Cottet também chama a atenção para o fato de que alguns analistas que fizeram o passe se esqueceram das interpretações que escutaram. Ele diz que isso pode ser uma consequência de que essas interpretações tenham operado. Além disso, o silencio do analista pode operar muitas vezes como uma interpretação.
Por outro lado, os analistas davam um lugar significativo para seus sonhos e para as formações do inconsciente. Tudo acontece como se elas tomassem o lugar da interpretação faltante. Tal fato confirma a tese posteriormente proposta por Miller segundo a qual quem interpreta é o inconsciente. A pergunta é se a interpretação deve ser homogênea à retórica do inconsciente, o que indicaria uma interpretação sob a forma do rumor, do equivoco, da homofonia, do enigma, da citação.
Além de perguntar para onde foi a interpretação a pergunta era se o silêncio como interpretação ou mesmo as intervenções do analista não alimentavam o gozo do sintoma ou não permitiam ir além do inconsciente, fazendo proliferar o gozo-sentido.
Como dar lugar ao inconsciente intérprete sem alimentar o sentido e tendo a chance de tocar o real. O par real e letra indicam um caminho distinto do par significante e significado. Penso que o conceito de inconsciente real também indica essa via.
Assim temos as interpretações que destacam os significantes do sujeito e aquelas que incidem sobre a pulsão.
Como pela decifração poder tocar o gozo da cifração?
Clotilde Leguil diz que a interpretação permite fazer ressoar o modo como o verbo ganhou poder em cada um, a fim de encontrar o que estava no começo do sintoma. O poder da palavra se distingue da palavra como poder[4]. A interpretação toma então o valor de um ato do qual resulta uma conversāo na posição do sujeito quanto a sua relação com o saber como diz Lacan no Seminário do Ato psicanalítico em 1967[5].
Cristina Drummond
[1] cf.. Cottet, S. O declínio da interpretação. In: Ensaios de Clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011
[2] cf. Lacan, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. (1958) In: ___. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998
[3] Lacan, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1990.
[4] Leguil, C. La parole comme pouvoir versus le pouvoir de la parole. Journée 53 da École de la Cause freudienne- Interpréter, scander, ponctuer, couper. Novembro de 2023.
[5] Lacan, J. O Seminário, livro 15, o ato psicanalítico. Rio de Janeiro: Zahar, 2025.
Como ouvir os barulhos da língua?
Como ouvir os barulhos da língua?
Marcus André Vieira
A língua faz barulho? Não são nossas línguas que, ao colocar a língua inerte em movimento, rumorejam? Além disso, em que os barulhos da língua, caso existam, poderiam contribuir para a interpretação psicanalítica?
A interpretação, seja como tradução, como corte, enigma, citação, pontuação, ressignificação, até mesmo construção, entre outros, atua com base em planos distintos - nas diversas dimensões nas quais a linguagem nos constitui, produz e localiza a vida em nossas falas e corpos.
Quero abordar, o modo como a interpretação analítica pode ser situada a partir do conjunto de seminários de Lacan que J. A. Miller definiu como seu último ensino e que destaca a relação entre interpretação e lalíngua.
Para ingressar nesse plano, de conceitos ainda em construção, a pergunta sobre os barulhos da língua é uma boa porta de entrada. Barulhos da língua e não na língua. Com este “da língua” não estamos falando dos barulhos da realidade, que a língua transcreve e sonoriza, não é aquilo que fala o gozo, mas sim que é gozo de falar.
A língua surge como alfabestização, por isso, por transcrever a fala em fonemas, ela dá seu jeito, se vira. Ela não precisa sempre apresentar as coisas em seus lugares redondinhas, sempre poderá transcrever o fora de sentido. Por mais que seja aberrante, paradoxal o que se vive, a língua sempre consegue trazê-lo para dentro dela.
No entanto, nem mesmo Plunct, plact, zum, nem papum, nem laiálaiá que serão barulhos da língua. O barulho da língua seria mais o gozo da língua em nós e não nosso gozo transposto na linguagem, na língua. Em algum lugar entre a língua e o corpo está lalíngua.
Ao transcrever sons em fonemas, porém, a língua nos faz perder em gozo o que ganhamos em comunicação. Lalíngua, por outro lado, guarda esse gozo fora dos sons reconhecíveis. Como escutar, então, este barulho que habita a língua, seu rumorejar como queria Barthes? A língua terá que ser forçada, pois terá, como diz Guimarães Rosa, que entregar “o leite que a vaca não prometeu”, sonorizando algo desse gozo que sua própria existência silencia. Não é o que faz a poesia? Nesse plano, estamos falando de alguma coisa como o barulho do cabelo em crescimento, como diz Arnaldo Antunes. Ou do tom de azul daquela casinha, um tom de azul quase inexistente de azul que não há, azul que é pura memória de algum lugar, ar, ar...
Miller propõe que essa dimensão do dizer que se apreende no paradoxo, na poesia, mas que não há como traduzir, seja o solo litoral do último ensino, não mais o aspecto discursivo da experiência linguageira, mas seu aspecto mais material, mais rumoroso, lalingueiro.
Poder escutar esse barulho passa a ser, também, um dos nossos modos de intervenção, de interpretação. Não será o corte que traz o vão entre as palavras, a interlinha onde mora o sujeito, que vem para ressignificar, reconfigurar nossos textos de vida. Nem será apontar para o ponto cego da experiência, o umbigo do relato, para recortar ali o real como objeto da repetição, a, gozo estranho em forma disforme de alien.
É grande a ambição, essa de sermos capazes de escutar e de intervir em um espaço sem forma, entre o corpo e a linguagem. Mas é uma dimensão de trabalho necessária com que teremos de aprender a lidar. Não porque queremos ser poetas, ou por algum tipo de progresso técnico, e mais como resposta a uma verdadeira regressão, em muitos aspectos, da vida coletiva.
Não sentimos que o espaço de lalíngua está sendo forçado a encolher ou desaparecer? Ele é o vão entre fala e corpo, de onde surge, por exemplo, a surpresa pela torção de nossas certezas, quando a língua, mãe de tudo o que dissemos e sentimos, é forçada a produzir o inaudito? É uma experiência no extremo oposto do que vive alguém que precisa se cortar para abrir uma fenda no espaço sólido da angústia; ou quando o insulto atinge alguém no seu ser, independentemente da significação do que ouve. E sabemos como o neofascismo atual é capaz de operar com esse tipo de brutalidade, que nos atinge por fechar o espaço de estranheza que nos impede do mais básico, duvidar, refletir, repensar. Vemos fenômenos de mesma ordem em nomeações mais prosaicas, quando vemos tantos vivendo como se comessem proteína, não mais carne, peixes, ovos.
Esses e tantos outros fatos discursivos explodem em nossos dias revelando como se oblitera o espaço da linguagem em que ela é balbucio, em que ela encanta, ri e que guarda os poderes do espanto e do milagre.
Para circunscrever essa dimensão, Lacan recorre à metáfora da peneira: imaginem a língua materna como uma chuva, suja, carregada de lama - a água do gozo do Outro – por um lado e, por outro, o corpo da criança, como uma peneira. Lalíngua corresponderia aos detritos da chuva/linguagem que ficam presos na peneira.[1] A metáfora nos interessa por afastar a noção de uma língua adquirida por impressão – da ideia de que o Outro nos “marcou” com seus desejos e palavras. Nessa versão da linguagem, como ferro do significante sobre o corpo do vivente, nunca deixaremos de tomar a criança como vitimada, traumatizada. Com a peneira, podemos, porém, tomar o Outro como aquilo que banha e, no que banha, deixa restos com os quais viveremos não mais vítimas, mas artesões de nossos modos de ver e sentir o mundo.
A interpretação, de ponta a ponta no ensino de Lacan, visa produzir uma leitura para o ilegível, dar lugar ao real como fora do sentido. Este “fora” ganha muitas apresentações: furo, vazio, sujeito, alien, resto, objeto e, agora, chuvarada, torrente que deixa detritos, pedaços sonoros corporais prévios aos fonemas.
Interpretar nessa dimensão poderia ser fazer vibrar a singularidade de alguns desses detritos, não apenas um deles, uma vez que sendo múltiplos não há como supor, ali, o núcleo singular do gozo. Lalíngua supõe uma abordagem do real em uma multiplicidade que requer montagem para se apresentar na língua de cada um, como parecem trazer os nomes de gozo dos testemunhos de passe.
Na busca de materializar lalíngua na experiência concreta, refiro-me a J. C. Milner que, seguindo Miller, propõe uma maneira bem simples e intuitiva.[2] Ele sugere que só a língua materna é habitada por lalíngua, porque ela é única a que chegamos a partir de nossos balbucios. Todas as outras serão apreendidas a partir dela. Por isso, para nós, o português tem algo a mais que nenhuma outra língua tem. Dito de outro modo, lalíngua é isso que se perde quando falamos outra língua.
Remeto vocês à novela A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov. O protagonista – assim como o autor - viveu na Rússia até seus quarenta anos e depois migrou para a Inglaterra. Nabokov resume esta virada que bem podia ser a fórmula do migrante de modo mais geral:
Pobre Knight, sua vida se dividiu em duas partes. Na primeira, era um sujeito sem graça acabando com o inglês e na segunda, era um sujeito acabado falando um inglês sem graça.[3]
Para concluir, lembro que nosso Encontro convida cada um de vocês a dizer como interpreta na sua prática, da maneira que for e no plano que for - o de lalíngua é apenas um deles.
Façamos a aposta que o imenso baú que abriremos, de distintas interpretações do que o Outro escreveu em nós, terá algumas chaves para abordar o derretimento generalizado dos laços que promove o neoliberalismo de hoje, assim como para o reacionarismo paranoico dos fascismos vigentes, a que esta nova forma do velho capitalismo nos tem levado.
Nossas interpretações poderiam permitir aos sujeitos que nos procuram extrair de si mesmos o ilegível que abra caminhos? Não sabemos ainda, mas saberemos melhor em nosso Encontro.
[1] Lacan, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, Opção Lacaniana, n° 23. São Paulo, Eolia, 1998.
[2] Miller, J. A. Le tout derner Lacan (curso da Orientação Lacaniana, 2006-2007, inédito, aula de 7/3/07, Laurent E. O avesso da biopolítica, Rio de Janeiro, Contra Capa, 2016, pp. 99 e seguintes, referidos por Milner, J. C. “Back and Forth from letter to homophony”, Society for Theoretical Psychoanalysis, Problemi International, vol. 1 no. 1, 2017 (disponivel em https://problemi.si/issues/p2017-1/04problemi_international_2017_1_milner.pdf),
[3] “Poor Knight! he really had two periods, the first – a dull man writing broken English, the second – a broken man writing dull English” (Nabokov, V. The real life of Sebastian Knith, London, Penguin Books, 1964, p. 6.
A interpretação psicanalítica ainda faz barulho?
A interpretação psicanalítica ainda faz barulho?
Louise Lhullier
Bom dia!
Começo por agradecer pela confiança expressa no convite formulado pela Diretoria da EBP, para coordenar o XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano com a querida Flávia Cêra.
Agradeço também pela insistência de Henri Kaufmanner e Marcus André Vieira para que participássemos da Comissão de Orientação Epistêmica, não nos deixando absorver pelas inúmeras decisões, operações, tarefas necessárias à materialização do XXVI Encontro.
Muitos colegas já se juntaram a nós, trabalhando animadamente para que possamos construir nosso Encontro. A eles e aos que estarão conosco a partir de hoje, compartilhando trabalho, alegrias, preocupações, há que agradecer pela parceria.
O Argumento do Encontro, já disponível no site, foi construído pelos quatro da Comissão de Orientação Epistêmica, não sem a participação importante de nosso êxtimo, Oscar Ventura, e dos oportunos “pitacos” de Luiz Felipe Monteiro, diretor da EBP e Presidente do XXVI Encontro Brasileiro. Nossas falas de hoje acrescentam algo da elaboração de cada um e cada uma sob a inspiração dessa produção coletiva. Esperamos e apostamos que ele venha a inspirar muitos outros e outras.
“Vivemos uma época saturada de sentido, em que a palavra se encontra simultaneamente inflacionada e regulada”.[1]
Constatamos hoje um grande alvoroço. Equívocos. Boatos. Mentiras. Uma falação generalizada.
A escala é inédita. Já não se trata apenas de conversas que se entrelaçam no encontro dos corpos — nas casas, nas ruas, nos espaços públicos. Hoje, em poucos minutos, uma postagem pode alcançar milhões de visualizações.
Nunca se falou tanto. Nunca se interpretou tanto. Falar implica produzir sentido. Produzir sentido implica interpretar. Há um excesso de interpretação.
Ao longo de sua história, a psicanálise teve de afirmar repetidas vezes sua diferença em relação a outros saberes. Somos novamente convocados a isso.
Uma pergunta se impõe: como sustentar o coração da prática analítica - a interpretação -em sua especificidade?
E outra, ainda: como fazer escutar o seu barulho em meio ao cotidiano ruidoso que hoje satura a experiência da palavra?
A palavra interpretação atravessa muitos campos. Cada um define o que é interpretar. Cada um define também o estatuto da verdade que sustenta sua prática.
Tomemos um deles: a hermenêutica.
A hermenêutica parte de um pressuposto: há uma verdade a ser revelada. Interpretar é decifrar. A pergunta que a orienta é conhecida: o que isso quer dizer?
Quando algo parece obscuro, fragmentado, equívoco, trata-se de esclarecer, reconstruir, integrar. O ruído aparece aí como obstáculo — algo a ultrapassar para que o sentido se revele. A interpretação hermenêutica faz, portanto, proliferar o sentido.
Em muitos momentos da obra freudiana, a interpretação aparece como decifração: sonhos, lapsos e sintomas são tomados como formações que podem ser lidas, traduzidas, reconstruídas. Há aí algo de uma hermenêutica freudiana.
Mas, com Lacan, a questão se desloca. Depois de Lacan, não há mais lugar para a hermenêutica na psicanálise[2]. A interpretação analítica segue outra via.
Jacques-Alain Miller tem desenvolvido essa via inaugurada por Lacan tanto em seus cursos regulares[3], como em outros momentos de sua transmissão. Ele afirmou, por exemplo, em sua apresentação no First Paris/Chicago Psychoanalytic Workshop (1986): “Lacan disse muito claramente que a psicanálise não é uma hermenêutica”[4]. A psicanálise não deve ser confundida com uma ciência do sentido.
Com Lacan e Miller aprendemos que a língua não é apenas instrumento de comunicação. Ela é também matéria de gozo. Isso muda tudo.
Aquilo que, para a hermenêutica, aparece como barulho, ruído — tropeços, lapsos, repetições, equívocos — constitui, para a psicanálise, ponto de incidência clínica. Não é algo a eliminar. É algo a escutar, a ler, a escrever.
Por isso, a pergunta da psicanálise não é “o que isso quer dizer?” A pergunta da psicanálise recai sobre o gozo implicado no dizer.
Enquanto a interpretação hermenêutica restaura a continuidade do sentido, a interpretação analítica visa introduzir um corte justamente ali onde o sentido se oferece em excesso.
A interpretação analítica vai operar no ponto em que a língua faz barulho. Ali onde ela toca o corpo.
Foi a partir dessa perspectiva que, na mesa de abertura das atividades da Seção Sul, ontem à noite, abordamos o objeto voz. Tomamos como uma das referências o livro de Heloísa Caldas, Da voz à escrita[5].
Nesse livro, Heloísa formula sinteticamente algo muito orientador: “o fazer analítico sobre a voz deve romper o mito da compreensão e evitar o gozo da falação”[6].
Romper o mito da compreensão. Evitar o gozo da falação. Aí se condensa aquilo que podemos talvez considerar uma regra geral da interpretação ao longo do ensino de Lacan: A interpretação analítica não acrescenta sentido. Ela corta.
Se acrescentamos sentido, permanecemos na hermenêutica. Quando operamos um corte, entramos no campo próprio da interpretação analítica.
É nesse ponto que a fórmula “da voz à escrita” ganha todo o seu alcance.
Não se trata da passagem do som ao significado. Não se trata de compreender melhor, de explorar o dito ou de fazer uso da letra alfabética para fazer falar o inconsciente.
Trata-se de outra coisa. Trata-se da tentativa de tocar algo do real — algo da voz que independe do sentido e até mesmo do som. Algo que ressoa no corpo, produzindo efeitos. Algo que pode ser cifrado pela letra em sua função algébrica, quando se trata de escrever relações estruturais.
É aí que a interpretação analítica encontra sua especificidade. A verdade na qual ela se funda é a do gozo: há gozo! Uma verdade que só se pode semi-dizer, na verdade mentirosa dos semblantes que lhe servem de anteparo.
É justamente aí que se abre o trabalho ao qual este Encontro nos convoca. Diante da falação generalizada que marca nossa época, a psicanálise não se propõe a gritar mais alto. Ela se propõe a ler, nos barulhos da língua, aquilo que insiste para além do sentido.
O XXVI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano quer ser um lugar para esse trabalho. Um lugar onde a clínica de nosso tempo possa ser interrogada.
Um lugar onde possamos colocar à prova — caso por caso — o que a interpretação analítica ainda pode.
Por isso, este lançamento é um convite a partilhar aquilo que cada um e cada uma encontra em sua prática: os impasses, os paradoxos, os achados, os restos que resistem ao sentido; para que possamos continuar a fazer existir um lugar onde os barulhos da língua encontrem novas formas de se escrever: a Escola de Lacan.
Florianópolis, 7 de março de 2026.







